segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Quando a norma ignora o campo: a obrigatoriedade do capacete e o esvaziamento da tradição gaúcha


A exigência do uso de capacete no trabalho rural, a partir de interpretações recentes da NR 31, abriu um debate que vai além da segurança e toca diretamente na identidade do campo gaúcho. Ao aplicar normas técnicas de forma genérica e descolada da realidade das estâncias, o Estado acaba colocando em xeque práticas tradicionais, criando insegurança jurídica aos produtores e contribuindo para a descaracterização de uma cultura construída na lida diária do Rio Grande do Sul.

A recente interpretação da Norma Regulamentadora nº 31 que passou a exigir o uso de capacete de proteção em determinadas atividades rurais acendeu um sinal de alerta no RS. O debate extrapolou a esfera técnica e alcançou o coração da cultura gaúcha, onde o chapéu não é acessório supérfluo, mas símbolo identitário forjado em séculos de trabalho no campo, lida com o gado e vida ao ar livre.

Não se discute aqui a importância da segurança no meio rural. Acidentes existem, riscos são reais e a proteção do trabalhador é um objetivo legítimo. O problema surge quando a aplicação da norma se dá de forma genérica, descontextualizada e alheia à realidade concreta das estâncias, dos currais e da própria cultura que moldou o trabalhador do campo no Sul do Brasil.

A NR 31 estabelece que, havendo risco de impacto, queda ou acidente com máquinas e animais, o Equipamento de Proteção Individual deve ser adequado à situação. A partir daí, fiscais e interpretações mais rígidas passaram a tratar o capacete como exigência quase automática, mesmo em atividades tradicionais onde o risco é inerente à lida e sempre foi administrado com técnica, experiência e vestimenta própria. O chapéu gaúcho, embora reconhecido como elemento cultural, foi relegado à condição de mero adereço, desprovido de qualquer valor funcional diante da norma.

Esse movimento revela um traço recorrente da burocracia brasileira: legislar e fiscalizar a partir de gabinetes urbanos, impondo critérios uniformes a realidades profundamente distintas. O trabalho rural não é uma linha de montagem industrial, nem o peão pode ser comparado a um operário de fábrica. A lida campeira exige mobilidade, visão periférica, sensibilidade com o animal e domínio do ambiente. Em muitos casos, o uso de um capacete rígido pode até comprometer a segurança, em vez de ampliá la.

Ao transferir toda a responsabilidade ao empregador, o Estado cria um ambiente de insegurança jurídica no campo. O produtor passa a ser potencialmente punido não por negligência, mas por não se enquadrar em uma leitura abstrata da norma. A intensificação das fiscalizações, sem diálogo prévio e sem critérios claros de razoabilidade, transforma a tradição gaúcha em alvo indireto de autuações e multas.

Há ainda um efeito simbólico grave. Quando o poder público desconsidera os elementos culturais do trabalho rural, transmite a mensagem de que a identidade gaúcha é um obstáculo ao progresso, algo a ser tolerado apenas fora das situações oficiais. Isso não é modernização, é descaracterização. Segurança e tradição não são opostas. Sempre caminharam juntas no campo, transmitidas de geração em geração por meio da prática, da responsabilidade e do conhecimento do risco.

O debate precisa sair do radicalismo. Ninguém defende a imprudência ou o desprezo à vida do trabalhador. O que se cobra é bom senso, adaptação da norma à realidade regional e reconhecimento de que o campo tem lógica própria. Equipamentos de proteção devem ser exigidos quando de fato se mostram necessários e eficazes, não como resposta automática a qualquer atividade rotulada como perigosa.

Se continuar nesse rumo, a aplicação da NR 31 corre o risco de se tornar mais um exemplo de legislação que, em vez de proteger, afasta o Estado do produtor e do trabalhador rural. Preservar a vida é essencial. Preservar a identidade também. No Rio Grande do Sul, tradição não é folclore. É parte viva do trabalho, da economia e da história. Ignorá la é um erro que cobra seu preço não apenas no campo, mas na própria relação entre o país real e suas normas oficiais.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Ucrânia, o Inverno e o Fim das Ilusões Liberais


A desaceleração pontual dos avanços russos no final de 2025 e início de 2026 tem sido explorada pela narrativa liberal-ocidental como prova de um suposto esgotamento estratégico de Moscou. Trata-se, porém, de mais um exercício de propaganda travestido de análise técnica. A leitura correta dos fatos exige ir além da contabilidade superficial de quilômetros e compreender o conflito como ele realmente é: uma guerra civilizacional contra a ordem liberal decadente imposta pelo Ocidente.

O próprio reconhecimento de que as forças russas ampliaram seu controle territorial de forma contínua ao longo de dezembro e janeiro desmonta a tese de “fracasso”. O que ocorreu foi o encerramento de um ciclo operacional acelerado, condicionado por fatores climáticos específicos e por metas administrativas de fim de ano. Em termos militares, trata-se de adaptação estratégica, não de derrota. Exércitos sérios não operam segundo a lógica midiática do “avanço constante”, mas conforme as condições reais do teatro de guerra.

A Rússia demonstrou, mais uma vez, capacidade de explorar janelas táticas como o impacto do clima sobre a guerra de drones ucraniana — enquanto o regime de Kiev segue cada vez mais dependente de tecnologias fornecidas por seus tutores da OTAN. Quando essas muletas falham, como no outono e início do inverno, a fragilidade estrutural do projeto ucraniano fica exposta.

A narrativa liberal ignora deliberadamente o ponto central: Moscou não trava uma guerra meramente territorial, mas uma guerra histórica. As declarações do chanceler Sergei Lavrov deixam claro que a questão vai além de linhas em mapas artificiais desenhados após o colapso soviético. O futuro da Crimeia, do Donbass e da Novorossiya é, acima de tudo, o destino de povos russos que foram separados de sua matriz civilizacional por decisões políticas ilegítimas e projetos geopolíticos externos.

A insistência ocidental em tratar Novorossiya como uma “invenção” revela o desprezo liberal pela história concreta e pela identidade dos povos. Odessa, Kharkiv, Mykolaiv e Dnipropetrovsk não são abstrações jurídicas; são territórios moldados cultural, linguisticamente e economicamente pela Rússia ao longo de séculos. Negar isso é repetir a arrogância colonial típica do liberalismo globalista, que reconhece identidades apenas quando elas servem aos seus interesses.

O chamado “plano de paz” de 28 pontos proposto pelos Estados Unidos não passa de uma tentativa de congelar o conflito em termos favoráveis ao Ocidente, mantendo a Ucrânia como um protetorado militarizado e permanentemente hostil à Rússia. Exigir que Moscou ceda territórios historicamente russos enquanto legitima a ocupação cultural e política liberal é uma exigência que nenhum Estado soberano aceitaria.

As declarações de Lavrov, longe de serem uma escalada, são um ato de realismo político. Elas sinalizam que não haverá acordo possível enquanto o Ocidente insistir em impor soluções artificiais, ignorando a realidade no terreno e a vontade dos povos envolvidos. A Rússia não negocia sob chantagem moral nem sob esquemas desenhados em Washington.

Em última instância, a guerra na Ucrânia expõe o esgotamento do modelo liberal internacional. Um sistema que depende de sanções, propaganda e guerras por procuração para se manter já está condenado. A Rússia, ao sustentar suas posições mesmo diante da pressão global, reafirma um princípio esquecido: soberania não se negocia, identidade não se apaga e a história não se corrige por decreto.

