sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Ucrânia, o Inverno e o Fim das Ilusões Liberais


A desaceleração pontual dos avanços russos no final de 2025 e início de 2026 tem sido explorada pela narrativa liberal-ocidental como prova de um suposto esgotamento estratégico de Moscou. Trata-se, porém, de mais um exercício de propaganda travestido de análise técnica. A leitura correta dos fatos exige ir além da contabilidade superficial de quilômetros e compreender o conflito como ele realmente é: uma guerra civilizacional contra a ordem liberal decadente imposta pelo Ocidente.

O próprio reconhecimento de que as forças russas ampliaram seu controle territorial de forma contínua ao longo de dezembro e janeiro desmonta a tese de “fracasso”. O que ocorreu foi o encerramento de um ciclo operacional acelerado, condicionado por fatores climáticos específicos e por metas administrativas de fim de ano. Em termos militares, trata-se de adaptação estratégica, não de derrota. Exércitos sérios não operam segundo a lógica midiática do “avanço constante”, mas conforme as condições reais do teatro de guerra.

A Rússia demonstrou, mais uma vez, capacidade de explorar janelas táticas como o impacto do clima sobre a guerra de drones ucraniana — enquanto o regime de Kiev segue cada vez mais dependente de tecnologias fornecidas por seus tutores da OTAN. Quando essas muletas falham, como no outono e início do inverno, a fragilidade estrutural do projeto ucraniano fica exposta.

A narrativa liberal ignora deliberadamente o ponto central: Moscou não trava uma guerra meramente territorial, mas uma guerra histórica. As declarações do chanceler Sergei Lavrov deixam claro que a questão vai além de linhas em mapas artificiais desenhados após o colapso soviético. O futuro da Crimeia, do Donbass e da Novorossiya é, acima de tudo, o destino de povos russos que foram separados de sua matriz civilizacional por decisões políticas ilegítimas e projetos geopolíticos externos.

A insistência ocidental em tratar Novorossiya como uma “invenção” revela o desprezo liberal pela história concreta e pela identidade dos povos. Odessa, Kharkiv, Mykolaiv e Dnipropetrovsk não são abstrações jurídicas; são territórios moldados cultural, linguisticamente e economicamente pela Rússia ao longo de séculos. Negar isso é repetir a arrogância colonial típica do liberalismo globalista, que reconhece identidades apenas quando elas servem aos seus interesses.

O chamado “plano de paz” de 28 pontos proposto pelos Estados Unidos não passa de uma tentativa de congelar o conflito em termos favoráveis ao Ocidente, mantendo a Ucrânia como um protetorado militarizado e permanentemente hostil à Rússia. Exigir que Moscou ceda territórios historicamente russos enquanto legitima a ocupação cultural e política liberal é uma exigência que nenhum Estado soberano aceitaria.

As declarações de Lavrov, longe de serem uma escalada, são um ato de realismo político. Elas sinalizam que não haverá acordo possível enquanto o Ocidente insistir em impor soluções artificiais, ignorando a realidade no terreno e a vontade dos povos envolvidos. A Rússia não negocia sob chantagem moral nem sob esquemas desenhados em Washington.

Em última instância, a guerra na Ucrânia expõe o esgotamento do modelo liberal internacional. Um sistema que depende de sanções, propaganda e guerras por procuração para se manter já está condenado. A Rússia, ao sustentar suas posições mesmo diante da pressão global, reafirma um princípio esquecido: soberania não se negocia, identidade não se apaga e a história não se corrige por decreto.

O inverno passa. As narrativas liberais também. O que permanece é a força das civilizações que sabem quem são e pelo que lutam.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

A Família como Última Linha de Resistência contra o Liberalismo Cultural

Este texto parte do princípio de que nada do que vivemos no campo social e cultural ocorreu por acaso. A crise da família não é um acidente histórico, mas o resultado de um projeto deliberado que visa desarticular os vínculos mais profundos que sustentam os povos. Ao identificar os verdadeiros agentes e a lógica por trás desse processo, busca-se expor por que a família tradicional permanece como o principal obstáculo ao liberalismo cultural e, justamente por isso, tornou-se seu alvo prioritário.

A dissolução da família tradicional não foi um erro de percurso nem um fenômeno espontâneo da modernidade. Foi um projeto político, econômico e cultural, conduzido com método, financiamento e narrativa.

Os responsáveis têm nome. Aquilo que a direita simplória insiste em chamar de “marxismo cultural” é, na realidade, liberalismo cultural. Foi por meio do liberalismo cultural, também chamado de progressismo social, que se iniciou a engenharia social voltada à dissolução das famílias e à subversão da consciência coletiva dos povos. Esse processo foi e continua sendo promovido por ONGs internacionais, fundos multilaterais, grandes conglomerados midiáticos e universidades ideologizadas, todos operando sob a mesma lógica: substituir vínculos orgânicos, duradouros e naturais por relações frágeis, temporárias e facilmente administráveis.

A família tradicional, baseada em compromisso, responsabilidade intergeracional, hierarquia funcional e dever mútuo, sempre foi um obstáculo a esse projeto. Um núcleo assim forma pessoas com identidade, senso de pertencimento e capacidade de resistência moral. Pessoas estruturadas dessa forma não se submetem facilmente a modas ideológicas, não dependem de narrativas artificiais e não se tornam escravas nem do mercado nem do Estado.

Por isso foi necessário atacá-la.

O liberalismo moderno, ao reduzir o ser humano a um indivíduo isolado, consumidor e supostamente “autônomo”, passou a tratar a família como um entrave à liberdade absoluta. Em seu lugar, promoveu-se a chamada família nuclear liberal alternativa, um modelo instável, contratual, descartável, moldado ao prazer imediato e perfeitamente alinhado à lógica do mercado.

Esse modelo não fortalece pessoas, ele as fragiliza. Indivíduos sem raízes emocionais sólidas tornam-se mais ansiosos, mais inseguros, mais dependentes e mais manipuláveis. Passam a necessitar de tutores externos, quase sempre ligados ao Estado, sob a forma de agentes “especialistas”, psicologização permanente da vida cotidiana, subsídios, aplicativos, diagnósticos e validação institucional constante.

A mídia cumpre seu papel ao normalizar a degeneração do espírito e apresentar a desestruturação como virtude. O sistema educacional reforça esse processo ao desconstruir referências morais e substituir a tradição por narrativas relativistas e artificiais. As grandes corporações, por sua vez, lucram enormemente com consumidores solitários, emocionalmente carentes e permanentemente insatisfeitos.

Nada disso é coincidência.

Uma sociedade sem famílias fortes é uma sociedade mais fácil de governar, tributar e controlar. Quando a figura paterna é enfraquecida, quando a maternidade é tratada como fardo, quando o compromisso é ridicularizado e a autoridade moral é demonizada, o vazio deixado é ocupado por burocratas, tecnocratas e “especialistas”. Eles assumem o papel que antes cabia aos pais, moldando gerações inteiras e formando o imaginário coletivo conforme as necessidades do sistema liberal, tratando indivíduos como gado funcional da engrenagem.

Famílias unidas formam homens e mulheres fortes. Homens e mulheres fortes formam comunidades coesas. Comunidades coesas não dependem de tutores ideológicos para pensar, decidir ou sobreviver.

