Este artigo examina a fratura interna que marcou o pós independência no Prata e na América do Sul, contrapondo o projeto soberanista e estatal de Bolívar e Rosas ao federalismo radical de José Artigas. Ao analisar essas divergências, o texto demonstra como a casta unitária liberal, centrada nos portos e nos interesses atlânticos, rejeitou ambos os caminhos por ameaçarem seu controle econômico e político. A conclusão aponta que o projeto emancipatório original foi derrotado menos por suas contradições internas e mais pela opção deliberada das elites por uma independência formal sem soberania real.
A história das independências no Cone Sul não foi marcada apenas pelo confronto contra a metrópole espanhola, mas por uma disputa interna profunda sobre o sentido da própria emancipação. A divergência entre os valores de Simón Bolívar e Juan Manuel de Rosas, de um lado, e os de José Artigas, de outro, revela dois caminhos distintos para a construção política da América pós colonial. Essa fratura ajuda a explicar por que o projeto independentista original acabou sendo renegado e esvaziado pela casta porteña unitária.
Bolívar e Rosas partem de uma mesma constatação histórica: a independência cria um vazio de poder que, se não for preenchido por uma autoridade forte e unificadora, será ocupado pela fragmentação interna ou pela ingerência estrangeira. Para ambos, a soberania não é uma abstração jurídica, mas uma realidade concreta sustentada pela centralização política, pela disciplina social e pela capacidade de decisão. A liberdade, nesse horizonte, não antecede a ordem, mas nasce dela.
José Artigas representa uma lógica distinta. Seu projeto político nasce de uma sensibilidade federal radical, profundamente enraizada nas autonomias locais, nos cabildos e nas comunidades do interior. Artigas desconfiava de qualquer centralização forte e via no poder concentrado um risco de reprodução das estruturas coloniais. Sua concepção de soberania era horizontal, baseada na autonomia das províncias, na participação local e em uma ideia quase confederativa de organização política.
Essa diferença não é meramente administrativa, mas ontológica. Para Bolívar e Rosas, o Estado deve preceder a nação para que a nação possa existir. Para Artigas, a nação emerge de baixo para cima, da soma das autonomias locais. O problema é que esse modelo, embora moralmente atraente, mostrou se politicamente inviável em um contexto de guerra, disputas regionais e pressão constante das potências atlânticas.
É nesse ponto que a casta porteña unitária entra como força decisiva. A elite comercial de Buenos Aires não rejeita Artigas por suas ideias democráticas ou federais, mas porque seu projeto ameaçava o controle do porto, das rendas aduaneiras e da inserção dependente no comércio internacional. O federalismo artiguista não interessava porque não subordinava as províncias ao eixo portuário, mas tampouco interessava um soberanismo forte à maneira de Rosas, que confrontava diretamente os interesses britânicos e limitava o poder das elites ilustradas.
Assim, os unitários porteños constroem uma operação dupla. Demonizam Artigas como bárbaro e anárquico, enquanto rotulam Rosas e Bolívar como tiranos. O que está em jogo não é a forma de governo, mas o controle econômico e político do Estado. O projeto independentista original, que articulava emancipação política, soberania econômica e identidade própria, é substituído por uma independência formal, compatível com a dependência externa e com o liberalismo oligárquico.
Artigas acaba isolado e derrotado não apenas militarmente, mas historicamente. Sua proposta federal radical não encontra base material para se sustentar sem um centro de poder capaz de defendê la. Bolívar morre amargurado, vendo seu projeto continental ruir diante do legalismo liberal e da fragmentação. Rosas, que tentou sintetizar autoridade e federalismo sob uma forma soberanista, é derrubado quando se torna um obstáculo direto aos interesses da elite portuária e de seus aliados externos.
O resultado desse processo é a consolidação de Estados frágeis, formalmente republicanos, mas estruturalmente dependentes. A independência é mantida como mito fundador, enquanto seu conteúdo político real é progressivamente esvaziado. A ruptura com a Espanha não se converte em ruptura com a lógica colonial, apenas muda seus administradores.
Compreender a divergência entre Bolívar, Rosas e Artigas é essencial para entender o fracasso do projeto emancipatório original. Não se tratou de uma disputa entre autoritarismo e liberdade, mas entre soberania concreta e autonomia dispersa, ambas derrotadas, em última instância, por uma elite que nunca pretendeu fundar uma nação, mas apenas gerir um território integrado ao sistema atlântico em posição subalterna.