sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

O projeto renegado: Artigas, a soberania continental e a traição da casta unitária

Este artigo examina a fratura interna que marcou o pós independência no Prata e na América do Sul, contrapondo o projeto soberanista e estatal de Bolívar e Rosas ao federalismo radical de José Artigas. Ao analisar essas divergências, o texto demonstra como a casta unitária liberal, centrada nos portos e nos interesses atlânticos, rejeitou ambos os caminhos por ameaçarem seu controle econômico e político. A conclusão aponta que o projeto emancipatório original foi derrotado menos por suas contradições internas e mais pela opção deliberada das elites por uma independência formal sem soberania real.

A história das independências no Cone Sul não foi marcada apenas pelo confronto contra a metrópole espanhola, mas por uma disputa interna profunda sobre o sentido da própria emancipação. A divergência entre os valores de Simón Bolívar e Juan Manuel de Rosas, de um lado, e os de José Artigas, de outro, revela dois caminhos distintos para a construção política da América pós colonial. Essa fratura ajuda a explicar por que o projeto independentista original acabou sendo renegado e esvaziado pela casta porteña unitária.

Bolívar e Rosas partem de uma mesma constatação histórica: a independência cria um vazio de poder que, se não for preenchido por uma autoridade forte e unificadora, será ocupado pela fragmentação interna ou pela ingerência estrangeira. Para ambos, a soberania não é uma abstração jurídica, mas uma realidade concreta sustentada pela centralização política, pela disciplina social e pela capacidade de decisão. A liberdade, nesse horizonte, não antecede a ordem, mas nasce dela.

José Artigas representa uma lógica distinta. Seu projeto político nasce de uma sensibilidade federal radical, profundamente enraizada nas autonomias locais, nos cabildos e nas comunidades do interior. Artigas desconfiava de qualquer centralização forte e via no poder concentrado um risco de reprodução das estruturas coloniais. Sua concepção de soberania era horizontal, baseada na autonomia das províncias, na participação local e em uma ideia quase confederativa de organização política.

Essa diferença não é meramente administrativa, mas ontológica. Para Bolívar e Rosas, o Estado deve preceder a nação para que a nação possa existir. Para Artigas, a nação emerge de baixo para cima, da soma das autonomias locais. O problema é que esse modelo, embora moralmente atraente, mostrou se politicamente inviável em um contexto de guerra, disputas regionais e pressão constante das potências atlânticas.

É nesse ponto que a casta porteña unitária entra como força decisiva. A elite comercial de Buenos Aires não rejeita Artigas por suas ideias democráticas ou federais, mas porque seu projeto ameaçava o controle do porto, das rendas aduaneiras e da inserção dependente no comércio internacional. O federalismo artiguista não interessava porque não subordinava as províncias ao eixo portuário, mas tampouco interessava um soberanismo forte à maneira de Rosas, que confrontava diretamente os interesses britânicos e limitava o poder das elites ilustradas.

Assim, os unitários porteños constroem uma operação dupla. Demonizam Artigas como bárbaro e anárquico, enquanto rotulam Rosas e Bolívar como tiranos. O que está em jogo não é a forma de governo, mas o controle econômico e político do Estado. O projeto independentista original, que articulava emancipação política, soberania econômica e identidade própria, é substituído por uma independência formal, compatível com a dependência externa e com o liberalismo oligárquico.

Artigas acaba isolado e derrotado não apenas militarmente, mas historicamente. Sua proposta federal radical não encontra base material para se sustentar sem um centro de poder capaz de defendê la. Bolívar morre amargurado, vendo seu projeto continental ruir diante do legalismo liberal e da fragmentação. Rosas, que tentou sintetizar autoridade e federalismo sob uma forma soberanista, é derrubado quando se torna um obstáculo direto aos interesses da elite portuária e de seus aliados externos.

O resultado desse processo é a consolidação de Estados frágeis, formalmente republicanos, mas estruturalmente dependentes. A independência é mantida como mito fundador, enquanto seu conteúdo político real é progressivamente esvaziado. A ruptura com a Espanha não se converte em ruptura com a lógica colonial, apenas muda seus administradores.

Compreender a divergência entre Bolívar, Rosas e Artigas é essencial para entender o fracasso do projeto emancipatório original. Não se tratou de uma disputa entre autoritarismo e liberdade, mas entre soberania concreta e autonomia dispersa, ambas derrotadas, em última instância, por uma elite que nunca pretendeu fundar uma nação, mas apenas gerir um território integrado ao sistema atlântico em posição subalterna.

Juan Manuel de Rosas e a continuação concreta do projeto libertador legado por San Martín: A permanência dos valores de Bolívar no solo platino

Este artigo analisa Juan Manuel de Rosas como elo histórico entre a independência militar conduzida por San Martín e o projeto soberanista formulado por Simón Bolívar. A partir do legado simbólico do sabre e da condução prática do Estado argentino, o texto mostra como Rosas assumiu a tarefa de preservar a unidade, enfrentar as elites liberais porteñas e resistir à ingerência externa. A análise sustenta que, no espaço platino, Rosas realizou de forma concreta aquilo que em Bolívar permaneceu como necessidade histórica não plenamente consumada.

Juan Manuel de Rosas ocupa um lugar singular na história política do Rio da Prata porque encarna, na prática, aquilo que em Bolívar permaneceu em grande parte como projeto trágico e inacabado. Sua figura não pode ser compreendida apenas como a de um caudilho provincial, mas como a de um continuador concreto da lógica soberanista que emerge após o esgotamento das ilusões liberais da independência. O fato de ter recebido, ainda em vida, o sabre de José de San Martín não foi um gesto simbólico vazio, mas um reconhecimento político profundo.

San Martín não legou seu sabre a um teórico, nem a um parlamentar ilustrado, mas a um homem de poder real. O sabre representa a continuidade da luta pela independência em sua fase mais difícil, aquela que começa quando o inimigo externo já foi derrotado, mas a nação ainda não existe. Ao confiar essa insígnia a Rosas, San Martín reconhecia nele o responsável por preservar a integridade, a soberania e a dignidade da Argentina diante das ameaças internas e externas que se seguiam à ruptura com a Espanha.

