A formação das fronteiras no sul meridional não foi um processo natural nem pacífico, mas resultado de invasões, disputas imperiais e resistências populares. A ocupação luso-brasileira da Banda Oriental, longe de representar integração territorial, provocou a fragmentação do espaço cisplatino, marcado pela identidades criolla, missioneira e mestiça (gaúcha). Compreender esse processo é essencial para entender a separação entre os atuais Uruguai e Rio Grande do Sul e o impacto profundo que essa ruptura teve sobre os povos da região.
Pouca gente lembra, mas a Província Oriental nunca foi um “território brasileiro” no sentido identitário. Os orientales da Banda Oriental já se viam como um povo criollo consolidado, com identidade própria, profundamente ligada ao mundo hispano-missioneiro e platino. Por isso, a invasão portuguesa foi percebida como ocupação estrangeira, e não como integração legítima a qualquer projeto nacional luso-brasileiro.
A região que hoje compreende a Banda Oriental, o território oriental-riograndino, o oeste paranaense e catarinense e áreas adjacentes do atual Uruguai formava, desde o período colonial, um espaço historicamente integrado. Esse equilíbrio foi construído a partir da organização social, econômica e política das Reduções Jesuíticas, que estruturaram uma sociedade missioneira baseada no trabalho comunitário, na autonomia indígena cristianizada e em um sistema produtivo que contrariava tanto o latifúndio colonial quanto a lógica predatória da escravidão em larga escala.
Esse modelo missioneiro passou a ser visto como uma ameaça tanto ao expansionismo português quanto ao próprio equilíbrio de poder no Vice-Reino do Rio da Prata.
A criação da Colônia do Sacramento, imposta pelos portugueses em território platino disputado, foi uma afronta direta ao controle espanhol através da colônia de Montevidéu na região platina, abrindo caminho para uma longa sequência de conflitos diplomáticos, e invasões bandeirantes que acirrou maos a disputa territorial pela região, rompendo violentamente esse equilíbrio.
A destruição das reduções jesuíticas, a dispersão forçada de indígenas e a ocupação armada do território desestruturaram uma ordem social que havia se desenvolvido por mais de um século. A invasão não foi apenas territorial, mas também social e cultural, impondo um novo modelo econômico baseado na expoliação e apropriação dos bens missioneiros como o gado vacun disperso, na escravização indígena e na repovoação do território através das sesmarias açorianas.
Foi nesse contexto que José Artigas mobilizou criollos, indígenas missioneiros fugidos, gaúchos e negros, unindo os setores marginalizados e populares contra o avanço luso-brasileiro. A luta artiguista não era apenas territorial, mas profundamente política e social: federalista, republicana e contrária ao centralismo colonial herdado de Madri e tomado por Lisboa. Artigas propunha uma nova ordem para o mundo platino, baseada na autonomia das províncias, na justiça social e na soberania dos povos locais.
Mais tarde, os 33 Orientales dariam continuidade a essa resistência, retomando o espírito da luta artiguista e concretizando o ideal de autonomia oriental frente às imposições externas. Essa resistência reafirmava que a Banda Oriental não era um espaço vazio ou indefinido, mas uma terra habitada por um povo consciente de si, de sua história e de seu pertencimento ao mundo platino.
O que raramente se menciona é que a incorporação da Província Oriental ao Reino do Brasil não se deu apenas pela força das armas. O próprio Vice-Reino Espanhol do Rio da Prata, incapaz de derrotar Artigas e temendo a expansão da hegemonia federalista e republicana, tolerou e articulou a ocupação portuguesa como forma de neutralizar o projeto artiguista. Foi uma manobra política deliberada para esmagar a oposição republicana que ameaçava toda a ordem virreinal da região.
A Guerra Cisplatina aprofundou esse cenário de conflito. Sua pacificação não resultou de uma solução justa ou consensual, mas de uma intermediação direta da Inglaterra, interessada em garantir a estabilidade geopolítica e comercial na região platina. Como resultado, foi criado o Estado Oriental do Uruguai como um Estado tampão, destinado a conter as disputas entre o Império do Brasil e as Províncias Unidas do Rio da Prata.
Essa mediação internacional dividiu artificialmente a antiga Província Oriental. Sua porção meridional deu origem ao novo Estado uruguaio, enquanto a parte setentrional permaneceu sob domínio brasileiro, correspondendo a todo o atual Rio Grande do Sul, denominado à época como Província de São Pedro do Rio Grande. Assim se consumou a fragmentação territorial da Banda Oriental, não com base em critérios culturais ou identitários, mas segundo interesses estratégicos de potências e elites externas que visavam a riqueza do território do Rio da Prata.
A história mostra que fronteiras não são eternas nem naturais. Elas são construídas, negociadas e impostas e também podem ser questionadas. Elas mudam quando povos conscientes de sua identidade percebem que seus interesses, sua cultura e seu futuro não estão sendo respeitados por estruturas criadas de cima para baixo.
A Banda Oriental e o território oriental-riograndino ensinam que identidade precede o Estado e que a autodeterminação nasce da consciência histórica, não de tratados assinados por elites distantes.