O inverno passa. As narrativas liberais também. O que permanece é a força das civilizações que sabem quem são e pelo que lutam.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

A Família como Última Linha de Resistência contra o Liberalismo Cultural

Este texto parte do princípio de que nada do que vivemos no campo social e cultural ocorreu por acaso. A crise da família não é um acidente histórico, mas o resultado de um projeto deliberado que visa desarticular os vínculos mais profundos que sustentam os povos. Ao identificar os verdadeiros agentes e a lógica por trás desse processo, busca-se expor por que a família tradicional permanece como o principal obstáculo ao liberalismo cultural e, justamente por isso, tornou-se seu alvo prioritário.

A dissolução da família tradicional não foi um erro de percurso nem um fenômeno espontâneo da modernidade. Foi um projeto político, econômico e cultural, conduzido com método, financiamento e narrativa.

Os responsáveis têm nome. Aquilo que a direita simplória insiste em chamar de “marxismo cultural” é, na realidade, liberalismo cultural. Foi por meio do liberalismo cultural, também chamado de progressismo social, que se iniciou a engenharia social voltada à dissolução das famílias e à subversão da consciência coletiva dos povos. Esse processo foi e continua sendo promovido por ONGs internacionais, fundos multilaterais, grandes conglomerados midiáticos e universidades ideologizadas, todos operando sob a mesma lógica: substituir vínculos orgânicos, duradouros e naturais por relações frágeis, temporárias e facilmente administráveis.

A família tradicional, baseada em compromisso, responsabilidade intergeracional, hierarquia funcional e dever mútuo, sempre foi um obstáculo a esse projeto. Um núcleo assim forma pessoas com identidade, senso de pertencimento e capacidade de resistência moral. Pessoas estruturadas dessa forma não se submetem facilmente a modas ideológicas, não dependem de narrativas artificiais e não se tornam escravas nem do mercado nem do Estado.

Por isso foi necessário atacá-la.

O liberalismo moderno, ao reduzir o ser humano a um indivíduo isolado, consumidor e supostamente “autônomo”, passou a tratar a família como um entrave à liberdade absoluta. Em seu lugar, promoveu-se a chamada família nuclear liberal alternativa, um modelo instável, contratual, descartável, moldado ao prazer imediato e perfeitamente alinhado à lógica do mercado.

Esse modelo não fortalece pessoas, ele as fragiliza. Indivíduos sem raízes emocionais sólidas tornam-se mais ansiosos, mais inseguros, mais dependentes e mais manipuláveis. Passam a necessitar de tutores externos, quase sempre ligados ao Estado, sob a forma de agentes “especialistas”, psicologização permanente da vida cotidiana, subsídios, aplicativos, diagnósticos e validação institucional constante.

A mídia cumpre seu papel ao normalizar a degeneração do espírito e apresentar a desestruturação como virtude. O sistema educacional reforça esse processo ao desconstruir referências morais e substituir a tradição por narrativas relativistas e artificiais. As grandes corporações, por sua vez, lucram enormemente com consumidores solitários, emocionalmente carentes e permanentemente insatisfeitos.

Nada disso é coincidência.

Uma sociedade sem famílias fortes é uma sociedade mais fácil de governar, tributar e controlar. Quando a figura paterna é enfraquecida, quando a maternidade é tratada como fardo, quando o compromisso é ridicularizado e a autoridade moral é demonizada, o vazio deixado é ocupado por burocratas, tecnocratas e “especialistas”. Eles assumem o papel que antes cabia aos pais, moldando gerações inteiras e formando o imaginário coletivo conforme as necessidades do sistema liberal, tratando indivíduos como gado funcional da engrenagem.

Famílias unidas formam homens e mulheres fortes. Homens e mulheres fortes formam comunidades coesas. Comunidades coesas não dependem de tutores ideológicos para pensar, decidir ou sobreviver.

Por isso a família sempre foi o primeiro alvo. E por isso defendê-la hoje não é conservadorismo no sentido raso do termo, mas a mais pura forma de resistência política, cultural e civilizacional.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

211º ANIVERSÁRIO DA PRIMEIRA BANDEIRA ARTIGUISTA


O dia 13 de janeiro de 1815 constitui uma data fundamental na história política e simbólica do Rio da Prata. Nesse dia foi hasteada e jurada, pela primeira vez, a bandeira desenhada por José Gervasio Artigas no Quartel-General de Arerunguá. Não se tratou de um gesto cerimonial isolado, mas de um ato profundamente político, nascido como resposta direta ao centralismo e ao projeto unitário do governo de Buenos Aires, que se recusava a reconhecer o federalismo defendido pelos povos livres.


A criação dessa bandeira foi explicada de forma explícita pelo próprio Artigas em seu ofício de 4 de fevereiro de 1815 ao Governador Intendente de Corrientes, Tenente-Coronel José de Silva. Nele, deixou claro que a bandeira deveria ser um símbolo comum de identidade e de luta para todos aqueles povos libertos da opressão centralista. A bandeira artiguista, com seu desenho de branco ao centro, azul nas extremidades e faixas vermelhas intermediárias, expressava uma unidade de sentimentos, uma decisão clara pela república e o reconhecimento do sangue derramado em nome da liberdade e da independência.

Do ponto de vista cronológico, esta foi a primeira bandeira desenhada por Artigas da qual se tem registro. Em torno dela se reuniram os patriotas que lutavam não apenas por uma separação política, mas por um projeto alternativo de organização social e territorial. A bandeira sintetizava o ideário artiguista: república, federalismo, soberania dos povos e rejeição a toda forma de dominação centralista.

A importância daquele ato ultrapassou amplamente o âmbito do acampamento de Arerunguá. A jura da bandeira se replicou nas províncias integrantes da Liga dos Povos Livres, abrindo um caminho profundo e duradouro na história regional. Na Província Oriental, em particular, esse processo tornou-se um antecedente inseparável do nascimento da futura República, tanto no plano político quanto no simbólico.

Embora não se tenha alcançado uma uniformidade absoluta no desenho das bandeiras provinciais, conforme propunha Artigas, cada província adotou sua própria insígnia, reflexo de sua identidade política específica. Essas diferenças não implicaram ruptura com o ideário comum. Pelo contrário, todas as bandeiras da Liga ratificaram os princípios do Chefe dos Orientais e permaneceram fiéis, em linhas gerais, às cores por ele definidas.

O uso do azul, branco e vermelho não foi fruto do acaso nem de uma escolha estética arbitrária. Essas cores possuíam profundos antecedentes na região e foram ressignificadas por Artigas como símbolos da grandeza coletiva, da decisão republicana e do sacrifício na luta pela liberdade e pela independência. Nelas se condensava uma visão política clara e uma ética revolucionária que colocava os povos acima das elites e dos poderes concentrados.

Passados 211 anos daquele 13 de janeiro de 1815, a primeira bandeira artiguista permanece como um símbolo vivo de liberdade, dignidade e orgulho artiguista. Ela não representa apenas um passado heroico, mas um projeto político inacabado que ainda interpela os povos do Rio da Prata e reafirma a atualidade do legado de José Gervasio Artigas. 

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

O Fim do Direito Internacional e o Retorno da Guerra Mundial - Aleksandr Dugin



Tenho certeza de que agora — ao observar o que está acontecendo na política global — todos finalmente compreenderam que o direito internacional já não existe. Ele acabou.

O direito internacional é um acordo entre grandes potências capazes de defender, na prática, a sua soberania. São elas que determinam as regras para si mesmas e para todos os demais: o que é permitido e o que é proibido. E são elas que as cumprem. Esse tipo de direito funciona por fases (ritmos) — enquanto o equilíbrio entre as grandes potências é mantido.

O sistema westfaliano, que reconhece a soberania dos Estados nacionais, tomou forma devido a um impasse no equilíbrio de poder entre católicos e protestantes (aos quais se juntou a França anti-imperial). Se os católicos tivessem vencido, a Sé Romana e o Império Austríaco teriam estabelecido uma arquitetura europeia completamente diferente. Mais precisamente, teriam preservado a anterior, de caráter medieval.

