sábado, 21 de março de 2026

Um pequeno lembrete de que o Khomeinismo é uma Terceira Via Religiosa


No fato de que, após a revolução, tribunais revolucionários expropriaram "agronegócios, grandes fábricas e casas de luxo pertencentes à antiga elite" [...]

O movimento revolucionário de Khomeini foi influenciado pelo pensador e esquerdista islâmico Ali Shariati e pelas correntes de esquerda das décadas de 1960 e 1970. Khomeini proclamou o Islã ao lado do mustazafin (o bem comum) e contra exploradores e imperialistas. Em parte por essa razão, uma grande parte da economia iraniana foi nacionalizada durante a revolução. Pelo menos até 2003, o setor público e a força de trabalho governamental do Irã permaneciam muito grandes. Apesar das reclamações dos defensores do livre mercado, "cerca de 60% da economia é controlada diretamente e planejada centralmente pelo Estado, e outros 10 a 20% estão nas mãos de cinco fundações semigovernamentais, que controlam grande parte da economia não petrolífera e não respondem a ninguém, exceto ao líder supremo."

Khomeinismo e a Sacralização da Revolução: Convergências com o Modelo Bolchevique

A Revolução Islâmica de 1979 marcou não apenas a queda de um regime, mas a afirmação de um novo modelo político e civilizacional no Irã. Frequentemente reduzido a uma expressão religiosa, o khomeinismo revela, na verdade, conexões profundas com movimentos revolucionários como a Revolução Bolchevique. Este texto explora essas convergências e o papel da sacralização da política como instrumento de soberania.

O Xá foi apresentado ao mundo como um modernizador, um reformador e um aliado do Ocidente. No plano externo, sua imagem era cuidadosamente construída como a de um governante progressista e racional. Dentro do Irã, porém, sua função assumia contornos muito diferentes: a de um poder artificial, sustentado por interesses estrangeiros e desconectado das bases sociais do próprio país. Seu regime não emergia organicamente da sociedade iraniana, mas alimentava-se dela.

O governo do Xá se sustentava por meio da repressão, da vigilância e do medo. Sua polícia secreta operava com apoio e treinamento externos, enquanto seu modelo econômico concentrava riqueza em uma elite restrita, deixando grande parte da população marginalizada e humilhada. Paralelamente, seu projeto cultural buscava substituir a identidade iraniana por uma imitação superficial de valores ocidentais. Nesse contexto, o Xá deixava de ser um governante nacional para se tornar, na prática, um administrador local de interesses externos.

Esse distanciamento estrutural entre Estado e sociedade tornou sua queda inevitável. A Revolução Islâmica não foi resultado de um único evento, mas da ausência de um vínculo legítimo entre poder e povo. Quando a pressão social se intensificou, não havia base real que sustentasse o regime. Sua fuga simbolizou o colapso de uma ordem que já não possuía legitimidade interna.

É nesse vácuo que emerge o fenômeno conhecido como khomeinismo. Frequentemente reduzido a uma expressão puramente religiosa, ele revela, sob análise mais profunda, uma estrutura política muito mais complexa. O que se apresenta como uma revolução espiritual também incorpora elementos típicos das revoluções ideológicas do século XX, especialmente no que diz respeito à mobilização de massas, à centralização do poder e à reorganização econômica sob controle estatal.

Após a revolução, tribunais revolucionários promoveram a expropriação de grandes propriedades, indústrias e ativos pertencentes à antiga elite. Longe de serem medidas pontuais, essas ações refletem um padrão clássico de redistribuição forçada, semelhante ao observado em processos revolucionários de inspiração socialista. A economia iraniana passou por um processo significativo de estatização, com o Estado assumindo papel central na organização e controle dos recursos produtivos.

A influência intelectual sobre esse processo também não pode ser ignorada. O pensamento de Ali Shariati foi fundamental na construção de uma linguagem que fundia elementos do islã com conceitos típicos da esquerda revolucionária, como luta de classes, anti-imperialismo e mobilização dos oprimidos contra elites dominantes. A retórica em torno dos mustazafin, os oprimidos, reforça essa divisão moral absoluta, característica comum a movimentos revolucionários que se estruturam em torno da oposição entre “povo puro” e “elite corrupta”.

Nesse aspecto, a convergência com o modelo da Revolução Bolchevique torna-se evidente. Assim como no caso russo, a revolução iraniana não se limitou à substituição de um regime político, mas buscou redefinir completamente a ordem social, econômica e moral. Em ambos os casos, a revolução foi elevada a um patamar quase sagrado, não apenas como um evento histórico, mas como uma missão contínua de purificação e reconstrução da sociedade.

No caso iraniano, essa sacralização assume uma forma particular: a revolução deixa de ser apenas política e passa a ser interpretada como um dever religioso. A luta contra a monarquia não é apresentada apenas como uma disputa de poder, mas como uma cruzada moral contra a decadência, a corrupção e a influência estrangeira. Esse enquadramento confere legitimidade a medidas radicais, incluindo a centralização do poder e o controle extensivo da economia.

O resultado é a formação de um modelo no qual Estado, ideologia e religião se fundem em uma estrutura altamente centralizada. A economia permanece amplamente sob controle estatal ou de fundações vinculadas ao poder político, enquanto a sociedade civil opera com autonomia limitada. Nesse cenário, a promessa de justiça social serve como justificativa para a expansão contínua do poder estatal.

