A imprensa gaúcha revela, dia após dia, que perdeu a coragem de olhar a realidade de frente. Não é mero erro editorial ou desatenção técnica. É mediocridade mesmo. Em 2022, a própria Zero Hora afirmava que a dívida do Rio Grande do Sul com a União estava quitada desde 2013. Bastaram poucos anos para o discurso mudar como se nada tivesse acontecido. Agora, a mesma imprensa garante que a dívida não apenas existe, mas que cresceu. Essa mudança não é inocente. É sinal de uma cultura jornalística que prefere repetir narrativas prontas vindas de Brasília do que investigar, contextualizar e defender o próprio estado que lhes dá nome e público.
Esse comportamento não é novo. A imprensa gaúcha nasceu durante a Guerra Farroupilha servindo ao Império contra o povo daqui. O velho hábito permanece. Quando o tema envolve o Rio Grande do Sul e a União, a imprensa local escolhe sempre o lado do poder central. O lado mais fácil, mais confortável e mais rentável. O lado que agrada anunciantes e autoridades. Nunca o lado da população que trabalha e produz.
Só que a verdade é mais simples do que querem admitir. O Rio Grande do Sul não é devedor. O Rio Grande do Sul é credor. Credor de uma federação que funciona como máquina extrativista sobre seus próprios estados.
Em 2024, a conta é cristalina. O Rio Grande do Sul enviou 57,4 bilhões de reais em tributos para Brasília e recebeu de volta apenas 13,3 bilhões. A diferença de 44,1 bilhões saiu da agricultura, da indústria, dos portos, do comércio, do suor de quem trabalha. Esse valor não volta em infraestrutura, não volta em saúde, não volta em educação, não volta em crédito produtivo. Evapora dentro da máquina federal. Some dentro da lógica liberal que adora pregar eficiência enquanto pratica a centralização mais voraz da história brasileira.
O liberalismo brasileiro é isso: centraliza riqueza e descentraliza responsabilidade. Fala de meritocracia, mas cria barreiras para o desenvolvimento regional. Vende a ideia de que cada estado deve caminhar com as próprias pernas, mas amarra o Rio Grande do Sul de tal forma que sua força produtiva serve apenas para sustentar um centro consumista e burocratizado.
O agricultor prova isso todos os dias. A dívida agrícola gaúcha já passa de 72,82 bilhões. Não é porque o produtor é irresponsável ou ineficiente. É porque enfrenta seca, enfrenta oscilação cambial, enfrenta juros abusivos, enfrenta crédito negado, enfrenta políticas financeiras criadas para agradar bancos, nunca agricultores. O sistema financeiro prefere a especulação a investir no que realmente gera riqueza. O produtor rural luta pela sobrevivência enquanto tecnocratas de Brasília discutem números que não sentem na pele.
O confisco não para aí. A Lei Kandir é o exemplo mais escandaloso de como a União retira do Rio Grande do Sul bilhões em nome de um suposto estímulo ao comércio exterior. Estímulo para quem? Em 2015, o governo estadual calculou 34,6 bilhões de reais em perdas líquidas acumuladas com a lei. Nada disso foi compensado. Nada voltou. Tudo ficou no vazio fiscal que impede o estado de investir no próprio crescimento.
Mesmo assim, falam que o RS é devedor. Falam que deve se ajoelhar no regime de recuperação fiscal. Falam que precisa aceitar cortes, congelamentos, privatizações e submissão. Uma lógica liberal e burocrática que não resolve nada, apenas prolonga a espoliação e transforma o estado em devedor perpétuo. É a ideia de que o trabalhador deve pagar sempre, enquanto o sistema que o explora nunca é responsabilizado.
O Rio Grande do Sul, ao contrário do discurso oficial, é credor moral, econômico e histórico. O estado trabalhou para construir o país, produziu riqueza, alimentou a indústria nacional e sustentou boa parte do PIB brasileiro por décadas. Recebeu pouco em troca. Recebeu menos ainda em respeito.
Hoje o pacto federativo virou uma ficção. A federação se tornou uma estrutura desigual onde alguns produzem e outros consomem. Onde alguns trabalham e outros arrecadam. Onde o labor do Sul financia o luxo da União. Não há cooperação. Há subordinação. Não há parceria. Há drenagem. Não há igualdade. Há exploração.
O discurso liberal fala de livre mercado, mas no Brasil o único livre mercado que existe é o do parasitismo financeiro. Livre para bancos. Livre para especuladores. Livre para quem vive de juros. Nunca livre para quem vive de trabalho.
O Rio Grande do Sul sempre defendeu valores ligados ao trabalho, à dignidade, à autonomia regional e à soberania popular. É justamente por isso que se tornou alvo de um modelo econômico que despreza esses valores e busca transformar estados produtivos em meros provedores de tributos.
O Brasil deve ao Rio Grande do Sul. Deve dinheiro, respeito, autonomia e justiça histórica. E enquanto essa dívida não for reconhecida, não existe união verdadeira. Existe apenas servidão disfarçada de federação.
O estado não deve. O estado cobra. E com razão.
Pesquisa: TcheVoni Santos
Texto: Guilherme Fernandes