Por isso a família sempre foi o primeiro alvo. E por isso defendê-la hoje não é conservadorismo no sentido raso do termo, mas a mais pura forma de resistência política, cultural e civilizacional.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

211º ANIVERSÁRIO DA PRIMEIRA BANDEIRA ARTIGUISTA


O dia 13 de janeiro de 1815 constitui uma data fundamental na história política e simbólica do Rio da Prata. Nesse dia foi hasteada e jurada, pela primeira vez, a bandeira desenhada por José Gervasio Artigas no Quartel-General de Arerunguá. Não se tratou de um gesto cerimonial isolado, mas de um ato profundamente político, nascido como resposta direta ao centralismo e ao projeto unitário do governo de Buenos Aires, que se recusava a reconhecer o federalismo defendido pelos povos livres.


A criação dessa bandeira foi explicada de forma explícita pelo próprio Artigas em seu ofício de 4 de fevereiro de 1815 ao Governador Intendente de Corrientes, Tenente-Coronel José de Silva. Nele, deixou claro que a bandeira deveria ser um símbolo comum de identidade e de luta para todos aqueles povos libertos da opressão centralista. A bandeira artiguista, com seu desenho de branco ao centro, azul nas extremidades e faixas vermelhas intermediárias, expressava uma unidade de sentimentos, uma decisão clara pela república e o reconhecimento do sangue derramado em nome da liberdade e da independência.

Do ponto de vista cronológico, esta foi a primeira bandeira desenhada por Artigas da qual se tem registro. Em torno dela se reuniram os patriotas que lutavam não apenas por uma separação política, mas por um projeto alternativo de organização social e territorial. A bandeira sintetizava o ideário artiguista: república, federalismo, soberania dos povos e rejeição a toda forma de dominação centralista.

A importância daquele ato ultrapassou amplamente o âmbito do acampamento de Arerunguá. A jura da bandeira se replicou nas províncias integrantes da Liga dos Povos Livres, abrindo um caminho profundo e duradouro na história regional. Na Província Oriental, em particular, esse processo tornou-se um antecedente inseparável do nascimento da futura República, tanto no plano político quanto no simbólico.

Embora não se tenha alcançado uma uniformidade absoluta no desenho das bandeiras provinciais, conforme propunha Artigas, cada província adotou sua própria insígnia, reflexo de sua identidade política específica. Essas diferenças não implicaram ruptura com o ideário comum. Pelo contrário, todas as bandeiras da Liga ratificaram os princípios do Chefe dos Orientais e permaneceram fiéis, em linhas gerais, às cores por ele definidas.

O uso do azul, branco e vermelho não foi fruto do acaso nem de uma escolha estética arbitrária. Essas cores possuíam profundos antecedentes na região e foram ressignificadas por Artigas como símbolos da grandeza coletiva, da decisão republicana e do sacrifício na luta pela liberdade e pela independência. Nelas se condensava uma visão política clara e uma ética revolucionária que colocava os povos acima das elites e dos poderes concentrados.

Passados 211 anos daquele 13 de janeiro de 1815, a primeira bandeira artiguista permanece como um símbolo vivo de liberdade, dignidade e orgulho artiguista. Ela não representa apenas um passado heroico, mas um projeto político inacabado que ainda interpela os povos do Rio da Prata e reafirma a atualidade do legado de José Gervasio Artigas. 

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

O Fim do Direito Internacional e o Retorno da Guerra Mundial - Aleksandr Dugin



Tenho certeza de que agora — ao observar o que está acontecendo na política global — todos finalmente compreenderam que o direito internacional já não existe. Ele acabou.

O direito internacional é um acordo entre grandes potências capazes de defender, na prática, a sua soberania. São elas que determinam as regras para si mesmas e para todos os demais: o que é permitido e o que é proibido. E são elas que as cumprem. Esse tipo de direito funciona por fases (ritmos) — enquanto o equilíbrio entre as grandes potências é mantido.

O sistema westfaliano, que reconhece a soberania dos Estados nacionais, tomou forma devido a um impasse no equilíbrio de poder entre católicos e protestantes (aos quais se juntou a França anti-imperial). Se os católicos tivessem vencido, a Sé Romana e o Império Austríaco teriam estabelecido uma arquitetura europeia completamente diferente. Mais precisamente, teriam preservado a anterior, de caráter medieval.

Em certo sentido, foram os protestantes do norte da Europa que se beneficiaram da Paz de Westfália, em 1648, pois desde o início se orientaram para as monarquias nacionais contra o Papa e o Imperador. Sem alcançar uma vitória total, ainda assim asseguraram o seu objetivo.

Formalmente, o sistema westfaliano sobrevive até hoje, pois construímos o direito internacional com base no princípio dos Estados nacionais — exatamente aquilo em que os protestantes insistiram durante a Guerra dos Trinta Anos. Mas, em essência, no século XVII isso dizia respeito apenas aos Estados europeus e às suas colônias e, mais tarde, nem todo Estado nacional possuía soberania real. Todas as nações são iguais, mas as nações europeias (as Grandes Potências) são “mais iguais” do que as outras.

Havia um certo elemento de hipocrisia no reconhecimento da soberania nacional dos países fracos, mas isso era plenamente compensado pela teoria do Realismo. Ela só se cristalizou plenamente no século XX, mas refletia uma imagem das relações internacionais que já se formara muito antes. Aqui, a desigualdade entre os países é equilibrada pela possibilidade de criação de coalizões e por uma ordem de alianças “em forma de xadrez”: Estados fracos firmam acordos com Estados mais fortes para resistir à possível agressão de outras grandes potências. Foi assim que ocorreu — e continua ocorrendo — na prática.

A Liga das Nações tentou conferir ao direito internacional, baseado no sistema westfaliano, um caráter mais sólido, buscando limitar parcialmente a soberania e estabelecer princípios universais — baseados no liberalismo ocidental, no pacifismo e na primeira versão do globalismo — que todos os países, grandes e pequenos, deveriam seguir. Em essência, a Liga das Nações foi concebida como uma primeira aproximação de um Governo Mundial. Foi então que a escola do Liberalismo nas Relações Internacionais tomou forma definitiva, iniciando sua longa disputa com os Realistas. Os liberais acreditavam que o direito internacional, mais cedo ou mais tarde, substituiria o princípio da soberania plena dos Estados nacionais e levaria à criação de um sistema internacional único. Os realistas continuaram a insistir na sua posição, defendendo o princípio da soberania absoluta — herança direta da Paz de Westfália.

No entanto, já na década de 1930, tornou-se claro que nem o liberalismo da Liga das Nações, nem o próprio sistema westfaliano, correspondiam ao equilíbrio de forças na Europa e no mundo. A ascensão do nazismo ao poder na Alemanha em 1933, a invasão da Etiópia pela Itália fascista em 1937 e a guerra da URSS contra a Finlândia em 1939 destruíram esse sistema, inclusive formalmente. Embora tenha sido oficialmente dissolvida apenas em 1946, a primeira tentativa de estabelecer o direito internacional como um sistema abrangente e obrigatório já havia fracassado nos anos 1930.

Na prática, os anos 1930 viram o surgimento de três polos de soberania — desta vez, em bases puramente ideológicas. O que importava já não era a soberania formal, mas o potencial real de cada bloco ideológico. A Segunda Guerra Mundial foi precisamente um teste da viabilidade desses três campos.

Um dos campos reunia os países burgueses-capitalistas — principalmente Inglaterra, França e Estados Unidos. Era o campo liberal, que, contudo, foi involuntariamente privado de sua dimensão internacionalista. Os liberais foram obrigados a defender sua ideologia diante de dois poderosos adversários: o fascismo e o comunismo. Mas, no conjunto — se excluirmos o “elo fraco”, a França, que capitulou rapidamente após o início da guerra — o bloco burguês-capitalista demonstrou um nível suficiente de soberania: a Inglaterra não caiu sob os ataques da Alemanha hitlerista, e os EUA combateram (relativamente) de forma eficaz o Japão no Pacífico.

