sábado, 15 de novembro de 2025

A FARSA DO 15 DE NOVEMBRO - O GOLPE DE 1889: QUANDO O BRASIL COPIOU MAL A REPÚBLICA RIO-GRANDENSE


O debate sobre a Proclamação da República quase sempre é tratado de forma simplificada, como se o 15 de novembro fosse um ato grandioso que mudou os rumos do país por vontade popular. Mas basta olhar com um pouco mais de atenção para perceber que a história não combina com a imagem oficial. Enquanto o Brasil comemora um golpe articulado por poucos, o Rio Grande do Sul carrega na memória uma experiência republicana 53 anos antes da república brasileira, bem mais profunda e construída com participação real do povo. Comparar esses dois episódios expõe não só a artificialidade do movimento de 1889, mas também o quanto ele tentou, sem sucesso, imitar o que a República Rio-Grandense já havia representado meio século antes.

A data de 15 de novembro costuma ser celebrada como o marco do nascimento da República brasileira, mas para quem conhece a história do sul do continente essa narrativa soa artificial. O que ocorreu no Rio de Janeiro em 1889 esteve longe de ser um movimento popular ou um gesto autêntico de autodeterminação. Foi antes um arranjo de cúpula, decidido por militares e por parte da elite imperial insatisfeita, que derrubou a monarquia sem consulta pública, sem participação popular e sem qualquer projeto orgânico de nação. A chamada República da Espada começou como um golpe e continuou como um governo tutelado pelos mesmos grupos que controlavam o país desde antes.

Quando se compara esse episódio com o que foi a experiência republicana rio-grandense, a diferença salta aos olhos. Em 1836 não houve proclamação improvisada nem teatro político. A República Rio-Grandense nasceu de uma longa guerra, de uma mobilização real, de um povo que assumiu armas, terras e destino próprios. A ideia de república no sul não era um slogan, mas uma construção que se pagava com sangue, com organização social e com um sentimento de pertença que o movimento de 1889 jamais alcançou. Por isso tantos gaúchos sempre viram o 15 de novembro como uma paródia, uma cópia desbotada de algo que havia sido vivido de maneira muito mais profunda meio século antes.

Outro ponto que torna o episódio ainda mais frágil é o fato de que as motivações de Deodoro da Fonseca estavam longe de ser ideológicas. O marechal não era republicano convicto, não tinha projeto civilizatório e tampouco se aproximava de ideias modernas de governo. Seu impulso decisivo veio de um ressentimento pessoal contra o gaúcho Gaspar Silveira Martins, figura influente do Império. Deodoro acreditava que Silveira Martins havia conspirado contra ele e alimentava uma animosidade antiga. O golpe acabou sendo, em grande parte, consequência dessa rivalidade pessoal, o que mostra o quanto o nascimento da República brasileira se deu mais por paixões privadas do que por um espírito público.

A república brasileira oficializou-se no papel, mas preservou estruturas coloniais, manteve velhos poderes e substituiu a coroa por fardas. Já a república rio-grandense, mesmo derrotada militarmente, deixou uma memória política que não se apagou, porque expressava uma vontade coletiva e não o capricho de um quartel. É por isso que muitos no Rio Grande do Sul lembram o 11 de setembro como o verdadeiro símbolo republicano, e olham o 15 de novembro como um gesto oportunista que tentou vestir-se com a glória alheia.

No fim, o golpe de 1889 não trouxe independência nem renovação. Trouxe apenas um novo nome para um velho regime. A república que nasceu a cavalo nas coxilhas foi muito mais autêntica, mais orgânica e mais enraizada. O resto foi apenas Brasil tentando plagiar a história que não teve coragem de construir por si mesmo.