Este artigo analisa Juan Manuel de Rosas como elo histórico entre a independência militar conduzida por San Martín e o projeto soberanista formulado por Simón Bolívar. A partir do legado simbólico do sabre e da condução prática do Estado argentino, o texto mostra como Rosas assumiu a tarefa de preservar a unidade, enfrentar as elites liberais porteñas e resistir à ingerência externa. A análise sustenta que, no espaço platino, Rosas realizou de forma concreta aquilo que em Bolívar permaneceu como necessidade histórica não plenamente consumada.
Juan Manuel de Rosas ocupa um lugar singular na história política do Rio da Prata porque encarna, na prática, aquilo que em Bolívar permaneceu em grande parte como projeto trágico e inacabado. Sua figura não pode ser compreendida apenas como a de um caudilho provincial, mas como a de um continuador concreto da lógica soberanista que emerge após o esgotamento das ilusões liberais da independência. O fato de ter recebido, ainda em vida, o sabre de José de San Martín não foi um gesto simbólico vazio, mas um reconhecimento político profundo.
San Martín não legou seu sabre a um teórico, nem a um parlamentar ilustrado, mas a um homem de poder real. O sabre representa a continuidade da luta pela independência em sua fase mais difícil, aquela que começa quando o inimigo externo já foi derrotado, mas a nação ainda não existe. Ao confiar essa insígnia a Rosas, San Martín reconhecia nele o responsável por preservar a integridade, a soberania e a dignidade da Argentina diante das ameaças internas e externas que se seguiam à ruptura com a Espanha.
Rosas assume para si a tarefa que muitos libertadores evitaram ou fracassaram em cumprir: governar. Em vez de se retirar ou buscar legitimação em fórmulas constitucionais abstratas, ele compreende que a independência havia produzido um vazio de autoridade e que, sem um centro de poder efetivo, o território argentino seria dilacerado por guerras civis, ingerência estrangeira e elites dissociadas do povo real. Sua liderança nasce dessa leitura concreta da situação histórica.
O conflito entre porteños unitários e federalistas expressa precisamente esse dilema. Os unitários, herdeiros diretos do liberalismo ilustrado e do cosmopolitismo comercial de Buenos Aires, defendiam um modelo centralizado subordinado aos interesses portuários e à inserção dependente no comércio internacional. Os federalistas, por outro lado, representavam as províncias, os estancieiros, os caudilhos locais e uma concepção orgânica do território. Rosas não elimina essa tensão por meio de discursos conciliatórios, mas pela imposição de uma autoridade capaz de manter o equilíbrio possível entre essas forças.
Sua habilidade política reside justamente nessa síntese. Embora identificado com o federalismo, Rosas exerce um poder central forte, consciente de que a fragmentação levaria à dissolução da soberania. Ele não nega as províncias, mas também não se submete aos interesses exclusivos de Buenos Aires enquanto projeto liberal unitário. Ao concentrar em si a condução das relações exteriores e da defesa, Rosas estabelece os pilares de uma Confederação Argentina que existe menos no papel e mais na prática do poder.
Nesse sentido, Rosas antecipa e realiza aquilo que Bolívar havia intuído. A soberania não pode ser garantida por constituições frágeis nem por pactos entre elites rivais, mas por uma autoridade capaz de enfrentar tanto a dissensão interna quanto a pressão externa. Sua resistência às intervenções anglo-francesas no Rio da Prata e sua recusa em aceitar imposições comerciais confirmam essa postura. A independência não se limitava à ruptura formal com a metrópole espanhola, mas exigia a defesa ativa da autonomia econômica e política.
Rosas também compreendeu que a ordem precede a liberdade. Não a liberdade abstrata dos salões ilustrados, mas a possibilidade concreta de existência nacional. Essa visão o aproximou do espírito romano da ditadura enquanto um estabilizador da ordem social, organizador das instituições e do bolivarianismo enquanto projeto de unidade e autoridade soberana. Assim como Bolívar, Rosas foi acusado de tirania pelos vencedores do discurso liberal. E assim como Bolívar, foi julgado mais pelos critérios morais de seus adversários do que pelas circunstâncias reais que enfrentou.
Ao final, Juan Manuel de Rosas representa uma linha de continuidade no pensamento político latino americano que passa por San Martín e Bolívar. Uma tradição que entende a política como fundação, não como administração; como poder, não como formalidade jurídica. Seu legado não é o de um sistema constitucional exportável, mas o de uma experiência histórica concreta de soberania em um continente marcado pela fragilidade das autoridades repúblicanas e pela dependência externa.
Revisitar Rosas, à luz desse percurso, é compreender que a independência não termina com a proclamação de uma república. Ela apenas começa. E que, em determinados momentos históricos, a responsabilidade de conduzir uma nação exige mais do que boas intenções ou belas leis. Exige autoridade, decisão e a coragem de sustentar a unidade contra todos os ventos.