sábado, 20 de setembro de 2025

20 DE SETEMBRO: O PERCURSOR DA LIBERDADE GAÚCHA


O 20 de setembro não é apenas uma data comemorativa no calendário gaúcho: é um marco que simboliza a força, a coragem e o espírito de um povo que ousou desafiar o poder imperial em busca de autonomia e liberdade. Neste dia, em 1835, teve início a Revolução Farroupilha, movimento que nasceu das contradições do Império e das aspirações de maior representatividade para a província do Rio Grande do Sul. Foi o ponto de partida de uma trajetória que, poucos anos depois, transformaria uma revolta em um projeto de soberania com a proclamação da República Rio-Grandense.

O 20 de setembro marca o início de um dos episódios mais significativos da história do Brasil e do Rio Grande do Sul: a Revolução Farroupilha. Em 1835, quando as primeiras tropas insurgiram-se contra o poder imperial, não se tratava ainda de um projeto de separação, mas de um clamor autonomista. As elites estancieiras, acompanhadas por militares, camadas populares e até combatentes negros libertos, levantaram-se contra a centralização política do Império, reivindicando maior representatividade, justiça tributária e respeito às peculiaridades da província.

Esse movimento, que nasceu como revolta, ganharia nova dimensão com o desenrolar dos acontecimentos. Inspirados pelos ventos de liberdade que sopravam do Uruguai e do Prata, e fortalecidos pela vitória na Batalha do Seival, os farroupilhas proclamaram, em 11 de setembro de 1836, a República Rio-Grandense. Assim, o que começou como um apelo por autonomia transformou-se em uma luta pela soberania, dando ao Rio Grande do Sul a condição singular de ter erguido um Estado independente dentro do território brasileiro.

Hoje, ao recordar o 20 de setembro, não celebramos apenas o início de uma guerra, mas a coragem de um povo que ousou questionar a ordem estabelecida e sonhar com a liberdade. É a memória viva de uma causa que, mesmo atravessada por contradições e disputas internas, permaneceu como símbolo de resistência, dignidade e ideal republicano.

O 20 de setembro não é apenas uma data no calendário: é a lembrança de que os farrapos deixaram como herança a determinação de lutar por voz própria, por justiça e por um destino livre — legado que ainda ecoa na identidade e na alma gaúcha.

A CONSTITUIÇÃO RIO-GRANDENSE E A QUESTÃO DA ABOLIÇÃO


A Revolução Farroupilha (1835–1845) é um dos episódios mais marcantes da história da América do Sul, mas também um dos mais mal interpretados. Entre as inúmeras distorções repetidas pela historiografia oficial, uma das mais persistentes é a acusação de que os farrapos teriam ignorado a questão da escravidão ou mesmo se recusado a abolir a instituição. Essa leitura, baseada em generalizações e recortes ideológicos, ignora tanto as práticas concretas da República Rio-Grandense quanto o conteúdo de sua constituição de 1843.

A participação ativa dos Lanceiros Negros na luta e a presença de líderes como Mauriano de Mattos, mulato farrapo, mostram que a pauta da libertação plena dos negros sempre esteve no horizonte do movimento. Mais do que isso: ao contrário da Constituição Imperial de 1824, que consolidava a escravidão como parte da ordem, a Constituição Rio-Grandense abriu caminho para a cidadania de todos os homens livres, sem distinção de cor ou origem.

É a partir dessa perspectiva que se torna necessário refutar o mito de que os farrapos “não aboliram a escravidão”, reconhecendo que a abolição plena não era uma promessa distante, mas parte intrínseca do projeto republicano rio-grandense.

Um dos pontos mais distorcidos sobre a Guerra dos Farrapos é a acusação de que os farrapos não tinham interesse em abolir a escravidão, porque sua constituição de 1843 não a teria extinto formalmente. Essa leitura, porém, ignora tanto o contexto político da época quanto a prática concreta dos farrapos no Rio Grande do Sul.

Primeiramente, é preciso lembrar que a República Rio-Grandense, proclamada em 11 de setembro de 1836, nasceu sob a participação direta de negros libertos e dos Lanceiros Negros, tropa de elite formada por homens que tinham a escolha de lutar ou não e que, ao se alistarem, recebiam sua liberdade. Esse fato, liderado por Antônio de Sousa Neto e Mauriano de Mattos, já demonstra que a pauta da libertação plena não era acessória, mas parte essencial do projeto republicano.

