A Revolução Islâmica de 1979 marcou não apenas a queda de um regime, mas a afirmação de um novo modelo político e civilizacional no Irã. Frequentemente reduzido a uma expressão religiosa, o khomeinismo revela, na verdade, conexões profundas com movimentos revolucionários como a Revolução Bolchevique. Este texto explora essas convergências e o papel da sacralização da política como instrumento de soberania.
O Xá foi apresentado ao mundo como um modernizador, um reformador e um aliado do Ocidente. No plano externo, sua imagem era cuidadosamente construída como a de um governante progressista e racional. Dentro do Irã, porém, sua função assumia contornos muito diferentes: a de um poder artificial, sustentado por interesses estrangeiros e desconectado das bases sociais do próprio país. Seu regime não emergia organicamente da sociedade iraniana, mas alimentava-se dela.
O governo do Xá se sustentava por meio da repressão, da vigilância e do medo. Sua polícia secreta operava com apoio e treinamento externos, enquanto seu modelo econômico concentrava riqueza em uma elite restrita, deixando grande parte da população marginalizada e humilhada. Paralelamente, seu projeto cultural buscava substituir a identidade iraniana por uma imitação superficial de valores ocidentais. Nesse contexto, o Xá deixava de ser um governante nacional para se tornar, na prática, um administrador local de interesses externos.
Esse distanciamento estrutural entre Estado e sociedade tornou sua queda inevitável. A Revolução Islâmica não foi resultado de um único evento, mas da ausência de um vínculo legítimo entre poder e povo. Quando a pressão social se intensificou, não havia base real que sustentasse o regime. Sua fuga simbolizou o colapso de uma ordem que já não possuía legitimidade interna.
É nesse vácuo que emerge o fenômeno conhecido como khomeinismo. Frequentemente reduzido a uma expressão puramente religiosa, ele revela, sob análise mais profunda, uma estrutura política muito mais complexa. O que se apresenta como uma revolução espiritual também incorpora elementos típicos das revoluções ideológicas do século XX, especialmente no que diz respeito à mobilização de massas, à centralização do poder e à reorganização econômica sob controle estatal.
Após a revolução, tribunais revolucionários promoveram a expropriação de grandes propriedades, indústrias e ativos pertencentes à antiga elite. Longe de serem medidas pontuais, essas ações refletem um padrão clássico de redistribuição forçada, semelhante ao observado em processos revolucionários de inspiração socialista. A economia iraniana passou por um processo significativo de estatização, com o Estado assumindo papel central na organização e controle dos recursos produtivos.
A influência intelectual sobre esse processo também não pode ser ignorada. O pensamento de Ali Shariati foi fundamental na construção de uma linguagem que fundia elementos do islã com conceitos típicos da esquerda revolucionária, como luta de classes, anti-imperialismo e mobilização dos oprimidos contra elites dominantes. A retórica em torno dos mustazafin, os oprimidos, reforça essa divisão moral absoluta, característica comum a movimentos revolucionários que se estruturam em torno da oposição entre “povo puro” e “elite corrupta”.
Nesse aspecto, a convergência com o modelo da Revolução Bolchevique torna-se evidente. Assim como no caso russo, a revolução iraniana não se limitou à substituição de um regime político, mas buscou redefinir completamente a ordem social, econômica e moral. Em ambos os casos, a revolução foi elevada a um patamar quase sagrado, não apenas como um evento histórico, mas como uma missão contínua de purificação e reconstrução da sociedade.
No caso iraniano, essa sacralização assume uma forma particular: a revolução deixa de ser apenas política e passa a ser interpretada como um dever religioso. A luta contra a monarquia não é apresentada apenas como uma disputa de poder, mas como uma cruzada moral contra a decadência, a corrupção e a influência estrangeira. Esse enquadramento confere legitimidade a medidas radicais, incluindo a centralização do poder e o controle extensivo da economia.
O resultado é a formação de um modelo no qual Estado, ideologia e religião se fundem em uma estrutura altamente centralizada. A economia permanece amplamente sob controle estatal ou de fundações vinculadas ao poder político, enquanto a sociedade civil opera com autonomia limitada. Nesse cenário, a promessa de justiça social serve como justificativa para a expansão contínua do poder estatal.
Isso não revela qualquer contradição, mas sim uma coerência estrutural entre soberania externa e ordem interna. A República Islâmica se afirma como uma expressão autêntica da vontade civilizacional iraniana, na qual a centralização do poder não representa opressão, mas organização de um princípio superior capaz de proteger a sociedade contra fragmentação e dominação estrangeira.
Longe de reduzir a autonomia social, esse modelo a preserva ao impedir que forças externas, econômicas ou culturais, desintegrem o corpo político. A autonomia, nesse contexto, não é entendida como atomização individual típica do liberalismo, mas como a capacidade de um povo de manter sua identidade, seus valores e seus interesses históricos diante de pressões externas.
Sob essa perspectiva, o regime iraniano se aproxima mais de uma concepção clássica de ordem política do que dos modelos modernos liberais. Há aqui uma afinidade com a ideia de uma república orientada por princípios superiores, como descrito por Platão em A República, na qual a política não se reduz à disputa de interesses individuais, mas se estrutura a partir de uma hierarquia orientada pelo bem comum, pela virtude e por uma concepção elevada de justiça.
Nesse sentido, a República Islâmica não deve ser interpretada como um desvio, mas como uma forma própria de organização política, na qual soberania, ordem e identidade se articulam como elementos inseparáveis de um mesmo projeto civilizacional.
O antiliberalismo, entendido também como antiocidentalismo, dado que o Ocidente moderno é o berço do liberalismo, não deve ser compreendido como uma simples negação do mercado, mas como a recusa mais profunda da própria ontologia liberal, isto é, da fragmentação do ser social em indivíduos atomizados e da dissolução de qualquer princípio superior de ordem. O que está em jogo não é apenas a economia, mas a rejeição de uma visão de mundo que desintegra a comunidade orgânica e rompe os vínculos entre tradição, autoridade e destino coletivo.
A experiência iraniana pós-1979 revela algo mais essencial: as civilizações, quando confrontadas com a ameaça da homogeneização liberal, recorrem às suas próprias linguagens simbólicas, sejam elas religiosas ou ideológicas, para reafirmar sua soberania existencial. Nesse sentido, a retórica espiritual não é um disfarce, mas uma expressão autêntica de uma metafísica política, na qual o poder deixa de ser um mero instrumento administrativo e passa a encarnar uma missão histórica e transcendente.
A centralização que emerge desse processo não deve ser lida apenas em termos administrativos, mas como a reconstituição de um eixo vertical de autoridade, capaz de unificar o corpo político em torno de um princípio superior. A revolução, então, deixa de ser um evento pontual e se transforma em um estado permanente de vigilância civilizacional, uma afirmação contínua contra as forças dissolventes do mundo moderno.
Assim, o khomeinismo não pode ser reduzido às categorias convencionais do século XX. Ele se apresenta como uma forma singular de resistência civilizacional, na qual política e sagrado se entrelaçam de maneira indissociável. Não se trata apenas de concentrar poder, mas de reintegrá-lo a uma ordem simbólica mais elevada, onde a autoridade encontra sua legitimidade não no consenso passageiro, mas na fidelidade a um destino histórico e espiritual.