terça-feira, 21 de outubro de 2025

O CREPÚSCULO DO HOMEM EUROPEU E O RETORNO AO SAGRADO

Toda civilização, como todo ser vivo, nasce, amadurece, declina e morre. Essa é a lei dos ciclos que Spengler identificou na história e que as doutrinas tradicionais chamaram de sucessão das idades. O Ocidente vive o fim do seu ciclo, o crepúsculo de sua alma faústica. As cidades perderam o centro, as igrejas tornaram-se museus e as antigas aldeias foram substituídas por desertos de concreto. Já não há o elo entre o sagrado e o cotidiano, entre a forma e o sentido. A Europa moderna é uma sombra que esqueceu o nome da luz.

Guénon chamou este tempo de Kali Yuga, a Idade Escura. É a fase em que o mundo se afasta do princípio e o homem esquece a origem. O que antes era hierarquia torna-se massa, o que era símbolo vira mercadoria. E no vazio deixado pela fé e pela tradição, novas forças emergem. O islamismo, firme em sua crença e em sua estrutura, expande-se sobre um continente que perdeu sua alma. Onde o cristianismo e o paganismo haviam um dia se fundido, há agora um corpo sem espírito, um continente que conserva formas mas perdeu o conteúdo.

O paganismo desapareceu quando se esgotou o vínculo direto entre o homem e a terra. O cristianismo começou a declinar quando se esvaziou de sentido interior e deixou de ser um caminho para o transcendente. O islamismo cresce hoje não apenas pela força da fé, mas pelo vácuo deixado por essa ruptura. É uma força que se impõe, não uma síntese que se realiza. Ao contrário do que ocorreu quando o Cristo encontrou o solo pagão, não há fusão, mas substituição. O islã não dialoga, ocupa; não transforma, cobre. Sua rigidez e seu monolitismo encontram terreno fértil onde antes havia vitalidade e espírito, e agora há apenas cansaço e descrença.

Para Evola, o homem diferenciado é aquele que, mesmo no meio da ruína, conserva em si o eixo vertical do ser. Ele é o portador do fogo que não se apaga, o guardião da forma espiritual quando o mundo se dissolve. É nesse ponto que o destino europeu ainda pode reencontrar o sentido. O retorno da Europa tradicional não será político nem econômico, mas espiritual. Não nascerá de reformas nem de movimentos, mas da reorientação interior de alguns que ainda recordam o símbolo e o rito.

O ciclo não termina com o caos, mas prepara o renascimento. O inverno precede a primavera. E assim como o cristianismo absorveu o paganismo e o elevou à luz, uma nova síntese poderá surgir no futuro, quando a Europa recuperar o senso do sagrado que perdeu. Talvez não como repetição do passado, mas como redescoberta de um princípio eterno que nunca se extingue, apenas adormece.

A restauração da Ordem não virá do poder temporal, mas da reintegração do espírito. O homem que reencontrar o centro dentro de si será o mesmo que o restituirá fora de si. O verdadeiro renascimento não é retorno ao ontem, mas ascensão ao eterno. Quando o europeu compreender que sua missão não é apenas preservar ruínas, mas reanimar o espírito que lhes deu forma, então o ciclo da noite se encerrará e o dia voltará a nascer.

A Europa, filha do sol Invictus e da cruz, só renascerá quando redescobrir sua essência. E enquanto o fogo do sagrado ainda arder em um só homem, essa busca ainda não estará perdida.

domingo, 19 de outubro de 2025

O ESPÍRITO PAGÃO E A SÍNTESE EUROPEÍSTA


Ensaio sobre a alma europeia e sua destruição moderna

O termo pagão, vindo do latim paganus, não designava um ímpio ou idólatra, mas o homem do campo, o guardião da terra, o camponês fiel aos deuses do solo e às forças do cosmos. No coração do paganismo estava o elo entre o homem e o mundo, entre o visível e o invisível. Era a consciência de que o sagrado não habitava fora da criação, mas pulsava em cada nascente, em cada colheita, em cada ciclo do sol.

A aldeia antiga era um microcosmo. No centro dela erguia-se o templo, não como separação entre o divino e o terreno, mas como ponto de encontro. O camponês era o sacerdote da Terra, o mediador silencioso entre o céu e o solo.

