segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

O Rio Grande que Parou de Lutar: Estagnação, Desunião e um Eco de Unidade Diluída


"O que muitos já sabem, mas preferem não dizer.

O Rio Grande do Sul é um estado partido ao meio, e não apenas no mapa. Há décadas, a metade norte avança com força, enquanto a metade sul se arrasta entre potencial desperdiçado, disputas internas e um ciclo que parece não ter fim.

A pergunta não é mais por que o Norte é mais desenvolvido. A pergunta, hoje, é até quando a metade sul aceitará permanecer refém da própria divisão.

No Norte, quando um evento acontece, toda a comunidade se mobiliza. Prefeitura, entidades, comércio e voluntários entendem que o sucesso é coletivo, que o turista gera renda e que união é investimento. E essa cultura não nasceu ontem: é fruto da formação social de pequenos agricultores, cooperativas fortes, escolas comunitárias e de um espírito de colaboração que atravessou gerações.

O resultado está aí: cidades vibrantes, economia diversificada e uma sociedade que compreende, na prática, que desenvolvimento é um projeto comunitário.

Na metade sul, a história é outra. Aqui, a herança das grandes estâncias criou distância, não proximidade. Criou hierarquia, não cooperação. Criou competição interna onde deveria haver parceria. Essa fragmentação cultural, alimentada por rivalidades políticas e disputas por protagonismo, cobra um preço alto: pobreza persistente, falta de oportunidades e a migração constante de quem não encontra futuro dentro de casa.

É duro admitir, mas necessário: a metade sul não perdeu apenas recursos; perdeu décadas em conflitos inúteis.

Enquanto isso, cidades ao norte transformam cada festa em vitrine turística, cada feira em plataforma de negócios e cada problema em oportunidade de união. No Sul, muitos eventos se tornam arenas de disputa, campos de vaidade ou simplesmente fracassam pela falta de cooperação mínima entre instituições que deveriam lutar lado a lado.

Se o Norte ensina algo, é simples: nenhuma cidade cresce quando cada um puxa para um lado.

A metade sul possui tudo para prosperar: água, campo, história, fronteiras, cultura riquíssima e um povo trabalhador. Mas desenvolvimento não cai do céu. Exige maturidade política, visão regional e, sobretudo, superar o velho hábito de dividir para depois culpar o destino.

Enquanto o Norte vive a cultura do “vamos fazer juntos”, o Sul ainda insiste na cultura do “quem vai aparecer mais?”. E, enquanto essa lógica não mudar, qualquer promessa de progresso continuará sendo apenas isso: promessa.

Está na hora de a metade sul aprender a lição mais valiosa do Norte: ninguém se desenvolve sozinho."

— Renato Jaguarão
 
Renato Jaguarão não podia ter elucidado melhor o atual momento do Rio Grande do Sul. O que mais me impressiona não é o atraso do Rio Grande do Sul. É o fato de muitos saberem exatamente por que estamos estagnados e, mesmo assim, seguirem calados, acomodados, resignados. O nosso problema não é falta de capacidade; é falta de movimento.

O Rio Grande do Sul parou no tempo. Enquanto o mundo avança em inovação, modernização e integração, seguimos presos a velhos hábitos, disputas internas, vaidades políticas e a uma mentalidade que transforma qualquer tentativa de avanço em um campo de batalha. Não há projeto de futuro que prospere onde cada pequeno interesse vale mais do que o bem coletivo.

Isso se vê em tudo: na economia, na sociedade e até no nosso futebol, que já foi símbolo de força, identidade e ambição. Hoje, Grêmio e Inter, outrora gigantes, refletem exatamente o que nos tornamos: grandes nomes sustentados por estruturas frágeis, modelos ultrapassados e uma cultura de autossabotagem. Perdemos a ousadia, a capacidade de se reinventar, a ambição de competir de igual para igual com os melhores. Ficamos presos ao passado, enquanto outros estados transformam seus clubes em empresas modernas, profissionalizadas e conectadas ao mercado global.

E por que isso acontece? Porque o gaúcho deixou de lutar pelo que acredita. Perdemos o espírito combativo que marcou nossa história, desde a construção das fronteiras até as guerras que moldaram nossa identidade. Não falo apenas da luta armada, mas da luta moral, coletiva, intelectual: a capacidade de dizer “não estamos satisfeitos, queremos mais, podemos mais”. Perdemos até mesmo a coragem de debater nossa autonomia, nosso direito de buscar caminhos próprios. A palavra “independência” deixou de ser horizonte e virou tabu, como se o simples ato de pensar diferente fosse uma ameaça.

Mas a verdade é simples: um povo que não luta por si mesmo aceita qualquer destino imposto. E foi exatamente isso que aconteceu. Aceitamos a estagnação como normal. Aceitamos o atraso como inevitável. Aceitamos a decadência do futebol, o abandono da metade sul, a fuga de jovens talentosos, a falta de políticas regionais sérias. Aceitamos a ideia de que o Rio Grande do Sul é isso e pronto, como se não tivéssemos sido, historicamente, líderes em tudo que fizemos.

O problema não é o que falta ao Rio Grande do Sul. O problema é o que falta aos gaúchos.

Falta união. Falta visão. Falta ambição. Falta coragem de romper com o comodismo e recuperar o espírito que um dia nos fez protagonistas de nossa própria história. Enquanto continuarmos presos à lógica da divisão, da vaidade e da disputa mesquinha, continuaremos assistindo ao mundo nos ultrapassar, ao nosso futebol definhar e à nossa identidade perder força.

O futuro do Rio Grande do Sul só vai mudar quando nós mudarmos. Quando deixarmos de esperar soluções de cima e começarmos a agir como um povo que sabe do próprio valor. Quando recuperarmos a consciência de que nenhum estado se desenvolve sozinho e nenhum povo conquista liberdade sem esforço, união e propósito.

O Rio Grande do Sul só voltará a crescer quando os gaúchos voltarem a lutar.

Houve um momento recente em que o Rio Grande do Sul inteiro, sem exceção, mostrou do que é capaz quando deixa de lado suas pequenas guerras internas. Durante a segunda grande enchente que nos atingiu e quase nos dizimou, vimos surgir uma unidade nacional rio-grandense como não se via há décadas. Povos de todas as regiões, classes sociais, orientações políticas e tradições trabalharam lado a lado com uma solidariedade que emocionou o mundo. Por alguns dias, fomos aquilo que sempre dizemos ser: fortes, altivos, fraternos, unidos.

Mas essa chama durou pouco.

Assim que a urgência passou, as velhas divisões voltaram a ocupar seu espaço, como se a união fosse apenas um esforço temporário, uma pausa incômoda no hábito confortável de discordar por discordar. O espírito coletivo que salvou vidas e reconstruiu cidades começou a se dissolver, substituído novamente por disputas, interesses individuais e pela eterna tendência de cada um puxar para um lado.

Esse breve momento provou duas coisas. Primeiro: o gaúcho tem, sim, capacidade de se unir em torno de um propósito maior. Segundo: essa capacidade se esvai rápido demais quando a comodidade retorna, como se a solidariedade fosse um fardo pesado demais para carregar no cotidiano.

A maior tragédia não foi apenas o que perdemos, mas o que deixamos de aprender. A união existe, mas não permanece. Surge somente quando a dor aperta; desaparece assim que a rotina volta.

E enquanto não formos capazes de transformar aquele instante extraordinário em prática permanente, continuaremos repetindo o mesmo ciclo: unir na desgraça, dispersar no conforto.