A própria Constituição Rio-Grandense de 1843 confirma isso. Diferente da Constituição Imperial de 1824, que silenciava sobre a escravidão e garantia a propriedade como inviolável, o texto farroupilha inovava ao não restringir cidadania por cor ou origem. O artigo 6º declarava: “São cidadãos da República todos os homens livres, nascidos no seu território, ou que nele adquirirem domicílio”. Ao reconhecer como cidadãos todos os homens livres, os farrapos criaram uma base legal que abria caminho para a integração plena dos libertos à ordem republicana.

É verdade que a constituição não trouxe um artigo específico decretando abolição imediata. Mas isso não significa ausência de pauta, e sim um processo em curso, já que a guerra exigia soluções práticas. Nesse sentido, a constante alforria de negros, não apenas por sua participação militar, mas também por iniciativa política, mostra que a República caminhava na direção da abolição plena.

Comparação direta: Império x República Rio-Grandense 

Constituição do Império de 1824: 

Art. 179, XXII: garantia da inviolabilidade do direito de propriedade, incluindo implicitamente a propriedade de escravos.

Nenhuma menção à cidadania para libertos ou escravizados.

A escravidão era, portanto, juridicamente intocável e socialmente legitimada.

Constituição Rio-Grandense de 1843

Art. 6º: “São cidadãos da República todos os homens livres, nascidos no seu território, ou que nele adquirirem domicílio.”

Não fazia distinção de raça, origem ou cor.

Criava espaço jurídico para a integração de libertos e negros livres como cidadãos plenos.

Essa comparação deixa claro: enquanto o Império consolidava a escravidão como pilar da ordem social, a República Rio-Grandense criava brechas constitucionais e práticas concretas que apontavam para a abolição plena.

Portanto, é falacioso afirmar que os farrapos “não aboliram a escravidão” como se isso fosse prova de conivência com a instituição. A realidade é outra: a abolição plena sempre esteve em pauta entre os farrapos, manifestando-se tanto na prática concreta da libertação de negros quanto no horizonte político da república que buscavam construir. A vitória teria significado, inevitavelmente, a consagração da liberdade universal em território rio-grandense.

Fontes bibliográficas primárias

Constituição do Império do Brasil de 1824 – especialmente o Art. 179, XXII, sobre a inviolabilidade do direito de propriedade.

Constituição Rio-Grandense de 1843 – especialmente o Art. 6º, que trata da cidadania, e os artigos sobre direitos políticos e propriedade (sem menção direta à escravidão, diferente da imperial).

Fontes secundárias (historiografia)

Rodrigues, Alfredo Ferreira. David Canabarro e a Surpresa de Porongos. Almanak Litterario e Estatistico do Rio Grande do Sul, 1899-1901.

Abreu, Francisco Pedro de (Barão de Jacuhy). Memórias de Francisco Pedro de Abreu. Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, 1921.

Varela, Alfredo. História da Grande Revolução: o ciclo farroupilha no Brasil. Porto Alegre: Globo, 1933.

Machado, Cesar Pires. Porongos: fatos e fábulas. Porto Alegre: Evangraf, 2011.

Bento, Cláudio Moreira. O negro e descendentes na sociedade do Rio Grande do Sul (1635–1975). Porto Alegre: Grafosul, 1976.

Moura, Clóvis. Rebeliões da senzala. 4ª ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1988.

Fontoura, Antônio Vicente. Diário: de 1º de janeiro de 1844 a 22 de março de 1845. Porto Alegre: Sulina, 1984.


domingo, 14 de setembro de 2025

O HINO RIO-GRANSENSE E O SENTIDO LIBERTÁRIO DE SUA ESTROFE

O Hino Rio-Grandense, símbolo máximo da identidade cultural do povo gaúcho, carrega em seus versos a memória de uma luta por liberdade e autonomia. No entanto, ano após ano, especialmente durante a Semana Farroupilha, não faltam tentativas de deturpar sua mensagem. Alguns acusam, de forma leviana, que o trecho “Povo que não tem virtude, acaba por ser escravo” teria conotação racista. Essa interpretação, além de anacrônica, ignora o contexto histórico, filosófico e libertário em que a letra foi escrita. Muito pelo contrário: A estrofe é uma advertência universal, um chamado à responsabilidade moral e à virtude como fundamentos indispensáveis para que um povo permaneça livre.