Em certo sentido, foram os protestantes do norte da Europa que se beneficiaram da Paz de Westfália, em 1648, pois desde o início se orientaram para as monarquias nacionais contra o Papa e o Imperador. Sem alcançar uma vitória total, ainda assim asseguraram o seu objetivo.

Formalmente, o sistema westfaliano sobrevive até hoje, pois construímos o direito internacional com base no princípio dos Estados nacionais — exatamente aquilo em que os protestantes insistiram durante a Guerra dos Trinta Anos. Mas, em essência, no século XVII isso dizia respeito apenas aos Estados europeus e às suas colônias e, mais tarde, nem todo Estado nacional possuía soberania real. Todas as nações são iguais, mas as nações europeias (as Grandes Potências) são “mais iguais” do que as outras.

Havia um certo elemento de hipocrisia no reconhecimento da soberania nacional dos países fracos, mas isso era plenamente compensado pela teoria do Realismo. Ela só se cristalizou plenamente no século XX, mas refletia uma imagem das relações internacionais que já se formara muito antes. Aqui, a desigualdade entre os países é equilibrada pela possibilidade de criação de coalizões e por uma ordem de alianças “em forma de xadrez”: Estados fracos firmam acordos com Estados mais fortes para resistir à possível agressão de outras grandes potências. Foi assim que ocorreu — e continua ocorrendo — na prática.

A Liga das Nações tentou conferir ao direito internacional, baseado no sistema westfaliano, um caráter mais sólido, buscando limitar parcialmente a soberania e estabelecer princípios universais — baseados no liberalismo ocidental, no pacifismo e na primeira versão do globalismo — que todos os países, grandes e pequenos, deveriam seguir. Em essência, a Liga das Nações foi concebida como uma primeira aproximação de um Governo Mundial. Foi então que a escola do Liberalismo nas Relações Internacionais tomou forma definitiva, iniciando sua longa disputa com os Realistas. Os liberais acreditavam que o direito internacional, mais cedo ou mais tarde, substituiria o princípio da soberania plena dos Estados nacionais e levaria à criação de um sistema internacional único. Os realistas continuaram a insistir na sua posição, defendendo o princípio da soberania absoluta — herança direta da Paz de Westfália.

No entanto, já na década de 1930, tornou-se claro que nem o liberalismo da Liga das Nações, nem o próprio sistema westfaliano, correspondiam ao equilíbrio de forças na Europa e no mundo. A ascensão do nazismo ao poder na Alemanha em 1933, a invasão da Etiópia pela Itália fascista em 1937 e a guerra da URSS contra a Finlândia em 1939 destruíram esse sistema, inclusive formalmente. Embora tenha sido oficialmente dissolvida apenas em 1946, a primeira tentativa de estabelecer o direito internacional como um sistema abrangente e obrigatório já havia fracassado nos anos 1930.

Na prática, os anos 1930 viram o surgimento de três polos de soberania — desta vez, em bases puramente ideológicas. O que importava já não era a soberania formal, mas o potencial real de cada bloco ideológico. A Segunda Guerra Mundial foi precisamente um teste da viabilidade desses três campos.

Um dos campos reunia os países burgueses-capitalistas — principalmente Inglaterra, França e Estados Unidos. Era o campo liberal, que, contudo, foi involuntariamente privado de sua dimensão internacionalista. Os liberais foram obrigados a defender sua ideologia diante de dois poderosos adversários: o fascismo e o comunismo. Mas, no conjunto — se excluirmos o “elo fraco”, a França, que capitulou rapidamente após o início da guerra — o bloco burguês-capitalista demonstrou um nível suficiente de soberania: a Inglaterra não caiu sob os ataques da Alemanha hitlerista, e os EUA combateram (relativamente) de forma eficaz o Japão no Pacífico.

O segundo campo foi o fascismo europeu, que se fortaleceu especialmente durante a conquista hitlerista da Europa Ocidental. Quase todos os países europeus se uniram sob a bandeira do nacional-socialismo. Nessa situação, não se podia falar em soberania — nem mesmo no caso de regimes amistosos a Hitler (como a Itália fascista ou a Espanha de Franco). No máximo, alguns países (Portugal de Salazar, Suíça etc.) conseguiram assegurar uma neutralidade condicional. Apenas a Alemanha era soberana — ou, mais precisamente, o hitlerismo enquanto ideologia.

O terceiro campo era representado pela URSS e, embora fosse apenas um Estado, baseava-se especificamente numa ideologia: o marxismo-leninismo. Mais uma vez, não se tratava tanto de uma nação, mas de uma entidade ideológica.

Nos anos 1930, o direito internacional — cuja última versão eram os acordos de Versalhes e as normas da Liga das Nações — entrou em colapso. A partir daí, ideologia e força decidiram tudo. Além disso, cada ideologia possuía sua própria visão da futura ordem mundial, o que significava que operavam com suas próprias versões de direito internacional.

A URSS acreditava na Revolução Mundial e na abolição dos Estados (como fenômeno burguês), o que representava uma versão marxista da globalização e do internacionalismo proletário. Hitler proclamava um “Reich de Mil Anos” com a dominação planetária da própria Alemanha e da “raça ariana”. Nenhuma soberania era prevista para quem quer que fosse, exceto para o nacional-socialismo mundial. E apenas o Ocidente burguês-capitalista — essencialmente anglo-saxão — manteve continuidade com o sistema westfaliano, calculando uma futura transição para o internacionalismo liberal e, novamente, para um Governo Mundial. De fato, a Liga das Nações, que formalmente persistia apesar de não funcionar, era então um vestígio do antigo globalismo e um protótipo do futuro.

Em todo caso, o direito internacional foi “suspenso” — essencialmente abolido. Iniciou-se uma era de transição em que tudo era decidido exclusivamente pela combinação de ideologia e força, a ser comprovada no campo de batalha. Assim, chegamos à Segunda Guerra Mundial como culminação desse confronto entre ideologias armadas. O direito internacional já não existia.

O resultado concreto do confronto ideológico e de poder entre liberalismo, fascismo e comunismo foi a eliminação de um dos polos — o nacional-socialismo europeu. O Ocidente burguês e o Oriente socialista antiburguês criaram a coalizão anti-Hitler e, conjuntamente (com um papel decisivo da URSS), destruíram o fascismo na Europa.

Em 1945, foi criada a Organização das Nações Unidas como base de um novo sistema de direito internacional. Em certa medida, tratava-se de uma reedição da Liga das Nações, mas o aumento drástico da influência da URSS — que estabeleceu controle ideológico e político total sobre a Europa Oriental (e a Prússia Ocidental, a RDA) — introduziu um forte componente ideológico no sistema de soberanias nacionais. O verdadeiro portador da soberania era o campo socialista, cujos Estados estavam unidos pelo Pacto de Varsóvia e, economicamente, pelo COMECON. Nesse campo, ninguém era soberano exceto Moscou e, consequentemente, o PCUS.

No polo burguês-capitalista, ocorreram processos essencialmente simétricos. Os EUA tornaram-se o núcleo do Ocidente liberal soberano. No mundo anglo-saxão, centro e periferia trocaram de lugar — a liderança passou da Grã-Bretanha para Washington. Os países da Europa Ocidental e, de modo mais amplo, do campo capitalista, passaram à condição de vassalos da América. Isso foi consolidado com a criação da OTAN e a transformação do dólar na moeda de reserva mundial.

Assim, a ONU também ancorou um sistema de direito internacional — formalmente baseado no reconhecimento da soberania, mas, na prática, no equilíbrio de forças entre os vencedores da Segunda Guerra Mundial. Apenas Washington e Moscou eram verdadeiramente soberanos. Consequentemente, o modelo do pós-guerra manteve uma ligação com a ideologia, tendo abolido o nacional-socialismo, mas fortalecido significativamente o campo socialista.