Essa ordem tradicional, descrita por René Guénon, representava o estado primordial de harmonia entre o homem e o cosmos, entre o princípio transcendente e sua manifestação. O paganismo, sob essa luz perene, não era uma superstição primitiva, mas uma forma legítima da Tradição Primordial, aquela que, variando em ritos e nomes, expressava uma mesma ciência sagrada do Ser. Quando o cristianismo surgiu no mundo antigo, o verdadeiro embate não ocorreu entre o falso e o verdadeiro Deus, mas entre duas fases de uma mesma revelação. O Cristo, como Logos, não negou o Sol Invicto, ele o transfigurou.

Foi na Europa que essa transfiguração ganhou seu rosto mais puro. Ao penetrar nos campos pagãos, o cristianismo não destruiu o espírito telúrico, antes o santificou. A cruz fincada na colina tornou-se a nova árvore do mundo. As festas agrícolas converteram-se em festas litúrgicas, e o camponês cristão continuou, sob outra linguagem, a celebrar o eterno retorno da vida.

Por isso o cristianismo europeu foi, em essência, paganismo redimido, o espírito da Terra elevado à luz do Céu. Daí sua profunda diferença em relação ao judaísmo. Este rompeu com o mundo natural, tornando-se uma religião histórica e abstrata. Aquele, em sua forma europeia, reconciliou o Espírito e a Natureza.

Essa síntese entre paganismo e cristianismo foi o segredo da civilização europeia tradicional, o que Julius Evola chamou de espiritualidade solar. O europeu antigo via em sua nação, em seu sangue e em sua paisagem uma manifestação do princípio divino. Cada povo era um templo, cada língua uma liturgia, cada montanha um altar. O nacionalismo tradicional, anterior à degeneração moderna do nacionalismo político, não era ideologia, mas uma mística do enraizamento, a consciência do vínculo sagrado entre a alma e o solo.

No centro dessa Europa espiritual estava a Alemanha. Nenhum outro povo sintetizou com tanta profundidade a mística da floresta e a metafísica do espírito. Das névoas do paganismo germânico à filosofia idealista, o alemão buscou o Absoluto, não como abstração, mas como presença interior. Foi o espírito germânico que, na leitura de Spengler, encarnou a alma faústica: o impulso infinito, o anseio pelo eterno, a verticalidade do espírito que rompe os limites do mundo material. A Alemanha foi a guardiã do centro espiritual da Europa, ponte entre o Norte solar e o cristianismo romano, entre o mito e o Logos.

Mas a modernidade, essa era da dissolução anunciada por Guénon, lançou-se contra tudo o que ainda conservava o selo da Tradição. A destruição da Alemanha no século XX foi mais que um acontecimento político: foi um sacrifício ritual do próprio espírito europeu. As bombas que caíram sobre suas cidades não destruíram apenas pedra e carne, mas o último vestígio de uma civilização que ainda acreditava no vínculo entre o sagrado e o sangue, entre o homem e o cosmos. O pós-guerra não reconstruiu a Europa, apenas sepultou sua alma.

Hoje, o homem europeu, e por extensão o homem moderno, vive exilado em seu próprio solo, desenraizado da terra e do céu, incapaz de compreender o sentido do sagrado que seus ancestrais viviam de modo natural. Paganismo e cristianismo, outrora dois ramos de uma mesma árvore, foram separados artificialmente pela mentalidade racionalista e materialista. O que resta é o chamado silencioso da Tradição Eterna, a mesma que os camponeses pagãos intuíram sob o sol e que os místicos cristãos contemplaram no crucifixo.

A restauração do espírito europeu, e com ele do próprio homem tradicional, só será possível quando essa reconciliação for novamente compreendida, quando o Cristo Solar e os Deuses da Terra voltarem a ser reconhecidos como expressões do mesmo Mistério. O destino da Europa não está em escolher entre o paganismo e o cristianismo, mas em reencontrar o eixo metafísico que outrora uniu ambos. Pois onde o homem se reenraiza no sagrado, o mundo volta a respirar com a alma dos deuses.

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

A Nobreza Indígena e Mestiça nos Vice-Reinos Espanhóis: A Síntese da Unidade Imperial Hispânica

“La nobleza española no negó las noblezas indígenas; se mezcló.”
— Elvira Roca Barea

Ao contrário do que propagou a chamada Leyenda Negra, a monarquia espanhola nunca concebeu a conquista da América como um processo de aniquilação racial. O Império Hispânico não se fundou sobre o extermínio, mas sobre a integração espiritual e política de povos diversos dentro de uma mesma ordem civilizatória: a Monarquia Católica Universal.