O Hino Rio-Grandense, composto em 1838 durante a Guerra dos Farrapos, tem como autor da letra Francisco Pinto da Fontoura (o “Chiquinho da Vovó”), com música adaptada por Joaquim José de Mendanha. Ele surgiu em plena luta da República Rio-Grandense pela liberdade política e pela afirmação da identidade do povo sulino diante da centralização imperial brasileira. Assim, não é um hino de submissão, mas de afirmação de autonomia e espírito libertário.

O verso em questão:

“Mas não basta, pra ser livre, / Ser forte, aguerrido e bravo, / Povo que não tem virtude / Acaba por ser escravo”

— muitas vezes é mal interpretado por setores que preferem o reducionismo ideológico ao estudo histórico. Não se trata de um ataque racial, mas de uma reflexão filosófica antiga sobre liberdade e moralidade coletiva.

O termo “escravo”, usado no século XIX, refere-se à condição de servidão, algo que remonta à Antiguidade clássica, quando gregos e romanos já advertiam que povos sem disciplina, valores e virtudes estavam fadados a perder sua autonomia e cair sob domínio de outros. Ou seja, não fala sobre raça, mas sobre a condição política e existencial de um povo.

É importante lembrar que havia no hino uma estrofe posteriormente retirada, em que esse pensamento fica ainda mais claro. O sentido original era justamente advertir que a liberdade não se sustenta apenas pela força das armas, mas pela retidão, união e virtude do povo. Assim, a estrofe é um chamado à responsabilidade cívica e moral, e não uma suposta “exaltação da escravidão”.

O problema da crítica moderna está na incapacidade — ou má-fé — de distinguir “escravo” como condição de cativeiro de “escravizado” como resultado de uma violência histórica. Fontoura, ao escrever, não falava em etnia ou cor, mas na sorte política de qualquer povo que se torne vulnerável por falta de caráter e virtude.

Por isso, a leitura correta do hino não é racista, mas libertária e atemporal. Ele ecoa a tradição clássica e cristã que afirma: a liberdade só é plena quando sustentada por valores morais sólidos. Se um povo se corrompe, aceita a tirania ou vende sua honra, acaba reduzido à servidão — seja pelo poder imperial, seja por qualquer outra força dominadora.

Infelizmente, em setembro, quando a Semana Farroupilha reacende o debate sobre nossa história, surgem vozes que preferem deturpar símbolos para encaixá-los em narrativas ideológicas passageiras. Mas interpretar com seriedade é dever de quem respeita a própria cultura.

O Hino Rio-Grandense rejeita a escravidão e ensina que sem virtude não há liberdade — e que a dignidade de um povo depende mais de sua moral e firmeza do que da mera força bruta.


sexta-feira, 12 de setembro de 2025

A FARSA DA "TRAIÇÃO DE PORONGOS": ENTRE A CARTA APÓCRIFA E A NARRATIVA IMPERIAL


A chamada “traição de Porongos” tornou-se, ao longo do tempo, uma das maiores distorções da história da Revolução Farroupilha. Baseada em uma única carta, cuja autenticidade jamais foi comprovada e posteriormente reconhecida como apócrifa, essa narrativa passou a pintar David Canabarro como responsável pelo massacre dos Lanceiros Negros. No entanto, uma análise crítica das fontes primárias, dos testemunhos de época e das revisões feitas por historiadores sérios mostra que essa acusação não passa de uma construção política criada pelo Império e perpetuada por repetição acrítica. Mais do que um episódio de “traição interna”, Porongos foi o resultado de uma emboscada covarde das tropas imperiais, reforçada por falsificações documentais que buscavam desmoralizar os líderes farrapos.

O combate de Porongos (14 de novembro de 1844) marcou um dos últimos episódios da Revolução Farroupilha, quando tropas imperiais, comandadas por Francisco Pedro de Abreu, o Moringue, surpreenderam os farrapos acampados. A versão oficial divulgada posteriormente, sobretudo após o fim da guerra, acusava David Canabarro de ter entregado seus próprios homens, em especial os Lanceiros Negros, a uma emboscada combinada com Caxias. Essa narrativa se baseia exclusivamente na chamada “Carta de Porongos”, que teria sido escrita por Canabarro em acordo com o comando imperial.

No entanto, a autenticidade desse documento sempre foi duvidosa. A suposta carta original jamais foi encontrada, apenas cópias reproduzidas em diferentes versões. O próprio Alfredo Varela, responsável por trazer o documento a público em 1889, reconheceu em 1933, após analisar melhor os artefatos, que a carta era apócrifa.