Isso não revela qualquer contradição, mas sim uma coerência estrutural entre soberania externa e ordem interna. A República Islâmica se afirma como uma expressão autêntica da vontade civilizacional iraniana, na qual a centralização do poder não representa opressão, mas organização de um princípio superior capaz de proteger a sociedade contra fragmentação e dominação estrangeira.
Longe de reduzir a autonomia social, esse modelo a preserva ao impedir que forças externas, econômicas ou culturais, desintegrem o corpo político. A autonomia, nesse contexto, não é entendida como atomização individual típica do liberalismo, mas como a capacidade de um povo de manter sua identidade, seus valores e seus interesses históricos diante de pressões externas.

Sob essa perspectiva, o regime iraniano se aproxima mais de uma concepção clássica de ordem política do que dos modelos modernos liberais. Há aqui uma afinidade com a ideia de uma república orientada por princípios superiores, como descrito por Platão em A República, na qual a política não se reduz à disputa de interesses individuais, mas se estrutura a partir de uma hierarquia orientada pelo bem comum, pela virtude e por uma concepção elevada de justiça.

Nesse sentido, a República Islâmica não deve ser interpretada como um desvio, mas como uma forma própria de organização política, na qual soberania, ordem e identidade se articulam como elementos inseparáveis de um mesmo projeto civilizacional.

O antiliberalismo, entendido também como antiocidentalismo, dado que o Ocidente moderno é o berço do liberalismo, não deve ser compreendido como uma simples negação do mercado, mas como a recusa mais profunda da própria ontologia liberal, isto é, da fragmentação do ser social em indivíduos atomizados e da dissolução de qualquer princípio superior de ordem. O que está em jogo não é apenas a economia, mas a rejeição de uma visão de mundo que desintegra a comunidade orgânica e rompe os vínculos entre tradição, autoridade e destino coletivo.

A experiência iraniana pós-1979 revela algo mais essencial: as civilizações, quando confrontadas com a ameaça da homogeneização liberal, recorrem às suas próprias linguagens simbólicas, sejam elas religiosas ou ideológicas, para reafirmar sua soberania existencial. Nesse sentido, a retórica espiritual não é um disfarce, mas uma expressão autêntica de uma metafísica política, na qual o poder deixa de ser um mero instrumento administrativo e passa a encarnar uma missão histórica e transcendente.

A centralização que emerge desse processo não deve ser lida apenas em termos administrativos, mas como a reconstituição de um eixo vertical de autoridade, capaz de unificar o corpo político em torno de um princípio superior. A revolução, então, deixa de ser um evento pontual e se transforma em um estado permanente de vigilância civilizacional, uma afirmação contínua contra as forças dissolventes do mundo moderno.

Assim, o khomeinismo não pode ser reduzido às categorias convencionais do século XX. Ele se apresenta como uma forma singular de resistência civilizacional, na qual política e sagrado se entrelaçam de maneira indissociável. Não se trata apenas de concentrar poder, mas de reintegrá-lo a uma ordem simbólica mais elevada, onde a autoridade encontra sua legitimidade não no consenso passageiro, mas na fidelidade a um destino histórico e espiritual.

segunda-feira, 9 de março de 2026

CONEXÃO DE NIETZSCHE COM O BOLCHEVISMO


"No cadinho da guerra e da revolução, forjou-se uma nova liga ideológica na qual se uniram os elementos mais duros, violentos e autoritários de Marx, Engels e Nietzsche, e da qual foram expulsos os elementos humanistas do marxismo e os elementos libertários de Nietzsche.

Contribuíram para essa liga a apoteose da vontade da intelectualidade revolucionária, os efeitos brutais da guerra (Primeira Guerra Mundial e Guerra Civil Americana) e as noções darwinianas da sobrevivência do mais apto. Para ambos os lados, a Guerra Civil foi uma luta pela sobrevivência.

Nietzsche reforçou sua interpretação "dura" do marxismo e fortaleceu sua vontade de poder. Sem poder, eles não poderiam conduzir as massas à terra prometida do socialismo. Nietzsche também reforçou o ímpeto mítico do marxismo, sua visão da história como um drama de salvação, e deu novo impulso ao sonho radical perene de refazer o homem.

Importante para os bolcheviques Neste capítulo, serão discutidas as ideias de Lenin, Nikolai Bukharin e Leon Trotsky, presentes nos escritos de Marx, Engels e Nietzsche: desprezo pela moral burguesa, ênfase na luta, uma retórica de sangue e violência, prometeísmo, uma "orientação para o futuro" e seu corolário, a crueldade "instrumental", esta última justificada em termos do historicismo hegeliano-marxista.

Bernice Glatzer Rosenthal (Novo Mito, Novo Mundo: De Nietzsche ao Stalinismo)

Carl Schmitt: Profeta do Século XXI?

Nesta entrevista, Alain de Benoist reflete sobre o duradouro legado intelectual do jurista e teórico político alemão Carl Schmitt por ocasião de um novo número de 300 páginas da revista Nouvelle École dedicado à sua obra.


Alain de Benoist

Nesta entrevista, Alain de Benoist reflete sobre o duradouro legado intelectual do jurista e teórico político alemão Carl Schmitt por ocasião de um novo número de 300 páginas da revista Nouvelle École dedicado à sua obra.

A edição nº 75 da revista Nouvelle École, editada por Alain de Benoist, é dedicada a Carl Schmitt, “o último dos grandes clássicos do pensamento jurídico e político”, cujas ideias (como a distinção amigo/inimigo, o Nomos da Terra, o estado de exceção, a teoria do partisano, etc.) lançam luz sobre crises contemporâneas: guerras assimétricas, multipolaridade, o fim do liberalismo universalista. Nesta entrevista, Alain de Benoist discute os diferentes aspectos do dossiê e a relevância do pensamento schmittiano hoje.