O segundo campo foi o fascismo europeu, que se fortaleceu especialmente durante a conquista hitlerista da Europa Ocidental. Quase todos os países europeus se uniram sob a bandeira do nacional-socialismo. Nessa situação, não se podia falar em soberania — nem mesmo no caso de regimes amistosos a Hitler (como a Itália fascista ou a Espanha de Franco). No máximo, alguns países (Portugal de Salazar, Suíça etc.) conseguiram assegurar uma neutralidade condicional. Apenas a Alemanha era soberana — ou, mais precisamente, o hitlerismo enquanto ideologia.

O terceiro campo era representado pela URSS e, embora fosse apenas um Estado, baseava-se especificamente numa ideologia: o marxismo-leninismo. Mais uma vez, não se tratava tanto de uma nação, mas de uma entidade ideológica.

Nos anos 1930, o direito internacional — cuja última versão eram os acordos de Versalhes e as normas da Liga das Nações — entrou em colapso. A partir daí, ideologia e força decidiram tudo. Além disso, cada ideologia possuía sua própria visão da futura ordem mundial, o que significava que operavam com suas próprias versões de direito internacional.

A URSS acreditava na Revolução Mundial e na abolição dos Estados (como fenômeno burguês), o que representava uma versão marxista da globalização e do internacionalismo proletário. Hitler proclamava um “Reich de Mil Anos” com a dominação planetária da própria Alemanha e da “raça ariana”. Nenhuma soberania era prevista para quem quer que fosse, exceto para o nacional-socialismo mundial. E apenas o Ocidente burguês-capitalista — essencialmente anglo-saxão — manteve continuidade com o sistema westfaliano, calculando uma futura transição para o internacionalismo liberal e, novamente, para um Governo Mundial. De fato, a Liga das Nações, que formalmente persistia apesar de não funcionar, era então um vestígio do antigo globalismo e um protótipo do futuro.

Em todo caso, o direito internacional foi “suspenso” — essencialmente abolido. Iniciou-se uma era de transição em que tudo era decidido exclusivamente pela combinação de ideologia e força, a ser comprovada no campo de batalha. Assim, chegamos à Segunda Guerra Mundial como culminação desse confronto entre ideologias armadas. O direito internacional já não existia.

O resultado concreto do confronto ideológico e de poder entre liberalismo, fascismo e comunismo foi a eliminação de um dos polos — o nacional-socialismo europeu. O Ocidente burguês e o Oriente socialista antiburguês criaram a coalizão anti-Hitler e, conjuntamente (com um papel decisivo da URSS), destruíram o fascismo na Europa.

Em 1945, foi criada a Organização das Nações Unidas como base de um novo sistema de direito internacional. Em certa medida, tratava-se de uma reedição da Liga das Nações, mas o aumento drástico da influência da URSS — que estabeleceu controle ideológico e político total sobre a Europa Oriental (e a Prússia Ocidental, a RDA) — introduziu um forte componente ideológico no sistema de soberanias nacionais. O verdadeiro portador da soberania era o campo socialista, cujos Estados estavam unidos pelo Pacto de Varsóvia e, economicamente, pelo COMECON. Nesse campo, ninguém era soberano exceto Moscou e, consequentemente, o PCUS.

No polo burguês-capitalista, ocorreram processos essencialmente simétricos. Os EUA tornaram-se o núcleo do Ocidente liberal soberano. No mundo anglo-saxão, centro e periferia trocaram de lugar — a liderança passou da Grã-Bretanha para Washington. Os países da Europa Ocidental e, de modo mais amplo, do campo capitalista, passaram à condição de vassalos da América. Isso foi consolidado com a criação da OTAN e a transformação do dólar na moeda de reserva mundial.

Assim, a ONU também ancorou um sistema de direito internacional — formalmente baseado no reconhecimento da soberania, mas, na prática, no equilíbrio de forças entre os vencedores da Segunda Guerra Mundial. Apenas Washington e Moscou eram verdadeiramente soberanos. Consequentemente, o modelo do pós-guerra manteve uma ligação com a ideologia, tendo abolido o nacional-socialismo, mas fortalecido significativamente o campo socialista.

Esse é o mundo bipolar, que projetou sua influência sobre todas as demais regiões do planeta. Qualquer Estado — inclusive as colônias recém-libertadas do Sul Global — enfrentava uma escolha: qual dos dois modelos ideológicos adotar. Se escolhesse o capitalismo, transferia sua soberania para Washington e a OTAN; se o socialismo, para Moscou. O Movimento dos Não Alinhados tentou estabelecer um terceiro polo, mas carecia tanto de recursos ideológicos quanto de poder.

A era do pós-guerra estabeleceu um sistema de direito internacional baseado na correlação real de forças entre dois campos ideológicos. Formalmente, a soberania nacional era reconhecida; na prática, não. O princípio westfaliano era mantido apenas nominalmente. Na realidade, tudo era decidido pelo equilíbrio de poder entre URSS e EUA e seus satélites.

Em 1989, com o colapso da URSS — provocado pelas reformas destrutivas de Gorbatchov — o bloco oriental começou a se desintegrar e, em 1991, a própria URSS deixou de existir. Os antigos países socialistas adotaram a ideologia de seus adversários da Guerra Fria. Começou o mundo unipolar.

Isso significou uma mudança qualitativa no direito internacional. Restou apenas uma autoridade soberana, que se tornou global — os EUA ou o Ocidente coletivo. Uma ideologia, uma força: capitalismo, liberalismo, OTAN. O princípio da soberania dos Estados nacionais e a própria ONU tornaram-se relíquias do passado, assim como antes ocorrera com a Liga das Nações.

O direito internacional passou a ser estabelecido por apenas um polo — os vencedores da Guerra Fria. Os derrotados (o antigo campo socialista e, sobretudo, a URSS) aceitaram a ideologia dos vencedores, reconhecendo, na prática, uma dependência vassálica em relação ao Ocidente coletivo.

Nessa situação, o Ocidente liberal viu uma oportunidade histórica de fundir a ordem liberal internacional com o princípio da hegemonia de poder. Para isso, era necessário ajustar o direito internacional à realidade. Assim, a partir dos anos 1990, iniciou-se uma nova onda de globalização. Ela significava a subordinação direta dos Estados nacionais a instâncias supranacionais (novamente, um Governo Mundial) e o estabelecimento de um controle direto sobre eles por Washington, que se tornara a capital do mundo. A União Europeia foi criada nesse espírito, como modelo de um sistema supranacional desse tipo para toda a humanidade. Os migrantes passaram a ser trazidos em massa precisamente com esse objetivo — mostrar como deveria ser a humanidade internacional universal do futuro.

Nessa situação, a ONU perdeu seu sentido:

Primeiro, porque foi construída sobre o princípio da soberania nacional (que já não correspondia a absolutamente nada).

Segundo, porque as posições especiais da URSS e da China no Conselho de Segurança representavam um resquício da era bipolar.

Por isso, em Washington começou-se a falar da criação de um novo sistema de relações internacionais, abertamente unipolar, chamado de “Liga das Democracias” ou “Fórum da Democracia”.

Ao mesmo tempo, dentro dos próprios EUA, o globalismo se dividiu em duas correntes:

— o liberalismo ideológico, o internacionalismo puro (Soros com sua “sociedade aberta”, USAID, wokismo etc.);

— a hegemonia americana direta, apoiada na OTAN, defendida pelos neoconservadores.