Desde os primeiros vice-reinados, a Coroa reconheceu oficialmente a nobreza indígena, legitimando linhagens pré-hispânicas que haviam exercido autoridade antes da chegada dos espanhóis. Senhores astecas, incas e caciques regionais foram confirmados como “principales” e receberam brasões, títulos e privilégios, passando a ocupar posições administrativas e militares dentro da nova estrutura imperial.
O Império, longe de negar as hierarquias locais, as hispanizou, incorporando-as à lógica da cristandade e da lealdade ao rei.

Em cidades como Cuzco, Tlaxcala, Quito ou Puebla, era comum encontrar famílias mestiças e indígenas que ostentavam o mesmo status de hidalgos espanhóis, servindo na burocracia, nas milícias e no clero. Muitos receberam educação jesuítica e se tornaram intelectuais, juristas e missionários. O ideal hispânico não era o da segregação, mas o da união pela fé e pela cultura, onde a conversão e o serviço à Coroa abriam caminho para a ascensão social.

“Los españoles son capaces de arraigar en un medio totalmente diferente y humanizarlo.”
— Adelaida Sagarra

Essa capacidade de arraigar e humanizar explica por que o império espanhol foi o único do mundo a criar uma civilização mestiça estável, na qual o sangue europeu, indígena e africano se fundiram num mesmo corpo político e espiritual.
Nas missões do Paraguai, nas universidades de Lima e México, nos cabildos de Quito ou Charcas, nasceu uma nobreza nova e criolla, mestiça em sua carne, mas católica e hispânica em seu espírito — a primeira verdadeira aristocracia americana.

A monarquia não apenas tolerou essa fusão; a legitimou juridicamente. As Leyes de Indias reconheciam as comunidades indígenas, suas autoridades locais e seus privilégios. O conceito de “vassalo do rei” unificava brancos, índios e mestiços sob um mesmo pacto de fidelidade. A Espanha, ao contrário dos impérios protestantes e anglo-saxões, não impôs segregação racial, mas hierarquia espiritual e cultural, aberta à ascensão de quem aceitasse a ordem católica e monárquica.

Com as independências liberais do século XIX, esse equilíbrio foi destruído. As novas repúblicas, fundadas sobre o individualismo e o racismo científico europeu, negaram a nobreza mestiça e indígena, apagando séculos de integração e impondo uma aristocracia oligárquica fechada.
Foi então, e não antes, que se impôs a verdadeira exclusão racial na América Hispânica.

“La Leyenda Negra contra España erigida por los anglosajones debe ser desarmada por los hispanoamericanos, más que por los españoles… España tendrá que reconquistarse a sí misma desde América.”
— Juan José Hernández Arregui

A defesa da herança hispânica, portanto, não é nostalgia imperial: é reconhecimento de uma civilização que soube integrar, elevar e universalizar.
A nobreza mestiça e indígena dos vice-reinos simboliza o que há de mais profundo na Hispanidade: a vocação para a unidade espiritual acima da cor, da origem ou da geografia.

Porque a Espanha, mais que uma nação, foi — e continua sendo — um princípio de civilização.
E sua mais duradoura vitória não foi militar, mas humana: a criação do homem hispano-americano.

terça-feira, 14 de outubro de 2025

A Traição das Independências: Como as Repúblicas Hispano-Americanas Destruíram as Terras Indígenas


A história oficial das independências hispano-americanas costuma ser contada como uma epopeia de libertação: povos oprimidos que se levantam contra o domínio colonial para conquistar a liberdade e a soberania. Mas, por trás desse mito heroico, esconde-se uma verdade muito mais amarga.
Para milhões de indígenas e camponeses, a independência não trouxe emancipação — trouxe a ruína de suas comunidades, a perda de suas terras e o fim das garantias que a monarquia católica ainda lhes concedia.

Sob o Império Espanhol, com todos os seus defeitos, existia um princípio civilizatório que reconhecia o indígena como vassalo do rei e sujeito de direito. As reais cédulas e os títulos comunais garantiam às comunidades um mínimo de proteção legal contra os abusos de encomenderos e fazendeiros.
Com a chegada das repúblicas liberais, inspiradas em ideologias estrangeiras e dominadas por elites crioulas, essas proteções desapareceram. As antigas terras comunais foram dissolvidas, privatizadas e entregues a grandes latifundiários, inaugurando um ciclo de miséria que atravessaria os séculos XIX e XX.

