quinta-feira, 13 de novembro de 2025

O LEGADO CÉLTICO NA FORMAÇÃO DOS POVOS IBÉRICOS E LATINO-AMERICANOS


A origem dos povos latino-americanos passa por uma longa cadeia de movimentos humanos que moldaram a Europa antes mesmo da formação dos reinos clássicos. Entre esses movimentos, a presença dos povos indo-europeus ocupa um espaço central. Os celtas, parte dessa grande família que inclui germanos, eslavos, itálicos, gregos, indo-arianos e persas, desenvolveram-se inicialmente na Europa Central, num período em que outros grupos já migravam para o sul do continente. Enquanto gregos e itálicos se fixavam no Mediterrâneo, os celtas permaneciam mais ao norte, expandindo-se gradualmente.

Entre os séculos IX e V antes de Cristo, consolidaram-se nas regiões entre o Reno e o Sena, avançaram para as ilhas britânicas e, já por volta do ano 500, atravessaram os Pireneus e chegaram ao norte da Península Ibérica. Em pouco tempo atingiram também o vale do Pó, na Itália, e penetraram no Danúbio, espalhando-se pela Europa Central e até pela Ásia Menor, onde formaram o reino da Galácia. Com o desenvolvimento da cultura de La Tène, por volta do século IV antes de Cristo, o mundo celta alcançou seu auge, embora marcado por uma organização dispersa em vários reinos independentes. A expansão romana, a partir do século III, alterou essa realidade ao impor um poder centralizado que gradualmente absorveu as populações celtas.

Na Península Ibérica, essa presença foi especialmente significativa. Os celtas entraram pelos Pireneus e se espalharam pelo norte, oeste e regiões centrais. O contato com os povos locais, sobretudo os íberos, resultou numa fusão cultural que deu origem ao grupo conhecido como celtibero. Essa assimilação não apagou totalmente as tradições celtas, que permaneceram misturadas às práticas locais e deixaram marcas duradouras na formação da identidade ibérica.

A religiosidade celta, baseada na crença na transmigração das almas e na vida após a morte, influenciou costumes funerários e rituais ligados à natureza. O culto aos astros e às divindades responsáveis pelos ciclos da vida expressava uma espiritualidade profunda que sobreviveu mesmo após a romanização e mais tarde se combinou com elementos cristãos. A sociedade celta era fortemente voltada para a guerra, mas também se apoiava na caça, na pesca e nas atividades domésticas e agrícolas desempenhadas principalmente pelas mulheres, o que garantia a continuidade da vida cotidiana fora dos conflitos.

Ao observar a trajetória histórica da Península Ibérica, de onde partiram os povos que colonizariam a América, torna-se evidente que muitos traços culturais que atravessaram o Atlântico têm raízes nesse passado antigo. A herança céltica, muitas vezes esquecida ou subestimada, acabou integrada ao conjunto de tradições que moldaram a identidade hispânica e, por consequência, parte da identidade latino-americana.