Rosas assume para si a tarefa que muitos libertadores evitaram ou fracassaram em cumprir: governar. Em vez de se retirar ou buscar legitimação em fórmulas constitucionais abstratas, ele compreende que a independência havia produzido um vazio de autoridade e que, sem um centro de poder efetivo, o território argentino seria dilacerado por guerras civis, ingerência estrangeira e elites dissociadas do povo real. Sua liderança nasce dessa leitura concreta da situação histórica.

O conflito entre porteños unitários e federalistas expressa precisamente esse dilema. Os unitários, herdeiros diretos do liberalismo ilustrado e do cosmopolitismo comercial de Buenos Aires, defendiam um modelo centralizado subordinado aos interesses portuários e à inserção dependente no comércio internacional. Os federalistas, por outro lado, representavam as províncias, os estancieiros, os caudilhos locais e uma concepção orgânica do território. Rosas não elimina essa tensão por meio de discursos conciliatórios, mas pela imposição de uma autoridade capaz de manter o equilíbrio possível entre essas forças.

Sua habilidade política reside justamente nessa síntese. Embora identificado com o federalismo, Rosas exerce um poder central forte, consciente de que a fragmentação levaria à dissolução da soberania. Ele não nega as províncias, mas também não se submete aos interesses exclusivos de Buenos Aires enquanto projeto liberal unitário. Ao concentrar em si a condução das relações exteriores e da defesa, Rosas estabelece os pilares de uma Confederação Argentina que existe menos no papel e mais na prática do poder.

Nesse sentido, Rosas antecipa e realiza aquilo que Bolívar havia intuído. A soberania não pode ser garantida por constituições frágeis nem por pactos entre elites rivais, mas por uma autoridade capaz de enfrentar tanto a dissensão interna quanto a pressão externa. Sua resistência às intervenções anglo-francesas no Rio da Prata e sua recusa em aceitar imposições comerciais confirmam essa postura. A independência não se limitava à ruptura formal com a metrópole espanhola, mas exigia a defesa ativa da autonomia econômica e política.

Rosas também compreendeu que a ordem precede a liberdade. Não a liberdade abstrata dos salões ilustrados, mas a possibilidade concreta de existência nacional. Essa visão o aproximou do espírito romano da ditadura enquanto um estabilizador da ordem social, organizador das instituições e do bolivarianismo enquanto projeto de unidade e autoridade soberana. Assim como Bolívar, Rosas foi acusado de tirania pelos vencedores do discurso liberal. E assim como Bolívar, foi julgado mais pelos critérios morais de seus adversários do que pelas circunstâncias reais que enfrentou.

Ao final, Juan Manuel de Rosas representa uma linha de continuidade no pensamento político latino americano que passa por San Martín e Bolívar. Uma tradição que entende a política como fundação, não como administração; como poder, não como formalidade jurídica. Seu legado não é o de um sistema constitucional exportável, mas o de uma experiência histórica concreta de soberania em um continente marcado pela fragilidade das autoridades repúblicanas e pela dependência externa.

Revisitar Rosas, à luz desse percurso, é compreender que a independência não termina com a proclamação de uma república. Ela apenas começa. E que, em determinados momentos históricos, a responsabilidade de conduzir uma nação exige mais do que boas intenções ou belas leis. Exige autoridade, decisão e a coragem de sustentar a unidade contra todos os ventos.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Da ilusão imperial à consciência soberana: a evolução política de Bolívar e San Martín

Este artigo analisa a transformação do pensamento político de Simón Bolívar e José de San Martín desde o início das guerras de independência até a consolidação dos novos Estados. Partindo das expectativas iniciais de mediação e apoio britânico, o texto mostra como a experiência concreta da guerra, da diplomacia e da dependência econômica levou ambos a uma postura cada vez mais soberanista. A análise revela que essa mudança não foi uma contradição, mas um amadurecimento diante dos limites reais da liberdade formal no sistema internacional.

No início das revoluções independentistas da América do Sul, a linguagem política dos próprios libertadores revela uma ambiguidade que só pode ser compreendida à luz do contexto histórico. Figuras como José de San Martín e Simón Bolívar não surgem, desde o primeiro momento, como pensadores soberanistas plenamente formados, mas como líderes inseridos em um mundo ainda dominado pelas grandes potências europeias e por suas lógicas imperiais. As cartas e declarações desse período inicial mostram um cálculo estratégico e, em certos casos, uma expectativa real de mediação ou apoio britânico no processo de ruptura com a Espanha.

No começo do século XIX, a Inglaterra aparecia como potência hegemônica emergente e rival direta do Império Espanhol. Para muitos revolucionários americanos, Londres parecia representar uma alternativa menos opressiva, capaz de garantir comércio, reconhecimento diplomático e proteção contra uma possível reconquista. As palavras de San Martín dirigidas ao governo britânico em 1818 refletem esse momento. Ele invoca a tradição inglesa de equilíbrio europeu e apresenta a independência americana como um benefício não apenas local, mas civilizacional, quase como uma continuidade do papel estabilizador que a Inglaterra atribuía a si mesma no mundo pós napoleônico.

Simón Bolívar, em sua célebre carta de 1815, também expressa essa expectativa. Ao falar das imensas esperanças que o Novo Mundo ofereceria à indústria britânica e ao sugerir a centralidade estratégica de regiões como Panamá e Nicarágua, Bolívar dialoga diretamente com a lógica imperial do comércio global. Nesse estágio, a independência ainda aparece parcialmente integrada à ordem mundial existente, como se a libertação política pudesse coexistir com uma tutela econômica indireta.

Essa postura não deve ser lida como ingenuidade moral, mas como pragmatismo político. As revoluções ainda eram frágeis, militarmente instáveis e socialmente fragmentadas. O apoio externo era visto como condição de sobrevivência. No entanto, à medida que a guerra avança e as independências começam a se concretizar no campo de batalha, a percepção desses líderes se transforma de maneira profunda.

