Este artigo analisa a transformação do pensamento político de Simón Bolívar e José de San Martín desde o início das guerras de independência até a consolidação dos novos Estados. Partindo das expectativas iniciais de mediação e apoio britânico, o texto mostra como a experiência concreta da guerra, da diplomacia e da dependência econômica levou ambos a uma postura cada vez mais soberanista. A análise revela que essa mudança não foi uma contradição, mas um amadurecimento diante dos limites reais da liberdade formal no sistema internacional.
No início das revoluções independentistas da América do Sul, a linguagem política dos próprios libertadores revela uma ambiguidade que só pode ser compreendida à luz do contexto histórico. Figuras como José de San Martín e Simón Bolívar não surgem, desde o primeiro momento, como pensadores soberanistas plenamente formados, mas como líderes inseridos em um mundo ainda dominado pelas grandes potências europeias e por suas lógicas imperiais. As cartas e declarações desse período inicial mostram um cálculo estratégico e, em certos casos, uma expectativa real de mediação ou apoio britânico no processo de ruptura com a Espanha.
No começo do século XIX, a Inglaterra aparecia como potência hegemônica emergente e rival direta do Império Espanhol. Para muitos revolucionários americanos, Londres parecia representar uma alternativa menos opressiva, capaz de garantir comércio, reconhecimento diplomático e proteção contra uma possível reconquista. As palavras de San Martín dirigidas ao governo britânico em 1818 refletem esse momento. Ele invoca a tradição inglesa de equilíbrio europeu e apresenta a independência americana como um benefício não apenas local, mas civilizacional, quase como uma continuidade do papel estabilizador que a Inglaterra atribuía a si mesma no mundo pós napoleônico.
Simón Bolívar, em sua célebre carta de 1815, também expressa essa expectativa. Ao falar das imensas esperanças que o Novo Mundo ofereceria à indústria britânica e ao sugerir a centralidade estratégica de regiões como Panamá e Nicarágua, Bolívar dialoga diretamente com a lógica imperial do comércio global. Nesse estágio, a independência ainda aparece parcialmente integrada à ordem mundial existente, como se a libertação política pudesse coexistir com uma tutela econômica indireta.
Essa postura não deve ser lida como ingenuidade moral, mas como pragmatismo político. As revoluções ainda eram frágeis, militarmente instáveis e socialmente fragmentadas. O apoio externo era visto como condição de sobrevivência. No entanto, à medida que a guerra avança e as independências começam a se concretizar no campo de batalha, a percepção desses líderes se transforma de maneira profunda.
Com o colapso do poder espanhol em vastas regiões do continente, torna se evidente que a ameaça à liberdade americana não desapareceria com a expulsão da metrópole ibérica. A Inglaterra, embora não colonial no sentido clássico, passa a exercer uma influência econômica crescente, condicionando mercados, impondo tratados desiguais e moldando as novas elites locais. É nesse momento que tanto San Martín quanto Bolívar começam a abandonar a retórica de conciliação imperial e a adotar uma postura cada vez mais desconfiada em relação às potências externas.
No caso de Bolívar, essa mudança é especialmente nítida. Seu pensamento evolui de uma esperança de integração benéfica ao sistema atlântico para uma crítica cada vez mais dura ao imperialismo disfarçado de liberalismo. A defesa da unidade continental, o projeto da Gran Colômbia e a ideia de uma confederação americana expressam essa virada soberanista. Bolívar passa a compreender que a fragmentação política tornaria a América inevitavelmente dependente, ainda que formalmente livre.
San Martín, por sua vez, manifesta essa transformação de maneira mais silenciosa, mas não menos significativa. Seu afastamento voluntário da política, sua recusa em se tornar caudilho permanente e sua desconfiança crescente das disputas internas revelam um ceticismo profundo quanto ao destino das novas repúblicas sob a influência estrangeira e das elites locais associadas ao comércio internacional. A liberdade conquistada no campo militar não se converteu automaticamente em autonomia real.
O ponto comum entre ambos é a passagem de um horizonte tático para um horizonte estratégico. No início, a independência era o objetivo central. Com sua concretização, surge a pergunta mais difícil: independência para quê e sob quais condições. É nesse momento que o discurso liberal e cosmopolita do começo cede lugar a uma visão mais dura, mais trágica e mais soberanista da política.
Esse deslocamento de valores não é uma contradição, mas um amadurecimento histórico. Os próceres libertadores percebem que a liberdade política sem poder, sem unidade e sem controle do próprio destino econômico é uma liberdade apenas formal. A América não havia trocado de senhores para finalmente se emancipar, mas corria o risco de substituir um império decadente por uma dependência moderna e mais sofisticada.
Ao revisitar essas cartas e esse percurso intelectual, torna se possível compreender que o pensamento soberanista latino americano não nasce pronto. Ele é forjado na experiência concreta da guerra, da independência e, sobretudo, da desilusão. Bolívar e San Martín não mudaram seus valores por oportunismo, mas porque a realidade histórica os obrigou a abandonar ilusões e a encarar a política internacional como ela realmente é. Não como um espaço de filantropia entre nações, mas como um campo permanente de disputa entre poder e submissão.