Éléments: Em sua introdução a esta edição da Nouvelle École, você escreve: “Carl Schmitt nunca foi nazista.” O que lhe permite ser tão categórico diante dessa acusação frequentemente repetida contra o pensador alemão?

Alain de Benoist: Simplesmente o fato de que suas ideias divergem da ideologia nazista em pontos essenciais. Carl Schmitt rejeitava o racismo biológico, o darwinismo social, a noção de “guerra total” e o conceito de “inimigo absoluto”. Seu antissemitismo deriva do antijudaísmo cristão. Em 1932, um ano antes de Hitler chegar ao poder, ele defendia a proibição do NSDAP. As razões para sua filiação ao partido nazista em maio de 1933 continuam debatidas, mas o oportunismo parece ter desempenhado um papel significativo. A ambiguidade terminou em 1936, quando Schmitt foi ferozmente denunciado pela revista da SS Das Schwarze Korps. Ele foi acusado, entre outras coisas, de ser um representante do “catolicismo político”, de ter apoiado o governo de Schleicher, de ser na realidade um “amigo dos judeus” e de defender uma concepção de “grande espaço” (Großraum) que diferia completamente da ideia nacional-socialista de “espaço vital” (Lebensraum). Ele perdeu imediatamente todos os seus cargos dentro do partido e manteve apenas seu posto de professor na Universidade de Berlim. Nessa época, estava muito próximo do conservador Johannes Popitz, que seria enforcado em fevereiro de 1945 após a tentativa de assassinato contra Hitler em julho de 1944. Preso pelos americanos, Carl Schmitt foi libertado em 1947 sem que nenhuma acusação tivesse sido formalmente apresentada contra ele. Os adversários de Schmitt sempre se concentraram nos três anos de sua colaboração com o regime de Hitler, o que os dispensa de tentar refutá-lo. Aqueles que realmente o leem sabem que o coração de seu pensamento está sobretudo no que publicou durante a República de Weimar e após a guerra, a partir dos anos 1950.

Éléments: O que, na sua opinião, torna Schmitt particularmente relevante em 2026, especialmente para pensar os conflitos e tensões atuais?

Alain de Benoist: Até hoje mais de 800 livros foram dedicados a Carl Schmitt, o que já demonstra sua importância — mas também sua contínua atualidade. Seu trabalho como jurista e teórico constitucional, bem como sua crítica metódica ao liberalismo e ao positivismo jurídico, não envelheceram em nada. Sua definição do “Político” (das Politische) — em oposição à política — através da dialética amigo-inimigo continua a gerar debates apaixonados entre cientistas políticos no mundo inteiro.

As guerras de descolonização foram antecipadas em sua Teoria do Partisano. Seus dois livros sobre Teologia Política (1922 e 1969) lançam luz decisiva sobre o fenômeno da secularização. O surgimento contínuo de um mundo multipolar conecta-se naturalmente ao que ele escreveu sobre os “grandes espaços” (Großräume) e sobre a crise do Estado-nação em um mundo que já não é um universum, mas um pluriversum (um “multiverso”). Sua teoria geopolítica do antagonismo histórico entre os poderes da Terra e os poderes do Mar (ver seu livro Terra e Mar) é mais válida do que nunca. Sua crítica às “guerras discriminatórias” encontra eco na proliferação das guerras “humanitárias”, que, rompendo com a concepção westfaliana de inimizade, marcam um retorno à ideia essencialmente teológica e moral de “guerra justa”, na qual o inimigo não é visto como um adversário momentâneo, mas como um criminoso e culpado que pode legitimamente ser colocado fora da humanidade.

O mesmo ocorre com o retorno do estado de exceção, hoje florescendo praticamente em toda parte, o que nos lembra que soberano é aquele que decide no caso excepcional — isto é, no momento em que o colapso das normas torna impossível uma governança puramente procedimental. Poderíamos multiplicar os exemplos. Foi exatamente isso que fiz em 2007 em meu livro Carl Schmitt Today (Arktos, 2013).

Éléments: É necessário já estar familiarizado com a obra de Carl Schmitt para abordar esta edição da Nouvelle École, ou ela pode servir como porta de entrada?

Alain de Benoist: Sempre é preferível, ao ler um livro sobre um autor, já ter lido uma ou duas de suas obras. Dito isso, a mais recente edição da Nouvelle École pode muito bem servir como uma oportunidade para descobrir o pensamento de Carl Schmitt. O índice deixa isso muito claro: esta edição de 300 páginas contém não apenas textos inéditos de Carl Schmitt, bem como trechos de sua correspondência com o cientista político italiano Norberto Bobbio — desconhecida na França —, mas também artigos substanciais: “Constituição e Direito Constitucional em Carl Schmitt”, de Agostino Carrino; “Carl Schmitt e Joseph de Maistre”, de Graeme Garrard; “Carl Schmitt e o Elemento Telúrico”, de Jerónimo Molina; “Um Monumento Schmittiano: O Nomos da Terra”, de Martin Motte; “Carl Schmitt e a Eurásia”, de Massimo Maraviglia; “Carl Schmitt e o ‘Choque de Civilizações’ de Samuel Huntington”, de Joseph W. Bendersky; entre outros.

A isso se somam diversos documentos, incluindo uma carta de Carl Schmitt a Jean-Pierre Faye, um dossiê sobre a notável influência de Schmitt na China contemporânea por Flora Sapio e Daniele Perra, e muitos outros textos que o leitor descobrirá por si mesmo — entre eles uma reflexão crítica que escrevi sobre o par amigo-inimigo como critério do Político, bem como um artigo de Julius Evola sobre Schmitt e Thomas Hobbes.