O que se apresentou como independência foi, na prática, a substituição de uma ordem espiritual e jurídica — cristã e comunitária — por outra puramente econômica e oligárquica.
Essa transformação marcou não apenas o México, mas toda a América Hispânica, e explica por que os séculos que seguiram à independência foram, para os povos indígenas, um longo processo de despossessão e resistência.

Quando as antigas colônias espanholas proclamaram sua independência no século XIX, o discurso dominante prometia liberdade, soberania e progresso. Mas para milhões de indígenas, camponeses e comunidades tradicionais, a independência significou o início de uma nova forma de servidão.

Durante o período do Virreinato, apesar das contradições e abusos, a Monarquia Católica Hispânica reconhecia aos povos originários uma personalidade jurídica própria. As reais cédulas e títulos virreinais garantiam a propriedade comunal das terras indígenas, reconhecidas como “pueblos de indios”.
Esses direitos não eram uma concessão benevolente, mas parte da própria doutrina católica e imperial, que via o indígena como vassalo livre da Coroa — dotado de alma, dignidade e direito a apelar ao rei contra encomenderos e abusos locais.

Essa estrutura jurídica criou uma rede de proteção legal e moral que, embora imperfeita, limitava o poder dos latifundiários e dos interesses privados. A terra, na cosmovisão hispânica, tinha uma função social e espiritual, e o trabalho indígena era reconhecido dentro da ordem cristã.

Tudo isso mudou com as independências e as novas repúblicas liberais.
Inspirados por ideais iluministas e por uma visão secular e mercantil da sociedade, os novos Estados hispano-americanos aboliram os títulos virreinais e desmantelaram a ordem comunitária herdada da Monarquia.
No México, na Nova Granada, no Peru, na Bolívia, no Chile e no Rio da Prata, as elites crioulas — descendentes dos mesmos colonos que antes denunciavam o “domínio espanhol” — concentraram as terras e o poder nas mãos de poucos.

A Lei Lerdo no México (1856) foi apenas o exemplo mais visível de uma política generalizada em toda a América Hispânica: as leis de desamortização, que obrigaram tanto as comunidades indígenas quanto a Igreja a vender suas terras comunais.
O resultado foi devastador: as terras ancestrais passaram ao controle de latifundiários e especuladores, destruindo séculos de organização comunitária.
O campesinato indígena, que sob a Coroa ainda mantinha um grau de autonomia e autodefesa legal, foi transformado em peonaje, dependente e empobrecido.

Essa perda das terras comunais não foi um mero efeito colateral — foi a base econômica das novas repúblicas, que se edificaram sobre o espólio do mundo indígena e eclesiástico.
Em nome da “liberdade”, os povos originários perderam o pouco que lhes restava de soberania e dignidade.
E foi justamente esse despojo que alimentou os grandes movimentos de resistência do século XIX e XX: as guerras indígenas no sul andino, os levantamentos no altiplano boliviano, e sobretudo a Revolução Mexicana, cujo lema “Tierra y Libertad” expressava a revolta contra o liberalismo oligárquico que havia traído o povo.

Assim, ao contrário do que ensinam os manuais oficiais, a verdadeira destruição das comunidades indígenas não começou com a chegada dos espanhóis, mas com a partida deles.
A Hispanidade imperial, com todos os seus limites, havia reconhecido o indígena como parte de um corpo político e espiritual maior — o da Monarquia Católica.
As repúblicas liberais, em nome da “modernidade”, o reduziram à condição de servidão econômica e exclusão cultural.

O que se perdeu com a independência não foi apenas território, mas uma ordem civilizatória que, embora hierárquica, ainda era humana.
E o que se instaurou, em seu lugar, foi um mundo de latifúndio, racismo estrutural e exploração liberal, que até hoje marca o destino das nações hispano-americanas.

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

As Reduções Jesuíticas: A Estratégia Civilizatória da Coroa Hispânica para Civilizar os Guaranis

Muito se fala das missões jesuíticas como “instrumentos de dominação” europeia. Mas poucos entendem o verdadeiro contexto em que nasceram, uma estratégia político-religiosa da Coroa Espanhola para estabilizar o coração instável do continente sul-americano, reunindo e civilizando povos que até então viviam em permanente guerra e dispersão.

