sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Ucrânia, o Inverno e o Fim das Ilusões Liberais


A desaceleração pontual dos avanços russos no final de 2025 e início de 2026 tem sido explorada pela narrativa liberal-ocidental como prova de um suposto esgotamento estratégico de Moscou. Trata-se, porém, de mais um exercício de propaganda travestido de análise técnica. A leitura correta dos fatos exige ir além da contabilidade superficial de quilômetros e compreender o conflito como ele realmente é: uma guerra civilizacional contra a ordem liberal decadente imposta pelo Ocidente.

O próprio reconhecimento de que as forças russas ampliaram seu controle territorial de forma contínua ao longo de dezembro e janeiro desmonta a tese de “fracasso”. O que ocorreu foi o encerramento de um ciclo operacional acelerado, condicionado por fatores climáticos específicos e por metas administrativas de fim de ano. Em termos militares, trata-se de adaptação estratégica, não de derrota. Exércitos sérios não operam segundo a lógica midiática do “avanço constante”, mas conforme as condições reais do teatro de guerra.

A Rússia demonstrou, mais uma vez, capacidade de explorar janelas táticas como o impacto do clima sobre a guerra de drones ucraniana — enquanto o regime de Kiev segue cada vez mais dependente de tecnologias fornecidas por seus tutores da OTAN. Quando essas muletas falham, como no outono e início do inverno, a fragilidade estrutural do projeto ucraniano fica exposta.

A narrativa liberal ignora deliberadamente o ponto central: Moscou não trava uma guerra meramente territorial, mas uma guerra histórica. As declarações do chanceler Sergei Lavrov deixam claro que a questão vai além de linhas em mapas artificiais desenhados após o colapso soviético. O futuro da Crimeia, do Donbass e da Novorossiya é, acima de tudo, o destino de povos russos que foram separados de sua matriz civilizacional por decisões políticas ilegítimas e projetos geopolíticos externos.

A insistência ocidental em tratar Novorossiya como uma “invenção” revela o desprezo liberal pela história concreta e pela identidade dos povos. Odessa, Kharkiv, Mykolaiv e Dnipropetrovsk não são abstrações jurídicas; são territórios moldados cultural, linguisticamente e economicamente pela Rússia ao longo de séculos. Negar isso é repetir a arrogância colonial típica do liberalismo globalista, que reconhece identidades apenas quando elas servem aos seus interesses.

O chamado “plano de paz” de 28 pontos proposto pelos Estados Unidos não passa de uma tentativa de congelar o conflito em termos favoráveis ao Ocidente, mantendo a Ucrânia como um protetorado militarizado e permanentemente hostil à Rússia. Exigir que Moscou ceda territórios historicamente russos enquanto legitima a ocupação cultural e política liberal é uma exigência que nenhum Estado soberano aceitaria.

As declarações de Lavrov, longe de serem uma escalada, são um ato de realismo político. Elas sinalizam que não haverá acordo possível enquanto o Ocidente insistir em impor soluções artificiais, ignorando a realidade no terreno e a vontade dos povos envolvidos. A Rússia não negocia sob chantagem moral nem sob esquemas desenhados em Washington.

Em última instância, a guerra na Ucrânia expõe o esgotamento do modelo liberal internacional. Um sistema que depende de sanções, propaganda e guerras por procuração para se manter já está condenado. A Rússia, ao sustentar suas posições mesmo diante da pressão global, reafirma um princípio esquecido: soberania não se negocia, identidade não se apaga e a história não se corrige por decreto.

O inverno passa. As narrativas liberais também. O que permanece é a força das civilizações que sabem quem são e pelo que lutam.