terça-feira, 6 de janeiro de 2026

O GAÚCHO RIVERO E A PRIMEIRA RESISTÊNCIA ARMADA À OCUPAÇÃO BRITÂNICA DAS MALVINAS (1833)


A história oficial tende a esquecer que a primeira resistência concreta à ocupação britânica das Ilhas Malvinas não partiu de chanceleres, diplomatas ou discursos em capitais europeias. Ela partiu de um gaúcho pobre, mestiço, peão de campo, formado na dureza do mundo platino. Seu nome era Antonio “El Gaucho” Rivero.

Rivero nasceu em 27 de novembro de 1808, em Concepción del Uruguay, então parte do espaço rioplatense. Era um homem comum de sua época: trabalhador rural, sem posses, sem instrução formal e sem lugar no mundo das elites. Como muitos outros gaúchos, foi levado às Malvinas por volta de 1827, ainda jovem, para trabalhar como peão nas estâncias organizadas pelo governador argentino das ilhas, Luis Vernet.

A realidade social nas Malvinas era brutal. Os peões não recebiam salário em dinheiro. Vernet lhes entregava vales como pagamento, mas o despensero da ilha, Dickson, recusava aceitá-los, exigindo moedas de prata que os trabalhadores não possuíam. Ao mesmo tempo, o capataz Simón proibia a faena do gado manso, obrigando os peões a perseguirem o gado cimarrón apenas para sobreviver.

Esses homens, gaúchos e indígenas, viviam sob exploração, fome e abandono. Não havia proteção estatal efetiva, nem justiça, nem condições mínimas de trabalho. Essa situação se agravou drasticamente após a ocupação militar britânica de 1833, imposta pela força, sem qualquer legitimidade jurídica ou consentimento dos habitantes locais.

Em 26 de agosto de 1833, apenas seis meses após a invasão britânica, Antonio Rivero liderou um levante contra a autoridade colonial imposta. Não se tratou de um ato isolado ou criminoso, como tentaram caracterizar os documentos ingleses, mas de uma rebelião política armada, conduzida por criollos e indígenas que se recusavam a reconhecer a soberania estrangeira.

Participaram da sublevação os gaúchos Juan Brassido e José María Luna, além de cinco charrúas agauchados: Manuel González, Luciano Flores, Felipe Zalazar, Marcos Latorre e Manuel Godoy. Juntos, enfrentaram o poder colonial em condições absolutamente desiguais.

Durante a rebelião, foram mortos o autoproclamado governador britânico e alguns de seus principais colaboradores. Os documentos que chegaram até nós foram todos redigidos por autoridades britânicas, que classificaram o episódio como o “amotinamiento de unos delincuentes”, descrevendo Rivero e seus companheiros de forma racista como “gauchos” e “indios salvajes”. Nessas narrativas, omite-se deliberadamente que aqueles homens eram argentinos e que lutavam pela soberania do território.

Rivero e seus companheiros arriaram a bandeira britânica e hastearam uma bandeira argentina improvisada. Durante aproximadamente seis meses, mantiveram controle efetivo sobre as Malvinas, sem qualquer apoio do governo de Buenos Aires e sem meios de comunicar oficialmente o que ocorria nas ilhas.

Em outubro de 1833, o navio Antartic chegou ao arquipélago. Seu comandante, o norte-americano Nash, chegou a se reunir com Rivero, que lhe entregou algumas reses. Diante da ausência total de reforços vindos do continente, os rebeldes passaram a planejar a fuga para a Patagônia em uma balsa improvisada.

Os planos foram interrompidos em janeiro de 1834, com a chegada dos navios britânicos Challenger e Hopeful, que trouxeram novas tropas e o tenente Smith, nomeado comandante das ilhas. A bandeira britânica foi novamente hasteada, e iniciou-se uma verdadeira caçada humana contra os gaúchos e charrúas.

Rivero e seus companheiros fugiram para os cerros, dispostos a lutar até o fim. A perseguição durou cerca de três meses. A fome, o frio e o cansaço enfraqueceram o grupo. Um dos peões, Luna, traiu os companheiros. Outro, Brasido, desertou. Com reforços vindos nos navios Beagle e Adventure, os britânicos conseguiram capturar os sobreviventes.
Rivero acabou preso, algemado e levado com outros cinco homens à Grã-Bretanha, onde foram encarcerados na prisão de Sherness. Após análise do caso, o próprio tribunal inglês reconheceu não haver provas suficientes para condená-los, e os prisioneiros foram devolvidos ao Rio da Prata, desembarcando em Montevidéu.

O destino final de Antonio Rivero permanece parcialmente envolto em incerteza. Há a hipótese, nunca plenamente comprovada, de que ele tenha morrido em 20 de novembro de 1845, lutando pela Confederação Argentina no combate da Vuelta de Obligado, enfrentando novamente potências estrangeiras que buscavam impor sua vontade pela força.

A história do Gaucho Rivero revela uma verdade incômoda: a primeira resistência às Malvinas foi popular, mestiça e marginal. Não nasceu nos salões diplomáticos, mas nos campos, entre homens pobres, armados apenas de coragem, consciência territorial e dignidade.

Rivero não foi um bandido.
Foi um gaúcho platino.
E foi o primeiro resistente armado contra o colonialismo britânico nas Malvinas.