segunda-feira, 9 de março de 2026
CONEXÃO DE NIETZSCHE COM O BOLCHEVISMO
Carl Schmitt: Profeta do Século XXI?
Alain de Benoist
Nesta entrevista, Alain de Benoist reflete sobre o duradouro legado intelectual do jurista e teórico político alemão Carl Schmitt por ocasião de um novo número de 300 páginas da revista Nouvelle École dedicado à sua obra.
A edição nº 75 da revista Nouvelle École, editada por Alain de Benoist, é dedicada a Carl Schmitt, “o último dos grandes clássicos do pensamento jurídico e político”, cujas ideias (como a distinção amigo/inimigo, o Nomos da Terra, o estado de exceção, a teoria do partisano, etc.) lançam luz sobre crises contemporâneas: guerras assimétricas, multipolaridade, o fim do liberalismo universalista. Nesta entrevista, Alain de Benoist discute os diferentes aspectos do dossiê e a relevância do pensamento schmittiano hoje.
Éléments: Em sua introdução a esta edição da Nouvelle École, você escreve: “Carl Schmitt nunca foi nazista.” O que lhe permite ser tão categórico diante dessa acusação frequentemente repetida contra o pensador alemão?
Alain de Benoist: Simplesmente o fato de que suas ideias divergem da ideologia nazista em pontos essenciais. Carl Schmitt rejeitava o racismo biológico, o darwinismo social, a noção de “guerra total” e o conceito de “inimigo absoluto”. Seu antissemitismo deriva do antijudaísmo cristão. Em 1932, um ano antes de Hitler chegar ao poder, ele defendia a proibição do NSDAP. As razões para sua filiação ao partido nazista em maio de 1933 continuam debatidas, mas o oportunismo parece ter desempenhado um papel significativo. A ambiguidade terminou em 1936, quando Schmitt foi ferozmente denunciado pela revista da SS Das Schwarze Korps. Ele foi acusado, entre outras coisas, de ser um representante do “catolicismo político”, de ter apoiado o governo de Schleicher, de ser na realidade um “amigo dos judeus” e de defender uma concepção de “grande espaço” (Großraum) que diferia completamente da ideia nacional-socialista de “espaço vital” (Lebensraum). Ele perdeu imediatamente todos os seus cargos dentro do partido e manteve apenas seu posto de professor na Universidade de Berlim. Nessa época, estava muito próximo do conservador Johannes Popitz, que seria enforcado em fevereiro de 1945 após a tentativa de assassinato contra Hitler em julho de 1944. Preso pelos americanos, Carl Schmitt foi libertado em 1947 sem que nenhuma acusação tivesse sido formalmente apresentada contra ele. Os adversários de Schmitt sempre se concentraram nos três anos de sua colaboração com o regime de Hitler, o que os dispensa de tentar refutá-lo. Aqueles que realmente o leem sabem que o coração de seu pensamento está sobretudo no que publicou durante a República de Weimar e após a guerra, a partir dos anos 1950.
Éléments: O que, na sua opinião, torna Schmitt particularmente relevante em 2026, especialmente para pensar os conflitos e tensões atuais?
Alain de Benoist: Até hoje mais de 800 livros foram dedicados a Carl Schmitt, o que já demonstra sua importância — mas também sua contínua atualidade. Seu trabalho como jurista e teórico constitucional, bem como sua crítica metódica ao liberalismo e ao positivismo jurídico, não envelheceram em nada. Sua definição do “Político” (das Politische) — em oposição à política — através da dialética amigo-inimigo continua a gerar debates apaixonados entre cientistas políticos no mundo inteiro.
As guerras de descolonização foram antecipadas em sua Teoria do Partisano. Seus dois livros sobre Teologia Política (1922 e 1969) lançam luz decisiva sobre o fenômeno da secularização. O surgimento contínuo de um mundo multipolar conecta-se naturalmente ao que ele escreveu sobre os “grandes espaços” (Großräume) e sobre a crise do Estado-nação em um mundo que já não é um universum, mas um pluriversum (um “multiverso”). Sua teoria geopolítica do antagonismo histórico entre os poderes da Terra e os poderes do Mar (ver seu livro Terra e Mar) é mais válida do que nunca. Sua crítica às “guerras discriminatórias” encontra eco na proliferação das guerras “humanitárias”, que, rompendo com a concepção westfaliana de inimizade, marcam um retorno à ideia essencialmente teológica e moral de “guerra justa”, na qual o inimigo não é visto como um adversário momentâneo, mas como um criminoso e culpado que pode legitimamente ser colocado fora da humanidade.
O mesmo ocorre com o retorno do estado de exceção, hoje florescendo praticamente em toda parte, o que nos lembra que soberano é aquele que decide no caso excepcional — isto é, no momento em que o colapso das normas torna impossível uma governança puramente procedimental. Poderíamos multiplicar os exemplos. Foi exatamente isso que fiz em 2007 em meu livro Carl Schmitt Today (Arktos, 2013).
Éléments: É necessário já estar familiarizado com a obra de Carl Schmitt para abordar esta edição da Nouvelle École, ou ela pode servir como porta de entrada?
