domingo, 14 de setembro de 2025

O HINO RIO-GRANSENSE E O SENTIDO LIBERTÁRIO DE SUA ESTROFE

O Hino Rio-Grandense, símbolo máximo da identidade cultural do povo gaúcho, carrega em seus versos a memória de uma luta por liberdade e autonomia. No entanto, ano após ano, especialmente durante a Semana Farroupilha, não faltam tentativas de deturpar sua mensagem. Alguns acusam, de forma leviana, que o trecho “Povo que não tem virtude, acaba por ser escravo” teria conotação racista. Essa interpretação, além de anacrônica, ignora o contexto histórico, filosófico e libertário em que a letra foi escrita. Muito pelo contrário: A estrofe é uma advertência universal, um chamado à responsabilidade moral e à virtude como fundamentos indispensáveis para que um povo permaneça livre.


O Hino Rio-Grandense, composto em 1838 durante a Guerra dos Farrapos, tem como autor da letra Francisco Pinto da Fontoura (o “Chiquinho da Vovó”), com música adaptada por Joaquim José de Mendanha. Ele surgiu em plena luta da República Rio-Grandense pela liberdade política e pela afirmação da identidade do povo sulino diante da centralização imperial brasileira. Assim, não é um hino de submissão, mas de afirmação de autonomia e espírito libertário.

O verso em questão:

“Mas não basta, pra ser livre, / Ser forte, aguerrido e bravo, / Povo que não tem virtude / Acaba por ser escravo”

— muitas vezes é mal interpretado por setores que preferem o reducionismo ideológico ao estudo histórico. Não se trata de um ataque racial, mas de uma reflexão filosófica antiga sobre liberdade e moralidade coletiva.

O termo “escravo”, usado no século XIX, refere-se à condição de servidão, algo que remonta à Antiguidade clássica, quando gregos e romanos já advertiam que povos sem disciplina, valores e virtudes estavam fadados a perder sua autonomia e cair sob domínio de outros. Ou seja, não fala sobre raça, mas sobre a condição política e existencial de um povo.

É importante lembrar que havia no hino uma estrofe posteriormente retirada, em que esse pensamento fica ainda mais claro. O sentido original era justamente advertir que a liberdade não se sustenta apenas pela força das armas, mas pela retidão, união e virtude do povo. Assim, a estrofe é um chamado à responsabilidade cívica e moral, e não uma suposta “exaltação da escravidão”.

O problema da crítica moderna está na incapacidade — ou má-fé — de distinguir “escravo” como condição de cativeiro de “escravizado” como resultado de uma violência histórica. Fontoura, ao escrever, não falava em etnia ou cor, mas na sorte política de qualquer povo que se torne vulnerável por falta de caráter e virtude.

Por isso, a leitura correta do hino não é racista, mas libertária e atemporal. Ele ecoa a tradição clássica e cristã que afirma: a liberdade só é plena quando sustentada por valores morais sólidos. Se um povo se corrompe, aceita a tirania ou vende sua honra, acaba reduzido à servidão — seja pelo poder imperial, seja por qualquer outra força dominadora.

Infelizmente, em setembro, quando a Semana Farroupilha reacende o debate sobre nossa história, surgem vozes que preferem deturpar símbolos para encaixá-los em narrativas ideológicas passageiras. Mas interpretar com seriedade é dever de quem respeita a própria cultura.

O Hino Rio-Grandense rejeita a escravidão e ensina que sem virtude não há liberdade — e que a dignidade de um povo depende mais de sua moral e firmeza do que da mera força bruta.