Esse é o mundo bipolar, que projetou sua influência sobre todas as demais regiões do planeta. Qualquer Estado — inclusive as colônias recém-libertadas do Sul Global — enfrentava uma escolha: qual dos dois modelos ideológicos adotar. Se escolhesse o capitalismo, transferia sua soberania para Washington e a OTAN; se o socialismo, para Moscou. O Movimento dos Não Alinhados tentou estabelecer um terceiro polo, mas carecia tanto de recursos ideológicos quanto de poder.

A era do pós-guerra estabeleceu um sistema de direito internacional baseado na correlação real de forças entre dois campos ideológicos. Formalmente, a soberania nacional era reconhecida; na prática, não. O princípio westfaliano era mantido apenas nominalmente. Na realidade, tudo era decidido pelo equilíbrio de poder entre URSS e EUA e seus satélites.

Em 1989, com o colapso da URSS — provocado pelas reformas destrutivas de Gorbatchov — o bloco oriental começou a se desintegrar e, em 1991, a própria URSS deixou de existir. Os antigos países socialistas adotaram a ideologia de seus adversários da Guerra Fria. Começou o mundo unipolar.

Isso significou uma mudança qualitativa no direito internacional. Restou apenas uma autoridade soberana, que se tornou global — os EUA ou o Ocidente coletivo. Uma ideologia, uma força: capitalismo, liberalismo, OTAN. O princípio da soberania dos Estados nacionais e a própria ONU tornaram-se relíquias do passado, assim como antes ocorrera com a Liga das Nações.

O direito internacional passou a ser estabelecido por apenas um polo — os vencedores da Guerra Fria. Os derrotados (o antigo campo socialista e, sobretudo, a URSS) aceitaram a ideologia dos vencedores, reconhecendo, na prática, uma dependência vassálica em relação ao Ocidente coletivo.

Nessa situação, o Ocidente liberal viu uma oportunidade histórica de fundir a ordem liberal internacional com o princípio da hegemonia de poder. Para isso, era necessário ajustar o direito internacional à realidade. Assim, a partir dos anos 1990, iniciou-se uma nova onda de globalização. Ela significava a subordinação direta dos Estados nacionais a instâncias supranacionais (novamente, um Governo Mundial) e o estabelecimento de um controle direto sobre eles por Washington, que se tornara a capital do mundo. A União Europeia foi criada nesse espírito, como modelo de um sistema supranacional desse tipo para toda a humanidade. Os migrantes passaram a ser trazidos em massa precisamente com esse objetivo — mostrar como deveria ser a humanidade internacional universal do futuro.

Nessa situação, a ONU perdeu seu sentido:

Primeiro, porque foi construída sobre o princípio da soberania nacional (que já não correspondia a absolutamente nada).

Segundo, porque as posições especiais da URSS e da China no Conselho de Segurança representavam um resquício da era bipolar.

Por isso, em Washington começou-se a falar da criação de um novo sistema de relações internacionais, abertamente unipolar, chamado de “Liga das Democracias” ou “Fórum da Democracia”.

Ao mesmo tempo, dentro dos próprios EUA, o globalismo se dividiu em duas correntes:

— o liberalismo ideológico, o internacionalismo puro (Soros com sua “sociedade aberta”, USAID, wokismo etc.);

— a hegemonia americana direta, apoiada na OTAN, defendida pelos neoconservadores.

Essas correntes convergiam em essência, mas a primeira insistia que a prioridade principal era a globalização e o aprofundamento da democracia liberal em todos os países do planeta, enquanto a segunda defendia que os EUA controlassem diretamente todo o território da Terra nos planos militar, político e econômico.

Entretanto, a transição de um modelo bipolar de direito internacional para um modelo unipolar nunca se completou plenamente, mesmo com o desaparecimento de um dos polos ideológico-militares. Isso foi impedido pela ascensão simultânea da China e da Rússia sob Putin, quando começaram a se manifestar claramente os contornos de uma arquitetura mundial completamente diferente — a multipolaridade. No lado oposto aos globalistas (tanto os liberais internacionalistas de esquerda quanto os neocons de direita), surgiu uma nova força. Ainda que não esteja claramente definida ideologicamente, ela rejeita o padrão ideológico do Ocidente liberal-globalista. Essa força, inicialmente vaga, começou a defender a ONU e a impedir a formalização final da unipolaridade — isto é, a transformação do status quo ideológico e de poder (a dominação real do Ocidente coletivo) em um sistema jurídico correspondente.

Assim, encontramo-nos numa situação semelhante ao caos. Acontece que, atualmente, cinco sistemas operacionais de relações internacionais funcionam simultaneamente no mundo, tão incompatíveis entre si quanto softwares de fabricantes diferentes:

— Por inércia, a ONU e as normas do direito internacional reconhecem a soberania dos Estados nacionais, que na realidade perdeu sua força há quase cem anos e existe como uma “dor fantasma”. Ainda assim, a soberania continua a ser reconhecida e, às vezes, torna-se um argumento na política internacional.

— Também por inércia, algumas instituições conservam traços do mundo bipolar já encerrado. Isso não corresponde a nada, mas ainda se faz sentir ocasionalmente — por exemplo, na questão da paridade nuclear entre Rússia e EUA.

— O Ocidente coletivo continua a insistir na globalização e no movimento em direção a um Governo Mundial, convidando todos os Estados nacionais a ceder sua soberania a instâncias supranacionais, como o Tribunal Europeu de Direitos Humanos ou o Tribunal de Haia. A UE insiste em ser um modelo para o mundo inteiro no apagamento de todas as identidades coletivas e no abandono da estatalidade nacional.

— Os EUA — especialmente sob Trump — sob influência dos neocons, comportam-se como hegemon único, considerando “direito” tudo aquilo que atende aos interesses da América. Essa abordagem messiânica se opõe parcialmente ao globalismo, ignora a Europa e o internacionalismo, mas insiste com igual vigor na des-soberanização de todos os Estados — pelo direito da força.

— E, por fim, os contornos de um mundo multipolar tornam-se cada vez mais claros, onde o portador da soberania é o Estado-civilização — como a China moderna, a Rússia ou a Índia. Isso exige ainda outro sistema de direito internacional. O protótipo desse modelo poderia ser o BRICS ou outras plataformas de integração regional — sem a participação do Ocidente, pois o Ocidente traz consigo seus próprios modelos, mais articulados e rígidos.

Todos esses cinco sistemas operam simultaneamente e, naturalmente, interferem uns nos outros, produzindo falhas contínuas, conflitos e contradições. Ocorre um curto-circuito lógico da rede, criando a impressão de caos ou simplesmente da ausência de qualquer direito internacional. Se existem cinco direitos internacionais simultâneos que se excluem mutuamente, então, na essência, não existe nenhum.

A conclusão dessa análise é bastante alarmante. Contradições desse tipo em nível global, conflitos tão profundos de interpretações, quase nunca — na verdade, nunca — foram resolvidos pacificamente na história. Aqueles que se recusam a lutar por sua própria ordem mundial são imediatamente derrotados e passam a lutar pela ordem de outro, já na condição de vassalos.

Consequentemente, uma Terceira Guerra Mundial é mais do que provável. E em 2026 ela é mais provável do que em 2025 ou antes. Isso não significa que estejamos condenados a ela; significa apenas que estamos numa situação extremamente difícil. Por definição, uma guerra mundial envolve todos ou quase todos — por isso se chama guerra mundial. Mas, ainda assim, em toda guerra mundial há sujeitos principais. Hoje, eles são:

— o Ocidente coletivo, em ambas as suas encarnações (liberal-globalista e hegemonista);

— os polos ascendentes do mundo multipolar (Rússia, China, Índia).