Com o colapso do poder espanhol em vastas regiões do continente, torna se evidente que a ameaça à liberdade americana não desapareceria com a expulsão da metrópole ibérica. A Inglaterra, embora não colonial no sentido clássico, passa a exercer uma influência econômica crescente, condicionando mercados, impondo tratados desiguais e moldando as novas elites locais. É nesse momento que tanto San Martín quanto Bolívar começam a abandonar a retórica de conciliação imperial e a adotar uma postura cada vez mais desconfiada em relação às potências externas.

No caso de Bolívar, essa mudança é especialmente nítida. Seu pensamento evolui de uma esperança de integração benéfica ao sistema atlântico para uma crítica cada vez mais dura ao imperialismo disfarçado de liberalismo. A defesa da unidade continental, o projeto da Gran Colômbia e a ideia de uma confederação americana expressam essa virada soberanista. Bolívar passa a compreender que a fragmentação política tornaria a América inevitavelmente dependente, ainda que formalmente livre.

San Martín, por sua vez, manifesta essa transformação de maneira mais silenciosa, mas não menos significativa. Seu afastamento voluntário da política, sua recusa em se tornar caudilho permanente e sua desconfiança crescente das disputas internas revelam um ceticismo profundo quanto ao destino das novas repúblicas sob a influência estrangeira e das elites locais associadas ao comércio internacional. A liberdade conquistada no campo militar não se converteu automaticamente em autonomia real.

O ponto comum entre ambos é a passagem de um horizonte tático para um horizonte estratégico. No início, a independência era o objetivo central. Com sua concretização, surge a pergunta mais difícil: independência para quê e sob quais condições. É nesse momento que o discurso liberal e cosmopolita do começo cede lugar a uma visão mais dura, mais trágica e mais soberanista da política.

Esse deslocamento de valores não é uma contradição, mas um amadurecimento histórico. Os próceres libertadores percebem que a liberdade política sem poder, sem unidade e sem controle do próprio destino econômico é uma liberdade apenas formal. A América não havia trocado de senhores para finalmente se emancipar, mas corria o risco de substituir um império decadente por uma dependência moderna e mais sofisticada.

Ao revisitar essas cartas e esse percurso intelectual, torna se possível compreender que o pensamento soberanista latino americano não nasce pronto. Ele é forjado na experiência concreta da guerra, da independência e, sobretudo, da desilusão. Bolívar e San Martín não mudaram seus valores por oportunismo, mas porque a realidade histórica os obrigou a abandonar ilusões e a encarar a política internacional como ela realmente é. Não como um espaço de filantropia entre nações, mas como um campo permanente de disputa entre poder e submissão.

Entre a autoridade soberana e a legalidade: Bolívar, o destino da Gran-Colômbia e a falsificação liberal da história

Este artigo revisita o significado histórico do termo ditador e sua deturpação moderna, articulando essa discussão com o pensamento político de Simón Bolívar. Ao contrastar o projeto de autoridade fundadora bolivariano com o constitucionalismo liberal representado por Santander, o texto argumenta que a soberania na América nasceu do poder concreto e não da abstração jurídica. A análise busca romper com leituras morais simplificadoras e recolocar o debate no terreno da história, da unidade política e da autodeterminação continental.

Ao longo da história política moderna, certos conceitos foram esvaziados de seu sentido original e transformados em rótulos morais a serviço de interesses específicos. Poucos exemplos são tão evidentes quanto o termo ditador. Utilizado hoje quase exclusivamente como insulto político, ele perdeu sua densidade histórica e passou a funcionar como instrumento retórico das potências liberais para deslegitimar projetos soberanos que escapam à lógica do atlantismo ocidental. Este artigo propõe uma retomada histórica e conceitual desse termo, articulando-o com o pensamento político de Simón Bolívar e com o conflito estrutural que marcou o nascimento das repúblicas latino americanas.

Na Antiguidade, a ditadura não era sinônimo de arbitrariedade ou tirania. Em Roma, tratava se de um instituto legal previsto pela própria República. Em situações de ameaça existencial, o Senado autorizava a nomeação de um ditador com plenos poderes e mandato limitado, cuja função era restaurar a ordem e garantir a sobrevivência da comunidade política. A autoridade excepcional não negava a lei, mas existia precisamente para salvá la. A experiência romana demonstra que, em contextos de crise, a concentração de poder foi entendida como uma necessidade política legítima.

Na Grécia antiga, ainda que o vocabulário fosse distinto, a lógica era semelhante. Em diversas pólis, líderes com poderes ampliados assumiram a condução do Estado para conter conflitos internos, reorganizar instituições e proteger a cidade contra ameaças externas. Muitos desses personagens foram posteriormente classificados como tiranos por uma historiografia influenciada por valores liberais tardios, embora em seu contexto histórico tenham desempenhado funções estabilizadoras e fundacionais. A carga negativa associada a esses termos é, em grande parte, resultado de leituras posteriores e interessadas.

Esse mesmo problema de anacronismo reaparece na análise do processo de independência da América. Simón Bolívar compreendeu, talvez como poucos, que as novas nações não estavam diante de um simples problema jurídico, mas de um vazio de poder, identidade e coesão social. Sociedades fragmentadas pela colonização, pela guerra prolongada e pela ausência de instituições próprias não poderiam ser governadas, segundo ele, por modelos liberais importados da Europa ou do mundo anglo saxão.

A Constituição da Bolívia de 1826 expressa de forma clara essa visão. Nela, Bolívar propõe um executivo forte, com presidente vitalício não hereditário, um poder moral voltado à formação cívica e à preservação dos costumes, além de um sistema político centralizado. Longe de representar um capricho autoritário, esse modelo buscava garantir estabilidade, continuidade e soberania em um contexto marcado pela instabilidade permanente. Para Bolívar, a autoridade não era o oposto da liberdade, mas sua condição de possibilidade.