Essas correntes convergiam em essência, mas a primeira insistia que a prioridade principal era a globalização e o aprofundamento da democracia liberal em todos os países do planeta, enquanto a segunda defendia que os EUA controlassem diretamente todo o território da Terra nos planos militar, político e econômico.

Entretanto, a transição de um modelo bipolar de direito internacional para um modelo unipolar nunca se completou plenamente, mesmo com o desaparecimento de um dos polos ideológico-militares. Isso foi impedido pela ascensão simultânea da China e da Rússia sob Putin, quando começaram a se manifestar claramente os contornos de uma arquitetura mundial completamente diferente — a multipolaridade. No lado oposto aos globalistas (tanto os liberais internacionalistas de esquerda quanto os neocons de direita), surgiu uma nova força. Ainda que não esteja claramente definida ideologicamente, ela rejeita o padrão ideológico do Ocidente liberal-globalista. Essa força, inicialmente vaga, começou a defender a ONU e a impedir a formalização final da unipolaridade — isto é, a transformação do status quo ideológico e de poder (a dominação real do Ocidente coletivo) em um sistema jurídico correspondente.

Assim, encontramo-nos numa situação semelhante ao caos. Acontece que, atualmente, cinco sistemas operacionais de relações internacionais funcionam simultaneamente no mundo, tão incompatíveis entre si quanto softwares de fabricantes diferentes:

— Por inércia, a ONU e as normas do direito internacional reconhecem a soberania dos Estados nacionais, que na realidade perdeu sua força há quase cem anos e existe como uma “dor fantasma”. Ainda assim, a soberania continua a ser reconhecida e, às vezes, torna-se um argumento na política internacional.

— Também por inércia, algumas instituições conservam traços do mundo bipolar já encerrado. Isso não corresponde a nada, mas ainda se faz sentir ocasionalmente — por exemplo, na questão da paridade nuclear entre Rússia e EUA.

— O Ocidente coletivo continua a insistir na globalização e no movimento em direção a um Governo Mundial, convidando todos os Estados nacionais a ceder sua soberania a instâncias supranacionais, como o Tribunal Europeu de Direitos Humanos ou o Tribunal de Haia. A UE insiste em ser um modelo para o mundo inteiro no apagamento de todas as identidades coletivas e no abandono da estatalidade nacional.

— Os EUA — especialmente sob Trump — sob influência dos neocons, comportam-se como hegemon único, considerando “direito” tudo aquilo que atende aos interesses da América. Essa abordagem messiânica se opõe parcialmente ao globalismo, ignora a Europa e o internacionalismo, mas insiste com igual vigor na des-soberanização de todos os Estados — pelo direito da força.

— E, por fim, os contornos de um mundo multipolar tornam-se cada vez mais claros, onde o portador da soberania é o Estado-civilização — como a China moderna, a Rússia ou a Índia. Isso exige ainda outro sistema de direito internacional. O protótipo desse modelo poderia ser o BRICS ou outras plataformas de integração regional — sem a participação do Ocidente, pois o Ocidente traz consigo seus próprios modelos, mais articulados e rígidos.

Todos esses cinco sistemas operam simultaneamente e, naturalmente, interferem uns nos outros, produzindo falhas contínuas, conflitos e contradições. Ocorre um curto-circuito lógico da rede, criando a impressão de caos ou simplesmente da ausência de qualquer direito internacional. Se existem cinco direitos internacionais simultâneos que se excluem mutuamente, então, na essência, não existe nenhum.

A conclusão dessa análise é bastante alarmante. Contradições desse tipo em nível global, conflitos tão profundos de interpretações, quase nunca — na verdade, nunca — foram resolvidos pacificamente na história. Aqueles que se recusam a lutar por sua própria ordem mundial são imediatamente derrotados e passam a lutar pela ordem de outro, já na condição de vassalos.

Consequentemente, uma Terceira Guerra Mundial é mais do que provável. E em 2026 ela é mais provável do que em 2025 ou antes. Isso não significa que estejamos condenados a ela; significa apenas que estamos numa situação extremamente difícil. Por definição, uma guerra mundial envolve todos ou quase todos — por isso se chama guerra mundial. Mas, ainda assim, em toda guerra mundial há sujeitos principais. Hoje, eles são:

— o Ocidente coletivo, em ambas as suas encarnações (liberal-globalista e hegemonista);

— os polos ascendentes do mundo multipolar (Rússia, China, Índia).

Todos os demais são, por ora, meros instrumentos.

Ao mesmo tempo, o Ocidente possui uma ideologia, enquanto o mundo multipolar não a tem. A própria multipolaridade já se manifestou de modo geral, mas, ideologicamente, ainda não foi formalizada — quase nada.

Se o direito internacional não existe e é impossível, por definição, defender o mundo de Yalta, a velha ONU e a inércia da bipolaridade, então devemos apresentar nosso próprio novo sistema de direito internacional. A China faz certas tentativas nessa direção (“Comunidade de Destino Comum”), nós em menor grau (com exceções como a Teoria do Mundo Multipolar e a Quarta Teoria Política). Mas isso é claramente insuficiente. Talvez este ano tenhamos de participar de uma “luta de todos contra todos” em escala planetária, durante a qual serão determinados o futuro, a correspondente ordem mundial e o sistema de direito internacional. Neste momento, não existe nenhum.

Mas deve existir um direito internacional que nos permita ser aquilo que devemos ser — um Estado-Civilização, um Mundo Russo. É isso que precisa ser conceituado o mais rapidamente possível.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

A PROVÍNCIA ORIENTAL, ARTIGAS E A UNIDADE DOS POVOS DO PRATA


Do sul da Banda Oriental ao norte rio-grandense

A Província Oriental não foi um acidente geográfico nem uma criação artificial de tratados posteriores. Ela constituiu um espaço histórico contínuo, socialmente integrado e politicamente consciente, que se estendia do estuário do Rio da Prata, no atual Uruguai, até os campos e coxilhas do norte, no hoje chamado Rio Grande do Sul. Essa unidade não se fundava em limites cartográficos, mas na geografia, no modo de vida pastoril, na cultura gaúcha e, sobretudo, numa concepção comum de soberania popular e autonomia.

No sul, a Banda Oriental formava o núcleo desse território. Montevidéu, porto estratégico, articulava o litoral com o interior, mas a verdadeira força da província estava nas campanhas: estâncias, gado livre, milícias populares e uma população rural profundamente armada e politizada. Foi ali que emergiu José Gervasio Artigas, não como produto das elites urbanas ou dos cabildos formais, mas como expressão direta da revolução feita povo.

Como bem observa José María Rosa, enquanto os festejos oficiais da Revolução de Maio exaltavam atos protocolares em Buenos Aires, a verdadeira revolução chegou com a insurreição rural de 1811, conduzida por Artigas e sustentada pelas massas camponesas. Antes mesmo dos grandes combates, Artigas lança a Proclama de Mercedes, em 11 de abril de 1811, convocando diretamente o povo:

“Ciudadanos, levántense y defiendan la libertad de la provincia… La opresión extranjera no debe continuar.”

A independência, portanto, não nasceu dos salões porteños, mas do campo, do povo armado e consciente.

Avançando pelo interior da Província Oriental, atravessando o rio Uruguai e alcançando o norte, não havia ruptura entre orientais e rio-grandenses. O atual Rio Grande do Sul era a continuação natural da mesma província histórica. Famílias, tropas, rebanhos e ideias circulavam livremente. O gaúcho era o mesmo tipo humano dos dois lados do que mais tarde seriam fronteiras nacionais. As Missões, as campanhas e as estâncias formavam um mesmo corpo estratégico disputado por impérios e, posteriormente, por Estados centrais.

