Por Guilherme Fernandes
Para compreender o que é a Terceira Teoria Política (campo que abarca as ideologías fascistas, o nacionalismo orgânico e o corporativismo/estatismo), é necessário primeiro entender que o espectro político tradicional é filho do Iluminismo. A régua que usamos para medir "esquerda" e "direita" foi calibrada no século XVIII e baseia-se na relação entre o indivíduo, a propriedade e o Estado. A Terceira Teoria, no entanto, quebra essa régua.
O Espectro Iluminista: O Eixo da Liberdade Individual
O mapa político herdado do Jacobinismo e do Iluminismo move-se em direção à autonomia do indivíduo ou da classe, tendo como horizonte final a redução ou extinção do Estado:
A Esquerda (Liberalismo e Progressismo): Nasceu no lado esquerdo da Assembleia Francesa defendendo a liberdade individual contra o absolutismo. É o berço do liberalismo político. Enquanto a Extrema Esquerda (Marxismo/Anarquismo): Leva a lógica da igualdade ao limite. O fim último do comunismo e do anarquismo é o desaparecimento do Estado em favor de uma sociedade autogerida e sem classes.
A Direita (Conservadorismo): Nasceu à direita defendendo a ordem monarquista estabelecida, a tradição nobiliaria e as instituições que limitam o poder central (como a Igreja e a pequena propriedade). A Extrema Direita (Libertarianismo/Anarcocapitalismo): É a evolução radical da direita econômica atual. Seu fim último é o Estado mínimo ou nulo, onde o mercado e as cidades privadas (tecnatos) substituem a soberania estatal.
A Terceira Teoria Política: O Eixo da Soberania Estatal
Enquanto a esquerda e a direita (em seus extremos) desejam o fim do Estado, a Terceira Teoria Política caminha na direção oposta. Ela não é um ponto médio entre os dois; ela é um eixo vertical distinto.
Para a Terceira Teoria, o Estado não é um "mal necessário" (como na direita) nem um "instrumento de opressão" (como na esquerda). O Estado é a unidade absoluta.
Ao contrário da extrema esquerda marxista, a Terceira Teoria abomina a ideia de uma sociedade sem Estado. Para ela, sem o Estado, o povo é apenas uma massa amorfa sem destino histórico.
Ao contrário da extrema direita libertária, a Terceira Teoria rejeita a ideia de cidades privadas e da total soberania individual. A propriedade privada só é legítima se servir ao interesse nacional.
Por que o Fascismo Não se Encaixa nos Extremos?
A confusão de chamar o fascismo de "extrema esquerda" ou "extrema direita" ocorre porque ele utiliza elementos de ambos, mas com propósitos diferentes:
Coletivismo, focado na Classe Social (Esquerda) e focado na Nação e no Estado, hierarquia focada na Tradição/Mérito (Direita) focada na Disciplina Militar Estatal, economia de Mercado (Direita) e direitos aos trabalhadores (Esquerda), corporativismo (Colaboração dirigida) e o fim Último, liberdade ou Igualdade nacional como potencialização e divinização do Estado.
O Contexto do Século XX: O Corporativismo
A grande inovação didática da Terceira Teoria foi o Corporativismo. Enquanto a esquerda pregava a Luta de Classes e a direita pregava a Competição de Mercado, a Terceira Teoria impôs a Harmonia de Classes.
Nesse sistema, o Estado atua como o cérebro de um organismo. Patrões (capital) e empregados (trabalho) são como braços e pernas: não podem lutar entre si, ou o corpo morre. Eles são organizados em "corporações" estatais onde o governo decide o que é melhor para a produção nacional. Isso desmistifica a ideia de "extrema esquerda" (que quer eliminar o patrão) e de "extrema direita" (que quer o patrão livre do Estado).
Definir a Terceira Teoria Política exige compreender que ela é a ideologia do Estatismo Total. Ela utiliza a estética e a ordem da direita e a mobilização de massas da esquerda para criar um sistema onde o Estado é o início, o meio e o fim.
Tentar classificá-la dentro do Jacobinismo é um erro técnico: a esquerda e a direita discutem como limitar o Estado ou quem deve controlá-lo; a Terceira Teoria discute como tornar o Estado a única realidade existente.