É difícil aceitar essa ideia de que o Rio Grande do Sul teria alguma dívida cultural com os paulistas ou que a presença biriva seria um pilar central na formação do gaúcho serrano. Quando os bandeirantes finalmente chegam ao antigo território rio-grandense, toda a região sul, incluindo Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, já estava organizada por uma ampla rede de reduções hispano-guaranis que funcionavam como cidades completas, com agricultura, artesanato, pecuária, escolas e uma vida comunitária avançada.
Essas reduções não estavam concentradas apenas no RS. No Guayrá, no território do atual Paraná e parte de Santa Catarina, existiam localidades como Loreto, Santo Inácio Mini, Santo Inácio Guazú, Xerez, Nuestra Señora de la Encarnación, San Pedro, San Pablo, Acaray, Tayaobá, Ciudad Real e Vila Rica do Espírito Santo. No Tape, área que abrange o Rio Grande do Sul e o norte da Argentina, estavam São Miguel Arcanjo, São Lourenço Mártir, São João Batista, São Luís Gonzaga, Santo Ângelo Custódio, São Nicolau, São Francisco Xavier, Candelária, Jesus Maria e Assunção do Ijuí. Já na região de Itatim, entre o sul do Mato Grosso do Sul e o Paraguai, existiam reduções como Nossa Senhora da Candelária de Ipané, San José, San Pedro, São Tomé, Encarnação, Santa Bárbara e Santa Teresa, além de outras menores.
Todas estavam conectadas por caminhos indígenas e missioneiros que já uniam a região muito antes da chegada dos paulistas. Essas rotas ligavam Buenos Aires, Montevidéu, Assunção, Encarnación, Corrientes e também Sorocaba. Os bandeirantes apenas se aproveitaram de uma rede de circulação que já existia havia décadas, estruturada pelos próprios guaranis e padres missionários.
Outro ponto importante é que os primeiros tropeiros do sul não eram paulistas. Eram os índios missioneiros, que conduziam gado, cavalos e mulas entre as reduções, dominando a lida campeira e as longas travessias. Quando esses indígenas passam a conviver e a se misturar com colonos criollos, os espanhóis nascidos na América, surge no Prata a figura do primeiro gaúcho, um mestiço livre, cavaleiro e fronteiriço, muito anterior a qualquer influência biriva.
Por isso não faz sentido afirmar que os paulistas teriam formado a cultura serrana ou que trouxeram algo fundamental para a identidade gaúcha. Quando eles chegam, encontram uma sociedade pronta, caminhos estabelecidos e um sistema civilizacional que eles próprios destruíram. E muitas das cidades que ergueram foram construídas sobre os restos das reduções que haviam sido arrasadas.
A base profunda da região sul é guarani, missioneira, hispânica e platina. Não é paulista.