O conflito com Francisco de Paula Santander torna explícita a profundidade desse embate. Santander representava o constitucionalismo liberal formal, baseado no legalismo abstrato, na primazia do parlamento e na separação rígida de poderes. Sua atuação como vice presidente da Gran Colômbia privilegiou a aplicação literal da lei escrita, mesmo quando essa se mostrava incapaz de responder às exigências políticas reais. O choque entre ambos não foi pessoal, mas civilizacional. Tratava se de decidir se a América seria construída a partir da autoridade fundadora ou da normatividade importada.

A Convenção de Ocaña marcou o ponto de ruptura. Diante da tentativa de esvaziar o poder central e aprofundar a fragmentação interna, Bolívar assumiu poderes excepcionais para preservar a unidade do Estado. A partir desse momento, a narrativa liberal passa a rotulá lo como ditador, ignorando deliberadamente o contexto de dissolução iminente da Gran Colômbia. O atentado contra sua vida e o exílio de Santander consolidaram uma ruptura que já era irreversível.

O desfecho histórico é conhecido. Com a morte de Bolívar, o modelo liberal legalista prevaleceu. O resultado foi a fragmentação da Gran Colômbia e o surgimento de Estados formalmente republicanos, mas estruturalmente frágeis, marcados por guerras civis recorrentes, dependência externa e incapacidade de afirmar uma soberania efetiva. Exatamente o cenário que Bolívar havia previsto.
Revisitar esse percurso não significa idealizar governos de exceção ou negar abusos de poder. Significa, antes, recuperar o sentido histórico da política e reconhecer que categorias como ditadura, liberdade e democracia não são universais abstratos, mas respostas concretas a circunstâncias específicas. Bolívar não foi um ditador no sentido vulgar do termo, mas um legislador trágico, consciente de que, sem unidade, autoridade e direção, a liberdade na América se reduziria a uma palavra vazia.

Em um tempo em que o debate político segue refém de slogans morais e classificações automáticas, retornar a essa reflexão histórica é um exercício de lucidez. A experiência bolivariana mostra que soberania não nasce do papel, mas do poder real de decidir o próprio destino. E essa continua sendo uma questão aberta na América Latina.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Quando a norma ignora o campo: a obrigatoriedade do capacete e o esvaziamento da tradição gaúcha


A exigência do uso de capacete no trabalho rural, a partir de interpretações recentes da NR 31, abriu um debate que vai além da segurança e toca diretamente na identidade do campo gaúcho. Ao aplicar normas técnicas de forma genérica e descolada da realidade das estâncias, o Estado acaba colocando em xeque práticas tradicionais, criando insegurança jurídica aos produtores e contribuindo para a descaracterização de uma cultura construída na lida diária do Rio Grande do Sul.

A recente interpretação da Norma Regulamentadora nº 31 que passou a exigir o uso de capacete de proteção em determinadas atividades rurais acendeu um sinal de alerta no RS. O debate extrapolou a esfera técnica e alcançou o coração da cultura gaúcha, onde o chapéu não é acessório supérfluo, mas símbolo identitário forjado em séculos de trabalho no campo, lida com o gado e vida ao ar livre.

Não se discute aqui a importância da segurança no meio rural. Acidentes existem, riscos são reais e a proteção do trabalhador é um objetivo legítimo. O problema surge quando a aplicação da norma se dá de forma genérica, descontextualizada e alheia à realidade concreta das estâncias, dos currais e da própria cultura que moldou o trabalhador do campo no Sul do Brasil.

A NR 31 estabelece que, havendo risco de impacto, queda ou acidente com máquinas e animais, o Equipamento de Proteção Individual deve ser adequado à situação. A partir daí, fiscais e interpretações mais rígidas passaram a tratar o capacete como exigência quase automática, mesmo em atividades tradicionais onde o risco é inerente à lida e sempre foi administrado com técnica, experiência e vestimenta própria. O chapéu gaúcho, embora reconhecido como elemento cultural, foi relegado à condição de mero adereço, desprovido de qualquer valor funcional diante da norma.

Esse movimento revela um traço recorrente da burocracia brasileira: legislar e fiscalizar a partir de gabinetes urbanos, impondo critérios uniformes a realidades profundamente distintas. O trabalho rural não é uma linha de montagem industrial, nem o peão pode ser comparado a um operário de fábrica. A lida campeira exige mobilidade, visão periférica, sensibilidade com o animal e domínio do ambiente. Em muitos casos, o uso de um capacete rígido pode até comprometer a segurança, em vez de ampliá la.

Ao transferir toda a responsabilidade ao empregador, o Estado cria um ambiente de insegurança jurídica no campo. O produtor passa a ser potencialmente punido não por negligência, mas por não se enquadrar em uma leitura abstrata da norma. A intensificação das fiscalizações, sem diálogo prévio e sem critérios claros de razoabilidade, transforma a tradição gaúcha em alvo indireto de autuações e multas.

Há ainda um efeito simbólico grave. Quando o poder público desconsidera os elementos culturais do trabalho rural, transmite a mensagem de que a identidade gaúcha é um obstáculo ao progresso, algo a ser tolerado apenas fora das situações oficiais. Isso não é modernização, é descaracterização. Segurança e tradição não são opostas. Sempre caminharam juntas no campo, transmitidas de geração em geração por meio da prática, da responsabilidade e do conhecimento do risco.

O debate precisa sair do radicalismo. Ninguém defende a imprudência ou o desprezo à vida do trabalhador. O que se cobra é bom senso, adaptação da norma à realidade regional e reconhecimento de que o campo tem lógica própria. Equipamentos de proteção devem ser exigidos quando de fato se mostram necessários e eficazes, não como resposta automática a qualquer atividade rotulada como perigosa.

Se continuar nesse rumo, a aplicação da NR 31 corre o risco de se tornar mais um exemplo de legislação que, em vez de proteger, afasta o Estado do produtor e do trabalhador rural. Preservar a vida é essencial. Preservar a identidade também. No Rio Grande do Sul, tradição não é folclore. É parte viva do trabalho, da economia e da história. Ignorá la é um erro que cobra seu preço não apenas no campo, mas na própria relação entre o país real e suas normas oficiais.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

A Família como Última Linha de Resistência contra o Liberalismo Cultural

Este texto parte do princípio de que nada do que vivemos no campo social e cultural ocorreu por acaso. A crise da família não é um acidente histórico, mas o resultado de um projeto deliberado que visa desarticular os vínculos mais profundos que sustentam os povos. Ao identificar os verdadeiros agentes e a lógica por trás desse processo, busca-se expor por que a família tradicional permanece como o principal obstáculo ao liberalismo cultural e, justamente por isso, tornou-se seu alvo prioritário.

