quinta-feira, 20 de novembro de 2025

A ROMANTIZAÇÃO DO IMPERIALISMO MEXICA

Nos últimos anos tornou-se comum ver discursos que demonizam de forma absoluta a colonização espanhola, como se os europeus tivessem irrompido em um continente pacífico, harmônico e igualitário. Essa narrativa, herdeira direta da chamada lenda negra, propaganda criada por potências rivais da Espanha nos séculos XVI e XVII  ganhou força em meios acadêmicos e nas redes sociais. No entanto, ela resiste cada vez menos quando confrontada com os fatos históricos e com o próprio testemunho dos povos indígenas que viveram aquela época.

Um dos principais equívocos dessa visão maniqueísta é a romantização do império mexica. Retratados muitas vezes como vítimas indefesas, os mexicas governavam um dos sistemas de dominação mais violentos e opressivos das Américas pré-colombianas. Seu poder era sustentado pela conquista permanente de povos vizinhos, pela cobrança de tributos pesadíssimos, pela escravização de inteiras comunidades e por guerras periódicas cujo único propósito era capturar prisioneiros para o sacrifício humano. A antropofagia ritual fazia parte da lógica política e religiosa do império, em atos que tinham caráter público, estatal e recorrente.

O filme Apocalypto, trata bem isso, tribos menores fugindo don terror dos mexicas, e a atuação dos atores indígenas mostrando como devia ser a feição de terror estampada na cara de quem conseguia escapar com vida da violência de um sistema imperial indígena, lembrando que nem toda civilização pré-colombiana vivia em harmonia, como certos discursos tentam sugerir. A própria diversidade indígena é apagada quando se impõe a fantasia de um continente idealizado, sem conflitos, divisões internas ou desigualdades estruturadas.

Outro ponto que desmonta a narrativa simplista da “colonização como destruição unilateral de inocentes” é o fato amplamente documentado de que dezenas de milhares de indígenas lutaram ao lado dos espanhóis contra o império mexica. Povos como tlaxcaltecas, totonacas, otomís e muitos outros viram na chegada de Hernán Cortés uma oportunidade histórica para se libertar de séculos de opressão mexica. Não foram enganados, tampouco manipulados: tinham perfeita consciência de quem eram seus inimigos e não hesitaram em se aliar a quem lhes oferecia uma chance de ruptura.

A ideia de que os ameríndios eram sujeitos passivos, incapazes de tomar decisões políticas, é tão falsa quanto paternalista. Eles escolheram seus aliados de acordo com seus próprios interesses, assim como qualquer sociedade faria diante de um império que sacrificava seus filhos, queimava suas aldeias e confiscava suas colheitas.

Nada disso significa negar que a colonização espanhola teve problemas, excessos, conflitos e injustiças como qualquer processo histórico complexo. Porém, ignorar o papel ativo dos próprios povos indígenas nessa história, bem como romantizar um império que foi brutal e expansionista, é substituir a realidade por um mito conveniente.

A história das Américas pré-colombianas é rica, diversa e cheia de contradições. Tentar reduzi-la a um cenário bucólico destruído por invasores europeus é negar justamente a voz dos povos que resistiram, lutaram, formaram alianças e moldaram o destino do continente. E é também, ironicamente, perpetuar a mesma visão simplória que a lenda negra criou séculos atrás, agora reciclada em retórica ideológica moderna.

Recuperar a verdade histórica não significa justificar violências, mas compreender que o passado não cabe em slogans. E que antes da chegada dos europeus já existiam impérios, guerras, dominações e resistências, inclusive contra os mexicas. A colonização não começou num paraíso: começou num mundo complexo, conflituoso e humano. A verdade histórica exige reconhecer isso.