Essa unidade social explica por que as lutas artiguistas ecoaram profundamente no território rio-grandense e por que, décadas depois, o mesmo espírito autonomista se expressaria na Revolução Farroupilha. A Província Oriental era, na prática, um espaço político único, ligado por cultura, economia e projeto histórico.

Artigas, caudilho e soberania popular

Artigas não foi apenas um chefe militar: foi um caudilho enraizado na soberania popular. Sua autoridade não derivava de teorias europeias de direito constitucional, mas da confiança direta do povo. Como ele próprio afirmou:

“Mi autoridad emana de vosotros y ella cesa por vuestra presencia soberana.”

José María Rosa é claro ao definir o sentido dessa liderança: o caudilho não representa interesses particulares, mas a vontade coletiva. Artigas governava porque o povo o reconhecia como seu intérprete.

Essa concepção se materializou nas Instrucciones del Año XIII, onde Artigas proclama a independência absoluta e o princípio fundamental de que os povos são livres por natureza:

“Los pueblos deben ser libres. Su carácter debe ser su único objeto.”

Ali se afirma algo revolucionário para a época: a Província Oriental se declara livre não apenas do rei de Portugal ou do imperador do Brasil, mas de qualquer poder do universo, inclusive de Buenos Aires. Cada província retém sua soberania e só delega aquilo que decidir voluntariamente.

Federalismo, sufrágio e governo dos Povos Libres

O artiguismo instituiu uma prática inédita na América do Sul: o sufrágio universal nos Povos Libres de Santa Fe, Entre Ríos, Corrientes y la Banda Oriental. Não como cópia de modelos europeus, mas como expressão direta da comunidade armada. Todo homem apto a defender sua terra tinha direito a escolher seu caudillo.

O Estatuto de Santa Fe de 1819 resume essa lógica com clareza absoluta:

“El primer derecho y deber del pueblo es elegir un Caudillo.”

Esse caudilho exercia plenos poderes enquanto interpretasse a vontade popular. Justiça, defesa e governo não eram esferas separadas de uma burocracia distante, mas funções integradas da comunidade organizada.

O confronto com a oligarquia e os imperialismos

Artigas enfrentou simultaneamente a oligarquia portuária de Buenos Aires e os imperialismos estrangeiros. A abertura do porto em 1809, as intervenções britânicas e francesas e a política de dividir para governar revelam como os interesses externos operavam aliados às elites locais. Contra isso, Artigas defendia a soberania econômica, política e territorial dos povos do interior.

Seu projeto não era isolacionista. Pelo contrário: tinha um profundo sentido hispano-americano. A Liga de los Pueblos Libres expressava uma visão continental, onde todos os nascidos na América espanhola eram cidadãos. Não se tratava de hegemonia de uma província sobre as outras, mas de cooperação entre iguais.

O exílio e a “volta” de Artigas

Derrotado militarmente, traído por Ramírez e pressionado por Buenos Aires e pelo Império luso-brasileiro, Artigas se retira y termina en exilio en Paraguay, donde permanece treinta años. Pero, como señalaba José María Rosa en 1960, la vuelta de Artigas no sería física, sino histórica y popular. Su figura reaparece cada vez que los pueblos del Plata buscan justicia, soberanía y unidad.

Su fracaso fue circunstancial, no ideológico. Como afirma Rosa:

“El fracaso fue circunstancial; la idea, inquebrantable.”

Estanislao López, fiel al espíritu federal, mantuvo viva esa tradición en Santa Fe, demostrando que la derrota de Artigas no fue por desunión de los pueblos, sino por la acción combinada de traiciones internas e imperialismos externos.

Artigas y Rosas: continuidad histórica

En esa línea, Juan Manuel de Rosas aparece como el gran continuador del proyecto artiguista. Ambos defendieron la soberanía popular, la igualdad provincial y la resistencia frente a las potencias extranjeras. Rosas sostuvo el Pacto Federal, enfrentó la intervención anglo-francesa y rechazó imponer Buenos Aires sobre la Banda Oriental.

Autores orientales como Petit Muñoz reconocen que muchos veían en Rosas al heredero del espíritu de Artigas. Incluso Alberdi, a su manera, admitía su papel central como eje de unidad del interior frente al centralismo liberal.

La Província Oriental, del sur oriental al norte rio-grandense, fue un espacio histórico unido por el pueblo, la tierra y la lucha. Artigas encarnó esa unidad como caudillo de una revolución popular, federal y continental. Su legado no pertenece al pasado: atraviesa la historia del Plata, inspira el federalismo, la resistencia al imperialismo y la idea de una América gobernada por sus pueblos.

La división posterior en Estados no anuló esa verdad histórica. La cultura, la memoria y la causa siguen siendo comunes. Como Artigas, los pueblos saben adónde van. Y cuando vuelven a buscar soberanía, Artigas siempre vuelve con ellos.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

O GAÚCHO RIVERO E A PRIMEIRA RESISTÊNCIA ARMADA À OCUPAÇÃO BRITÂNICA DAS MALVINAS (1833)


A história oficial tende a esquecer que a primeira resistência concreta à ocupação britânica das Ilhas Malvinas não partiu de chanceleres, diplomatas ou discursos em capitais europeias. Ela partiu de um gaúcho pobre, mestiço, peão de campo, formado na dureza do mundo platino. Seu nome era Antonio “El Gaucho” Rivero.

Rivero nasceu em 27 de novembro de 1808, em Concepción del Uruguay, então parte do espaço rioplatense. Era um homem comum de sua época: trabalhador rural, sem posses, sem instrução formal e sem lugar no mundo das elites. Como muitos outros gaúchos, foi levado às Malvinas por volta de 1827, ainda jovem, para trabalhar como peão nas estâncias organizadas pelo governador argentino das ilhas, Luis Vernet.

A realidade social nas Malvinas era brutal. Os peões não recebiam salário em dinheiro. Vernet lhes entregava vales como pagamento, mas o despensero da ilha, Dickson, recusava aceitá-los, exigindo moedas de prata que os trabalhadores não possuíam. Ao mesmo tempo, o capataz Simón proibia a faena do gado manso, obrigando os peões a perseguirem o gado cimarrón apenas para sobreviver.

Esses homens, gaúchos e indígenas, viviam sob exploração, fome e abandono. Não havia proteção estatal efetiva, nem justiça, nem condições mínimas de trabalho. Essa situação se agravou drasticamente após a ocupação militar britânica de 1833, imposta pela força, sem qualquer legitimidade jurídica ou consentimento dos habitantes locais.

Em 26 de agosto de 1833, apenas seis meses após a invasão britânica, Antonio Rivero liderou um levante contra a autoridade colonial imposta. Não se tratou de um ato isolado ou criminoso, como tentaram caracterizar os documentos ingleses, mas de uma rebelião política armada, conduzida por criollos e indígenas que se recusavam a reconhecer a soberania estrangeira.

Participaram da sublevação os gaúchos Juan Brassido e José María Luna, além de cinco charrúas agauchados: Manuel González, Luciano Flores, Felipe Zalazar, Marcos Latorre e Manuel Godoy. Juntos, enfrentaram o poder colonial em condições absolutamente desiguais.

Durante a rebelião, foram mortos o autoproclamado governador britânico e alguns de seus principais colaboradores. Os documentos que chegaram até nós foram todos redigidos por autoridades britânicas, que classificaram o episódio como o “amotinamiento de unos delincuentes”, descrevendo Rivero e seus companheiros de forma racista como “gauchos” e “indios salvajes”. Nessas narrativas, omite-se deliberadamente que aqueles homens eram argentinos e que lutavam pela soberania do território.