A dissolução da família tradicional não foi um erro de percurso nem um fenômeno espontâneo da modernidade. Foi um projeto político, econômico e cultural, conduzido com método, financiamento e narrativa.

Os responsáveis têm nome. Aquilo que a direita simplória insiste em chamar de “marxismo cultural” é, na realidade, liberalismo cultural. Foi por meio do liberalismo cultural, também chamado de progressismo social, que se iniciou a engenharia social voltada à dissolução das famílias e à subversão da consciência coletiva dos povos. Esse processo foi e continua sendo promovido por ONGs internacionais, fundos multilaterais, grandes conglomerados midiáticos e universidades ideologizadas, todos operando sob a mesma lógica: substituir vínculos orgânicos, duradouros e naturais por relações frágeis, temporárias e facilmente administráveis.

A família tradicional, baseada em compromisso, responsabilidade intergeracional, hierarquia funcional e dever mútuo, sempre foi um obstáculo a esse projeto. Um núcleo assim forma pessoas com identidade, senso de pertencimento e capacidade de resistência moral. Pessoas estruturadas dessa forma não se submetem facilmente a modas ideológicas, não dependem de narrativas artificiais e não se tornam escravas nem do mercado nem do Estado.

Por isso foi necessário atacá-la.

O liberalismo moderno, ao reduzir o ser humano a um indivíduo isolado, consumidor e supostamente “autônomo”, passou a tratar a família como um entrave à liberdade absoluta. Em seu lugar, promoveu-se a chamada família nuclear liberal alternativa, um modelo instável, contratual, descartável, moldado ao prazer imediato e perfeitamente alinhado à lógica do mercado.

Esse modelo não fortalece pessoas, ele as fragiliza. Indivíduos sem raízes emocionais sólidas tornam-se mais ansiosos, mais inseguros, mais dependentes e mais manipuláveis. Passam a necessitar de tutores externos, quase sempre ligados ao Estado, sob a forma de agentes “especialistas”, psicologização permanente da vida cotidiana, subsídios, aplicativos, diagnósticos e validação institucional constante.

A mídia cumpre seu papel ao normalizar a degeneração do espírito e apresentar a desestruturação como virtude. O sistema educacional reforça esse processo ao desconstruir referências morais e substituir a tradição por narrativas relativistas e artificiais. As grandes corporações, por sua vez, lucram enormemente com consumidores solitários, emocionalmente carentes e permanentemente insatisfeitos.

Nada disso é coincidência.

Uma sociedade sem famílias fortes é uma sociedade mais fácil de governar, tributar e controlar. Quando a figura paterna é enfraquecida, quando a maternidade é tratada como fardo, quando o compromisso é ridicularizado e a autoridade moral é demonizada, o vazio deixado é ocupado por burocratas, tecnocratas e “especialistas”. Eles assumem o papel que antes cabia aos pais, moldando gerações inteiras e formando o imaginário coletivo conforme as necessidades do sistema liberal, tratando indivíduos como gado funcional da engrenagem.

Famílias unidas formam homens e mulheres fortes. Homens e mulheres fortes formam comunidades coesas. Comunidades coesas não dependem de tutores ideológicos para pensar, decidir ou sobreviver.

Por isso a família sempre foi o primeiro alvo. E por isso defendê-la hoje não é conservadorismo no sentido raso do termo, mas a mais pura forma de resistência política, cultural e civilizacional.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

211º ANIVERSÁRIO DA PRIMEIRA BANDEIRA ARTIGUISTA


O dia 13 de janeiro de 1815 constitui uma data fundamental na história política e simbólica do Rio da Prata. Nesse dia foi hasteada e jurada, pela primeira vez, a bandeira desenhada por José Gervasio Artigas no Quartel-General de Arerunguá. Não se tratou de um gesto cerimonial isolado, mas de um ato profundamente político, nascido como resposta direta ao centralismo e ao projeto unitário do governo de Buenos Aires, que se recusava a reconhecer o federalismo defendido pelos povos livres.


A criação dessa bandeira foi explicada de forma explícita pelo próprio Artigas em seu ofício de 4 de fevereiro de 1815 ao Governador Intendente de Corrientes, Tenente-Coronel José de Silva. Nele, deixou claro que a bandeira deveria ser um símbolo comum de identidade e de luta para todos aqueles povos libertos da opressão centralista. A bandeira artiguista, com seu desenho de branco ao centro, azul nas extremidades e faixas vermelhas intermediárias, expressava uma unidade de sentimentos, uma decisão clara pela república e o reconhecimento do sangue derramado em nome da liberdade e da independência.

Do ponto de vista cronológico, esta foi a primeira bandeira desenhada por Artigas da qual se tem registro. Em torno dela se reuniram os patriotas que lutavam não apenas por uma separação política, mas por um projeto alternativo de organização social e territorial. A bandeira sintetizava o ideário artiguista: república, federalismo, soberania dos povos e rejeição a toda forma de dominação centralista.

A importância daquele ato ultrapassou amplamente o âmbito do acampamento de Arerunguá. A jura da bandeira se replicou nas províncias integrantes da Liga dos Povos Livres, abrindo um caminho profundo e duradouro na história regional. Na Província Oriental, em particular, esse processo tornou-se um antecedente inseparável do nascimento da futura República, tanto no plano político quanto no simbólico.

Embora não se tenha alcançado uma uniformidade absoluta no desenho das bandeiras provinciais, conforme propunha Artigas, cada província adotou sua própria insígnia, reflexo de sua identidade política específica. Essas diferenças não implicaram ruptura com o ideário comum. Pelo contrário, todas as bandeiras da Liga ratificaram os princípios do Chefe dos Orientais e permaneceram fiéis, em linhas gerais, às cores por ele definidas.