Além disso, depoimentos de época reforçam a farsa. Em carta datada de 22 de agosto de 1900, o patriota João Borges Fortes relatou que o documento fora produzido sob ordem de Moringue, sendo redigido por seu major de brigada João Machado de Morais. Também o subordinado Félix de Azambuja Rangel afirmou ter visto Moringue levar a carta a Caxias para assinatura e depois multiplicar cópias para circular entre adversários, com o intuito de arruinar a imagem de Canabarro.

Portanto, não há multiplicidade de versões da “traição”, mas apenas uma falsificação deliberada, repetida como verdade histórica ao longo do tempo.

Testemunhos e memórias indicam que o ataque imperial não foi resultado de conluio, mas sim de uma emboscada covarde. O próprio Canabarro só conseguiu escapar porque foi alertado por seu ajudante de ordens, o negro Joaquim, que o avisou do ataque iminente. Fugindo às pressas, sem tempo de se vestir, Canabarro sobreviveu. Joaquim, longe de ser cúmplice de qualquer traição, permaneceu fiel até o fim da vida do general, sendo citado em seu testamento e falecendo já idoso na Estância São Gregório.

Esse episódio desmonta a tese de colaboração entre Canabarro e o Império. Se houvesse acordo prévio, por que o general seria surpreendido ao ponto de fugir em trajes íntimos, salvo apenas pela lealdade de um auxiliar negro?

A insistência em associar Canabarro à traição de Porongos tem raízes políticas. Ele era o último chefe farrapo com condições de reaglutinar forças contra o Império. Assim, desmoralizá-lo por meio de um documento forjado servia tanto ao objetivo imediato de dividir os farrapos quanto ao de manchar para sempre a sua memória.

A animosidade entre Canabarro e Moringue se manteve até a Guerra do Paraguai, quando os dois quase duelaram em plena campanha, sendo apartados pelo próprio Dom Pedro II. O episódio mostra que a rivalidade pessoal entre ambos nunca se dissipou, confirmando que a suposta “aliança” em Porongos não passava de um artifício propagandístico.

A acusação de traição em Porongos não encontra respaldo em fontes sólidas, mas apenas em uma carta cuja falsidade foi reconhecida até mesmo por quem primeiro a divulgou. Testemunhos diretos confirmam que o documento foi uma arma política de Moringue e que o massacre dos Lanceiros Negros se deu por um ataque de surpresa das tropas imperiais, e não por cumplicidade farrapa.

A perpetuação dessa mentira histórica não apenas injustiça a memória de David Canabarro, mas também obscurece a verdadeira tragédia de Porongos: o uso brutal e covarde da violência imperial contra combatentes negros que lutaram, com bravura e dignidade, pela causa da liberdade no Rio Grande do Sul.

quinta-feira, 11 de setembro de 2025

O POVO – A Voz Escrita da República Rio-Grandense

Em meio às batalhas e às estratégias da Revolução Farroupilha, os gaúchos não lutaram apenas com a lança e a espada. Em 1º de setembro de 1838, nasceu o jornal O Povo, o primeiro periódico oficial da República Rio-Grandense, que se tornou a voz escrita da liberdade, da independência e do orgulho de um povo que ousou ser nação. O Povo consolidou a identidade e os ideais da República Rio-Grandense, provando que a liberdade também se conquista com palavras.

A Revolução Farroupilha não se fez apenas com lanças, espadas e batalhas campais. Ela também se consolidou nas ideias, nos manifestos e na palavra escrita, instrumento essencial para dar legitimidade a uma nação recém-proclamada. Nesse espírito nasceu, em 1º de setembro de 1838, o jornal O Povo, o primeiro e mais importante periódico oficial da República Rio-Grandense.

Impresso pela Typographia Republicana Rio-Grandense, em Piratini, a primeira capital da República, o jornal tinha como lema ser um:

“Jornal Político, Literário e Ministerial da República Rio-Grandense. Este Periódico de propriedade do Governo, se publica na quarta-feira e sábado de cada semana.”

Seu editor responsável foi o italiano Luigi Rossetti, patriota engajado na causa republicana. A organização administrativa coube a Domingos José de Almeida, importante figura da revolução, que adquiriu as prensas tipográficas em Montevidéu e as trouxe até o território rio-grandense.

Instalada na mesma casa em que Rossetti dividia morada com Giuseppe Garibaldi, a tipografia tornou-se um centro não apenas de produção de notícias e documentos oficiais, mas também de circulação de ideias políticas modernas, em sintonia com o republicanismo que ecoava no mundo atlântico.