Rivero e seus companheiros arriaram a bandeira britânica e hastearam uma bandeira argentina improvisada. Durante aproximadamente seis meses, mantiveram controle efetivo sobre as Malvinas, sem qualquer apoio do governo de Buenos Aires e sem meios de comunicar oficialmente o que ocorria nas ilhas.

Em outubro de 1833, o navio Antartic chegou ao arquipélago. Seu comandante, o norte-americano Nash, chegou a se reunir com Rivero, que lhe entregou algumas reses. Diante da ausência total de reforços vindos do continente, os rebeldes passaram a planejar a fuga para a Patagônia em uma balsa improvisada.

Os planos foram interrompidos em janeiro de 1834, com a chegada dos navios britânicos Challenger e Hopeful, que trouxeram novas tropas e o tenente Smith, nomeado comandante das ilhas. A bandeira britânica foi novamente hasteada, e iniciou-se uma verdadeira caçada humana contra os gaúchos e charrúas.

Rivero e seus companheiros fugiram para os cerros, dispostos a lutar até o fim. A perseguição durou cerca de três meses. A fome, o frio e o cansaço enfraqueceram o grupo. Um dos peões, Luna, traiu os companheiros. Outro, Brasido, desertou. Com reforços vindos nos navios Beagle e Adventure, os britânicos conseguiram capturar os sobreviventes.
Rivero acabou preso, algemado e levado com outros cinco homens à Grã-Bretanha, onde foram encarcerados na prisão de Sherness. Após análise do caso, o próprio tribunal inglês reconheceu não haver provas suficientes para condená-los, e os prisioneiros foram devolvidos ao Rio da Prata, desembarcando em Montevidéu.

O destino final de Antonio Rivero permanece parcialmente envolto em incerteza. Há a hipótese, nunca plenamente comprovada, de que ele tenha morrido em 20 de novembro de 1845, lutando pela Confederação Argentina no combate da Vuelta de Obligado, enfrentando novamente potências estrangeiras que buscavam impor sua vontade pela força.

A história do Gaucho Rivero revela uma verdade incômoda: a primeira resistência às Malvinas foi popular, mestiça e marginal. Não nasceu nos salões diplomáticos, mas nos campos, entre homens pobres, armados apenas de coragem, consciência territorial e dignidade.

Rivero não foi um bandido.
Foi um gaúcho platino.
E foi o primeiro resistente armado contra o colonialismo britânico nas Malvinas.

POUCA GENTE SABE, MAS A PALAVRA “GAÚCHO” NÃO NASCEU NO RIO GRANDE DO SUL


A imagem do gaúcho forte, silencioso, de roupas gastas, olhar duro e corpo moldado pelo vento e pela fome não representa o gaúcho folclorizado dos desfiles, das estâncias organizadas e da estética do século XIX. Ela remete a algo muito mais antigo e incômodo: o gaúcho primitivo, anterior às fronteiras, anterior aos Estados nacionais e anterior até mesmo à ideia de Rio Grande do Sul como identidade regional.

É preciso afirmar com clareza histórica: o gaúcho não nasceu gaúcho. Ele foi chamado assim, e não por elogio.

O berço do gaúcho: o mundo platino

A palavra gaúcho surge no espaço do Rio da Prata entre os séculos XVII e XVIII, nos vastos campos que hoje abrangem o Norte Oriental rio-grandense, o Uruguai e a Argentina. Tratava-se de um território sem cercas, sem limites definidos e sem presença efetiva do Estado. Um espaço disputado pelas coroas espanhola e portuguesa, mas, sobretudo, marcado pelo abandono institucional.

Nesse cenário surgem figuras humanas marginais que não se encaixavam nas estruturas coloniais.

Mestiços de indígenas e criollos espanhóis
Indígenas aculturados e missioneiros deslocados
Negros forros ou fugidos
Desertores de exércitos coloniais
Peões sem patrão fixo

Homens livres, porém sem terra e sem lei

Esses homens viviam principalmente da caça do gado cimarrón, gado selvagem espalhado aos milhões pelos campos platinos após o abandono de missões e estâncias coloniais. O cavalo lhes dava mobilidade, o couro lhes dava abrigo e a solidão lhes moldava o caráter.

O significado original da palavra “gaúcho”

Aqui está um ponto que muitos ignoram ou preferem ignorar. A palavra gaúcho nasce como termo pejorativo. Nos documentos espanhóis do século XVIII, gaúcho aparece associada a expressões como:

vago, vagabundo
malentretenido, mal-afamado
cuatrero, ladrão de gado
andarilho
hombre sin oficio ni ley

Para as autoridades coloniais, o gaúcho era um problema social. Um homem armado, errante, difícil de controlar, que não se submetia ao trabalho regular, à disciplina da Igreja ou à ordem do Estado.

Há diversas hipóteses etimológicas para o termo:

Do quíchua huachu, órfão ou abandonado
De raízes árabes como chaucho, condutor de animais

De termos híbridos surgidos na fronteira hispano-indígena

Independentemente da origem exata, o sentido social é inequívoco. Gaúcho era aquele que não tinha dono, nem terra, nem lei fixa.

O gaúcho antes do mito

O gaúcho original não usava bombacha, não dançava em CTGs, não declamava poesia e não cultivava orgulho regional organizado.

Vestia o que tinha.
Couro cru
Ponchos gastos
Botas de couro de potro
Facão à cintura
Boleadeiras

Mate amargo como companhia constante

Vivendo à margem, deslocava-se conforme o gado, os conflitos e as oportunidades. Sua moral era própria. Sua justiça, pessoal. Sua liberdade, absoluta e exatamente por isso perigosa aos olhos do poder colonial.

Da marginalidade ao herói regional

A transformação do gaúcho em símbolo positivo não foi espontânea. Ela ocorre no século XIX, quando os Estados nacionais do Prata passam a precisar de soldados, identidade coletiva e símbolos populares mobilizadores.

No Norte Oriental rio-grandense, no Uruguai e na Argentina, o antigo gaúcho marginal passa a ser recrutado, disciplinado e romantizado. Aquilo que antes era visto como defeito, rusticidade, independência e rebeldia, passa a ser reinterpretado como virtude.

Mas é fundamental compreender que  o gaúcho não nasceu herói. Ele foi excluído antes de ser exaltado.

O gaúcho é platino, não apenas rio-grandense
Afirmar que o gaúcho nasceu exclusivamente no Rio Grande do Sul é um anacronismo histórico. O gaúcho é anterior às fronteiras, às bandeiras e às identidades regionais modernas.

Sua origem é platina, fronteiriça, mestiça e marginal. O que o Rio Grande do Sul fez, e fez bem, foi incorporar essa figura, preservá-la, moldá-la e transformá-la em símbolo cultural estudual. Mas não a criou do zero.

Entender o gaúcho é entender a fronteira

A imagem que inspira este texto não retrata um personagem folclórico. Ela revela um homem forjado pela solidão, pela pobreza, pela liberdade sem romantismo e pela luta diária contra a natureza e contra o poder.

Conhecer a verdadeira origem da palavra gaúcho não diminui o orgulho, mas o aprofunda. Porque a honra não está na fantasia confortável, e sim na verdade histórica.

