segunda-feira, 23 de março de 2026

O Grande Equívoco: Por que o Fascismo Não é de Esquerda nem de Direita (E a Falácia do "Pingue-Pongue" Ideológico)

No polarizado debate político contemporâneo, poucas palavras são tão usadas e abusadas quanto a palavra "fascismo", que tornou-se um insulto universal.

No polarizado debate político contemporâneo, poucas palavras são tão usadas e abusadas quanto a palavra "fascismo", que tornou-se um insulto universal. Em uma extremidade do espectro, a direita estavam os conservadores que frequentemente usam o termo para descrever qualquer forma de controle estatal centralizado ou coletivismo. Na outra, a esquerda liberal o utiliza como sinônimo de conservadorismo autoritário, repressão e racismo.

Esse jogo de "pingue-pongue" ideológico gera uma imensa nuvem de fumaça intelectual, que obscurece a verdadeira natureza do fenômeno histórico e filosófico. Uma leitura mais aprofundada e despida de ignorância do livro A Doutrina do Fascismo (1932), o texto definitivo escrito por Benito Mussolini (com Giovanni Gentile), revela uma realidade incômoda para ambos os lados: o fascismo surgiu não como uma variação da esquerda ou da direita, mas como uma Terceira Via revolucionária que buscava explicitamente aniquilar ambos os lados.

O primeiro erro fundamental, apontado com perspicácia e provocação deste meu texto, é a tentativa dos esquerdistas e direitistas aplicarem a lógica binária de "esquerda" e "direita" ao pós-guerra da década de 1920.

Esses conceitos nasceram na Assembleia Constituinte da Revolução Francesa, em 1789. À direita conservadora sentavam-se à direita do rei, pois eram monarquistas que visavam conservar as velhas estruturas monarquistas para não perderem seus títulos nobiliarios. Defendiam o Ancien Régime (a ordem monárquica e o poder da igreja, e os privilégios da aristocracia). À esquerda, os liberais jacobinos e revolucionários socialistas e marxistas, que buscavam a ruptura total e a igualdade.

No entanto, as turbulências do início do século XX, marcadas pela Primeira Guerra Mundial e pela Revolução Russa, criaram um novo mundo com mais de uma via ideológica, um verdadeiro imbróglio ideológico.

 O fascismo surgiu nesse vácuo de poder e identidade que as ideologias tradicionais não conseguiram preencher. Para Mussolini, o liberalismo, que até aquele momento era a esquerda do espectro político, enquanto o marxismo o lado mais extremo da esquerda, e o conservadorismo represtava a aristocracia monarquica, mesmo que 3m regime republicano estavam a direita. Até o momento de virada com a marcha sobre Roma, a esquerda e a direita já estavam superadas e eram insuficientes para a "nova era" que se anunciava.

O fascismo, portanto, não é o "auge" de nenhum dos lados, mas o resultado de um processo sincrético, absorvendo elementos de ambos os lados para formar algo radicalmente novo.

A visão de que o fascismo é a "extrema-direita" geralmente se baseia em seu ultranacionalismo, exaltação da tradição, repressão a sindicatos de esquerda e sua aliança tática inicial com elites conservadoras. No entanto, A Doutrina do Fascismo destrói a base filosófica do que a direita conservadora defende.

O trecho citado é explícito em seu antiliberalismo radical:
"O Fascismo é oposto ao liberalismo clássico que surgiu como reação ao absolutismo [...]. O liberalismo negou o Estado em prol do indivíduo; O Fascismo reasserta os direitos do Estado como expressão da real essência do indivíduo."

Enquanto para a direita conservadora o Estado serva para proteger os privilégios da elite, para a extrema direita libertária, o indivíduo é soberano; o Estado é um "mal necessário", que deve ser mínimo ou nulo, servindo apenas para proteger a propriedade privada e os contratos sociais. Para o fascismo, essa concepção é uma aberração. O indivíduo, isolado, não tem valor. Ele só ganha "liberdade" e "essência" quando se submete e se integra ao Estado Total.

"O conceito Fascista de Estado abraça a tudo; fora deste conceito nenhum humano ou valores espirituais podem existir, muito menos ter valor."
 
Essa afirmação é a antítese do conservadorismo tradicional, que defende a existência de instituições orgânicas independentes do Estado, como a família, a Igreja e as associações locais. 