O primeiro número de O Povo já deixou claro o seu propósito: defender os ideais da Revolução e consolidar a República nascente. Nele lemos:

“... Para chegar da tyrania à Liberdade, he mister valer-se de medidas, incompatíveis com a Liberdade regular, e permanente... tem que preparar os ânimos dos cidadãos aos sentimentos de fraternidade, de modéstia, de igualdade e desinteressada e ardente amor da Pátria.”
(Piratini, 1838)

Essa frase sintetiza a missão do jornal: ser o espaço de construção da identidade nacional rio-grandense, onde a palavra escrita se tornava uma arma tão poderosa quanto a lança dos cavaleiros farrapos.

O jornal circulou de 1838 a 1840, primeiro em Piratini e depois em Caçapava, acompanhando a mudança da capital da República. Era publicado duas vezes por semana — às quartas-feiras e aos sábados — e tinha caráter oficial e político, funcionando como um verdadeiro Diário Oficial da República.

Em suas páginas eram divulgados:

- Atos oficiais do governo rio-grandense;

- Ordens militares e administrativas;

- Manifestações políticas contra o Império;

- Reflexões literárias e culturais;

- Ideais republicanos e democráticos.

Sua importância foi tamanha que O Povo se tornou o principal veículo de comunicação da causa farroupilha, consolidando a República também no campo simbólico e cultural.

Com a saída de Rossetti, nos últimos meses de sua circulação, o jornal foi editado por Giovanni Battista Cuneo, outro italiano engajado na luta. Porém, sua trajetória foi interrompida de forma trágica: em 22 de maio de 1840, a tipografia farrapa foi atacada e destruída por tropas imperiais.

Assim se calava a voz impressa da República — mas não se apagava o eco de suas ideias, que permaneceram vivas no imaginário gaúcho e na luta por liberdade.

Hoje, exemplares do jornal O Povo estão preservados na Coleção Tche Voni, no Museu Farroupilha de Piratini, instituição da Secretaria de Cultura do RS. São testemunhos preciosos de um tempo em que o Rio Grande ousou ser República e deu ao mundo o exemplo de um povo que se expressava não só pela força das armas, mas também pela palavra impressa.

O Povo não foi apenas um jornal: foi o manifesto escrito da República Rio-Grandense, um marco da imprensa sul-americana e um símbolo eterno do ideal farrapo de liberdade.

11 de Setembro de 1836 – A Proclamação da República Rio-Grandense

Depois da vitória esmagadora dos farroupilhas na Batalha do Seival, o Rio Grande daria um passo ainda maior rumo à liberdade. Na manhã de 11 de setembro de 1836, o Coronel Antônio de Souza Netto, promovido a General, proclamou nos campos dos Menezes a República Rio-Grandense. A partir desse dia, os farrapos deixaram de ser meros rebeldes: a Revolução Farroupilha transformou-se em uma guerra entre dois povos soberanos.

Nos dias que antecederam a proclamação da república, a chama da liberdade já se espalhava pelos pagos. Porto Alegre havia sido tomada, e no 21 de setembro de 1835, Bento Gonçalves da Silva adentrava altivo as ruas empoeiradas da Capital, já abandonada pelo presidente imperial Antônio Rodrigues Fernandes Braga. Era a prova viva de que os ideais libertários estavam em marcha, alimentados pelo vento das independências que já agitava a América.

Entre os dias 9 a 11 de setembro, ecoaram os clarins da batalha decisiva do Seival. Sob a liderança brilhante de Netto, os revolucionários impuseram fragorosa derrota às forças imperiais comandadas por João da Silva Tavares. Aquela vitória não foi apenas um triunfo militar, mas o sopro de coragem que permitiu sonhar mais alto: a fundação de uma República livre, soberana e humanitária.

A República foi proclamada após a vitória farroupilha na Batalha do Seival, quando Antônio de Sousa Neto, em nome dos revolucionários, declarou a independência da província em relação ao Império. Estava em jogo a resistência contra um sistema centralizador, que cobrava altos impostos, negligenciava as necessidades regionais e pouco reconhecia as especificidades econômicas e sociais da então Província de São Pedro. Nesse contexto, a República Rio-Grandense se constituiu como um projeto de Estado próprio, com Constituição, símbolos nacionais, autoridades eleitas e até relações diplomáticas internacionais.

