quarta-feira, 12 de novembro de 2025

DIA DA BANDEIRA NACIONAL RIO-GRANDENSE: SÍMBOLO DE UMA REPÚBLICA ESQUECIDA


No dia 12 de novembro de 1836, o governo republicano instalado na cidade de Piratini, então primeira capital da República Rio-Grandense, oficializou por decreto a criação do escudo de armas do novo Estado. O documento, assinado por José Gomes de Vasconcelos Jardim, vice-presidente da República Rio-Grandense, e redigido por Domingos José de Almeida, ministro e secretário de Estado dos Negócios do Interior, marcou a consolidação visual de um projeto político que buscava afirmar a soberania e a identidade dos farroupilhas frente ao Império do Brasil.

O texto do decreto expressa com clareza o sentimento de legitimidade nacional que animava os líderes da Revolução Farroupilha. Afirma o documento: “Ocupando já na grande família das nações o lugar que lhe compete o Estado Rio-Grandense, e convindo que ele tenha um escudo d’armas, o Presidente da República decreta...” A linguagem solene e diplomática demonstra que o movimento não se via como mera rebelião provincial, mas como uma nação emancipada, digna de figurar entre os Estados independentes do mundo.

O desenho determinado pelo decreto é simbólico em muitos sentidos. O campo verde, disposto na parte superior junto à haste, representava a esperança e a fertilidade do solo gaúcho. O centro escarlate, em forma de hexágono, remetia ao sangue derramado pelos revolucionários em nome da liberdade e da autonomia. A parte inferior, dourada, simbolizava a riqueza e a abundância do território sulino. Essa combinação, conforme o texto oficial, constituiria “de ora em diante” o escudo de armas do novo país — o mesmo conjunto de cores que, adaptado, seria consagrado como bandeira do Rio Grande do Sul após a reincorporação da província ao Império, em 1845.

A adoção desses símbolos está inserida em um contexto mais amplo da Revolução Farroupilha (1835–1845), o mais longo conflito civil da história do Brasil. O historiador Mário Maestri destaca que “a criação da bandeira e do hino republicano consolidou o ideal de uma identidade política rio-grandense distinta da imperial” (Maestri, A Revolução Farroupilha, 2013). De forma semelhante, Sandra Pesavento observa que “a República Rio-Grandense buscava afirmar-se não apenas por meio das armas, mas pela construção de uma simbologia própria, capaz de unir civis e militares em torno de um ideal comum” (História do Rio Grande do Sul, 1994).

Ao completar 189 anos, a bandeira rio-grandense permanece como testemunho de uma experiência política singular no território brasileiro. Mais do que um estandarte regional, ela simboliza um momento em que a ideia de república, autonomia e soberania popular encontrou expressão concreta no extremo sul do país. A inscrição desse decreto em 12 de novembro de 1836 não apenas fundou um símbolo, mas eternizou uma narrativa de resistência e idealismo que ainda hoje inspira debates sobre o significado da liberdade e da identidade regional.

Em última instância, celebrar esta data é reconhecer a memória de uma tentativa de nação que ousou sonhar com independência em meio à centralização imperial. A bandeira criada em Piratini continua tremulando, não apenas nos mastros das praças gaúchas, mas na consciência histórica de um povo que, há quase dois séculos, declarou seu direito de existir com as próprias cores.