Um ensaio sobre identidade, território e secessão a partir da historiografia missioneira
A formação histórica do atual território do Sul do Brasil permanece, ainda hoje, profundamente condicionada por interpretações produzidas a partir do eixo luso-brasileiro, que tendem a projetar retrospectivamente sobre a região uma identidade colonial portuguesa contínua, homogênea e inevitável. Tal perspectiva ignora que, por mais de um século e meio, a inserção sociopolítica, econômica e cultural do espaço que corresponde ao Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná esteve organicamente vinculada ao sistema imperial espanhol, particularmente através das reduções jesuíticas do Prata. A historiografia missioneira demonstra que essas reduções não constituíam entidades isoladas ou autônomas, mas unidades integradas ao aparato administrativo do Vice-Reinado, dotadas de funções econômicas, fiscais, demográficas e militares. Autores como Moacyr Flores e Manoelito de Ornellas evidenciam que a ocupação efetiva da região, sua etnogênese e sua dinâmica produtiva não derivam de um suposto avanço luso-paulista, mas da estrutura missioneira hispano-guarani e de sua economia pastoril.
O reconhecimento desse processo é fundamental para compreender que a identidade regional sulina antecede o colonialismo português e não nasce de uma expansão bandeirante, mas da fusão entre populações guaranis das reduções e mulheres criollas de matrizes culturais castelhanas. Também deriva das práticas produtivas missioneiras que estruturaram o tropeirismo muito antes de seu reaproveitamento paulista no século XVIII. Portanto, quando se discute a posição histórica e cultural do Sul no interior do Estado brasileiro, é indispensável recolocar a região em seu quadro original: o da fronteira platina hispânica. A partir dessa perspectiva, torna-se possível afirmar, com base documental, que a história do Sul não se explica pela narrativa de uma brasilidade prévia, mas por um processo colonial distinto, que apenas posteriormente foi absorvido e muitas vezes silenciado pela expansão luso-brasileira.
A compreensão histórica da região Sul do continente exige observar sua formação muito antes da constituição do Estado brasileiro. O que hoje chamamos Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná foi, durante mais de um século, parte integrante do sistema colonial espanhol, estruturado pelos Trinta Povos das Missões. Esse fato, frequentemente minimizado pela historiografia oficial brasileira, revela que a região não nasceu atrelada à lógica luso-brasileira, mas integrada plenamente ao mundo hispano-guarani e ao espaço rio-platino.
Moacyr Flores insiste que as reduções não eram entidades isoladas nem possuíam autonomia política. Em suas palavras, “as Missões eram cidades indígenas organizadas conforme o direito espanhol, subordinadas às autoridades civis e eclesiásticas do Prata, sem qualquer projeto de independência” (Flores, Colonialismo e Missões Jesuíticas, p. 41). O autor demonstra que o cabildo missioneiro não representava autonomia, mas a adaptação da instituição municipal castelhana às populações guaranis. Por isso, a administração missioneira estava diretamente vinculada ao rei, ao vice-rei, aos governadores e à Audiência de Charcas, integrando-se por completo ao sistema colonial hispânico.
Essa integração não foi apenas administrativa, mas também econômica. O imenso complexo pastoril missioneiro, com suas estâncias repletas de rebanhos, formou o núcleo originário da pecuária do Sul. Flores registra que “a pecuária rio-grandense tem origem direta nas estâncias das Missões, cuja economia abastecia o Paraguai, o Prata e os centros hispano-americanos” (Flores, p. 102). Isso significa que o espaço pastoril que deu origem ao gaúcho está enraizado no universo jesuítico-guarani e não na tradição paulista ou sertaneja do Brasil português.
Manoelito de Ornellas, ao analisar a estrutura social missioneira, reforça que a miscigenação do Sul também deriva do mundo hispânico. Ele afirma que “o gaúcho se formou nas campanhas platinas, da fusão do índio missioneiro com elementos criollos, não do contato com o paulista ou com o português tardio” (Ornellas, O Gaúcho, p. 58). A matriz étnica e cultural do Sul, portanto, emerge da interação entre indígenas organizados em sociedades urbanizadas e mulheres criollas que circulavam ou habitavam o espaço platino. Trata-se de um processo profundamente diferente daquele ocorrido nas áreas de colonização portuguesa.
Até mesmo práticas culturais consideradas “brasileiras”, como o tropeirismo, têm origem missioneira. As primeiras rotas de circulação de gado e mulas foram organizadas pelos jesuítas e pelos próprios indígenas para ligar os povos do Tape e do Uruguai aos centros comerciais do Prata. Ornellas registra que “os caminhos de tropas eram conhecidos e utilizados pelos índios muito antes de qualquer entrada paulista” (Ornellas, p. 74). A estrutura logística, técnica e organizacional do tropeirismo nasceu dentro das reduções e só depois foi apropriada por paulistas quando o sistema missioneiro já estava destruído.