O uso do azul, branco e vermelho não foi fruto do acaso nem de uma escolha estética arbitrária. Essas cores possuíam profundos antecedentes na região e foram ressignificadas por Artigas como símbolos da grandeza coletiva, da decisão republicana e do sacrifício na luta pela liberdade e pela independência. Nelas se condensava uma visão política clara e uma ética revolucionária que colocava os povos acima das elites e dos poderes concentrados.

Passados 211 anos daquele 13 de janeiro de 1815, a primeira bandeira artiguista permanece como um símbolo vivo de liberdade, dignidade e orgulho artiguista. Ela não representa apenas um passado heroico, mas um projeto político inacabado que ainda interpela os povos do Rio da Prata e reafirma a atualidade do legado de José Gervasio Artigas. 

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

A PROVÍNCIA ORIENTAL, ARTIGAS E A UNIDADE DOS POVOS DO PRATA


Do sul da Banda Oriental ao norte rio-grandense

A Província Oriental não foi um acidente geográfico nem uma criação artificial de tratados posteriores. Ela constituiu um espaço histórico contínuo, socialmente integrado e politicamente consciente, que se estendia do estuário do Rio da Prata, no atual Uruguai, até os campos e coxilhas do norte, no hoje chamado Rio Grande do Sul. Essa unidade não se fundava em limites cartográficos, mas na geografia, no modo de vida pastoril, na cultura gaúcha e, sobretudo, numa concepção comum de soberania popular e autonomia.

No sul, a Banda Oriental formava o núcleo desse território. Montevidéu, porto estratégico, articulava o litoral com o interior, mas a verdadeira força da província estava nas campanhas: estâncias, gado livre, milícias populares e uma população rural profundamente armada e politizada. Foi ali que emergiu José Gervasio Artigas, não como produto das elites urbanas ou dos cabildos formais, mas como expressão direta da revolução feita povo.

Como bem observa José María Rosa, enquanto os festejos oficiais da Revolução de Maio exaltavam atos protocolares em Buenos Aires, a verdadeira revolução chegou com a insurreição rural de 1811, conduzida por Artigas e sustentada pelas massas camponesas. Antes mesmo dos grandes combates, Artigas lança a Proclama de Mercedes, em 11 de abril de 1811, convocando diretamente o povo:

“Ciudadanos, levántense y defiendan la libertad de la provincia… La opresión extranjera no debe continuar.”

A independência, portanto, não nasceu dos salões porteños, mas do campo, do povo armado e consciente.

Avançando pelo interior da Província Oriental, atravessando o rio Uruguai e alcançando o norte, não havia ruptura entre orientais e rio-grandenses. O atual Rio Grande do Sul era a continuação natural da mesma província histórica. Famílias, tropas, rebanhos e ideias circulavam livremente. O gaúcho era o mesmo tipo humano dos dois lados do que mais tarde seriam fronteiras nacionais. As Missões, as campanhas e as estâncias formavam um mesmo corpo estratégico disputado por impérios e, posteriormente, por Estados centrais.

Essa unidade social explica por que as lutas artiguistas ecoaram profundamente no território rio-grandense e por que, décadas depois, o mesmo espírito autonomista se expressaria na Revolução Farroupilha. A Província Oriental era, na prática, um espaço político único, ligado por cultura, economia e projeto histórico.

Artigas, caudilho e soberania popular

Artigas não foi apenas um chefe militar: foi um caudilho enraizado na soberania popular. Sua autoridade não derivava de teorias europeias de direito constitucional, mas da confiança direta do povo. Como ele próprio afirmou:

“Mi autoridad emana de vosotros y ella cesa por vuestra presencia soberana.”

José María Rosa é claro ao definir o sentido dessa liderança: o caudilho não representa interesses particulares, mas a vontade coletiva. Artigas governava porque o povo o reconhecia como seu intérprete.

Essa concepção se materializou nas Instrucciones del Año XIII, onde Artigas proclama a independência absoluta e o princípio fundamental de que os povos são livres por natureza:

“Los pueblos deben ser libres. Su carácter debe ser su único objeto.”

Ali se afirma algo revolucionário para a época: a Província Oriental se declara livre não apenas do rei de Portugal ou do imperador do Brasil, mas de qualquer poder do universo, inclusive de Buenos Aires. Cada província retém sua soberania e só delega aquilo que decidir voluntariamente.

Federalismo, sufrágio e governo dos Povos Libres

O artiguismo instituiu uma prática inédita na América do Sul: o sufrágio universal nos Povos Libres de Santa Fe, Entre Ríos, Corrientes y la Banda Oriental. Não como cópia de modelos europeus, mas como expressão direta da comunidade armada. Todo homem apto a defender sua terra tinha direito a escolher seu caudillo.

O Estatuto de Santa Fe de 1819 resume essa lógica com clareza absoluta:

“El primer derecho y deber del pueblo es elegir un Caudillo.”

Esse caudilho exercia plenos poderes enquanto interpretasse a vontade popular. Justiça, defesa e governo não eram esferas separadas de uma burocracia distante, mas funções integradas da comunidade organizada.

O confronto com a oligarquia e os imperialismos

Artigas enfrentou simultaneamente a oligarquia portuária de Buenos Aires e os imperialismos estrangeiros. A abertura do porto em 1809, as intervenções britânicas e francesas e a política de dividir para governar revelam como os interesses externos operavam aliados às elites locais. Contra isso, Artigas defendia a soberania econômica, política e territorial dos povos do interior.

Seu projeto não era isolacionista. Pelo contrário: tinha um profundo sentido hispano-americano. A Liga de los Pueblos Libres expressava uma visão continental, onde todos os nascidos na América espanhola eram cidadãos. Não se tratava de hegemonia de uma província sobre as outras, mas de cooperação entre iguais.