No final da edição, os leitores encontrarão a primeira bibliografia completa de toda a obra de Carl Schmitt atualmente disponível em francês e também, na seção “Varia”, uma curiosidade: um artigo do jovem Ernst Jünger dedicado às memórias de Trotsky!

Éléments: Schmitt hoje é invocado por correntes muito diversas, tanto da “direita” quanto da “esquerda”: teóricos russos da multipolaridade, pensadores soberanistas pós-liberais nos Estados Unidos, críticos do direito humanitário internacional. Você acha que estamos testemunhando uma total “normalização” do pensamento schmittiano?

Alain de Benoist: Não se trata propriamente de um fenômeno de normalização, mas sim da prova de que as mais diversas tradições intelectuais podem encontrar em Carl Schmitt algo para alimentar seu pensamento. Em outras palavras, é a prova de que Schmitt já foi firmemente estabelecido como um clássico: qualquer estudioso sério é obrigado a referenciar Carl Schmitt assim como deve referenciar Aristóteles, Maquiavel, Hobbes, Locke, Rousseau, Hegel, Max Weber e assim por diante.

Éléments: Desde a Operação “Absolute Resolve” na Venezuela e as declarações de Trump sobre a “esfera de influência” americana no hemisfério ocidental (Groenlândia, Canal do Panamá, etc.), alguns comentaristas invocaram explicitamente os Großräume de Schmitt como estrutura para interpretar a política externa do Trump 2.0. Você acha que essa administração está implementando, consciente ou inconscientemente, uma forma contemporânea do “Großraum schmittiano” — uma ordem multipolar de zonas hegemônicas em vez de uma ordem universalista?

Alain de Benoist: Não, não acredito que Schmitt — assim como Leo Strauss — seja a “inspiração secreta” de Donald Trump, que muito provavelmente nunca o leu. O que pode ser relacionado às intuições proféticas de Carl Schmitt é o surgimento contínuo de uma multipolaridade na qual os “grandes espaços” correspondem mais ou menos a esses novos atores das relações internacionais chamados de “Estados civilizacionais”.

Trump é sensível a esse movimento, mas o aceita apenas parcialmente, pois sabe muito bem que a multipolaridade necessariamente limitará a hegemonia americana, o que vai diretamente contra o slogan MAGA (“Make America Great Again”). Pode-se ver claramente, além disso, que, longe de se restringir apenas ao “Hemisfério Ocidental”, ele não hesita em intervir em qualquer parte do mundo (Irã, Iêmen, Nigéria, Oriente Médio, etc.) para defender o que considera corresponder aos interesses de seu país — o que significa que não hesita em afirmar sua soberania às custas da soberania dos outros, particularmente dos europeus.

Por outro lado, sua paixão por guerras comerciais, bem como sua aliança com os “tecnofuturistas” do Vale do Silício, deixa claro que, para ele, o Político é dissolúvel no econômico e no comercial — o que não é muito schmittiano…

Entrevista conduzida por Xavier Eman

Publicado originalmente em Éléments em 23 de fevereiro de 2026.

Tradução Guilherme Fernandes

Fonte: https://www.geopolitika.ru/en/article/carl-schmitt-prophet-21st-century

domingo, 8 de março de 2026

O Destino Final do Liberalismo: Do Rothbardismo aos Tecnatos Continentais

O libertarianismo de Murray Rothbard promete uma sociedade baseada na liberdade absoluta e na privatização total.


O libertarianismo de Murray Rothbard promete uma sociedade baseada na liberdade absoluta e na privatização total. No entanto, quando levada às últimas consequências, essa visão revela um destino muito diferente do prometido. A dissolução da nação, da moral comum e da comunidade orgânica abre caminho para um mundo fragmentado que, paradoxalmente, tende a se reorganizar sob o domínio de grandes poderes corporativos e tecnocráticos. Este artigo examina como a utopia rothbardiana pode conduzir não à libertação da sociedade, mas a uma nova ordem de tecnatos continentais e à forma final do liberalismo.

Até mesmo o Rothbardismo valoriza a Liberdade Individual em detrimento da Proibição Universal da Degeneração/Degenerados. Como Rothbard observou, a melhor solução possível para o problema da imigração é a privatização total:

Sob a privatização total, muitos conflitos locais e problemas de “externalidade”, não apenas o problema da imigração, seriam resolvidos facilmente. Com cada localidade e bairro pertencente a empresas privadas, corporações ou comunidades contratuais, a verdadeira diversidade reinaria, de acordo com as preferências de cada comunidade. Alguns bairros seriam etnicamente ou economicamente diversos, enquanto outros seriam etnicamente ou economicamente homogêneos. Algumas localidades permitiriam pornografia, prostituição, drogas ou abortos, outras proibiriam qualquer um ou todos eles. As proibições não seriam impostas pelo Estado, mas seriam simplesmente requisitos para residência ou uso da área de terra de alguma pessoa ou comunidade. Isso é tanto antinacionalista quanto anticristão.

A teoria libertária formulada por Murray Rothbard pode ser entendida como uma das expressões mais extremas do individualismo liberal moderno. Em obras como The Ethics of Liberty e For a New Liberty: The Libertarian Manifesto, Rothbard leva até o limite a lógica liberal que coloca o indivíduo e a propriedade privada acima de qualquer forma de comunidade política ou tradição histórica.

No argumento rothbardiano, muitos dos conflitos sociais contemporâneos poderiam desaparecer caso a sociedade fosse completamente privatizada. Territórios, cidades e bairros deixariam de pertencer a Estados e passariam a ser propriedades privadas administradas por indivíduos, empresas ou comunidades contratuais. Cada localidade definiria suas próprias regras de convivência. Algumas permitiriam práticas como pornografia, prostituição, drogas ou aborto, enquanto outras poderiam proibir tais práticas. A diversidade de normas não seria decidida por um poder político comum, mas pelo simples direito de propriedade e pela livre associação.