Portanto o dia 11 de setembro de 1836 marca o nascimento de uma nova nação: a República Rio-Grandense. Após a estrondosa vitória dos farrapos na Batalha do Seival, após a vitória na batalha, o Coronel Antônio de Souza Netto — promovido a General pelo feito heróico — reuniu sua tropa nos campos dos Menezes, atual município de Candiota, e proclamou a independência da Província de São Pedro em relação ao Império do Brasil.

Foi naquele acampamento militar, ainda tomado pelo fervor da vitória, que a ordem do dia foi lida pelo Coronel Joaquim Pedro Soares, em palavras que ecoaram como um brado de liberdade:

“Bravos companheiros da 1ª Brigada de Cavalaria!
Ontem obtivestes o mais completo triunfo sobre os escravos da Corte do Rio de Janeiro [...]
Em todos os ângulos da província não soa outro eco que o de independência, república, liberdade ou morte.
Camaradas! Nós que compomos a 1ª Brigada do Exército Liberal, devemos ser os primeiros a proclamar, como proclamamos, a independência desta província, a qual fica desligada das demais do Império, e forma um estado livre e independente, com o título de República Rio-grandense.”

As palavras inflamaram os ânimos dos combatentes. Então, tomando a frente, o recém-aclamado General Antônio de Souza Netto bradou:

Camaradas! Gritemos pela primeira vez: viva a República Rio-grandense! Viva a independência! Viva o exército republicano rio-grandense!”

Não foi apenas a proclamação de um Estado, foi o primeiro grito republicano e abolicionista da América Portuguesa, muito antes do Brasil oficial ousar falar em abolição ou república. Foi o brado do povo rio-gransense que jamais aceitou a submissão e que, desde então, carrega no peito a chama da independência própria. Assim, entre lanças erguidas, chapéus levantados e vozes que ecoaram pelos campos do Seival, nascia oficialmente a República Rio-Grandense. E desde esse dia, as tropas rio-grandenses deixaram de ser vistos como meros rebeldes. A Revolução Farroupilha deixou de ser apenas uma revolta civil e passou a configurar-se como uma guerra entre dois países soberanos, o Império do Brasil e a República Rio-Grandense.

Apesar das dificuldades militares e políticas, a experiência republicana deixou um legado profundo. Primeiro, mostrou que era possível imaginar e lutar por um projeto político alternativo ao modelo imperial. Segundo, consolidou a imagem do gaúcho como sujeito histórico — trabalhador do campo, soldado e cidadão — que se coloca como guardião da liberdade e da justiça. Além disso, ao trazer para o debate a questão do federalismo, da soberania regional e da centralidade do trabalho, a República Rio-Grandense antecipou discussões que marcariam a vida política brasileira ao longo do século XX. Não foi apenas um ato político, mas um grito de dignidade, justiça e liberdade contra a tirania de um império opressor. Uma República proclamada com sangue e coragem, que jamais foi desfeita na memória e no coração do povo rio-gransense.

O fim da guerra, em 1845, com a assinatura do Tratado do Poncho Verde, não apagou a memória do ideal republicano. Ao contrário, a República Rio-Grandense se transformou em símbolo de resistência, orgulho e identidade do povo sul-rio-grandense. Hoje, sua lembrança inspira movimentos políticos, culturais e sociais que veem nela a afirmação de valores como soberania nacional, defesa da produção local, justiça social e protagonismo popular.

Neste 11 de setembro, ao recordar os heróis farrapos, reafirmamos que a verdadeira Semana da Pátria da sociedade rio-grandense se inicia hoje, e segue até o 20 de setembro. Não celebramos efemérides impostas pelo Império ou pela república brasileira. Celebramos as nossas datas que brotaram da luta, do sangue e do sonho da nossa própria gente.

quarta-feira, 10 de setembro de 2025

10 de Setembro de 1836 – A Batalha do Seival

Neste dia 10 de setembro, a memória gaúcha se ergue altiva. Foi nesta data, em 1836, que os campos do Seival testemunharam uma das maiores vitórias do povo rio-grandense, quando a coragem de homens simples derrotou a força organizada do Império.

O 10 de setembro não é apenas uma data. É o dia em que os gaúchos enfrentaram o império tirano brasileiro, os caramurus invasores de nossas terras rio-grandenses, e escreveram uma das páginas mais gloriosas da Revolução Farroupilha.

Tudo começou na tensa manhã de 10 de setembro de 1836, nos campos dos Menezes, às margens do Rio Jaguarão, na região onde hoje se encontra o município de Candiota. O Coronel Antônio de Souza Netto — futuro General — comandava cerca de 430 cavalarianos farroupilhas, uma tropa composta por agricultores, ex-escravos, artesãos, gaúchos peões de estância e dezenas de soldados. Eram pouco mais de 400 homens, a maioria mal armada, portando lanças, facões e adagas, quase nenhum tinha treinamento militar além dos comandantes militares que lideravam as tropas. 