Todos os demais são, por ora, meros instrumentos.

Ao mesmo tempo, o Ocidente possui uma ideologia, enquanto o mundo multipolar não a tem. A própria multipolaridade já se manifestou de modo geral, mas, ideologicamente, ainda não foi formalizada — quase nada.

Se o direito internacional não existe e é impossível, por definição, defender o mundo de Yalta, a velha ONU e a inércia da bipolaridade, então devemos apresentar nosso próprio novo sistema de direito internacional. A China faz certas tentativas nessa direção (“Comunidade de Destino Comum”), nós em menor grau (com exceções como a Teoria do Mundo Multipolar e a Quarta Teoria Política). Mas isso é claramente insuficiente. Talvez este ano tenhamos de participar de uma “luta de todos contra todos” em escala planetária, durante a qual serão determinados o futuro, a correspondente ordem mundial e o sistema de direito internacional. Neste momento, não existe nenhum.

Mas deve existir um direito internacional que nos permita ser aquilo que devemos ser — um Estado-Civilização, um Mundo Russo. É isso que precisa ser conceituado o mais rapidamente possível.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

A PROVÍNCIA ORIENTAL, ARTIGAS E A UNIDADE DOS POVOS DO PRATA


Do sul da Banda Oriental ao norte rio-grandense

A Província Oriental não foi um acidente geográfico nem uma criação artificial de tratados posteriores. Ela constituiu um espaço histórico contínuo, socialmente integrado e politicamente consciente, que se estendia do estuário do Rio da Prata, no atual Uruguai, até os campos e coxilhas do norte, no hoje chamado Rio Grande do Sul. Essa unidade não se fundava em limites cartográficos, mas na geografia, no modo de vida pastoril, na cultura gaúcha e, sobretudo, numa concepção comum de soberania popular e autonomia.

No sul, a Banda Oriental formava o núcleo desse território. Montevidéu, porto estratégico, articulava o litoral com o interior, mas a verdadeira força da província estava nas campanhas: estâncias, gado livre, milícias populares e uma população rural profundamente armada e politizada. Foi ali que emergiu José Gervasio Artigas, não como produto das elites urbanas ou dos cabildos formais, mas como expressão direta da revolução feita povo.

Como bem observa José María Rosa, enquanto os festejos oficiais da Revolução de Maio exaltavam atos protocolares em Buenos Aires, a verdadeira revolução chegou com a insurreição rural de 1811, conduzida por Artigas e sustentada pelas massas camponesas. Antes mesmo dos grandes combates, Artigas lança a Proclama de Mercedes, em 11 de abril de 1811, convocando diretamente o povo:

“Ciudadanos, levántense y defiendan la libertad de la provincia… La opresión extranjera no debe continuar.”

A independência, portanto, não nasceu dos salões porteños, mas do campo, do povo armado e consciente.

Avançando pelo interior da Província Oriental, atravessando o rio Uruguai e alcançando o norte, não havia ruptura entre orientais e rio-grandenses. O atual Rio Grande do Sul era a continuação natural da mesma província histórica. Famílias, tropas, rebanhos e ideias circulavam livremente. O gaúcho era o mesmo tipo humano dos dois lados do que mais tarde seriam fronteiras nacionais. As Missões, as campanhas e as estâncias formavam um mesmo corpo estratégico disputado por impérios e, posteriormente, por Estados centrais.

Essa unidade social explica por que as lutas artiguistas ecoaram profundamente no território rio-grandense e por que, décadas depois, o mesmo espírito autonomista se expressaria na Revolução Farroupilha. A Província Oriental era, na prática, um espaço político único, ligado por cultura, economia e projeto histórico.

Artigas, caudilho e soberania popular

Artigas não foi apenas um chefe militar: foi um caudilho enraizado na soberania popular. Sua autoridade não derivava de teorias europeias de direito constitucional, mas da confiança direta do povo. Como ele próprio afirmou:

“Mi autoridad emana de vosotros y ella cesa por vuestra presencia soberana.”

José María Rosa é claro ao definir o sentido dessa liderança: o caudilho não representa interesses particulares, mas a vontade coletiva. Artigas governava porque o povo o reconhecia como seu intérprete.

Essa concepção se materializou nas Instrucciones del Año XIII, onde Artigas proclama a independência absoluta e o princípio fundamental de que os povos são livres por natureza:

“Los pueblos deben ser libres. Su carácter debe ser su único objeto.”

Ali se afirma algo revolucionário para a época: a Província Oriental se declara livre não apenas do rei de Portugal ou do imperador do Brasil, mas de qualquer poder do universo, inclusive de Buenos Aires. Cada província retém sua soberania e só delega aquilo que decidir voluntariamente.

Federalismo, sufrágio e governo dos Povos Libres

O artiguismo instituiu uma prática inédita na América do Sul: o sufrágio universal nos Povos Libres de Santa Fe, Entre Ríos, Corrientes y la Banda Oriental. Não como cópia de modelos europeus, mas como expressão direta da comunidade armada. Todo homem apto a defender sua terra tinha direito a escolher seu caudillo.

O Estatuto de Santa Fe de 1819 resume essa lógica com clareza absoluta:

“El primer derecho y deber del pueblo es elegir un Caudillo.”

Esse caudilho exercia plenos poderes enquanto interpretasse a vontade popular. Justiça, defesa e governo não eram esferas separadas de uma burocracia distante, mas funções integradas da comunidade organizada.

O confronto com a oligarquia e os imperialismos

Artigas enfrentou simultaneamente a oligarquia portuária de Buenos Aires e os imperialismos estrangeiros. A abertura do porto em 1809, as intervenções britânicas e francesas e a política de dividir para governar revelam como os interesses externos operavam aliados às elites locais. Contra isso, Artigas defendia a soberania econômica, política e territorial dos povos do interior.

Seu projeto não era isolacionista. Pelo contrário: tinha um profundo sentido hispano-americano. A Liga de los Pueblos Libres expressava uma visão continental, onde todos os nascidos na América espanhola eram cidadãos. Não se tratava de hegemonia de uma província sobre as outras, mas de cooperação entre iguais.

O exílio e a “volta” de Artigas

Derrotado militarmente, traído por Ramírez e pressionado por Buenos Aires e pelo Império luso-brasileiro, Artigas se retira y termina en exilio en Paraguay, donde permanece treinta años. Pero, como señalaba José María Rosa en 1960, la vuelta de Artigas no sería física, sino histórica y popular. Su figura reaparece cada vez que los pueblos del Plata buscan justicia, soberanía y unidad.

Su fracaso fue circunstancial, no ideológico. Como afirma Rosa:

“El fracaso fue circunstancial; la idea, inquebrantable.”

Estanislao López, fiel al espíritu federal, mantuvo viva esa tradición en Santa Fe, demostrando que la derrota de Artigas no fue por desunión de los pueblos, sino por la acción combinada de traiciones internas e imperialismos externos.

Artigas y Rosas: continuidad histórica

En esa línea, Juan Manuel de Rosas aparece como el gran continuador del proyecto artiguista. Ambos defendieron la soberanía popular, la igualdad provincial y la resistencia frente a las potencias extranjeras. Rosas sostuvo el Pacto Federal, enfrentó la intervención anglo-francesa y rechazó imponer Buenos Aires sobre la Banda Oriental.

Autores orientales como Petit Muñoz reconocen que muchos veían en Rosas al heredero del espíritu de Artigas. Incluso Alberdi, a su manera, admitía su papel central como eje de unidad del interior frente al centralismo liberal.

La Província Oriental, del sur oriental al norte rio-grandense, fue un espacio histórico unido por el pueblo, la tierra y la lucha. Artigas encarnó esa unidad como caudillo de una revolución popular, federal y continental. Su legado no pertenece al pasado: atraviesa la historia del Plata, inspira el federalismo, la resistencia al imperialismo y la idea de una América gobernada por sus pueblos.

