O Dia da Consciência Negra, celebrado em grande parte do Brasil em 20 de novembro, é um convite à memória, à justiça histórica e ao reconhecimento da participação decisiva dos negros na construção do país. No Rio Grande do Sul, porém, essa data é no dia 14 de Novembro e assume um significado particular: é o Dia dos Lanceiros Negros, homenagem oficialmente instituída por lei estadual, proposta pelo deputado Luiz Marenco, para preservar a história daqueles que lutaram como homens livres sob a bandeira Rio-grandense.
A causa independentista rio-grandense foi o primeiro movimento político-militar da América Portuguesa a adotar uma política abertamente abolicionista em suas forças armadas e na sociedade. Antes mesmo de qualquer decreto imperial, antes das pressões internacionais, antes da Abolição oficial, os líderes rio-grandenses libertaram seus combatentes negros não como promessa futura, mas como condição imediata de adesão ao novo projeto republicano que nascia no Pampa.
Esses homens, vindos da escravidão, tornaram-se força de choque dos batalhões farrapos, reconhecidos pela disciplina, coragem e habilidade militar. Ao receberem alforria, assumiram lugar de destaque dentro da hierarquia da República Rio-Grandense. Tornaram-se lanceiros, cavalarianos, símbolos de bravura das tropas republicanas, combatendo do início ao fim do conflito como negros livres, não como servos de guerra.
Enquanto o Império do Brasil ainda sustentava a escravidão como pilar da economia e recusava-se a qualquer reforma profunda, a liderança farrapa optou por um caminho inédito. Na prática, a República Rio-Grandense foi o primeiro território lusófono das Américas a integrar negros e libertos como parte estrutural de um exército republicano, com direitos civis reconhecidos.
Esse gesto, muito antes do 13 de Maio de 1888, mostra que o movimento farroupilha, apesar de suas contradições, representou uma das primeiras experiências abolicionistas efetivas da região, abrindo espaço para uma nova compreensão do papel do negro na sociedade sulina.
A memória dos Lanceiros Negros, porém, acabou sendo contaminada por uma narrativa tardia e sem sustentação documental: a suposta traição de David Canabarro na madrugada do episódio de Porongos. Segundo essa versão difundida apenas muito tempo após a guerra, Canabarro teria deliberadamente entregue os negros ao ataque imperial. Contudo, a documentação, os relatos de época, o posicionamento dos próprios descendentes e a crítica historiográfica mais recente mostram que essa acusação não se sustenta.
A estratégia de responsabilizar Canabarro serve apenas para absolver o verdadeiro autor da operação, o comando imperial representado por Caxias e pelo coronel Moringue e transferir a culpa aos farrapos, transformando uma agressão planejada e executada pelo Império em suposta traição interna. O objetivo político desse mito foi claro: manchar a memória dos farroupilhas e apagar o registro de que ali existiu uma força militar negra livre, algo incompatível com a narrativa centralizadora do pós-guerra.
Os próprios fatos posteriores desmentem a versão de “traição”: muitos lanceiros negros escaparam do cerco, outros acompanharam Netto para o Uruguai, e parte deles continuou lutando em conflitos posteriores. A ideia de que todos foram massacrados deliberadamente não encontra suporte na realidade.
No Rio Grande do Sul, a Justiça histórica começa a se restaurar. O estado reconhece oficialmente o Dia 14 de novembro como o dia dos Lanceiros Negros como seu símbolo maior da Consciência Negra. Essa data foi instituída por lei estadual, graças à iniciativa do deputado Luiz Marenco, e representa não apenas uma homenagem, mas uma afirmação: a luta pela liberdade e igualdade faz parte do DNA da terra gaúcha, e os Lanceiros Negros são protagonistas dessa história.
Celebrar o Dia da Consciência Negra no Rio Grande do Sul é, portanto, reconhecer que os negros farrapos, homens livres e combatentes aguerridos, anteciparam em décadas o ideal abolicionista que o Brasil só viria adotar muito tempo depois.