Do outro lado, estava o exército imperial, liderado por João da Silva Tavares. Eram mais de 560 soldados, bem treinados, armados com carabinas e espadas, e com a vantagem do terreno — posicionados no alto de uma coxilha. Os imperiais confiavam que esmagariam facilmente aquela tropa popular.

Por volta das nove horas da manhã, o silêncio da roda de mate foi interrompido: os tiros das carabinas imperiais anunciaram o início da peleia. Os cavaleiros farroupilhas, mesmo em menor número, partiram a galope contra a cavalaria inimiga. O encontro fez o metal das espadas ecoar pelos campos pampeanos, e a luta se espalhou em poeira, sangue e gritos de guerra.

O inesperado, porém, virou o rumo da batalha. Uma lança farroupilha cortou o freio do cavalo do comandante Silva Tavares, que disparou desgovernado. A cena mergulhou os imperiais no caos: alguns tentaram socorrê-lo, outros pensaram que havia batido em retirada, e os que permaneceram não tinham ordem alguma. Foi nesse instante que Netto encontrou sua chance: lançou seu ataque, inflamando seus homens a lutar como leões.

O resultado foi devastador. Mesmo contra todas as adversidades — terreno desfavorável, tropa menor, pouco armamento e falta de treinamento — os farroupilhas esmagaram o inimigo. Mais de 200 soldados imperiais foram aprisionados, 180 mortos, inúmeros feridos e desgarrados fugindo desordenados pelo mato. Dos mais de 600 que iniciaram a batalha, menos de 50 escaparam com o comandante. Do lado farroupilha, apenas 7 homens tombaram.

Quando Silva Tavares conseguiu voltar ao campo, a peleia já estava perdida. O exército imperial havia sido destroçado.

A vitória do Seival tornou-se símbolo de coragem e liberdade. Foi a prova de que um punhado de homens simples, movidos pelo ideal de independência, podia derrotar o poder organizado do Império.

E na aurora seguinte, em 11 de setembro de 1836, embalado por essa conquista, Antônio de Souza Netto proclamou aos quatro cantos a República Rio-Grandense. A partir dali, este Rio Grande de Sepé Tiaraju de uma mera província passou a ser um país independente com bandeira, hino, constituição e lutou de igual para igual contra um país o dobro do seu tamanho.

O Seival foi mais que uma batalha: foi o grito de um povo que não se rendeu aos desmandos de um império ignomioso e omisso aos interesses rio-gransenses. 


segunda-feira, 8 de setembro de 2025

GAÚCHIDADE: EXPRESSÃO DA HISPANIDADE E ANTÍTESE DA BRASILIDADE ARTICIAL


A tradição hispânica, com sua ênfase nos valores comunitários, no sentido de honra e na unidade espiritual, oferece uma alternativa civilizacional profunda diante do modelo anglo-saxão de fragmentação e dominação. Nesse horizonte, a gaúchidade emerge como expressão singular da Hispanidade no extremo sul da América. O gaúcho, forjado no entrelaço das tradições ibéricas, indígenas, missioneiras e até imigrantes, representa não apenas uma identidade regional, mas uma forma viva da própria civilização hispânica.

A brasilidade oficial, construída de modo artificial, tenta uniformizar e apagar particularidades em nome de um projeto centralizador. Essa brasilidade, porém, muitas vezes flerta com o modelo anglo-saxão de fragmentação e domínio cultural, substituindo raízes autênticas por narrativas fabricadas, deslocando o povo de sua memória e de sua verdadeira tradição.

A gaúchidade, ao contrário, mantém-se como antítese desse processo: não se define por uma raça, nem por uma fronteira política arbitrária, mas por uma pertença civilizacional mais ampla, hispânica, onde convivem brancos, índios, negros, mestiços e descendentes de múltiplas correntes imigratórias. Tal como a própria Hispanidade, ela é um ethos comunitário, de liberdade, honra e solidariedade, que resiste à lógica utilitária e atomizante do mundo anglo-saxão.

Assim, compreender a gaúchidade é compreender que a verdadeira força do sul platino não se encontra na adesão à brasilidade fabricada, mas na fidelidade à tradição hispânica, que sempre uniu povos distintos em torno de uma mesma civilização.