La división posterior en Estados no anuló esa verdad histórica. La cultura, la memoria y la causa siguen siendo comunes. Como Artigas, los pueblos saben adónde van. Y cuando vuelven a buscar soberanía, Artigas siempre vuelve con ellos.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

O GAÚCHO RIVERO E A PRIMEIRA RESISTÊNCIA ARMADA À OCUPAÇÃO BRITÂNICA DAS MALVINAS (1833)


A história oficial tende a esquecer que a primeira resistência concreta à ocupação britânica das Ilhas Malvinas não partiu de chanceleres, diplomatas ou discursos em capitais europeias. Ela partiu de um gaúcho pobre, mestiço, peão de campo, formado na dureza do mundo platino. Seu nome era Antonio “El Gaucho” Rivero.

Rivero nasceu em 27 de novembro de 1808, em Concepción del Uruguay, então parte do espaço rioplatense. Era um homem comum de sua época: trabalhador rural, sem posses, sem instrução formal e sem lugar no mundo das elites. Como muitos outros gaúchos, foi levado às Malvinas por volta de 1827, ainda jovem, para trabalhar como peão nas estâncias organizadas pelo governador argentino das ilhas, Luis Vernet.

A realidade social nas Malvinas era brutal. Os peões não recebiam salário em dinheiro. Vernet lhes entregava vales como pagamento, mas o despensero da ilha, Dickson, recusava aceitá-los, exigindo moedas de prata que os trabalhadores não possuíam. Ao mesmo tempo, o capataz Simón proibia a faena do gado manso, obrigando os peões a perseguirem o gado cimarrón apenas para sobreviver.

Esses homens, gaúchos e indígenas, viviam sob exploração, fome e abandono. Não havia proteção estatal efetiva, nem justiça, nem condições mínimas de trabalho. Essa situação se agravou drasticamente após a ocupação militar britânica de 1833, imposta pela força, sem qualquer legitimidade jurídica ou consentimento dos habitantes locais.

Em 26 de agosto de 1833, apenas seis meses após a invasão britânica, Antonio Rivero liderou um levante contra a autoridade colonial imposta. Não se tratou de um ato isolado ou criminoso, como tentaram caracterizar os documentos ingleses, mas de uma rebelião política armada, conduzida por criollos e indígenas que se recusavam a reconhecer a soberania estrangeira.

Participaram da sublevação os gaúchos Juan Brassido e José María Luna, além de cinco charrúas agauchados: Manuel González, Luciano Flores, Felipe Zalazar, Marcos Latorre e Manuel Godoy. Juntos, enfrentaram o poder colonial em condições absolutamente desiguais.

Durante a rebelião, foram mortos o autoproclamado governador britânico e alguns de seus principais colaboradores. Os documentos que chegaram até nós foram todos redigidos por autoridades britânicas, que classificaram o episódio como o “amotinamiento de unos delincuentes”, descrevendo Rivero e seus companheiros de forma racista como “gauchos” e “indios salvajes”. Nessas narrativas, omite-se deliberadamente que aqueles homens eram argentinos e que lutavam pela soberania do território.

Rivero e seus companheiros arriaram a bandeira britânica e hastearam uma bandeira argentina improvisada. Durante aproximadamente seis meses, mantiveram controle efetivo sobre as Malvinas, sem qualquer apoio do governo de Buenos Aires e sem meios de comunicar oficialmente o que ocorria nas ilhas.

Em outubro de 1833, o navio Antartic chegou ao arquipélago. Seu comandante, o norte-americano Nash, chegou a se reunir com Rivero, que lhe entregou algumas reses. Diante da ausência total de reforços vindos do continente, os rebeldes passaram a planejar a fuga para a Patagônia em uma balsa improvisada.

Os planos foram interrompidos em janeiro de 1834, com a chegada dos navios britânicos Challenger e Hopeful, que trouxeram novas tropas e o tenente Smith, nomeado comandante das ilhas. A bandeira britânica foi novamente hasteada, e iniciou-se uma verdadeira caçada humana contra os gaúchos e charrúas.

Rivero e seus companheiros fugiram para os cerros, dispostos a lutar até o fim. A perseguição durou cerca de três meses. A fome, o frio e o cansaço enfraqueceram o grupo. Um dos peões, Luna, traiu os companheiros. Outro, Brasido, desertou. Com reforços vindos nos navios Beagle e Adventure, os britânicos conseguiram capturar os sobreviventes.
Rivero acabou preso, algemado e levado com outros cinco homens à Grã-Bretanha, onde foram encarcerados na prisão de Sherness. Após análise do caso, o próprio tribunal inglês reconheceu não haver provas suficientes para condená-los, e os prisioneiros foram devolvidos ao Rio da Prata, desembarcando em Montevidéu.

O destino final de Antonio Rivero permanece parcialmente envolto em incerteza. Há a hipótese, nunca plenamente comprovada, de que ele tenha morrido em 20 de novembro de 1845, lutando pela Confederação Argentina no combate da Vuelta de Obligado, enfrentando novamente potências estrangeiras que buscavam impor sua vontade pela força.

A história do Gaucho Rivero revela uma verdade incômoda: a primeira resistência às Malvinas foi popular, mestiça e marginal. Não nasceu nos salões diplomáticos, mas nos campos, entre homens pobres, armados apenas de coragem, consciência territorial e dignidade.

Rivero não foi um bandido.
Foi um gaúcho platino.
E foi o primeiro resistente armado contra o colonialismo britânico nas Malvinas.

POUCA GENTE SABE, MAS A PALAVRA “GAÚCHO” NÃO NASCEU NO RIO GRANDE DO SUL


A imagem do gaúcho forte, silencioso, de roupas gastas, olhar duro e corpo moldado pelo vento e pela fome não representa o gaúcho folclorizado dos desfiles, das estâncias organizadas e da estética do século XIX. Ela remete a algo muito mais antigo e incômodo: o gaúcho primitivo, anterior às fronteiras, anterior aos Estados nacionais e anterior até mesmo à ideia de Rio Grande do Sul como identidade regional.

É preciso afirmar com clareza histórica: o gaúcho não nasceu gaúcho. Ele foi chamado assim, e não por elogio.

O berço do gaúcho: o mundo platino

A palavra gaúcho surge no espaço do Rio da Prata entre os séculos XVII e XVIII, nos vastos campos que hoje abrangem o Norte Oriental rio-grandense, o Uruguai e a Argentina. Tratava-se de um território sem cercas, sem limites definidos e sem presença efetiva do Estado. Um espaço disputado pelas coroas espanhola e portuguesa, mas, sobretudo, marcado pelo abandono institucional.

Nesse cenário surgem figuras humanas marginais que não se encaixavam nas estruturas coloniais.

Mestiços de indígenas e criollos espanhóis
Indígenas aculturados e missioneiros deslocados
Negros forros ou fugidos
Desertores de exércitos coloniais
Peões sem patrão fixo

Homens livres, porém sem terra e sem lei

Esses homens viviam principalmente da caça do gado cimarrón, gado selvagem espalhado aos milhões pelos campos platinos após o abandono de missões e estâncias coloniais. O cavalo lhes dava mobilidade, o couro lhes dava abrigo e a solidão lhes moldava o caráter.

O significado original da palavra “gaúcho”

Aqui está um ponto que muitos ignoram ou preferem ignorar. A palavra gaúcho nasce como termo pejorativo. Nos documentos espanhóis do século XVIII, gaúcho aparece associada a expressões como:

vago, vagabundo
malentretenido, mal-afamado
cuatrero, ladrão de gado
andarilho
hombre sin oficio ni ley

Para as autoridades coloniais, o gaúcho era um problema social. Um homem armado, errante, difícil de controlar, que não se submetia ao trabalho regular, à disciplina da Igreja ou à ordem do Estado.