A proposta parece simples e até elegante dentro da lógica libertária. Contudo, quando analisada de uma perspectiva crítica ao liberalismo, próxima das reflexões civilizacionais de Aleksandr Dugin, o que aparece não é uma solução para os problemas da modernidade, mas o estágio final do próprio processo de dissolução liberal.

Nesse modelo, a sociedade deixa de existir como realidade orgânica. O povo, a cultura, a tradição e a memória histórica deixam de ser elementos estruturantes da vida coletiva. Tudo se reduz a contratos privados entre indivíduos e proprietários. O território deixa de ser o espaço histórico de uma comunidade e passa a ser apenas um bem econômico que pode ser comprado, vendido ou administrado como qualquer outro ativo.

Com isso desaparece também a própria ideia de nação. Aquilo que durante séculos foi compreendido como pátria, como espaço de pertencimento de um povo, transforma-se em uma coleção de propriedades privadas sem vínculo comum. A moral pública deixa de existir como referência coletiva. Cada enclave territorial passa a definir seus próprios limites morais de acordo com os interesses de seus proprietários ou administradores.

O resultado imediato dessa lógica seria uma fragmentação profunda da sociedade. O mundo se tornaria um mosaico de pequenos territórios privados, cada um regido por regras diferentes e por interesses particulares. A comunidade política, entendida como unidade histórica e cultural, desapareceria completamente.

Entretanto, essa fragmentação não seria o ponto final do processo. Com o tempo, a própria dinâmica econômica tenderia a concentrar poder nas mãos de grandes conglomerados corporativos e financeiros. Empresas tecnológicas, fundos de investimento e grandes corporações acabariam acumulando extensas áreas territoriais privatizadas e estruturas de governança próprias.

A partir desse processo surgiriam verdadeiros tecnatos continentais. Não seriam Estados no sentido clássico, mas grandes blocos administrados por elites tecnocráticas e corporativas. A autoridade não viria de um povo ou de uma tradição política, mas da propriedade e do capital. A política seria substituída pela administração técnica e pela gestão empresarial do território.

Nesse sentido, o resultado final do rothbardismo poderia ser descrito como uma forma peculiar de multipolaridade liberal. O mundo não seria organizado por civilizações ou nações soberanas, mas por grandes polos corporativos que administrariam vastas regiões do planeta. Cada um desses polos funcionaria como um sistema privado de governança, baseado em contratos, propriedade e gestão tecnocrática.

Assim, aquilo que começa como um projeto radical de liberdade individual termina abrindo caminho para uma nova forma de poder concentrado. A promessa libertária de emancipação do indivíduo dissolve as estruturas orgânicas da sociedade e prepara o terreno para uma ordem global administrada por grandes centros corporativos.

Sob essa perspectiva, o rothbardismo não representa uma ruptura real com o liberalismo dominante. Ele apenas leva o liberalismo às suas últimas consequências. Quando todas as instituições históricas são dissolvidas em nome da liberdade individual absoluta, o que resta não é uma comunidade mais livre, mas um mundo fragmentado e posteriormente reorganizado em grandes estruturas tecnocráticas onde a própria ideia de povo, tradição e destino coletivo perde qualquer significado.


Bibliografia sugerida

Rothbard, Murray.

The Ethics of Liberty. New York: New York University Press, 1982.

Rothbard, Murray.

For a New Liberty: The Libertarian Manifesto. New York: Macmillan, 1973.

Rothbard, Murray.

The Anatomy of the State. Auburn: Ludwig von Mises Institute, 2009.

Rothbard, Murray.

Nations by Consent. Auburn: Ludwig von Mises Institute.

Hoppe, Hans-Hermann.

Democracy: The God That Failed. New Brunswick: Transaction Publishers, 2001.

Hoppe, Hans-Hermann.

A Theory of Socialism and Capitalism. Boston: Kluwer Academic Publishers, 1989.

Dugin, Aleksandr.

The Fourth Political Theory. London: Arktos Media, 2012.

Dugin, Aleksandr.

Foundations of Geopolitics. Moscow: Arktogeia.

Lasch, Christopher.

The Revolt of the Elites and the Betrayal of Democracy. New York: W.W. Norton, 1995.

Fonte adicional útil

Gray, John.

False Dawn: The Delusions of Global Capitalism. London: Granta Books, 1998.

quinta-feira, 5 de março de 2026

A NATUREZA VÖLKISCH DO NACIONAL-BOLCHEVISMO E SUA OPOSIÇÃO AO CRISTIANISMO (PARTE 2)


Por https://t.me/redvolkism

Niekisch, assim como Paetel, tinha visões semelhantes em relação ao cristianismo, embora mais a partir de uma perspectiva nietzschiana.

Suas ideias se concentram principalmente no impacto civilizacional e cultural sobre o cristianismo. A obra "A Terceira Figura Imperial" será usada como fonte para a maioria das citações a seguir.

ERNST NIEKISCH SOBRE O CRISTIANISMO

"O veneno niilista com cuja ajuda o judeu se vingou de Roma foi o cristianismo."

"Por meio da cristianização, o povo tornou-se suscetível ao judaísmo; gradualmente, acostumou-se a ver as coisas com 'olhos judaicos'."

"O cristianismo é a arma com a qual o judeu fere apenas os outros, seus 'inimigos'; não o atinge a si mesmo."

Essas declarações derivavam de sua posição völkisch sobre religião, que era de certa forma comum em círculos políticos e continua a ganhar popularidade na era moderna, onde as religiões abraâmicas não conseguem fornecer fundamento filosófico e apoio político para os movimentos etnocêntricos emergentes.