E a verdade é esta. O gaúcho nasceu livre antes de ser aceito, rejeitado antes de ser exaltado e marginal antes de se tornar símbolo.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

ENTENDA POR QUE O NORTE ORIENTAL DO PRATA (ATUAL RIO GRANDE DO SUL) NÃO TEM NADA A VER COM O BRASIL (E PORQUE ISSO NÃO É OFENSA, É HISTÓRIA)


A imagem dos três gaúchos, lado a lado, montados em cavalos crioulos no pampa aberto, diz mais do que muitos manuais escolares. Um empunha a bandeira do atual Rio Grande do Sul, outro a do Uruguai, outro a da Argentina. Mudam os símbolos nacionais posteriores, mas o corpo, a postura, o olhar, a paisagem e o chão sob os cascos permanecem os mesmos.

Isso não é coincidência.

É resultado de um mesmo processo histórico.
Quando se afirma que o atual Rio Grande do Sul “não tem nada a ver com o Brasil”, não se trata de uma negação jurídica ou institucional. Trata-se de uma afirmação histórica, cultural e civilizatória. No período das reduções jesuíticas, esse território não existia como entidade brasileira. Ele integrava o espaço oriental do Vice-Reino do Rio da Prata e era conhecido como Norte Oriental, parte inseparável da Província Oriental e do mundo platino. As cidades missioneiras ali estabelecidas eram cidades hispano-guaranis, organizadas, produtivas e plenamente integradas à ordem virreinal espanhola.

O gaúcho não é um povo étnico homogêneo nem europeu transplantado. Ele se formou como um povo mestiço, resultado direto da fusão entre criollos de matriz espanhola e populações indígenas missioneiras, sobretudo guaranis. Posteriormente, esses gaúchos mestiços incorporaram colonos açorianos e, já no século XIX, imigrantes germânicos e italianos, que não substituíram a cultura existente, mas adotaram os costumes, práticas e valores do gaúcho já formado. Portanto, não se trata de uma afirmação racial, mas histórica: a matriz do Norte Oriental é platina, missioneira e hispano-guarani, não luso-tropical.

O Norte Oriental do Prata não nasceu brasileiro. Essa é a primeira chave para compreender sua singularidade. Enquanto grande parte do Brasil colonial foi estruturada a partir do litoral atlântico, da plantation, da economia açucareira e da escravidão em larga escala, o Norte Oriental se formou em um contexto completamente distinto: disputa entre impérios, guerra permanente de fronteira, território aberto e pecuária extensiva organizada pelas reduções jesuíticas. Aqui, a fronteira nunca foi um limite fixo. Sempre foi um espaço ativo de circulação, integração e conflito dentro do mundo platino.

Durante séculos, o atual território rio-grandense esteve juridicamente, economicamente e culturalmente inserido no Vice-Reino do Rio da Prata. A vida cotidiana era castelhana, a organização social era missioneira e a lógica econômica estava orientada para os circuitos do Prata. O Norte Oriental fazia parte de um mesmo contínuo humano que incluía a Província Oriental, Assunção e as regiões missioneiras do interior. O gaúcho pampeano surge exatamente desse espaço compartilhado, como homem do cavalo, do campo aberto e do gado criado coletivamente nas estâncias missioneiras.

As pesquisas históricas demonstram que o povoamento do Norte Oriental não foi obra de bandeirantes paulistas nem de um suposto “vazio demográfico”. Pelo contrário. Esse território foi desbravado, organizado e vivido pelas populações indígenas missioneiras, que abriram caminhos, estabeleceram rotas comerciais, criaram rebanhos e estruturaram uma rede de circulação que ligava o interior do continente ao estuário do Prata. Todas as estradas do Norte Oriental rio-grandino eram caminhos missioneiros, utilizados para o comércio, o deslocamento de gado e a integração entre reduções.

Essas mesmas rotas indígenas missioneiras seriam posteriormente apropriadas e reutilizadas no tropeirismo gaúcho e, mais tarde, na lógica econômica das charqueadas. Não houve criação luso-brasileira desses caminhos. Houve apropriação de uma infraestrutura pré-existente, construída por uma civilização missioneira que a historiografia brasileira insistiu em apagar ou minimizar.

O pampa, como unidade geográfica e cultural, não reconhece fronteiras nacionais posteriores. Ele atravessa o Norte Oriental, a Província Oriental e a região platina argentina sem qualquer ruptura ambiental. Onde o território é contínuo, a cultura também o é. É por isso que o chimarrão, o cavalo crioulo, a bombacha, a milonga, a payada e o canto narrativo pertencem a um mesmo universo cultural platino, do qual o Norte Oriental sempre fez parte.

A identidade do gaúcho formado no Norte Oriental nunca se orientou para o Norte tropical do Brasil. Ela se estruturou lateralmente, dentro do eixo platino. O comércio, as alianças políticas, os casamentos e as guerras do século XVIII e XIX ocorreram nesse espaço comum. A Revolução Farroupilha, por exemplo, só pode ser compreendida como um conflito regional platino, com apoio, refúgio e inspiração vindos da Província Oriental e das Províncias Unidas do Prata, e não como um episódio isolado da história brasileira.

O clima reforça essa distinção. Enquanto o Brasil colonial se pensou como tropical, o Norte Oriental sempre foi subtropical e temperado, marcado por frio, ventos, geadas e invernos rigorosos. Isso moldou arquitetura, vestimenta, alimentação e relações sociais de forma muito mais próxima ao mundo platino do que ao Brasil atlântico.

A língua falada nesse território também denuncia sua origem. O português atual do Rio Grande do Sul está impregnado de castelhanismos herdados diretamente do espanhol do Prata. Esses elementos linguísticos não são empréstimos recentes, mas vestígios de um passado em que o Norte Oriental fazia parte de um mesmo espaço cultural hispano-guarani.

Dizer que o atual Rio Grande do Sul não tem nada a ver com o Brasil, portanto, não é negar sua condição política contemporânea. É reconhecer que sua formação histórica ocorreu fora da matriz colonial brasileira. O Norte Oriental foi conquistado, reordenado à força e incorporado tardiamente ao Brasil por meio da guerra, da diplomacia imperial e da destruição deliberada do mundo missioneiro hispano-guarani.

A ocupação luso-brasileira não foi espontânea nem civilizadora. Foi uma conquista violenta que implicou a destruição de uma ordem social existente, plenamente funcional e integrada ao Vice-Reino do Rio da Prata. Os bandeirantes não desbravaram o Norte Oriental. Eles invadiram um território já vivido, apropriando-se de caminhos indígenas missioneiros, de rebanhos coletivos e de uma economia estruturada.

No fim das contas, o desconforto que essa leitura provoca vem do fato de que ela desmonta o mito fundador da historiografia brasileira. O Norte Oriental não foi um apêndice natural do Brasil. Foi um território platino conquistado. Reconhecer isso não diminui ninguém. Pelo contrário. Devolve densidade histórica a uma região que sempre foi tratada como margem, quando na verdade foi centro de uma das experiências civilizatórias mais complexas e promissoras do sul da América.

domingo, 4 de janeiro de 2026

Imperialismo em Crise, Ilusões Geopolíticas e o Retorno do Mundo ao Regionalismo



A política externa dos Estados Unidos vive um momento de contradição evidente. Enquanto Washington tenta reafirmar sua condição de potência hegemônica, cada nova frente de conflito revela os limites reais de um império que já não consegue organizar o mundo segundo seus interesses. A tentativa de restaurar a Doutrina Monroe nas Américas ocorre ao mesmo tempo em que os Estados Unidos seguem sustentando a Ucrânia como instrumento de desgaste da Rússia, estimulam mudanças de regime no Oriente Médio para favorecer Israel e procuram cercar a China no Mar do Sul da China e em Taiwan. Esse acúmulo de iniciativas não expressa força, mas insegurança estratégica.

