segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

ENTENDA POR QUE O NORTE ORIENTAL DO PRATA (ATUAL RIO GRANDE DO SUL) NÃO TEM NADA A VER COM O BRASIL (E PORQUE ISSO NÃO É OFENSA, É HISTÓRIA)


A imagem dos três gaúchos, lado a lado, montados em cavalos crioulos no pampa aberto, diz mais do que muitos manuais escolares. Um empunha a bandeira do atual Rio Grande do Sul, outro a do Uruguai, outro a da Argentina. Mudam os símbolos nacionais posteriores, mas o corpo, a postura, o olhar, a paisagem e o chão sob os cascos permanecem os mesmos.

Isso não é coincidência.

É resultado de um mesmo processo histórico.
Quando se afirma que o atual Rio Grande do Sul “não tem nada a ver com o Brasil”, não se trata de uma negação jurídica ou institucional. Trata-se de uma afirmação histórica, cultural e civilizatória. No período das reduções jesuíticas, esse território não existia como entidade brasileira. Ele integrava o espaço oriental do Vice-Reino do Rio da Prata e era conhecido como Norte Oriental, parte inseparável da Província Oriental e do mundo platino. As cidades missioneiras ali estabelecidas eram cidades hispano-guaranis, organizadas, produtivas e plenamente integradas à ordem virreinal espanhola.

O gaúcho não é um povo étnico homogêneo nem europeu transplantado. Ele se formou como um povo mestiço, resultado direto da fusão entre criollos de matriz espanhola e populações indígenas missioneiras, sobretudo guaranis. Posteriormente, esses gaúchos mestiços incorporaram colonos açorianos e, já no século XIX, imigrantes germânicos e italianos, que não substituíram a cultura existente, mas adotaram os costumes, práticas e valores do gaúcho já formado. Portanto, não se trata de uma afirmação racial, mas histórica: a matriz do Norte Oriental é platina, missioneira e hispano-guarani, não luso-tropical.

O Norte Oriental do Prata não nasceu brasileiro. Essa é a primeira chave para compreender sua singularidade. Enquanto grande parte do Brasil colonial foi estruturada a partir do litoral atlântico, da plantation, da economia açucareira e da escravidão em larga escala, o Norte Oriental se formou em um contexto completamente distinto: disputa entre impérios, guerra permanente de fronteira, território aberto e pecuária extensiva organizada pelas reduções jesuíticas. Aqui, a fronteira nunca foi um limite fixo. Sempre foi um espaço ativo de circulação, integração e conflito dentro do mundo platino.

Durante séculos, o atual território rio-grandense esteve juridicamente, economicamente e culturalmente inserido no Vice-Reino do Rio da Prata. A vida cotidiana era castelhana, a organização social era missioneira e a lógica econômica estava orientada para os circuitos do Prata. O Norte Oriental fazia parte de um mesmo contínuo humano que incluía a Província Oriental, Assunção e as regiões missioneiras do interior. O gaúcho pampeano surge exatamente desse espaço compartilhado, como homem do cavalo, do campo aberto e do gado criado coletivamente nas estâncias missioneiras.

As pesquisas históricas demonstram que o povoamento do Norte Oriental não foi obra de bandeirantes paulistas nem de um suposto “vazio demográfico”. Pelo contrário. Esse território foi desbravado, organizado e vivido pelas populações indígenas missioneiras, que abriram caminhos, estabeleceram rotas comerciais, criaram rebanhos e estruturaram uma rede de circulação que ligava o interior do continente ao estuário do Prata. Todas as estradas do Norte Oriental rio-grandino eram caminhos missioneiros, utilizados para o comércio, o deslocamento de gado e a integração entre reduções.

Essas mesmas rotas indígenas missioneiras seriam posteriormente apropriadas e reutilizadas no tropeirismo gaúcho e, mais tarde, na lógica econômica das charqueadas. Não houve criação luso-brasileira desses caminhos. Houve apropriação de uma infraestrutura pré-existente, construída por uma civilização missioneira que a historiografia brasileira insistiu em apagar ou minimizar.

O pampa, como unidade geográfica e cultural, não reconhece fronteiras nacionais posteriores. Ele atravessa o Norte Oriental, a Província Oriental e a região platina argentina sem qualquer ruptura ambiental. Onde o território é contínuo, a cultura também o é. É por isso que o chimarrão, o cavalo crioulo, a bombacha, a milonga, a payada e o canto narrativo pertencem a um mesmo universo cultural platino, do qual o Norte Oriental sempre fez parte.

A identidade do gaúcho formado no Norte Oriental nunca se orientou para o Norte tropical do Brasil. Ela se estruturou lateralmente, dentro do eixo platino. O comércio, as alianças políticas, os casamentos e as guerras do século XVIII e XIX ocorreram nesse espaço comum. A Revolução Farroupilha, por exemplo, só pode ser compreendida como um conflito regional platino, com apoio, refúgio e inspiração vindos da Província Oriental e das Províncias Unidas do Prata, e não como um episódio isolado da história brasileira.

O clima reforça essa distinção. Enquanto o Brasil colonial se pensou como tropical, o Norte Oriental sempre foi subtropical e temperado, marcado por frio, ventos, geadas e invernos rigorosos. Isso moldou arquitetura, vestimenta, alimentação e relações sociais de forma muito mais próxima ao mundo platino do que ao Brasil atlântico.

A língua falada nesse território também denuncia sua origem. O português atual do Rio Grande do Sul está impregnado de castelhanismos herdados diretamente do espanhol do Prata. Esses elementos linguísticos não são empréstimos recentes, mas vestígios de um passado em que o Norte Oriental fazia parte de um mesmo espaço cultural hispano-guarani.

Dizer que o atual Rio Grande do Sul não tem nada a ver com o Brasil, portanto, não é negar sua condição política contemporânea. É reconhecer que sua formação histórica ocorreu fora da matriz colonial brasileira. O Norte Oriental foi conquistado, reordenado à força e incorporado tardiamente ao Brasil por meio da guerra, da diplomacia imperial e da destruição deliberada do mundo missioneiro hispano-guarani.

A ocupação luso-brasileira não foi espontânea nem civilizadora. Foi uma conquista violenta que implicou a destruição de uma ordem social existente, plenamente funcional e integrada ao Vice-Reino do Rio da Prata. Os bandeirantes não desbravaram o Norte Oriental. Eles invadiram um território já vivido, apropriando-se de caminhos indígenas missioneiros, de rebanhos coletivos e de uma economia estruturada.

No fim das contas, o desconforto que essa leitura provoca vem do fato de que ela desmonta o mito fundador da historiografia brasileira. O Norte Oriental não foi um apêndice natural do Brasil. Foi um território platino conquistado. Reconhecer isso não diminui ninguém. Pelo contrário. Devolve densidade histórica a uma região que sempre foi tratada como margem, quando na verdade foi centro de uma das experiências civilizatórias mais complexas e promissoras do sul da América.