A ideia de que os bandeirantes “desbravaram” os caminhos do sul do continente não é apenas um erro histórico; é uma construção política. Trata-se de um mito forjado para legitimar a ocupação colonial luso-brasileira, transformar a violência em epopeia e converter a usurpação em feito civilizatório. Ao repetir essa narrativa, apaga-se deliberadamente a existência de povos que conheciam, habitavam e organizavam o território muito antes da chegada dos agentes coloniais.
Os caminhos que cruzavam o sul meridional não nasceram do improviso bandeirante nem da iniciativa paulista. Eles eram rotas indígenas e missioneiras, abertas pelo deslocamento ancestral dos povos originários e estruturadas pelas Reduções Jesuíticas como parte de um mundo plenamente integrado ao espaço platino. Ao chamar esses caminhos de “bandeirantes”, o discurso colonial não nomeia quem os criou, mas quem os violou.
Desfazer esse mito é um gesto político. Significa retirar do colonizador o monopólio da narrativa e devolver aos povos missioneiros e indígenas o lugar que lhes foi roubado na história. Mais do que uma disputa terminológica, trata-se de reconstituir o sentido real da formação do território sulino, reconhecendo que ali não houve desbravamento, mas invasão, não houve descoberta, mas apropriação forçada de um mundo que já existia.
A tentativa de apresentar Francisco de Brito Peixoto e o bandeirantismo como agentes fundadores do Rio Grande do Sul parte de um equívoco central: a ideia de que o sul meridional era um vazio histórico à espera de desbravadores. Essa noção, herdada da historiografia paulista tradicional, não se sustenta diante da realidade histórica do território. O espaço rio-grandino não era desconhecido, desocupado ou marginal ao mundo colonial. Ao contrário, integrava há séculos um complexo território indígena e missioneiro profundamente articulado às dinâmicas do mundo platino e ao sistema colonial espanhol.
Durante praticamente toda a época colonial, o Brasil esteve sob domínio português, enquanto o Rio da Prata, a Banda Oriental e as Pampas integravam o Império Espanhol. Essa divisão não era apenas administrativa, mas estrutural. Populações, costumes, línguas, formas de trabalho rural e relações sociais eram distintas em cada lado do domínio colonial. O espaço onde se forma a figura do gaúcho está inserido majoritariamente no mundo platino, de matriz hispânica, missioneira e indígena, e não no interior do Brasil português.
Antes de qualquer incursão bandeirante, o território hoje correspondente ao Rio Grande do Sul era atravessado por rotas indígenas e missioneiras consolidadas, utilizadas por povos guarani, minuanos e charruas, bem como por estruturas econômicas e sociais organizadas pelas Reduções Jesuíticas. Esses caminhos não foram abertos por bandeirantes, mas apropriados posteriormente. A narrativa que atribui a Francisco de Brito Peixoto a abertura dos primeiros caminhos terrestres entre o Brasil e o Rio da Prata ignora deliberadamente a existência anterior dessas rotas, apagando a agência indígena e missioneira para legitimar a expansão colonial luso-brasileira.
Também é fundamental considerar que, nos séculos XVII e XVIII, Portugal e Espanha eram potências rivais. A região missioneira, o Rio da Prata e o sul do atual Brasil foram cenários permanentes de disputas fronteiriças. Espanhóis viam os portugueses como intrusos, enquanto os portugueses tratavam os espanhóis como inimigos territoriais. Nesse contexto de conflito contínuo, não há base histórica para afirmar que uma figura cultural oriunda da vida nos campos e estâncias do domínio espanhol, como o gaúcho, teria surgido a partir do lado português de forma originária.
Da mesma forma, é incorreto associar o nascimento do tropeirismo sulino à iniciativa bandeirante.
O tropeirismo que se desenvolveu no sul foi consequência direta da destruição das reduções jesuíticas, da dispersão do gado missioneiro e da formação de uma população mestiça (gaúcha) marginalizada. Os primeiros tropeiros não eram bandeirantes paulistas, mas indígenas missioneiros, criollos pobres, mestiços e gaúchos primitivos excluídos das estruturas coloniais formais. Viviam da mobilidade, da condução de tropas e carreatas, em um território onde a terra não estava cercada e o pertencimento não era jurídico, mas prático e cotidiano.
A romantização da relação de Francisco de Brito Peixoto com os indígenas minuanos segue o mesmo padrão ideológico. A chamada amizade não foi um pacto entre iguais, mas uma relação instrumental típica da expansão colonial. O próprio discurso colonial deixa claro que essas alianças visavam garantir campos abertos para a extração e circulação do gado. Não se tratava de convivência harmônica, mas do uso estratégico de populações indígenas que mais tarde seriam perseguidas, expulsas ou exterminadas pelo mesmo sistema colonial que se consolidava.
Outro equívoco recorrente é confundir ocupação administrativa com povoamento social. Tomar posse em nome da Coroa, conceder sesmarias ou instalar núcleos militares não equivale a fundar uma sociedade enraizada. O povoamento efetivo do Rio Grande do Sul ocorreu antes da institucionalização luso-brasileira, por meio da vida missioneira, da mestiçagem platina e da circulação constante de homens e animais nos campos abertos. A sociedade gaúcha não nasce da imposição legal da propriedade, mas da adaptação humana a um território instável e disputado.
A figura do gaúcho, portanto, antecede o bandeirante no sul. Ela surge como resultado da marginalização, da perda do mundo missioneiro e da necessidade de sobreviver em um espaço sem Estado efetivo. O gaúcho não é criação do bandeirantismo, mas produto de um mundo platino que os agentes luso-brasileiros tentaram posteriormente controlar, enquadrar ou eliminar. Quando a ocupação portuguesa se intensifica, o gaúcho já existe como sujeito histórico, ainda que sem reconhecimento jurídico ou político.
A exaltação de Francisco de Brito Peixoto como fundador do Rio Grande do Sul atende menos à história e mais a um projeto ideológico. Trata-se de subordinar simbolicamente o sul ao eixo paulista, transformando a violência colonial em epopeia civilizatória e apagando os povos que efetivamente estruturaram o território. Essa narrativa não explica a formação rio-grandina, apenas a distorce para encaixá-la em um mito nacional centrado no bandeirante.
O Rio Grande do Sul não nasce do bandeirantismo. Ele nasce da destruição do mundo missioneiro, da mestiçagem platina, da vida errante nos campos e das carreatas que percorriam rotas muito anteriores à presença luso-brasileira organizada. Reconhecer isso não é negar a existência dos agentes coloniais portugueses, mas recolocá-los em seu devido lugar histórico: não como desbravadores fundadores, mas como ocupantes tardios de um território já vivido, conhecido e disputado. Desfazer o mito bandeirante no sul é um passo necessário para restituir ao povo rio-grandino sua origem real, missioneira, platina e mestiça.