Alain de Benoist: Sempre é preferível, ao ler um livro sobre um autor, já ter lido uma ou duas de suas obras. Dito isso, a mais recente edição da Nouvelle École pode muito bem servir como uma oportunidade para descobrir o pensamento de Carl Schmitt. O índice deixa isso muito claro: esta edição de 300 páginas contém não apenas textos inéditos de Carl Schmitt, bem como trechos de sua correspondência com o cientista político italiano Norberto Bobbio — desconhecida na França —, mas também artigos substanciais: “Constituição e Direito Constitucional em Carl Schmitt”, de Agostino Carrino; “Carl Schmitt e Joseph de Maistre”, de Graeme Garrard; “Carl Schmitt e o Elemento Telúrico”, de Jerónimo Molina; “Um Monumento Schmittiano: O Nomos da Terra”, de Martin Motte; “Carl Schmitt e a Eurásia”, de Massimo Maraviglia; “Carl Schmitt e o ‘Choque de Civilizações’ de Samuel Huntington”, de Joseph W. Bendersky; entre outros.
A isso se somam diversos documentos, incluindo uma carta de Carl Schmitt a Jean-Pierre Faye, um dossiê sobre a notável influência de Schmitt na China contemporânea por Flora Sapio e Daniele Perra, e muitos outros textos que o leitor descobrirá por si mesmo — entre eles uma reflexão crítica que escrevi sobre o par amigo-inimigo como critério do Político, bem como um artigo de Julius Evola sobre Schmitt e Thomas Hobbes.
No final da edição, os leitores encontrarão a primeira bibliografia completa de toda a obra de Carl Schmitt atualmente disponível em francês e também, na seção “Varia”, uma curiosidade: um artigo do jovem Ernst Jünger dedicado às memórias de Trotsky!
Éléments: Schmitt hoje é invocado por correntes muito diversas, tanto da “direita” quanto da “esquerda”: teóricos russos da multipolaridade, pensadores soberanistas pós-liberais nos Estados Unidos, críticos do direito humanitário internacional. Você acha que estamos testemunhando uma total “normalização” do pensamento schmittiano?
Alain de Benoist: Não se trata propriamente de um fenômeno de normalização, mas sim da prova de que as mais diversas tradições intelectuais podem encontrar em Carl Schmitt algo para alimentar seu pensamento. Em outras palavras, é a prova de que Schmitt já foi firmemente estabelecido como um clássico: qualquer estudioso sério é obrigado a referenciar Carl Schmitt assim como deve referenciar Aristóteles, Maquiavel, Hobbes, Locke, Rousseau, Hegel, Max Weber e assim por diante.
Éléments: Desde a Operação “Absolute Resolve” na Venezuela e as declarações de Trump sobre a “esfera de influência” americana no hemisfério ocidental (Groenlândia, Canal do Panamá, etc.), alguns comentaristas invocaram explicitamente os Großräume de Schmitt como estrutura para interpretar a política externa do Trump 2.0. Você acha que essa administração está implementando, consciente ou inconscientemente, uma forma contemporânea do “Großraum schmittiano” — uma ordem multipolar de zonas hegemônicas em vez de uma ordem universalista?
Alain de Benoist: Não, não acredito que Schmitt — assim como Leo Strauss — seja a “inspiração secreta” de Donald Trump, que muito provavelmente nunca o leu. O que pode ser relacionado às intuições proféticas de Carl Schmitt é o surgimento contínuo de uma multipolaridade na qual os “grandes espaços” correspondem mais ou menos a esses novos atores das relações internacionais chamados de “Estados civilizacionais”.
Trump é sensível a esse movimento, mas o aceita apenas parcialmente, pois sabe muito bem que a multipolaridade necessariamente limitará a hegemonia americana, o que vai diretamente contra o slogan MAGA (“Make America Great Again”). Pode-se ver claramente, além disso, que, longe de se restringir apenas ao “Hemisfério Ocidental”, ele não hesita em intervir em qualquer parte do mundo (Irã, Iêmen, Nigéria, Oriente Médio, etc.) para defender o que considera corresponder aos interesses de seu país — o que significa que não hesita em afirmar sua soberania às custas da soberania dos outros, particularmente dos europeus.
Por outro lado, sua paixão por guerras comerciais, bem como sua aliança com os “tecnofuturistas” do Vale do Silício, deixa claro que, para ele, o Político é dissolúvel no econômico e no comercial — o que não é muito schmittiano…
Entrevista conduzida por Xavier Eman
Publicado originalmente em Éléments em 23 de fevereiro de 2026.
Tradução Guilherme Fernandes
Fonte: https://www.geopolitika.ru/en/article/carl-schmitt-prophet-21st-century
domingo, 8 de março de 2026
O Destino Final do Liberalismo: Do Rothbardismo aos Tecnatos Continentais
A teoria libertária formulada por Murray Rothbard pode ser entendida como uma das expressões mais extremas do individualismo liberal moderno. Em obras como The Ethics of Liberty e For a New Liberty: The Libertarian Manifesto, Rothbard leva até o limite a lógica liberal que coloca o indivíduo e a propriedade privada acima de qualquer forma de comunidade política ou tradição histórica.