Os guaranis, diferentemente do que o imaginário popular pinta, não eram um povo pacífico nem sedentário. Eram nômades guerreiros, conhecidos por sua mobilidade, por sua cultura de guerra e, muitas vezes, por sua crueldade contra tribos rivais. Envolviam-se constantemente em conflitos com tupis, charruas, minuanos e outros grupos da vasta região platina, a quem subjugavam ou exterminavam quando os consideravam inimigos.
Esse caráter bélico e tribal impedia qualquer estabilidade política ou social duradoura.

Diante disso, a Coroa Espanhola — guiada pela visão universalista da cristandade ibérica — compreendeu que a integração desses povos exigia algo mais que a força militar. Era preciso criar um novo modelo social, capaz de converter, organizar e elevar os guaranis ao status de cidadãos da monarquia católica. É aí que entram os jesuítas, missionários formados não apenas em teologia, mas também em política, administração e linguística, enviados pela Coroa como agentes de uma missão civilizatória e integradora.

As chamadas Reduções Jesuíticas — ou “Pueblos de Indios” — nasceram com esse propósito: agrupar os guaranis dispersos, ensiná-los a viver em comunidades estáveis, introduzir-lhes a agricultura, a música, a escrita e a fé cristã, e, sobretudo, transformá-los em vassalos livres do Rei da Espanha, protegidos pelas Leis das Índias, que reconheciam o indígena convertido como cidadão da monarquia.

Longe de serem “campos de exploração”, as reduções eram microcosmos hispano-guaranis, verdadeiros experimentos sociais que uniam o espírito comunitário guarani à ordem cristã europeia. Os indígenas aprendiam ofícios, música sacra, arquitetura e arte, e muitos se tornaram soldados, escribas, músicos e administradores.
A convivência era regida pela autoridade moral dos padres e pela lei espanhola — um equilíbrio raro entre fé, disciplina e autonomia.

Assim, o projeto jesuítico não foi uma simples imposição religiosa: foi um instrumento político da monarquia hispânica para transformar povos nômades e guerreiros em súditos leais e produtivos. Um projeto de integração e civilização, que — embora interrompido pelos conflitos com os bandeirantes e pelas disputas entre Espanha e Portugal — deixou um legado inegável de ordem e cultura no sul da América.

Os guaranis das reduções não foram vítimas: foram os primeiros indígenas a se tornarem parte formal da civilização hispânica, sob proteção direta da Coroa e do cristianismo. E graças a essa transformação, o espaço platino — outrora dominado por guerras tribais — tornou-se o berço do que mais tarde daria origem às sociedades do Paraguai, do norte argentino e do próprio Rio Grande do Sul.

As Reduções Jesuíticas foram a ponte entre o mundo tribal e o mundo civilizado, não um ato de opressão, mas de integração e redenção, em consonância com o ideal católico de que todo homem, independentemente de sua origem, podia ser elevado à condição de cidadão do Império e filho de Deus.


Desmistificando a Colonização da América: Entre Impérios e Alianças

A narrativa moderna costuma pintar a conquista espanhola como uma tragédia unilateral: os nobres e inocentes povos originários oprimidos pelos cruéis europeus. Mas a história real, quando observada com profundidade, revela algo bem mais complexo — uma luta entre impérios, alianças e interesses locais que já existiam muito antes da chegada dos espanhóis.

Os mexicas (ou astecas), por exemplo, não eram um povo “oprimido”, mas sim um império expansionista e militarista, que subjugava dezenas de povos vizinhos. Seu domínio se sustentava por meio de tributos forçados, guerras rituais e sacrifícios humanos em escala industrial, nos quais prisioneiros de povos conquistados eram oferecidos aos deuses.

Quando Hernán Cortés desembarcou, não encontrou uma civilização unida e pacífica — encontrou nações indígenas oprimidas, ansiosas por se libertar do jugo mexica. Povos como os tlaxcaltecas, totonacas e outros se aliaram aos espanhóis não por ingenuidade, mas por estratégia política e sobrevivência. Foi graças a essas alianças que um punhado de espanhóis pôde derrotar o império mexica. Os verdadeiros inimigos dos mexicas não foram os europeus, mas sim os próprios povos que eles haviam escravizado.