"A doutrina de que se 'deve obedecer a Deus mais do que aos homens' foi a bomba que destruiu os alicerces (do Estado)."

"O cristianismo era o antigo 'bolchevismo'; tinha uma relação com o Império Romano semelhante à que o comunismo russo tem com a sociedade burguesa europeia."

"Levava-se o cristianismo aos pagãos para tomar suas terras em troca. O roubo de terras era o outro lado da moeda da missão cristã."

O livro aborda muito mais do que isso, mas este texto serve principalmente para destacar sua posição sobre o assunto.

Tanto o Manifesto Nacional Bolchevique quanto A Terceira Figura Imperial podem ser facilmente encontrados em formato PDF online.

"O Manifesto Nacional Bolchevique e A Terceira Figura Imperial podem ser encontrados facilmente online em formato PDF." Dito isso, também existem os casos de Ustryalov, Laufenberg e Limonov, que, embora não sejam tão relevantes quanto Paetel e Niekisch, ainda são figuras válidas do movimento nacional-bolchevique e suas posições podem ser levadas a sério. Não há muita informação disponível sobre suas posições em relação à religião, além de serem geralmente seculares, ateus ou culturalmente tolerantes à religião.

Heinrich Laufenberg: Ateu, não aborda temas espirituais em seus escritos, visão materialista da religião como "instrumentos de opressão", nascido católico, mas abandonou a igreja, suas afiliações políticas e opiniões conhecidas sugerem que ele era hostil à religião como um todo, embora não explicitamente de um ponto de vista "volkisch" (nacionalista).

Nikolai Ustryalov: Secular, nascido em uma família de Velhos Crentes, incorpora o "pensamento religioso russo" à sua ideologia, usando a identidade ortodoxa como um dos pilares culturais do nacionalismo russo, em geral pragmático e não abertamente hostil ao cristianismo.

Eduard Limonov: Secular, não fala sobre religião para não alienar outros dissidentes, incorpora aspectos filosóficos do misticismo cristão em sua visão de mundo, mas ao mesmo tempo descreve a Rússia como uma sociedade "pós-cristã" que conserva uma "alma ortodoxa". Seu pragmatismo reflete a demografia do movimento, desde os Rodnovers até os cristãos ortodoxos.

Quanto a Dugin, ele não deve ser considerado um nacional-bolchevique nem levado a sério em qualquer assunto além da geopolítica, pois é o "Henry Kissinger russo". Afinal, sua posição sobre religião se resume a tudo que beneficia o establishment. Isso será abordado com mais detalhes em outra publicação.

segunda-feira, 2 de março de 2026

NATUREZA VÖLKISCH DO NACIONAL-BOLCHEVISMO E SUA OPOSIÇÃO AO CRISTIANISMO (PARTE 1)


Por https://t.me/redvolkism

Ao observar as principais figuras do Nacional-Bolchevismo, quase todas elas, historicamente, foram hostis ao Cristianismo e chegaram inclusive a apoiar um renascimento pagão.

Isso pode chocar alguns que ainda mantêm a visão de que se trata simplesmente de uma ideologia que combina conservadorismo, nacionalismo e socialismo marxista — embora nada pudesse estar mais distante da verdade.

Como afirmei anteriormente, o objetivo da ideologia sempre foi criar uma nova sociedade, não “retornar à tradição”. Trata-se de uma ideologia de sangue e solo que busca não apenas derrubar o capitalismo, mas também eliminar todos os elementos da sociedade que impedem a nação e seu povo de alcançarem seu pleno potencial — o Cristianismo estando entre eles, segundo Paetel e Niekisch.

Há uma enorme quantidade de material sobre esse tema, portanto dividirei o artigo em duas partes. A primeira se concentrará em Karl Otto Paetel e a segunda em Ernst Niekisch, indiscutivelmente as duas figuras mais importantes por trás da ideologia nacional-bolchevique.

KARL OTTO PAETEL SOBRE O CRISTIANISMO

“E a fé sempre pode e apenas pode ser superada por uma nova fé, nunca pela negação, nunca pelo ceticismo. A Roma Eterna somente desaparecerá das terras alemãs quando a fé na Alemanha Eterna a substituir.

Roma, e com ela todo o Cristianismo Ocidental, pode, com a maior tranquilidade, encarar o pseudoiluminismo banal dos círculos livre-pensadores, as invectivas de mau gosto dirigidas ao sacerdócio.

Contudo, em meio a toda a inquietação e agitação de hoje, Roma já se vê confrontada com os primórdios de uma nova fé, com a aproximação de um renascimento alemão.”

“Aqui, onde se delineia o contorno de um novo paganismo, uma nova religiosidade cósmica centrada no sangue, no solo e na raça, enraizada no sopro divino da vida terrena — aqui recaem os primeiros golpes de machado sobre o edifício da fé oriental que paira sobre o povo.

E se o nacionalismo alemão possui um profundo sentido espiritual e religioso, então é esse (como Rosenberg reconheceu, mas depois renegou sob a pressão de seu mestre católico) de uma insurreição do modo de vida germânico, envenenado e reprimido desde os dias de Carlos Magno, o matador de saxões, contra a infiltração estrangeira do Cristianismo. O novo paganismo, o renascimento de uma fé alemã, será a justificação viva e a fonte de poder da revolução alemã.”

“Essa revolução alemã é, portanto, em si mesma, uma grande totalidade, abrangendo a vida inteira e afirmando-se em cada aspecto dela; em sua justificativa, não é apenas, no plano religioso, uma luta contra uma Igreja sem paixão, corrompida e distorcida, mas também uma luta intransigente contra a própria substância essencial do Cristianismo, que em seu núcleo é estranha e desastrosa à natureza alemã.”