O fascismo busca a cooptação e fusão de todas essas esferas ao controle estatal. Ao afirmar que "nada deve existir fora do Estado", o fascismo rechaça a autonomia da sociedade civil, pilar fundamental de qualquer pensamento de direita (seja ele liberal ou conservador moderado).

O argumento que tenta empurrar o fascismo para a extrema-esquerda foca nas raízes socialistas/sindicalistas de Mussolini e no alto grau de intervenção estatal na economia. É fato que o fascismo compartilha com o socialismo o anti-individualismo, o coletivismo e a ojeriza ao livre mercado sem amarras. Contudo, A Doutrina do Fascismo deixa claro que suas premissas são irreconciliáveis com o marxismo:

"O Fascismo é, portanto, oposto ao Socialismo para o qual a unidade dentro do Estado [...] é desconhecida, e que vê na história nada além da luta de classes."

O materialismo histórico de Marx prega que a história é movida pelo conflito entre patrões e operários, e o objetivo final é uma sociedade sem classes e sem Estado (comunismo/anarquismo). O fascismo abomina essa visão, pois ela divide a Nação. Para o fascismo, o motor da história não é a economia (materialismo), mas sim a Nação, entendida como uma entidade histórica, espiritual e mística. A "paz social" fascista não vem da revolução proletária, mas do Corporativismo:

"Mas quando trazido perante a órbita do Estado, o Fascismo reconhece as reais necessidades que ascenderam ao socialismo e o sindicalismo [...], nos quais interesses divergentes são coordenados e harmonizados com a unidade do Estado."

O corporativismo fascista não elimina a propriedade privada ou os patrões (ao contrário da esquerda revolucionária), mas os submete à "vontade do Estado". Em vez de luta de classes, o fascismo impõe a colaboração forçada, onde ambos devem trabalhar não para o lucro ou para o bem-estar da classe, mas para o fortalecimento da "unidade do Estado".

A tentativa de classificar o fascismo como "esquerda" ou "direita" é uma simplificação perigosa que nos impede de compreender sua verdadeira essência e principais características.

O próprio Mussolini usa o termo com orgulho: "Assim entendido, o Fascismo é totalitário [...] interpreta, desenvolve e potencializa toda a vida de um povo."

Isso significa que o fascismo não se contenta em ser um regime autoritário que reprime tanto a esquerda como a direita; ele busca a penetração absoluta em todos os aspectos da vida humana, cultura, educação, economia, lazer, família e até na espiritualidade (religião de Estado). Ele quer criar um "homem novo", o homem fascista, que vive e respira apenas para e através do Estado. 

O fascismo é, portanto, um fenômeno estatista por excelência. Ele se alimenta da mobilização de massas e do dirigismo econômico (ferramentas muitas vezes associadas à esquerda) e as combina com o nacionalismo, a hierarquia e a ordem militarizada (temas caros adotado nos dias de hoje pela direita conservadora). Ele é uma síntese que usa qualquer meio disponível para atingir o fim: a divinização e o poder absoluto do Estado.

Continuar jogando o pingue-pongue de "o fascismo é seu, não meu" é um exercício fútil de negação histórica. A Doutrina do Fascismo é um documento claro: o fascismo surgiu para destruir tanto a ordem liberal burguesa (direita) quanto o socialismo marxista (esquerda), substituindo-os por uma utopia estatista totalitária.

Entender isso é crucial. Se acreditamos que o fascismo é apenas "conservadorismo autoritário", caímos na mesmice dos debéis mentais que ocupam os espaços do sistema educacional de hoje e ignoramos certas verdades historicas e aceitaremos calados a esquerda e a direita reescreverem a história como bem desejarem, e assim infiltrar no inconciente coletivo os seus valores imorais. 

Se acreditamos que ele é apenas "socialismo com nacionalismo", ignoramos o perigo de uma elite que usa o poder constitucional para reprimir a verdade, para cimentar seu poder repressivo.

O fascismo é um lembrete histórico de que o maior perigo para a liberdade não vem apenas de uma militância esquerdista ou de uma militância direitista "opostas" uma a outro, mas de qualquer ideologia que idolatre o fim do Estado e defenda o indivíduo acima do Estado e da sociedade civil.