BENTO GONÇALVES: O LÍDER DO POVO RIO-GRANDENSE


Bento Gonçalves da Silva é lembrado como o grande comandante da Revolução Farroupilha, mas sua trajetória foi muito além de um simples chefe militar. Filho de estancieiros, ele poderia ter se apresentado apenas como representante dos grandes fazendeiros, mas escolheu ser um articulador político, alguém que fazia a ponte entre as elites do campo, os líderes urbanos e, sobretudo, o povo comum.

O Rio Grande do Sul, na época, era uma das províncias mais ricas do Brasil, sustentado pela pecuária e pelo charque. Porém, as políticas do Império favoreciam apenas os produtos de exportação, como o café e o açúcar, deixando de lado o mercado interno. Essa injustiça atingia tanto os grandes produtores quanto os pequenos criadores, os trabalhadores e até os escravizados, que viam suas vidas presas a um sistema desigual.

Foi nesse cenário que Bento se firmou como líder. Ele não se apresentava apenas como um estancieiro, mas como alguém capaz de unir diferentes vozes contra as arbitrariedades do Império. Como ele próprio afirmava:

“Não nos levantamos contra o Brasil, mas contra um sistema que oprime e não nos reconhece.”

A Revolução Farroupilha, ao contrário do que muitos dizem, não foi só uma revolta de estancieiros ricos: contou com a participação de soldados, artesãos, pequenos produtores e até de escravizados, que lutavam com a esperança da liberdade.

Bento Gonçalves, inclusive, carregava em sua visão política ideias abolicionistas, defendendo que os escravizados que se unissem à luta deveriam ser libertados. Em suas palavras:

“Nenhum homem que derrame seu sangue por esta terra deve permanecer escravo.”

Esse pensamento o colocava adiante de seu tempo, dando à revolução um caráter não apenas econômico, mas também social, baseado no desejo de liberdade e igualdade.

Assim, Bento não foi apenas o general da elite sulina, mas um símbolo de resistência popular, que reuniu ricos e pobres, brancos e negros, livres e escravizados, em torno de um sonho de autonomia e justiça. Sua liderança marcou o início de um ideal de independência rio-grandense que nasceu das estâncias, mas se fortaleceu no coração do povo.

E como ele mesmo disse, reforçando o espírito de luta que moveu sua geração:

“Antes viver como um homem livre, que morrer como escravo do Império.”

domingo, 7 de setembro de 2025

SETEMBRO CÍVICO GAÚCHO RIO-GRANDENSE

Setembro chega e, com ele, o chamado das tradições, o eco dos feitos farroupilhas que moldaram a alma do Rio Grande. É o mês em que o pampa se veste de memória e orgulho, mas também de disputas narrativas e contradições.

Ano após ano, repete-se o mesmo cenário: de um lado, aqueles que empunham a chama, o lenço vermelho, o poncho e a viola para celebrar a herança dos Farrapos. Do outro, os que transformam as redes sociais em trincheiras de ressentimento, prontos a destilar críticas baratas, negar símbolos e diminuir a história.

Sempre surgem os mesmos refrões: “E Porongos?”, “E as contradições?”, como se fosse possível julgar com o olhar pequeno de hoje os sacrifícios de um povo que, em seu tempo, ousou enfrentar impérios, erguer bandeiras e desafiar poderes maiores que si. Toda revolução é feita de sangue, suor e contradição – e só os fracos recusam enxergar isso.

Assim, o mês farroupilha se converte em palco de ironias: enquanto uns acendem a chama no peito, outros preferem apagá-la com discursos melancólicos, transformando o Facebook num confessionário coletivo de mágoas. Mas aqui nos Pampas, a história não se conta com choradeira – se conta com luta, coragem e honra.

Preparem-se, pois o setembro rio-grandense não é tempo de silêncio: é tempo de canto, de cavalo ensilhado, de bandeira desfraldada. Quem vier com sarcasmo, encontrará a adaga farroupilha forjada em fogo e aço, pronta a defender o legado que pulsa em cada pago, em cada rancho, em cada coração gaúcho.

Podem tentar abafar, podem zombar, podem torcer o nariz – mas não apagarão a chama farroupilha que, geração após geração, insiste em arder. Porque ser gaúcho é mais que nascer nestas coxilhas: é carregar no peito a memória de um povo que ousou ser livre.

Viva a Revolução Farroupilha! Viva a bandeira tricolor que tremula com bravura no céu do Rio Grande!