“Ai deles se, sendo hóspedes de ambos os Reinos, errantes entre os dois mundos, buscarem frivolamente infringir as fronteiras entre eles; se quiserem substituir os valores políticos suprapessoais da ‘liberdade’ comunitária e da ‘vontade de poder’ por sermões cristãos sobre o Sermão da Montanha; se adulterarem o slogan ‘Tudo pela Alemanha’ com o acréscimo ‘Alemanha para Cristo’.”

Paetel não se opõe apenas à Igreja, mas ao próprio conceito e aos ensinamentos do Cristianismo. Ele cita Rosenberg e Ludendorff, ambos extremamente hostis ao Cristianismo.

Além disso, ele defende um renascimento pagão, o surgimento de uma nova fé para substituir a antiga. O capítulo aprofunda ainda mais esse ponto, e como esta publicação trata exclusivamente da posição em relação ao Cristianismo, a questão do Paganismo e sua conexão com a ideologia nacional-bolchevique será discutida em outro momento, juntamente com o papel da religião na sociedade.

Dito isso, o sincretismo de ideias é possível, e a religião permanece secundária à ideologia — o próprio Paetel compreendia isso.

No entanto, isso não nega o fato de que o Nacional-Bolchevismo genuíno, em seu núcleo, é inconciliável com os ensinamentos e a cosmovisão do Cristianismo.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

O que está certo? Ou errado? Direita e Esquerda? Não alimente o diabo.


Por SerpentSmasher

Ditaduras sunitas, as mais sanguinárias e repressivas, como o Afeganistão, Síria (Presidente é um Jihadista do Estado Islâmico) Arábia Saudita e o regime atual iraquiano, são financiadas pelos americanos, e ainda assim o Irã é tratado como o malvado por tentar assegurar a sua própria existência. Quantos países o Irã invadiu? Não é porque teu amigo “esquerdista” defende palestinos ou iranianos que tu tens que ser contra por reflexo. O eixo do mal hoje não é mais a Rússia ou os muçulmanos xiitas. Aprenda antes de passar vergonha.

O Irã é um Estado secularista de orientação conservadora, e muitos dos protestos promovidos lá foram organizados por grupos marxistas, anarquistas e setores ligados a movimentos LGBT e feministas. É isso que muitos que se dizem de “direita” acabam apoiando sem perceber.

O sonho dos EUA e de Israel é transformar o que restou em uma estrutura degenerada e controlada. Aos cristãos, lembrem-se de quem matou Cristo e do que está escrito em seus próprios textos e tradições. Lembrem-se também de quem são os envolvidos em escândalos como o caso Epstein, suas origens e seus princípios.

Direita e esquerda hoje muitas vezes servem ao mesmo propósito maior. Não se engane. Não desperdice seu tempo defendendo aquilo que não compreende. Seja coerente e defenda o lado que corresponde aos seus próprios princípios e valores. Se você se considera tradicionalista e conservador, aprenda como as coisas realmente funcionam antes de tomar partido.

E um último conselho: não aceite narrativas prontas sem questionamento, independentemente de quem as promova.

Nihil novi sob sole. Nihil ordo ab Chao.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Miguel Serrano, A Entrega da Patagônia Mágica


Por Miguel Serrano

"Que tragédia, que maldição impede os chilenos de enxergarem a realidade objetivamente, envolvendo-os em argumentos legalistas que inibem seu comportamento e ação?

A estupidez não conhece limites, levando-os ao extremo de não acusar um assassino de ser criminoso, mesmo que o tenham flagrado em flagrante, porque a lei ainda não o comprovou e ele é um "presumido criminoso".

Da mesma forma, a desapropriação de nossas terras não é desapropriação se for resultado de uma decisão considerada "legal".

E o cretinismo chega ao ponto em que os desapropriados se alegram em poder executar rapidamente a desapropriação, decretada "legalmente".

Esse caminho historicamente trilhado nos aproxima do fim do Chile.

A visão apocalíptica é tal que, mesmo levando em conta a mentalidade suicida dos chilenos, torna-se impossível pensar que a questão seja tão simples a ponto de atribuí-la unicamente à estupidez, à ignorância, à covardia ou à capitulação.

Acima de tudo, porque testemunhamos a profunda indignação, amargura e fúria com que o povo humilde e simples recebeu a decisão de entregar um território que lhe pertence.

Na decisão sobre a Laguna del Desierto, na qual o Chile perde a totalidade daquela região, a atitude dos atuais governantes é tão inacreditável que um observador com sensibilidade e experiência histórica suspeita que por trás dela se esconde uma entrega premeditada, uma conspiração, na qual os principais culpados estão aqui, mas os mentores estão longe.

Uma trama, ou conspiração, mas não de hoje, e sim de tempos antigos.

Sua primeira manifestação visível na história contemporânea é a eclosão da Revolução Francesa, onde se estabeleceram os princípios internacionalistas, que começariam a minar os alicerces que sustentavam os conglomerados étnicos, hierárquicos e espiritualmente transcendentes.

Esse terremoto chegou à nossa América e é responsável pelas vinte e uma repúblicas que aqui se configuram, deixando em aberto a possibilidade de que a maior, a mais poderosa ou a mais astuta devore a menor. Os mais fracos, os mais pusilânimes ou os mais covardes.

Contra todas as leis da Natureza, da Biologia e do Cosmos, onde nada é igual a nada, e onde até os flocos de neve são diferentes, a tentativa de apagar as fronteiras geográficas, étnicas, psicológicas, biológicas e espirituais do planeta começa a se concretizar.