No argumento rothbardiano, muitos dos conflitos sociais contemporâneos poderiam desaparecer caso a sociedade fosse completamente privatizada. Territórios, cidades e bairros deixariam de pertencer a Estados e passariam a ser propriedades privadas administradas por indivíduos, empresas ou comunidades contratuais. Cada localidade definiria suas próprias regras de convivência. Algumas permitiriam práticas como pornografia, prostituição, drogas ou aborto, enquanto outras poderiam proibir tais práticas. A diversidade de normas não seria decidida por um poder político comum, mas pelo simples direito de propriedade e pela livre associação.
A proposta parece simples e até elegante dentro da lógica libertária. Contudo, quando analisada de uma perspectiva crítica ao liberalismo, próxima das reflexões civilizacionais de Aleksandr Dugin, o que aparece não é uma solução para os problemas da modernidade, mas o estágio final do próprio processo de dissolução liberal.
Nesse modelo, a sociedade deixa de existir como realidade orgânica. O povo, a cultura, a tradição e a memória histórica deixam de ser elementos estruturantes da vida coletiva. Tudo se reduz a contratos privados entre indivíduos e proprietários. O território deixa de ser o espaço histórico de uma comunidade e passa a ser apenas um bem econômico que pode ser comprado, vendido ou administrado como qualquer outro ativo.
Com isso desaparece também a própria ideia de nação. Aquilo que durante séculos foi compreendido como pátria, como espaço de pertencimento de um povo, transforma-se em uma coleção de propriedades privadas sem vínculo comum. A moral pública deixa de existir como referência coletiva. Cada enclave territorial passa a definir seus próprios limites morais de acordo com os interesses de seus proprietários ou administradores.
O resultado imediato dessa lógica seria uma fragmentação profunda da sociedade. O mundo se tornaria um mosaico de pequenos territórios privados, cada um regido por regras diferentes e por interesses particulares. A comunidade política, entendida como unidade histórica e cultural, desapareceria completamente.
Entretanto, essa fragmentação não seria o ponto final do processo. Com o tempo, a própria dinâmica econômica tenderia a concentrar poder nas mãos de grandes conglomerados corporativos e financeiros. Empresas tecnológicas, fundos de investimento e grandes corporações acabariam acumulando extensas áreas territoriais privatizadas e estruturas de governança próprias.
A partir desse processo surgiriam verdadeiros tecnatos continentais. Não seriam Estados no sentido clássico, mas grandes blocos administrados por elites tecnocráticas e corporativas. A autoridade não viria de um povo ou de uma tradição política, mas da propriedade e do capital. A política seria substituída pela administração técnica e pela gestão empresarial do território.
Nesse sentido, o resultado final do rothbardismo poderia ser descrito como uma forma peculiar de multipolaridade liberal. O mundo não seria organizado por civilizações ou nações soberanas, mas por grandes polos corporativos que administrariam vastas regiões do planeta. Cada um desses polos funcionaria como um sistema privado de governança, baseado em contratos, propriedade e gestão tecnocrática.
Assim, aquilo que começa como um projeto radical de liberdade individual termina abrindo caminho para uma nova forma de poder concentrado. A promessa libertária de emancipação do indivíduo dissolve as estruturas orgânicas da sociedade e prepara o terreno para uma ordem global administrada por grandes centros corporativos.
Sob essa perspectiva, o rothbardismo não representa uma ruptura real com o liberalismo dominante. Ele apenas leva o liberalismo às suas últimas consequências. Quando todas as instituições históricas são dissolvidas em nome da liberdade individual absoluta, o que resta não é uma comunidade mais livre, mas um mundo fragmentado e posteriormente reorganizado em grandes estruturas tecnocráticas onde a própria ideia de povo, tradição e destino coletivo perde qualquer significado.
Bibliografia sugerida
Rothbard, Murray.
The Ethics of Liberty. New York: New York University Press, 1982.
Rothbard, Murray.
For a New Liberty: The Libertarian Manifesto. New York: Macmillan, 1973.
Rothbard, Murray.
The Anatomy of the State. Auburn: Ludwig von Mises Institute, 2009.
Rothbard, Murray.
Nations by Consent. Auburn: Ludwig von Mises Institute.
Hoppe, Hans-Hermann.
Democracy: The God That Failed. New Brunswick: Transaction Publishers, 2001.
Hoppe, Hans-Hermann.
A Theory of Socialism and Capitalism. Boston: Kluwer Academic Publishers, 1989.
Dugin, Aleksandr.
The Fourth Political Theory. London: Arktos Media, 2012.
Dugin, Aleksandr.
Foundations of Geopolitics. Moscow: Arktogeia.
Lasch, Christopher.
The Revolt of the Elites and the Betrayal of Democracy. New York: W.W. Norton, 1995.
Fonte adicional útil
Gray, John.
False Dawn: The Delusions of Global Capitalism. London: Granta Books, 1998.