“Desde su independencia misma todas las potencias mundiales de la época; escúcheme bien, todas, se percataron que aquí había un pueblo viril, guerrero e imperialista que en 30 años habría logrado la unidad latinoamericana (…) Pero nos penetraron a través de nuestra aristocracia vasca que era la más frívola (…) Se nos neutralizó mediante la estrangulación. Por eso pienso que el que viene de afuera tiene que integrarse a la nacionalidad y que por ningún motivo debe permitirse que se gobierne a un pueblo por descendientes inmediatos de extranjeros, porque tienen una mentalidad ajena a la nuestra; no nos interpreta ni conoce; no nos siente ni piensa como chileno neto…” — Ramón Callis Arrigorriaga
A reflexão de Ramón Callis Arrigorriaga parte de um diagnóstico incômodo e, por isso mesmo, frequentemente silenciado. Para ele, o problema central da América Latina não reside na falta de vocação histórica, militar ou civilizacional, mas na forma como essa vocação foi neutralizada desde dentro. A independência não revelou povos frágeis ou passivos, mas sociedades com energia política suficiente para projetar poder, unidade e expansão continental. O obstáculo não foi a ausência de potencial, mas a captura desse potencial por elites desligadas do corpo real da nação.
Segundo essa leitura, as potências mundiais compreenderam muito cedo o perigo estratégico que representava uma América Latina unificada. Não se tratava apenas de territórios recém emancipados, mas de povos com experiência de guerra, domínio territorial e identidade própria em formação. A ameaça não era imediata, mas histórica. Em poucas décadas, caso a independência seguisse um curso autônomo, poderia emergir um polo civilizacional capaz de romper o equilíbrio do sistema mundial.
A resposta externa não se deu prioritariamente pela ocupação direta, mas pela penetração social e política. Callis identifica na aristocracia local o principal vetor dessa infiltração. Elites culturalmente distantes, formadas segundo padrões europeus, passaram a funcionar como intermediárias entre os interesses estrangeiros e a administração dos novos Estados. Não se trata de uma acusação étnica no sentido vulgar, mas de uma crítica ao desenraizamento cultural e espiritual dessas camadas dirigentes.
A ideia central é a da neutralização por estrangulamento. Não foi necessário destruir as nações latino americanas. Bastou impedir que respirassem politicamente. Tratados comerciais, dependência financeira, imitação institucional e governos formados por indivíduos que não se reconheciam no povo que administravam produziram um efeito duradouro. A independência permaneceu formal, enquanto a soberania real foi progressivamente dissolvida.
É nesse ponto que o autor introduz uma questão decisiva. Quem governa importa tanto quanto a forma de governo. A nacionalidade, aqui, não é reduzida a um dado jurídico, mas entendida como pertencimento espiritual, histórico e existencial. Governar um povo exige sentir o mundo a partir de suas categorias próprias. Quem pensa com referências externas, quem mede sua realidade segundo parâmetros alheios, inevitavelmente governa de maneira alienada.
Essa crítica se articula com o fracasso dos projetos soberanistas do século XIX. Bolívar, Rosas, Artigas e outros líderes perceberam que a independência exigia uma elite comprometida com a totalidade nacional. Quando essa elite não se consolidou, ou quando foi substituída por grupos formados na lógica cosmopolita do porto e do comércio exterior, o projeto emancipatório perdeu sua base de sustentação.
O texto de Callis Arrigorriaga não deve ser lido como nostalgia ou fechamento xenófobo, mas como advertência política. A integração do estrangeiro é possível e necessária, desde que implique assimilação real à nacionalidade. O problema não é a origem, mas a permanência de uma mentalidade estrangeira no comando do Estado. Quando isso ocorre, o governo deixa de interpretar o povo e passa apenas a administrá lo como objeto.
A América Latina, nessa perspectiva, não fracassou por incapacidade histórica, mas por ter sido governada reiteradamente por elites que nunca pretenderam conduzir um destino próprio. A vocação de unidade, poder e afirmação civilizacional foi sufocada antes de amadurecer. Recuperá la exige mais do que reformas institucionais. Exige reconstruir uma classe dirigente enraizada, consciente e identificada com o povo real.
O pensamento de Ramón Callis Arrigorriaga recoloca no centro do debate uma pergunta fundamental. Quem somos quando governamos e a quem realmente servem aqueles que nos governam. Enquanto essa questão for evitada, a independência continuará sendo um evento do passado, e não uma tarefa histórica em aberto.