Já no caso dos incas, a situação foi distinta. O Império Inca, embora também expansionista, adotava uma forma de domínio mais administrativa e integradora. Muitos povos anexados foram incorporados ao sistema imperial com certa autonomia local, e não com o mesmo terror sacrificial mexica. Por isso, quando os espanhóis chegaram, muitos líderes incas foram rapidamente integrados à nobreza colonial hispânica.
A própria legislação dos Reis Católicos, inspirada na doutrina cristã, reconhecia que os indígenas que aceitassem a soberania espanhola eram cidadãos de pleno direito, protegidos pela Coroa — o que explica por que tantas comunidades indígenas cooperaram e foram reconhecidas dentro do novo sistema colonial.

Portanto, não houve uma simples “invasão branca sobre povos bons e indefesos”, mas um processo de reordenação geopolítica, no qual os impérios indígenas ruíram com a ajuda de seus próprios rivais. A história verdadeira é a de alianças, pragmatismo e choques entre civilizações imperiais, não a de uma fábula moral moderna de “opressores e oprimidos”.

Como bem lembrado no caso do Peru, mais de 40 mil nativos lutaram ao lado de apenas cem espanhóis na conquista de Cuzco. Isso desmonta completamente o mito do europeu onipotente e do indígena passivo. Os povos locais foram atores centrais de sua própria história, e muitos viram na chegada espanhola a oportunidade de libertar-se de impérios internos tão cruéis quanto poderosos.

Assim, antes de criar ódio com base em simplificações ideológicas, vale lembrar:
os espanhóis não destruíram um paraíso — eles derrubaram impérios. E muitos dos que hoje são retratados como vítimas foram, em seu tempo, os dominadores.

domingo, 12 de outubro de 2025

12 de Outubro – Día de la Hispanidad: O Encontro de Dois Mundos que Construiu uma Civilização


Em 12 de outubro de 1492, iniciou-se um dos acontecimentos mais decisivos da história mundial, o nascimento do mundo hispano-americano. Mais do que uma “conquista” no sentido moderno e ideológico, foi um encontro entre civilizações, que transformou para sempre o destino de dois continentes — e lançou as bases de uma comunidade histórica e cultural que hoje se estende por toda a América.

Muito se tenta reduzir este dia a uma narrativa simplista de “opressores e oprimidos”. Mas a verdade histórica é bem mais complexa — e muito mais rica em detalhes.

Quando os espanhóis chegaram à América, não encontraram um continente unido nem povos harmoniosos. Encontraram impérios expansionistas, como o mexica, que subjugavam dezenas de tribos por meio de guerras e sacrifícios humanos. Por isso, foram os próprios povos indígenas — tlaxcaltecas, totonacas e tantos outros — que se aliaram aos espanhóis para derrubar o imperialismo mexica.
Não foi uma destruição de povos: foi a queda de um império sanguinario local e a reorganização de uma nova ordem.

Situação semelhante ocorreu no mundo andino. Os incas, embora poderosos, adotavam um sistema mais integrador, e por isso muitos de seus líderes foram incorporados à nobreza espanhola, participando da construção da nova ordem hispânica. E nas vastas regiões platinas, os guaranis — antes povos nômades e guerreiros — foram integrados ao Império Espanhol por meio das Reduções Jesuíticas, que os cristianizaram, organizaram e os elevaram à cidadania espanhola, conforme as Leis das Índias ocidentais.
Não se tratou de apagamento, mas de integração política e espiritual, sob o ideal universalista da cristandade ibérica.

A Hispanidade nasceu, portanto, como um projeto civilizatório único na história, onde povos de origens distintas — espanhóis, indígenas e depois africanos — foram incorporados em uma mesma comunidade de fé, língua, lei e cultura. Foi uma expansão não apenas de territórios, mas de um ideal universal de ordem, transcendência e unidade.

Celebrar o Día de la Hispanidad ou Día de la Raza não é negar erros ou complexidades históricas — é reconhecer que desse encontro surgiu uma das civilizações mais vastas e duradouras do planeta: a civilização hispano-americana, que moldou o destino das Américas, da Península Ibérica e do mundo.

Hoje, em cada língua castelhana falada, em cada traço cultural que une Madrid a Assunção, de Lima a Manila, de Sevilha a Buenos Aires, ecoa a herança de 12 de outubro de 1492. Não é um dia de vergonha — porque não se tem motivo para se pedir perdão, pois é um dia de memória, identidade e grandeza compartilhada.

¡Viva la Hispanidad!