Há diversas hipóteses etimológicas para o termo:

Do quíchua huachu, órfão ou abandonado
De raízes árabes como chaucho, condutor de animais

De termos híbridos surgidos na fronteira hispano-indígena

Independentemente da origem exata, o sentido social é inequívoco. Gaúcho era aquele que não tinha dono, nem terra, nem lei fixa.

O gaúcho antes do mito

O gaúcho original não usava bombacha, não dançava em CTGs, não declamava poesia e não cultivava orgulho regional organizado.

Vestia o que tinha.
Couro cru
Ponchos gastos
Botas de couro de potro
Facão à cintura
Boleadeiras

Mate amargo como companhia constante

Vivendo à margem, deslocava-se conforme o gado, os conflitos e as oportunidades. Sua moral era própria. Sua justiça, pessoal. Sua liberdade, absoluta e exatamente por isso perigosa aos olhos do poder colonial.

Da marginalidade ao herói regional

A transformação do gaúcho em símbolo positivo não foi espontânea. Ela ocorre no século XIX, quando os Estados nacionais do Prata passam a precisar de soldados, identidade coletiva e símbolos populares mobilizadores.

No Norte Oriental rio-grandense, no Uruguai e na Argentina, o antigo gaúcho marginal passa a ser recrutado, disciplinado e romantizado. Aquilo que antes era visto como defeito, rusticidade, independência e rebeldia, passa a ser reinterpretado como virtude.

Mas é fundamental compreender que  o gaúcho não nasceu herói. Ele foi excluído antes de ser exaltado.

O gaúcho é platino, não apenas rio-grandense
Afirmar que o gaúcho nasceu exclusivamente no Rio Grande do Sul é um anacronismo histórico. O gaúcho é anterior às fronteiras, às bandeiras e às identidades regionais modernas.

Sua origem é platina, fronteiriça, mestiça e marginal. O que o Rio Grande do Sul fez, e fez bem, foi incorporar essa figura, preservá-la, moldá-la e transformá-la em símbolo cultural estudual. Mas não a criou do zero.

Entender o gaúcho é entender a fronteira

A imagem que inspira este texto não retrata um personagem folclórico. Ela revela um homem forjado pela solidão, pela pobreza, pela liberdade sem romantismo e pela luta diária contra a natureza e contra o poder.

Conhecer a verdadeira origem da palavra gaúcho não diminui o orgulho, mas o aprofunda. Porque a honra não está na fantasia confortável, e sim na verdade histórica.

E a verdade é esta. O gaúcho nasceu livre antes de ser aceito, rejeitado antes de ser exaltado e marginal antes de se tornar símbolo.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

ENTENDA POR QUE O NORTE ORIENTAL DO PRATA (ATUAL RIO GRANDE DO SUL) NÃO TEM NADA A VER COM O BRASIL (E PORQUE ISSO NÃO É OFENSA, É HISTÓRIA)


A imagem dos três gaúchos, lado a lado, montados em cavalos crioulos no pampa aberto, diz mais do que muitos manuais escolares. Um empunha a bandeira do atual Rio Grande do Sul, outro a do Uruguai, outro a da Argentina. Mudam os símbolos nacionais posteriores, mas o corpo, a postura, o olhar, a paisagem e o chão sob os cascos permanecem os mesmos.

Isso não é coincidência.

É resultado de um mesmo processo histórico.
Quando se afirma que o atual Rio Grande do Sul “não tem nada a ver com o Brasil”, não se trata de uma negação jurídica ou institucional. Trata-se de uma afirmação histórica, cultural e civilizatória. No período das reduções jesuíticas, esse território não existia como entidade brasileira. Ele integrava o espaço oriental do Vice-Reino do Rio da Prata e era conhecido como Norte Oriental, parte inseparável da Província Oriental e do mundo platino. As cidades missioneiras ali estabelecidas eram cidades hispano-guaranis, organizadas, produtivas e plenamente integradas à ordem virreinal espanhola.

O gaúcho não é um povo étnico homogêneo nem europeu transplantado. Ele se formou como um povo mestiço, resultado direto da fusão entre criollos de matriz espanhola e populações indígenas missioneiras, sobretudo guaranis. Posteriormente, esses gaúchos mestiços incorporaram colonos açorianos e, já no século XIX, imigrantes germânicos e italianos, que não substituíram a cultura existente, mas adotaram os costumes, práticas e valores do gaúcho já formado. Portanto, não se trata de uma afirmação racial, mas histórica: a matriz do Norte Oriental é platina, missioneira e hispano-guarani, não luso-tropical.

O Norte Oriental do Prata não nasceu brasileiro. Essa é a primeira chave para compreender sua singularidade. Enquanto grande parte do Brasil colonial foi estruturada a partir do litoral atlântico, da plantation, da economia açucareira e da escravidão em larga escala, o Norte Oriental se formou em um contexto completamente distinto: disputa entre impérios, guerra permanente de fronteira, território aberto e pecuária extensiva organizada pelas reduções jesuíticas. Aqui, a fronteira nunca foi um limite fixo. Sempre foi um espaço ativo de circulação, integração e conflito dentro do mundo platino.

Durante séculos, o atual território rio-grandense esteve juridicamente, economicamente e culturalmente inserido no Vice-Reino do Rio da Prata. A vida cotidiana era castelhana, a organização social era missioneira e a lógica econômica estava orientada para os circuitos do Prata. O Norte Oriental fazia parte de um mesmo contínuo humano que incluía a Província Oriental, Assunção e as regiões missioneiras do interior. O gaúcho pampeano surge exatamente desse espaço compartilhado, como homem do cavalo, do campo aberto e do gado criado coletivamente nas estâncias missioneiras.

As pesquisas históricas demonstram que o povoamento do Norte Oriental não foi obra de bandeirantes paulistas nem de um suposto “vazio demográfico”. Pelo contrário. Esse território foi desbravado, organizado e vivido pelas populações indígenas missioneiras, que abriram caminhos, estabeleceram rotas comerciais, criaram rebanhos e estruturaram uma rede de circulação que ligava o interior do continente ao estuário do Prata. Todas as estradas do Norte Oriental rio-grandino eram caminhos missioneiros, utilizados para o comércio, o deslocamento de gado e a integração entre reduções.

Essas mesmas rotas indígenas missioneiras seriam posteriormente apropriadas e reutilizadas no tropeirismo gaúcho e, mais tarde, na lógica econômica das charqueadas. Não houve criação luso-brasileira desses caminhos. Houve apropriação de uma infraestrutura pré-existente, construída por uma civilização missioneira que a historiografia brasileira insistiu em apagar ou minimizar.

O pampa, como unidade geográfica e cultural, não reconhece fronteiras nacionais posteriores. Ele atravessa o Norte Oriental, a Província Oriental e a região platina argentina sem qualquer ruptura ambiental. Onde o território é contínuo, a cultura também o é. É por isso que o chimarrão, o cavalo crioulo, a bombacha, a milonga, a payada e o canto narrativo pertencem a um mesmo universo cultural platino, do qual o Norte Oriental sempre fez parte.

A identidade do gaúcho formado no Norte Oriental nunca se orientou para o Norte tropical do Brasil. Ela se estruturou lateralmente, dentro do eixo platino. O comércio, as alianças políticas, os casamentos e as guerras do século XVIII e XIX ocorreram nesse espaço comum. A Revolução Farroupilha, por exemplo, só pode ser compreendida como um conflito regional platino, com apoio, refúgio e inspiração vindos da Província Oriental e das Províncias Unidas do Prata, e não como um episódio isolado da história brasileira.