O exílio e a “volta” de Artigas

Derrotado militarmente, traído por Ramírez e pressionado por Buenos Aires e pelo Império luso-brasileiro, Artigas se retira y termina en exilio en Paraguay, donde permanece treinta años. Pero, como señalaba José María Rosa en 1960, la vuelta de Artigas no sería física, sino histórica y popular. Su figura reaparece cada vez que los pueblos del Plata buscan justicia, soberanía y unidad.

Su fracaso fue circunstancial, no ideológico. Como afirma Rosa:

“El fracaso fue circunstancial; la idea, inquebrantable.”

Estanislao López, fiel al espíritu federal, mantuvo viva esa tradición en Santa Fe, demostrando que la derrota de Artigas no fue por desunión de los pueblos, sino por la acción combinada de traiciones internas e imperialismos externos.

Artigas y Rosas: continuidad histórica

En esa línea, Juan Manuel de Rosas aparece como el gran continuador del proyecto artiguista. Ambos defendieron la soberanía popular, la igualdad provincial y la resistencia frente a las potencias extranjeras. Rosas sostuvo el Pacto Federal, enfrentó la intervención anglo-francesa y rechazó imponer Buenos Aires sobre la Banda Oriental.

Autores orientales como Petit Muñoz reconocen que muchos veían en Rosas al heredero del espíritu de Artigas. Incluso Alberdi, a su manera, admitía su papel central como eje de unidad del interior frente al centralismo liberal.

La Província Oriental, del sur oriental al norte rio-grandense, fue un espacio histórico unido por el pueblo, la tierra y la lucha. Artigas encarnó esa unidad como caudillo de una revolución popular, federal y continental. Su legado no pertenece al pasado: atraviesa la historia del Plata, inspira el federalismo, la resistencia al imperialismo y la idea de una América gobernada por sus pueblos.

La división posterior en Estados no anuló esa verdad histórica. La cultura, la memoria y la causa siguen siendo comunes. Como Artigas, los pueblos saben adónde van. Y cuando vuelven a buscar soberanía, Artigas siempre vuelve con ellos.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

O GAÚCHO RIVERO E A PRIMEIRA RESISTÊNCIA ARMADA À OCUPAÇÃO BRITÂNICA DAS MALVINAS (1833)


A história oficial tende a esquecer que a primeira resistência concreta à ocupação britânica das Ilhas Malvinas não partiu de chanceleres, diplomatas ou discursos em capitais europeias. Ela partiu de um gaúcho pobre, mestiço, peão de campo, formado na dureza do mundo platino. Seu nome era Antonio “El Gaucho” Rivero.

Rivero nasceu em 27 de novembro de 1808, em Concepción del Uruguay, então parte do espaço rioplatense. Era um homem comum de sua época: trabalhador rural, sem posses, sem instrução formal e sem lugar no mundo das elites. Como muitos outros gaúchos, foi levado às Malvinas por volta de 1827, ainda jovem, para trabalhar como peão nas estâncias organizadas pelo governador argentino das ilhas, Luis Vernet.

A realidade social nas Malvinas era brutal. Os peões não recebiam salário em dinheiro. Vernet lhes entregava vales como pagamento, mas o despensero da ilha, Dickson, recusava aceitá-los, exigindo moedas de prata que os trabalhadores não possuíam. Ao mesmo tempo, o capataz Simón proibia a faena do gado manso, obrigando os peões a perseguirem o gado cimarrón apenas para sobreviver.

Esses homens, gaúchos e indígenas, viviam sob exploração, fome e abandono. Não havia proteção estatal efetiva, nem justiça, nem condições mínimas de trabalho. Essa situação se agravou drasticamente após a ocupação militar britânica de 1833, imposta pela força, sem qualquer legitimidade jurídica ou consentimento dos habitantes locais.

Em 26 de agosto de 1833, apenas seis meses após a invasão britânica, Antonio Rivero liderou um levante contra a autoridade colonial imposta. Não se tratou de um ato isolado ou criminoso, como tentaram caracterizar os documentos ingleses, mas de uma rebelião política armada, conduzida por criollos e indígenas que se recusavam a reconhecer a soberania estrangeira.

Participaram da sublevação os gaúchos Juan Brassido e José María Luna, além de cinco charrúas agauchados: Manuel González, Luciano Flores, Felipe Zalazar, Marcos Latorre e Manuel Godoy. Juntos, enfrentaram o poder colonial em condições absolutamente desiguais.

Durante a rebelião, foram mortos o autoproclamado governador britânico e alguns de seus principais colaboradores. Os documentos que chegaram até nós foram todos redigidos por autoridades britânicas, que classificaram o episódio como o “amotinamiento de unos delincuentes”, descrevendo Rivero e seus companheiros de forma racista como “gauchos” e “indios salvajes”. Nessas narrativas, omite-se deliberadamente que aqueles homens eram argentinos e que lutavam pela soberania do território.

Rivero e seus companheiros arriaram a bandeira britânica e hastearam uma bandeira argentina improvisada. Durante aproximadamente seis meses, mantiveram controle efetivo sobre as Malvinas, sem qualquer apoio do governo de Buenos Aires e sem meios de comunicar oficialmente o que ocorria nas ilhas.

Em outubro de 1833, o navio Antartic chegou ao arquipélago. Seu comandante, o norte-americano Nash, chegou a se reunir com Rivero, que lhe entregou algumas reses. Diante da ausência total de reforços vindos do continente, os rebeldes passaram a planejar a fuga para a Patagônia em uma balsa improvisada.

Os planos foram interrompidos em janeiro de 1834, com a chegada dos navios britânicos Challenger e Hopeful, que trouxeram novas tropas e o tenente Smith, nomeado comandante das ilhas. A bandeira britânica foi novamente hasteada, e iniciou-se uma verdadeira caçada humana contra os gaúchos e charrúas.

Rivero e seus companheiros fugiram para os cerros, dispostos a lutar até o fim. A perseguição durou cerca de três meses. A fome, o frio e o cansaço enfraqueceram o grupo. Um dos peões, Luna, traiu os companheiros. Outro, Brasido, desertou. Com reforços vindos nos navios Beagle e Adventure, os britânicos conseguiram capturar os sobreviventes.
Rivero acabou preso, algemado e levado com outros cinco homens à Grã-Bretanha, onde foram encarcerados na prisão de Sherness. Após análise do caso, o próprio tribunal inglês reconheceu não haver provas suficientes para condená-los, e os prisioneiros foram devolvidos ao Rio da Prata, desembarcando em Montevidéu.

