A chamada “traição de Porongos” tornou-se, ao longo do tempo, uma das maiores distorções da história da Revolução Farroupilha. Baseada em uma única carta, cuja autenticidade jamais foi comprovada e posteriormente reconhecida como apócrifa, essa narrativa passou a pintar David Canabarro como responsável pelo massacre dos Lanceiros Negros. No entanto, uma análise crítica das fontes primárias, dos testemunhos de época e das revisões feitas por historiadores sérios mostra que essa acusação não passa de uma construção política criada pelo Império e perpetuada por repetição acrítica. Mais do que um episódio de “traição interna”, Porongos foi o resultado de uma emboscada covarde das tropas imperiais, reforçada por falsificações documentais que buscavam desmoralizar os líderes farrapos.
O combate de Porongos (14 de novembro de 1844) marcou um dos últimos episódios da Revolução Farroupilha, quando tropas imperiais, comandadas por Francisco Pedro de Abreu, o Moringue, surpreenderam os farrapos acampados. A versão oficial divulgada posteriormente, sobretudo após o fim da guerra, acusava David Canabarro de ter entregado seus próprios homens, em especial os Lanceiros Negros, a uma emboscada combinada com Caxias. Essa narrativa se baseia exclusivamente na chamada “Carta de Porongos”, que teria sido escrita por Canabarro em acordo com o comando imperial.
No entanto, a autenticidade desse documento sempre foi duvidosa. A suposta carta original jamais foi encontrada, apenas cópias reproduzidas em diferentes versões. O próprio Alfredo Varela, responsável por trazer o documento a público em 1889, reconheceu em 1933, após analisar melhor os artefatos, que a carta era apócrifa.
Além disso, depoimentos de época reforçam a farsa. Em carta datada de 22 de agosto de 1900, o patriota João Borges Fortes relatou que o documento fora produzido sob ordem de Moringue, sendo redigido por seu major de brigada João Machado de Morais. Também o subordinado Félix de Azambuja Rangel afirmou ter visto Moringue levar a carta a Caxias para assinatura e depois multiplicar cópias para circular entre adversários, com o intuito de arruinar a imagem de Canabarro.
Portanto, não há multiplicidade de versões da “traição”, mas apenas uma falsificação deliberada, repetida como verdade histórica ao longo do tempo.
Testemunhos e memórias indicam que o ataque imperial não foi resultado de conluio, mas sim de uma emboscada covarde. O próprio Canabarro só conseguiu escapar porque foi alertado por seu ajudante de ordens, o negro Joaquim, que o avisou do ataque iminente. Fugindo às pressas, sem tempo de se vestir, Canabarro sobreviveu. Joaquim, longe de ser cúmplice de qualquer traição, permaneceu fiel até o fim da vida do general, sendo citado em seu testamento e falecendo já idoso na Estância São Gregório.
Esse episódio desmonta a tese de colaboração entre Canabarro e o Império. Se houvesse acordo prévio, por que o general seria surpreendido ao ponto de fugir em trajes íntimos, salvo apenas pela lealdade de um auxiliar negro?
A insistência em associar Canabarro à traição de Porongos tem raízes políticas. Ele era o último chefe farrapo com condições de reaglutinar forças contra o Império. Assim, desmoralizá-lo por meio de um documento forjado servia tanto ao objetivo imediato de dividir os farrapos quanto ao de manchar para sempre a sua memória.
A animosidade entre Canabarro e Moringue se manteve até a Guerra do Paraguai, quando os dois quase duelaram em plena campanha, sendo apartados pelo próprio Dom Pedro II. O episódio mostra que a rivalidade pessoal entre ambos nunca se dissipou, confirmando que a suposta “aliança” em Porongos não passava de um artifício propagandístico.
A acusação de traição em Porongos não encontra respaldo em fontes sólidas, mas apenas em uma carta cuja falsidade foi reconhecida até mesmo por quem primeiro a divulgou. Testemunhos diretos confirmam que o documento foi uma arma política de Moringue e que o massacre dos Lanceiros Negros se deu por um ataque de surpresa das tropas imperiais, e não por cumplicidade farrapa.
A perpetuação dessa mentira histórica não apenas injustiça a memória de David Canabarro, mas também obscurece a verdadeira tragédia de Porongos: o uso brutal e covarde da violência imperial contra combatentes negros que lutaram, com bravura e dignidade, pela causa da liberdade no Rio Grande do Sul.