quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

A Inadequação das Acusações de Xenofobia e Racismo aos Sulistas

A história do Sul nasce dentro do sistema virreinal espanhol das reduções jesuíticas, e não do colonialismo luso-brasileiro. Antes da presença portuguesa, já existia na região uma sociedade integrada ao vice-reino espanhol, formada pela mestiçagem entre indígenas e criollos, os brancos espanhóis nascidos na América. Essa base civilizatória, confirmada por autores como Moacyr Flores, Manoelito de Ornellas e Eduardo Galeano, define a identidade original do Sul e diferencia profundamente sua formação do restante do Brasil.

A formação social do Sul do Brasil revela um processo civilizacional profundamente distinto do restante do país. A identidade gaúcha nasce no interior do sistema missioneiro hispano-guarani, no qual ocorreram processos intensos de miscigenação entre homens indígenas e mulheres criollas ou entre homens criollos e mulheres indígenas. O termo criollos refere-se exclusivamente aos brancos espanhóis nascidos na América, categoria essencial para compreender a base étnica original dos povos do Prata. Como observa Moacyr Flores, a sociedade sulina emerge de uma convivência plural que não seguia o modelo de segregação típica das colônias anglo-saxãs, mas de uma dinâmica própria do império espanhol, marcada pela integração cultural e pela permeabilidade social. Manoelito de Ornellas já havia destacado que os elementos formadores do gaúcho se consolidaram a partir da fusão entre tradições indígenas, hispânicas e, mais tarde, açorianas, e que essa fusão estruturou uma mentalidade fronteiriça voltada para a convivência e não para a exclusão.

Essa base plural é o que torna conceitualmente equivocadas as tentativas contemporâneas de classificar o Sul como espaço de xenofobia ou racismo estrutural. A sociedade sulina não deriva das lógicas raciais anglo-americanas, herdadas de Inglaterra e Estados Unidos, que moldaram o imaginário do Brasil oitocentista e republicano. Eduardo Galeano afirma que os povos do Prata formaram suas identidades pela interação constante de grupos diversos, criando um espaço social em que a fronteira era menos uma linha divisória e mais um território de trocas. A consolidação civilizacional do Sul, somada à posterior chegada de imigrantes europeus que se integraram a essa base já plural, reforçou ainda mais a heterogeneidade que caracteriza historicamente a região.

Enquanto o Brasil herdou de Portugal uma postura de subordinação cultural às potências anglo-saxãs e, com isso, importou categorias raciais que não correspondiam totalmente à realidade ibero-americana, o Sul manteve viva a mentalidade plural típica do antigo vice-reinado espanhol. É por essa razão que a tentativa de transplantar para o Sul o conceito de racismo estrutural, concebido para explicar as dinâmicas sociais anglo-americanas, resulta em distorções históricas. A pluralidade foi o eixo formador da sociedade sulina desde sua origem, e essa característica ainda permanece no imaginário gaúcho, cuja identidade se estrutura muito mais pela mestiçagem, pela convivência e pela fronteira cultural do que por qualquer forma de segregação..


Referências bibliográficas:

FLORES, Moacyr. História do Rio Grande do Sul. 4. ed. Porto Alegre: Ed. da UFRGS, 2006.

ORNELLAS, Manoelito de. O Gaúcho. Porto Alegre: Livraria Globo, 1948.

GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. Porto Alegre: L&PM, 2010.