O destino final de Antonio Rivero permanece parcialmente envolto em incerteza. Há a hipótese, nunca plenamente comprovada, de que ele tenha morrido em 20 de novembro de 1845, lutando pela Confederação Argentina no combate da Vuelta de Obligado, enfrentando novamente potências estrangeiras que buscavam impor sua vontade pela força.

A história do Gaucho Rivero revela uma verdade incômoda: a primeira resistência às Malvinas foi popular, mestiça e marginal. Não nasceu nos salões diplomáticos, mas nos campos, entre homens pobres, armados apenas de coragem, consciência territorial e dignidade.

Rivero não foi um bandido.
Foi um gaúcho platino.
E foi o primeiro resistente armado contra o colonialismo britânico nas Malvinas.

POUCA GENTE SABE, MAS A PALAVRA “GAÚCHO” NÃO NASCEU NO RIO GRANDE DO SUL


A imagem do gaúcho forte, silencioso, de roupas gastas, olhar duro e corpo moldado pelo vento e pela fome não representa o gaúcho folclorizado dos desfiles, das estâncias organizadas e da estética do século XIX. Ela remete a algo muito mais antigo e incômodo: o gaúcho primitivo, anterior às fronteiras, anterior aos Estados nacionais e anterior até mesmo à ideia de Rio Grande do Sul como identidade regional.

É preciso afirmar com clareza histórica: o gaúcho não nasceu gaúcho. Ele foi chamado assim, e não por elogio.

O berço do gaúcho: o mundo platino

A palavra gaúcho surge no espaço do Rio da Prata entre os séculos XVII e XVIII, nos vastos campos que hoje abrangem o Norte Oriental rio-grandense, o Uruguai e a Argentina. Tratava-se de um território sem cercas, sem limites definidos e sem presença efetiva do Estado. Um espaço disputado pelas coroas espanhola e portuguesa, mas, sobretudo, marcado pelo abandono institucional.

Nesse cenário surgem figuras humanas marginais que não se encaixavam nas estruturas coloniais.

Mestiços de indígenas e criollos espanhóis
Indígenas aculturados e missioneiros deslocados
Negros forros ou fugidos
Desertores de exércitos coloniais
Peões sem patrão fixo

Homens livres, porém sem terra e sem lei

Esses homens viviam principalmente da caça do gado cimarrón, gado selvagem espalhado aos milhões pelos campos platinos após o abandono de missões e estâncias coloniais. O cavalo lhes dava mobilidade, o couro lhes dava abrigo e a solidão lhes moldava o caráter.

O significado original da palavra “gaúcho”

Aqui está um ponto que muitos ignoram ou preferem ignorar. A palavra gaúcho nasce como termo pejorativo. Nos documentos espanhóis do século XVIII, gaúcho aparece associada a expressões como:

vago, vagabundo
malentretenido, mal-afamado
cuatrero, ladrão de gado
andarilho
hombre sin oficio ni ley

Para as autoridades coloniais, o gaúcho era um problema social. Um homem armado, errante, difícil de controlar, que não se submetia ao trabalho regular, à disciplina da Igreja ou à ordem do Estado.

Há diversas hipóteses etimológicas para o termo:

Do quíchua huachu, órfão ou abandonado
De raízes árabes como chaucho, condutor de animais

De termos híbridos surgidos na fronteira hispano-indígena

Independentemente da origem exata, o sentido social é inequívoco. Gaúcho era aquele que não tinha dono, nem terra, nem lei fixa.

O gaúcho antes do mito

O gaúcho original não usava bombacha, não dançava em CTGs, não declamava poesia e não cultivava orgulho regional organizado.

Vestia o que tinha.
Couro cru
Ponchos gastos
Botas de couro de potro
Facão à cintura
Boleadeiras

Mate amargo como companhia constante

Vivendo à margem, deslocava-se conforme o gado, os conflitos e as oportunidades. Sua moral era própria. Sua justiça, pessoal. Sua liberdade, absoluta e exatamente por isso perigosa aos olhos do poder colonial.

Da marginalidade ao herói regional

A transformação do gaúcho em símbolo positivo não foi espontânea. Ela ocorre no século XIX, quando os Estados nacionais do Prata passam a precisar de soldados, identidade coletiva e símbolos populares mobilizadores.

No Norte Oriental rio-grandense, no Uruguai e na Argentina, o antigo gaúcho marginal passa a ser recrutado, disciplinado e romantizado. Aquilo que antes era visto como defeito, rusticidade, independência e rebeldia, passa a ser reinterpretado como virtude.

Mas é fundamental compreender que  o gaúcho não nasceu herói. Ele foi excluído antes de ser exaltado.

O gaúcho é platino, não apenas rio-grandense
Afirmar que o gaúcho nasceu exclusivamente no Rio Grande do Sul é um anacronismo histórico. O gaúcho é anterior às fronteiras, às bandeiras e às identidades regionais modernas.

Sua origem é platina, fronteiriça, mestiça e marginal. O que o Rio Grande do Sul fez, e fez bem, foi incorporar essa figura, preservá-la, moldá-la e transformá-la em símbolo cultural estudual. Mas não a criou do zero.

Entender o gaúcho é entender a fronteira

A imagem que inspira este texto não retrata um personagem folclórico. Ela revela um homem forjado pela solidão, pela pobreza, pela liberdade sem romantismo e pela luta diária contra a natureza e contra o poder.

Conhecer a verdadeira origem da palavra gaúcho não diminui o orgulho, mas o aprofunda. Porque a honra não está na fantasia confortável, e sim na verdade histórica.

E a verdade é esta. O gaúcho nasceu livre antes de ser aceito, rejeitado antes de ser exaltado e marginal antes de se tornar símbolo.