A história oficial das independências hispano-americanas costuma ser contada como uma epopeia de libertação: povos oprimidos que se levantam contra o domínio colonial para conquistar a liberdade e a soberania. Mas, por trás desse mito heroico, esconde-se uma verdade muito mais amarga.
Para milhões de indígenas e camponeses, a independência não trouxe emancipação — trouxe a ruína de suas comunidades, a perda de suas terras e o fim das garantias que a monarquia católica ainda lhes concedia.
Sob o Império Espanhol, com todos os seus defeitos, existia um princípio civilizatório que reconhecia o indígena como vassalo do rei e sujeito de direito. As reais cédulas e os títulos comunais garantiam às comunidades um mínimo de proteção legal contra os abusos de encomenderos e fazendeiros.
Com a chegada das repúblicas liberais, inspiradas em ideologias estrangeiras e dominadas por elites crioulas, essas proteções desapareceram. As antigas terras comunais foram dissolvidas, privatizadas e entregues a grandes latifundiários, inaugurando um ciclo de miséria que atravessaria os séculos XIX e XX.
O que se apresentou como independência foi, na prática, a substituição de uma ordem espiritual e jurídica — cristã e comunitária — por outra puramente econômica e oligárquica.
Essa transformação marcou não apenas o México, mas toda a América Hispânica, e explica por que os séculos que seguiram à independência foram, para os povos indígenas, um longo processo de despossessão e resistência.
Quando as antigas colônias espanholas proclamaram sua independência no século XIX, o discurso dominante prometia liberdade, soberania e progresso. Mas para milhões de indígenas, camponeses e comunidades tradicionais, a independência significou o início de uma nova forma de servidão.
Durante o período do Virreinato, apesar das contradições e abusos, a Monarquia Católica Hispânica reconhecia aos povos originários uma personalidade jurídica própria. As reais cédulas e títulos virreinais garantiam a propriedade comunal das terras indígenas, reconhecidas como “pueblos de indios”.
Esses direitos não eram uma concessão benevolente, mas parte da própria doutrina católica e imperial, que via o indígena como vassalo livre da Coroa — dotado de alma, dignidade e direito a apelar ao rei contra encomenderos e abusos locais.
Essa estrutura jurídica criou uma rede de proteção legal e moral que, embora imperfeita, limitava o poder dos latifundiários e dos interesses privados. A terra, na cosmovisão hispânica, tinha uma função social e espiritual, e o trabalho indígena era reconhecido dentro da ordem cristã.
Tudo isso mudou com as independências e as novas repúblicas liberais.
Inspirados por ideais iluministas e por uma visão secular e mercantil da sociedade, os novos Estados hispano-americanos aboliram os títulos virreinais e desmantelaram a ordem comunitária herdada da Monarquia.
No México, na Nova Granada, no Peru, na Bolívia, no Chile e no Rio da Prata, as elites crioulas — descendentes dos mesmos colonos que antes denunciavam o “domínio espanhol” — concentraram as terras e o poder nas mãos de poucos.
A Lei Lerdo no México (1856) foi apenas o exemplo mais visível de uma política generalizada em toda a América Hispânica: as leis de desamortização, que obrigaram tanto as comunidades indígenas quanto a Igreja a vender suas terras comunais.
O resultado foi devastador: as terras ancestrais passaram ao controle de latifundiários e especuladores, destruindo séculos de organização comunitária.
O campesinato indígena, que sob a Coroa ainda mantinha um grau de autonomia e autodefesa legal, foi transformado em peonaje, dependente e empobrecido.
Essa perda das terras comunais não foi um mero efeito colateral — foi a base econômica das novas repúblicas, que se edificaram sobre o espólio do mundo indígena e eclesiástico.
Em nome da “liberdade”, os povos originários perderam o pouco que lhes restava de soberania e dignidade.
E foi justamente esse despojo que alimentou os grandes movimentos de resistência do século XIX e XX: as guerras indígenas no sul andino, os levantamentos no altiplano boliviano, e sobretudo a Revolução Mexicana, cujo lema “Tierra y Libertad” expressava a revolta contra o liberalismo oligárquico que havia traído o povo.
Assim, ao contrário do que ensinam os manuais oficiais, a verdadeira destruição das comunidades indígenas não começou com a chegada dos espanhóis, mas com a partida deles.
A Hispanidade imperial, com todos os seus limites, havia reconhecido o indígena como parte de um corpo político e espiritual maior — o da Monarquia Católica.
As repúblicas liberais, em nome da “modernidade”, o reduziram à condição de servidão econômica e exclusão cultural.
O que se perdeu com a independência não foi apenas território, mas uma ordem civilizatória que, embora hierárquica, ainda era humana.
E o que se instaurou, em seu lugar, foi um mundo de latifúndio, racismo estrutural e exploração liberal, que até hoje marca o destino das nações hispano-americanas.