A política externa dos Estados Unidos vive um momento de contradição evidente. Enquanto Washington tenta reafirmar sua condição de potência hegemônica, cada nova frente de conflito revela os limites reais de um império que já não consegue organizar o mundo segundo seus interesses. A tentativa de restaurar a Doutrina Monroe nas Américas ocorre ao mesmo tempo em que os Estados Unidos seguem sustentando a Ucrânia como instrumento de desgaste da Rússia, estimulam mudanças de regime no Oriente Médio para favorecer Israel e procuram cercar a China no Mar do Sul da China e em Taiwan. Esse acúmulo de iniciativas não expressa força, mas insegurança estratégica.
Essa lógica não é nova. Faz parte do funcionamento histórico do imperialismo liberal atlantista. Diante da perda de capacidade produtiva e de legitimidade política, o centro anglo-americano recorre à fragmentação regional, à terceirização de guerras aos movimentos terroristas ou revoluções coloridas, ao uso de sanções, visando desestabilizar internamente países soberanos. O problema é que esse método já não entrega os resultados de décadas anteriores. E quando a realidade desmente o discurso, surgem narrativas fantasiosas para preservar a aparência de controle.
Um episódio recente ilustra bem esse mecanismo. Quando setores das forças armadas sírias traíram Bashar al-Assad, muitos pseudo entendedores fizeram análises geopolíticas rapidamente para explicarem o ocorrido como fruto de um suposto acordo secreto entre Putin e Trump. Segundo essa versão, a Rússia teria entregue a Síria em troca da Ucrânia. O argumento era frágil desde o início. Trump sequer ocupava a presidência dos Estados Unidos naquele momento. Mais do que isso, os fatos posteriores desmontaram completamente essa fantasia.
Não houve entrega alguma. Os Estados Unidos novamente clm Trump continuaram apoiando a Ucrânia, cumprindo integralmente os contratos firmados durante o governo Biden. O envolvimento norte americano foi além, com fornecimento de apoio logístico e de inteligência para operações dentro do território russo. Chegou-se inclusive a falar recentemente em um atentado contra uma residência de Vladimir Putin. Nenhuma agência ucraniana teria autonomia para tentar algo dessa magnitude sem coordenação ou autorização da CIA. A realidade expôs o caráter ilusório da narrativa do grande acordo.
Agora a mesma lógica reaparece sob outra forma. Difunde-se a ideia de que Putin teria trocado a Venezuela pela Síria. Mais uma vez, trata-se de uma construção sem qualquer base material. A Rússia nunca teve a Venezuela para poder entregá-la. Moscou não possui bases militares no país, ao contrário do que ocorre na Síria. Não há forças russas sequer próximas geograficamente da Venezuela. Bastaria um mínimo de noção de geografia para perceber o absurdo dessa tese.
A suposição de que a Rússia teria condições práticas de intervir militarmente na Venezuela, nas circunstâncias atuais, é tão irreal quanto acreditar que a OTAN poderia ampliar indefinidamente seu apoio à Ucrânia além do que já faz. Quando se busca compreender os impasses venezuelanos, faz muito mais sentido observar o papel concreto de países regionalmente envolvidos, como Brasil e Colômbia, do que recorrer a explicações imaginárias baseadas em conspirações globais.
Essas narrativas não são apenas erros de análise. Elas cumprem uma função ideológica clara. Servem para manter viva a ilusão de um mundo governado por grandes acordos secretos entre líderes, quando, na realidade, o sistema internacional passa por uma transformação estrutural profunda. Na Eurásia, no Oriente Médio, na Ásia Central e na Ásia Oriental, os Estados Unidos enfrentam processos que escapam ao seu controle direto, sobretudo a ascensão da China como potência produtiva, tecnológica e civilizacional.
A China não construiu seu poder a partir da especulação financeira ou de guerras de saque. Sua força deriva do planejamento estatal, da soberania industrial, do investimento em infraestrutura e do controle estratégico do crédito. A Rússia, apesar do cerco e das sanções, mantém autonomia energética, capacidade industrial e coesão interna. Esses elementos minam a pretensão universalista do liberalismo, que já não consegue se impor nem pelo discurso moral nem pela força militar direta.
A diferença entre os blocos em disputa torna-se cada vez mais evidente. A Rússia opera dentro de uma lógica regional, visando recuperar territórios que, por erros históricos e administrativos da União Soviética, criaram a Ucrânia como um Estado artificial soberano. Os Estados Unidos, por outro lado, atuam segundo a sua lógica histórica predatória global, exigindo acesso a recursos naturais de nações. Age-se como se os recursos do mundo pertencessem por direito aos norte americanos, amparados pela ideia quase teológica de um povo escolhido.
O colapso do unipolarismo liberal não significa desordem, mas transição. O mundo tende a se reorganizar segundo linhas regionalistas, com grandes tecnatos-continentais mais fortes, integração produtiva entre países vizinhos e recuperação do papel do trabalho como eixo central da vida social e econômica.
Na América Latina, a tentativa de ressuscitar a Doutrina Monroe expressa o temor de Washington diante da possibilidade do nosso continente buscar um caminho de autonomia política, industrial e energética. Um continente que comece a pensar em termos de povo, nação e justiça social, e não como simples fornecedor de commodities baratas e mão de obra precarizada enquanto um estado periférico da América d Norte.
O imperialismo liberal está desesperado para manter suas estruturas decréptas. E quanto maior o desespero, mais depende de narrativas artificiais para disfarçar sua decadência. O futuro não será decidido por acordos imaginários nem por slogans morais, mas pela capacidade real das nações de planejar, produzir, integrar-se regionalmente e colocar o trabalho e o povo no centro da política.