O clima reforça essa distinção. Enquanto o Brasil colonial se pensou como tropical, o Norte Oriental sempre foi subtropical e temperado, marcado por frio, ventos, geadas e invernos rigorosos. Isso moldou arquitetura, vestimenta, alimentação e relações sociais de forma muito mais próxima ao mundo platino do que ao Brasil atlântico.

A língua falada nesse território também denuncia sua origem. O português atual do Rio Grande do Sul está impregnado de castelhanismos herdados diretamente do espanhol do Prata. Esses elementos linguísticos não são empréstimos recentes, mas vestígios de um passado em que o Norte Oriental fazia parte de um mesmo espaço cultural hispano-guarani.

Dizer que o atual Rio Grande do Sul não tem nada a ver com o Brasil, portanto, não é negar sua condição política contemporânea. É reconhecer que sua formação histórica ocorreu fora da matriz colonial brasileira. O Norte Oriental foi conquistado, reordenado à força e incorporado tardiamente ao Brasil por meio da guerra, da diplomacia imperial e da destruição deliberada do mundo missioneiro hispano-guarani.

A ocupação luso-brasileira não foi espontânea nem civilizadora. Foi uma conquista violenta que implicou a destruição de uma ordem social existente, plenamente funcional e integrada ao Vice-Reino do Rio da Prata. Os bandeirantes não desbravaram o Norte Oriental. Eles invadiram um território já vivido, apropriando-se de caminhos indígenas missioneiros, de rebanhos coletivos e de uma economia estruturada.

No fim das contas, o desconforto que essa leitura provoca vem do fato de que ela desmonta o mito fundador da historiografia brasileira. O Norte Oriental não foi um apêndice natural do Brasil. Foi um território platino conquistado. Reconhecer isso não diminui ninguém. Pelo contrário. Devolve densidade histórica a uma região que sempre foi tratada como margem, quando na verdade foi centro de uma das experiências civilizatórias mais complexas e promissoras do sul da América.

domingo, 4 de janeiro de 2026

Imperialismo em Crise, Ilusões Geopolíticas e o Retorno do Mundo ao Regionalismo



A política externa dos Estados Unidos vive um momento de contradição evidente. Enquanto Washington tenta reafirmar sua condição de potência hegemônica, cada nova frente de conflito revela os limites reais de um império que já não consegue organizar o mundo segundo seus interesses. A tentativa de restaurar a Doutrina Monroe nas Américas ocorre ao mesmo tempo em que os Estados Unidos seguem sustentando a Ucrânia como instrumento de desgaste da Rússia, estimulam mudanças de regime no Oriente Médio para favorecer Israel e procuram cercar a China no Mar do Sul da China e em Taiwan. Esse acúmulo de iniciativas não expressa força, mas insegurança estratégica.

Essa lógica não é nova. Faz parte do funcionamento histórico do imperialismo liberal atlantista. Diante da perda de capacidade produtiva e de legitimidade política, o centro anglo-americano recorre à fragmentação regional, à terceirização de guerras aos movimentos terroristas ou revoluções coloridas, ao uso de sanções, visando desestabilizar internamente países soberanos. O problema é que esse método já não entrega os resultados de décadas anteriores. E quando a realidade desmente o discurso, surgem narrativas fantasiosas para preservar a aparência de controle.

Um episódio recente ilustra bem esse mecanismo. Quando setores das forças armadas sírias traíram Bashar al-Assad, muitos pseudo entendedores fizeram análises geopolíticas rapidamente para explicarem o ocorrido como fruto de um suposto acordo secreto entre Putin e Trump. Segundo essa versão, a Rússia teria entregue a Síria em troca da Ucrânia. O argumento era frágil desde o início. Trump sequer ocupava a presidência dos Estados Unidos naquele momento. Mais do que isso, os fatos posteriores desmontaram completamente essa fantasia.

Não houve entrega alguma. Os Estados Unidos novamente clm Trump continuaram apoiando a Ucrânia, cumprindo integralmente os contratos firmados durante o governo Biden. O envolvimento norte americano foi além, com fornecimento de apoio logístico e de inteligência para operações dentro do território russo. Chegou-se inclusive a falar recentemente em um atentado contra uma residência de Vladimir Putin. Nenhuma agência ucraniana teria autonomia para tentar algo dessa magnitude sem coordenação ou autorização da CIA. A realidade expôs o caráter ilusório da narrativa do grande acordo.

Agora a mesma lógica reaparece sob outra forma. Difunde-se a ideia de que Putin teria trocado a Venezuela pela Síria. Mais uma vez, trata-se de uma construção sem qualquer base material. A Rússia nunca teve a Venezuela para poder entregá-la. Moscou não possui bases militares no país, ao contrário do que ocorre na Síria. Não há forças russas sequer próximas geograficamente da Venezuela. Bastaria um mínimo de noção de geografia para perceber o absurdo dessa tese.

A suposição de que a Rússia teria condições práticas de intervir militarmente na Venezuela, nas circunstâncias atuais, é tão irreal quanto acreditar que a OTAN poderia ampliar indefinidamente seu apoio à Ucrânia além do que já faz. Quando se busca compreender os impasses venezuelanos, faz muito mais sentido observar o papel concreto de países regionalmente envolvidos, como Brasil e Colômbia, do que recorrer a explicações imaginárias baseadas em conspirações globais.

Essas narrativas não são apenas erros de análise. Elas cumprem uma função ideológica clara. Servem para manter viva a ilusão de um mundo governado por grandes acordos secretos entre líderes, quando, na realidade, o sistema internacional passa por uma transformação estrutural profunda. Na Eurásia, no Oriente Médio, na Ásia Central e na Ásia Oriental, os Estados Unidos enfrentam processos que escapam ao seu controle direto, sobretudo a ascensão da China como potência produtiva, tecnológica e civilizacional.

A China não construiu seu poder a partir da especulação financeira ou de guerras de saque. Sua força deriva do planejamento estatal, da soberania industrial, do investimento em infraestrutura e do controle estratégico do crédito. A Rússia, apesar do cerco e das sanções, mantém autonomia energética, capacidade industrial e coesão interna. Esses elementos minam a pretensão universalista do liberalismo, que já não consegue se impor nem pelo discurso moral nem pela força militar direta.

A diferença entre os blocos em disputa torna-se cada vez mais evidente. A Rússia opera dentro de uma lógica regional, visando recuperar territórios que, por erros históricos e administrativos da União Soviética, criaram a Ucrânia como um Estado artificial soberano. Os Estados Unidos, por outro lado, atuam segundo a sua lógica histórica predatória global, exigindo acesso a recursos naturais de nações. Age-se como se os recursos do mundo pertencessem por direito aos norte americanos, amparados pela ideia quase teológica de um povo escolhido.

O colapso do unipolarismo liberal não significa desordem, mas transição. O mundo tende a se reorganizar segundo linhas regionalistas, com grandes tecnatos-continentais mais fortes, integração produtiva entre países vizinhos e recuperação do papel do trabalho como eixo central da vida social e econômica.

Na América Latina, a tentativa de ressuscitar a Doutrina Monroe expressa o temor de Washington diante da possibilidade do nosso continente buscar um caminho de autonomia política, industrial e energética. Um continente que comece a pensar em termos de povo, nação e justiça social, e não como simples fornecedor de commodities baratas e mão de obra precarizada enquanto um estado periférico da América d Norte.

O imperialismo liberal está desesperado para manter suas estruturas decréptas. E quanto maior o desespero, mais depende de narrativas artificiais para disfarçar sua decadência. O futuro não será decidido por acordos imaginários nem por slogans morais, mas pela capacidade real das nações de planejar, produzir, integrar-se regionalmente e colocar o trabalho e o povo no centro da política.