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a "Carta de Charlottenburg", proposta pelo Terceiro Reich para criar um mundo organizado em uma "Nova Ordem" de pátrias "étnicas" e "carnais", baseada na equação "terra e sangue", foi perdida. Ou seja, o respeito às diferenças naturais que surgiram do próprio curso da História, moldando, em última instância, uma individualidade psicogenética inviolável e uma idiossincrasia nacional, em consonância com a terra que nos nutre e com a "paisagem da alma".

Esta é a Pátria, a Nação e a Raça, que devem ser defendidas para que o organismo não pereça.

Com a guerra perdida, a "Carta de San" Francisco foi imposto, dando origem às "Nações Unidas", uma extensão da "Liga das Nações", com sua tentativa equivocada de criar um mundo igualitário, internacionalista e globalista no qual todas as diferenças e raças deveriam se fundir.

Os ingredientes mais eficazes para alcançar isso seriam dois: capital internacional e marxismo internacional, que, em última análise, se tornariam um só:

capital, dinheiro, com suas corporações transnacionais e suas transferências eletrônicas instantâneas e simultâneas".

Da conspiração ao status quo: redes de poder, chantagem e captura institucional no Ocidente


Durante décadas, denúncias sobre redes de controle político baseadas em chantagem, financiamento opaco e influência ideológica foram descartadas como paranoia ou “teorias da conspiração”. O caso Epstein encerrou definitivamente essa discussão. O que antes era negado passou a existir nos autos, em registros de voo, em agendas, em mensagens, em depoimentos e em omissões convenientes.

Jeffrey Epstein não era apenas um criminoso sexual. Ele operava como um ativo político. Sua função central era aproximar elites financeiras, políticas, acadêmicas e midiáticas de um ambiente de comprometimento mútuo, onde segredos se tornam instrumentos de obediência. Isso não é hipótese. É exatamente como funcionam operações clássicas de kompromat descritas por serviços de inteligência desde a Guerra Fria.

A lista de nomes envolvidos não pertence a uma margem radical. Presidentes dos Estados Unidos, membros da realeza britânica, chefes de fundos financeiros, executivos de big techs, ex-diretores de inteligência e figuras centrais da política israelense aparecem de forma documentada nas conexões de Epstein. A ausência de responsabilização proporcional não é falha do sistema. É o próprio funcionamento dele.

O sionismo político não nasce como movimento religioso tradicional, mas como projeto nacional moderno, secular e estratégico, gestado no século XIX com apoio direto do Império Britânico. Seus líderes iniciais falavam a linguagem do colonialismo europeu e operavam segundo sua lógica. Vladimir Jabotinsky, figura central desse processo, defendia abertamente a imposição da soberania judaica pela força e a exclusão econômica e territorial da população árabe nativa. Suas ideias foram reconhecidas por contemporâneos, inclusive Mussolini, como explicitamente fascistas.

Durante o Mandato Britânico na Palestina, milícias judaicas foram armadas e treinadas para reprimir resistência local. A política de “trabalho judaico em terra judaica” levou à expulsão sistemática de árabes de empregos, vilas e fazendas. Esses fatos são amplamente documentados por historiadores israelenses, palestinos e britânicos. Não são invenções retrospectivas.

O Acordo Haavara de 1933 evidencia um capítulo moralmente devastador. Lideranças sionistas negociaram diretamente com o regime nazista para transferir capital judaico da Alemanha para a Palestina, enquanto o Estado alemão retinha parte significativa dos ativos. O acordo beneficiou o projeto colonial sionista ao mesmo tempo em que fortaleceu economicamente o Terceiro Reich em seus primeiros anos. Judeus sem meios financeiros ficaram excluídos dessa “solução” e muitos terminaram nos campos.

Trata-se de um esquema de colaboração mundial documentado, não de acusação ideológica.

O que ocorre hoje em Gaza não é uma operação de segurança. É a destruição sistemática de uma sociedade. Dezenas de milhares de civis mortos, uma proporção massiva de crianças entre as vítimas, destruição quase total da infraestrutura urbana, deslocamento forçado da população e uso deliberado da fome como arma caracterizam, segundo o direito internacional, crime de guerra e crime contra a humanidade.

Declarações públicas de autoridades e intelectuais israelenses desumanizando palestinos foram feitas abertamente, registradas e amplamente divulgadas, sem consequências políticas reais. Isso só é possível porque Israel opera dentro de um regime de exceção moral garantido por seus aliados ocidentais.

O resultado visível é a submissão das elites dos Estados Unidos, Reino Unido e União Europeia a interesses que não passam pelo escrutínio democrático de seus próprios povos. Políticas externas inteiras são moldadas por lobbies, financiamento eleitoral, pressão midiática e operações de constrangimento pessoal. O caso Epstein mostra como essa submissão não é apenas ideológica, mas pessoal e íntima.

Antigas nações cristãs hoje toleram massacres, censuram dissidência interna e criminalizam a crítica geopolítica em nome de uma moral seletiva que não se aplica a aliados estratégicos.


O escândalo Epstein não “prova uma teoria”. Ele revela um método. Um método de controle das elites através de dinheiro, sexo, medo e dependência. Somado ao histórico do sionismo político, às práticas coloniais documentadas e à impunidade atual em Gaza, o quadro é claro: o Ocidente liberal já não governa a si mesmo.

Não se trata de ódio étnico, religião ou fantasia conspiratória. Trata-se de poder real, exercido sem disfarce, protegido pelo silêncio e sustentado pela covardia das instituições.

Negar isso hoje não é ceticismo. É cumplicidade ou cegueira voluntária.