A ruptura desse mundo ocorreu pela intervenção luso-brasileira no século XVIII, sobretudo durante a Guerra Guaranítica. Os guaranis lutaram para preservar seu modo de vida e para evitar a transferência de sua terra à soberania portuguesa. Não houve insurgência contra a Espanha, mas resistência contra o Brasil. Flores escreve que “os índios não queriam mudar de rei; queriam manter a ordem espanhola que conheciam e na qual estavam integrados” (Flores, p. 56). Esse episódio é decisivo para compreender que a incorporação do Sul ao Brasil não foi originária, mas conquistada.
Esses elementos permitem sustentar que o Sul brasileiro se desenvolveu como prolongamento da América Hispânica, tanto no plano administrativo quanto no cultural, econômico e étnico. A presença portuguesa introduziu uma ruptura histórica, e não uma continuidade. Por isso, afirmar que o Sul tem direito a discutir autodeterminação não se trata de fantasia contemporânea, mas de reconhecer que sua trajetória identitária é anterior à formação do Brasil e coerente com padrões reconhecidos pelo direito internacional.
A região não nasceu brasileira. A região foi hispânica. Foi missioneira. Foi platina. Sua população, sua economia, sua religiosidade e seus códigos culturais derivam de uma matriz que não se confunde com a do colonialismo luso-brasileiro. A consolidação da hegemonia portuguesa no extremo sul apagou essa história, mas não a invalidou. Ao contrário: preservou uma memória subterrânea que explica por que o Sul frequentemente se percebe como distinto e por que alguns defendem que essa diferença histórica fundamenta o direito de discutir autonomia.
A partir dessa leitura, a questão da autodeterminação deixa de ser ruptura e passa a ser continuidade. Não se trata de inventar uma identidade alternativa, mas de reconhecer que essa identidade já existia muito antes do Brasil e sobreviveu mesmo à violência da anexação. A história missioneira, revelada pela historiografia, confirma que o Sul se formou sob outro horizonte civilizacional. E é essa consciência histórica que legitima, para quem a sustenta, o debate contemporâneo sobre a possibilidade de um caminho político próprio.
Nota 1: A defesa de um suposto legado monárquico brasileiro como fundamento identitário do povo gaúcho não resiste ao exame histórico rigoroso. O processo formativo do Sul não deriva do Império brasileiro, mas do sistema virreinal espanhol que estruturou os Trinta Povos das Missões, estabeleceu instituições administrativas, organizou a economia pastoril e produziu uma etnogênese mestiça hispano-guarani(gaúchos). A posterior implantação de sesmarias e de assentamentos açorianos, conduzida pelo aparelho colonial luso-brasileiro, não foi um movimento espontâneo de povoamento, mas uma estratégia deliberada para desarticular a ordem missioneira e diluir sua influência sobre a região. Esse projeto, entretanto, não eliminou a base étnica e cultural precedente. Os mestiços missioneiros (gaúchos) se mesclaram com os colonos açorianos, formando o tipo humano que, mais tarde, seria reconhecido como o gaúcho rio-grandense própriamente dito. Portanto, sustentar uma identidade monarquista brasileira para o Rio Grande do Sul implica ignorar que o núcleo original de sua história, cultura e povo reside no mundo hispano-missioneiro destruído pela expansão luso-brasileira.
Nota 2: Os conflitos do século XIX no Prata evidenciam um processo profundo de esquecimento das origens hispano-missioneiras por parte dos rio-grandenses já incorporados ao projeto estatal brasileiro. Durante as guerras cisplatinas e platinas, homens formados dentro de uma cultura regional marcada por elementos guarani-missioneiros e tradições pastorís rio-platenses lutaram contra povos que compartilhavam com eles uma matriz histórica e cultural comum. O engajamento dos rio-grandenses nas campanhas militares do Império e, posteriormente, da República, ao lado do Brasil e contra argentinos e uruguaios, expressa a ruptura identitária produzida pela anexação luso-brasileira e pela reconfiguração geopolítica da região.
Entretanto esse afastamento não foi absoluto. A Revolução Farroupilha e o período da República Rio-Grandense reabriram brevemente o horizonte platino, restaurando um diálogo histórico que havia sido interrompido pelas guerras imperiais. O mesmo fenômeno ocorreu mais tarde durante a Revolução Federalista quando maragatos e chimangos, influenciados por ideários republicanos e liberais de matriz platina, retomaram vínculos políticos, militares e culturais com o Uruguai e, em menor medida, com a Argentina. Esses episódios demonstram que, apesar do processo de integração forçada ao Brasil, o Rio Grande do Sul manteve pulsando em sua história uma memória profunda de pertença ao mundo platino, memória que reaparece sempre que a disputa política regional reabre os caminhos para as suas origens.
Referências Bibliográficas
Flores, Moacyr. Colonialismo e Missões Jesuíticas. Porto Alegre: Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes, 1980.
Flores, Moacyr. As Missões Jesuíticas e o Sistema Colonial Espanhol. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1983.
Ornellas, Manoelito de. O Gaúcho. Porto Alegre: Globo, 1957.
Ornellas, Manoelito de. História das Missões. Porto Alegre: Sulina, 1960.