Essa lógica não é nova. Faz parte do funcionamento histórico do imperialismo liberal atlantista. Diante da perda de capacidade produtiva e de legitimidade política, o centro anglo-americano recorre à fragmentação regional, à terceirização de guerras aos movimentos terroristas ou revoluções coloridas, ao uso de sanções, visando desestabilizar internamente países soberanos. O problema é que esse método já não entrega os resultados de décadas anteriores. E quando a realidade desmente o discurso, surgem narrativas fantasiosas para preservar a aparência de controle.

Um episódio recente ilustra bem esse mecanismo. Quando setores das forças armadas sírias traíram Bashar al-Assad, muitos pseudo entendedores fizeram análises geopolíticas rapidamente para explicarem o ocorrido como fruto de um suposto acordo secreto entre Putin e Trump. Segundo essa versão, a Rússia teria entregue a Síria em troca da Ucrânia. O argumento era frágil desde o início. Trump sequer ocupava a presidência dos Estados Unidos naquele momento. Mais do que isso, os fatos posteriores desmontaram completamente essa fantasia.

Não houve entrega alguma. Os Estados Unidos novamente clm Trump continuaram apoiando a Ucrânia, cumprindo integralmente os contratos firmados durante o governo Biden. O envolvimento norte americano foi além, com fornecimento de apoio logístico e de inteligência para operações dentro do território russo. Chegou-se inclusive a falar recentemente em um atentado contra uma residência de Vladimir Putin. Nenhuma agência ucraniana teria autonomia para tentar algo dessa magnitude sem coordenação ou autorização da CIA. A realidade expôs o caráter ilusório da narrativa do grande acordo.

Agora a mesma lógica reaparece sob outra forma. Difunde-se a ideia de que Putin teria trocado a Venezuela pela Síria. Mais uma vez, trata-se de uma construção sem qualquer base material. A Rússia nunca teve a Venezuela para poder entregá-la. Moscou não possui bases militares no país, ao contrário do que ocorre na Síria. Não há forças russas sequer próximas geograficamente da Venezuela. Bastaria um mínimo de noção de geografia para perceber o absurdo dessa tese.

A suposição de que a Rússia teria condições práticas de intervir militarmente na Venezuela, nas circunstâncias atuais, é tão irreal quanto acreditar que a OTAN poderia ampliar indefinidamente seu apoio à Ucrânia além do que já faz. Quando se busca compreender os impasses venezuelanos, faz muito mais sentido observar o papel concreto de países regionalmente envolvidos, como Brasil e Colômbia, do que recorrer a explicações imaginárias baseadas em conspirações globais.

Essas narrativas não são apenas erros de análise. Elas cumprem uma função ideológica clara. Servem para manter viva a ilusão de um mundo governado por grandes acordos secretos entre líderes, quando, na realidade, o sistema internacional passa por uma transformação estrutural profunda. Na Eurásia, no Oriente Médio, na Ásia Central e na Ásia Oriental, os Estados Unidos enfrentam processos que escapam ao seu controle direto, sobretudo a ascensão da China como potência produtiva, tecnológica e civilizacional.

A China não construiu seu poder a partir da especulação financeira ou de guerras de saque. Sua força deriva do planejamento estatal, da soberania industrial, do investimento em infraestrutura e do controle estratégico do crédito. A Rússia, apesar do cerco e das sanções, mantém autonomia energética, capacidade industrial e coesão interna. Esses elementos minam a pretensão universalista do liberalismo, que já não consegue se impor nem pelo discurso moral nem pela força militar direta.

A diferença entre os blocos em disputa torna-se cada vez mais evidente. A Rússia opera dentro de uma lógica regional, visando recuperar territórios que, por erros históricos e administrativos da União Soviética, criaram a Ucrânia como um Estado artificial soberano. Os Estados Unidos, por outro lado, atuam segundo a sua lógica histórica predatória global, exigindo acesso a recursos naturais de nações. Age-se como se os recursos do mundo pertencessem por direito aos norte americanos, amparados pela ideia quase teológica de um povo escolhido.

O colapso do unipolarismo liberal não significa desordem, mas transição. O mundo tende a se reorganizar segundo linhas regionalistas, com grandes tecnatos-continentais mais fortes, integração produtiva entre países vizinhos e recuperação do papel do trabalho como eixo central da vida social e econômica.

Na América Latina, a tentativa de ressuscitar a Doutrina Monroe expressa o temor de Washington diante da possibilidade do nosso continente buscar um caminho de autonomia política, industrial e energética. Um continente que comece a pensar em termos de povo, nação e justiça social, e não como simples fornecedor de commodities baratas e mão de obra precarizada enquanto um estado periférico da América d Norte.

O imperialismo liberal está desesperado para manter suas estruturas decréptas. E quanto maior o desespero, mais depende de narrativas artificiais para disfarçar sua decadência. O futuro não será decidido por acordos imaginários nem por slogans morais, mas pela capacidade real das nações de planejar, produzir, integrar-se regionalmente e colocar o trabalho e o povo no centro da política.

3 de Janeiro de 1833: A Ocupação Britânica das Ilhas Malvinas e a Persistência de um Litígio Colonial


O dia 3 de janeiro de 1833 marca um dos episódios mais simbólicos e duradouros do colonialismo europeu na América do Sul: a invasão e ocupação das Ilhas Malvinas pelo Reino Unido. Naquela data, forças navais britânicas, por meio da corveta HMS Clio, intimaram a guarnição argentina em Puerto Soledad a arriar a bandeira nacional, consumando pela força a expulsão das autoridades e da população argentina estabelecida no arquipélago. Iniciava-se, assim, uma ocupação que persiste até os dias atuais.

A presença argentina nas Malvinas não era casual nem recente. Em 6 de novembro de 1820, a Argentina havia tomado posse formal das ilhas, em continuidade jurídica aos direitos herdados do antigo Vice-Reino do Rio da Prata. Esses direitos, por sua vez, derivavam da soberania espanhola, que desde 1520 incluía o arquipélago como parte integrante de seus domínios na América do Sul. Ao assumir o controle efetivo das ilhas, a Argentina estabeleceu autoridades, povoamento e administração, exercendo soberania de fato e de direito.

Tal exercício soberano não apenas era conhecido internacionalmente, como também não foi contestado pelo Reino Unido no âmbito do Tratado de Amizade, Comércio e Navegação de 1825, firmado entre Londres e Buenos Aires. Nesse acordo, o governo britânico não formulou qualquer reserva ou objeção aos direitos soberanos argentinos sobre as Malvinas, o que reforça a tese de que a ocupação de 1833 constituiu uma ruptura unilateral e ilegítima da ordem jurídica vigente.

Pouco antes da ação britânica, em 1831, a fragata estadunidense USS Lexington atacou Puerto Soledad, destruindo instalações e debilitando gravemente a presença argentina no arquipélago. Essa intervenção estrangeira criou as condições materiais e militares que facilitaram, meses depois, a ofensiva britânica. O episódio evidencia como a fragilidade geopolítica das jovens nações sul-americanas foi explorada por potências extra-regionais interessadas em ampliar sua influência estratégica no Atlântico Sul.

A ocupação das Malvinas ocorreu em um contexto de paz formal, sem declaração de guerra, caracterizando-se como um ato de força colonial. Desde então, a data de 3 de janeiro de 1833 permanece como um marco central na memória histórica argentina e no seu reclamo permanente de soberania. Trata-se não apenas de uma reivindicação territorial, mas de uma contestação profunda ao legado do imperialismo europeu na região.

À luz do direito internacional contemporâneo, a Argentina sustenta que a questão das Malvinas permanece em aberto e que a ocupação britânica viola princípios fundamentais da autodeterminação dos povos e da integridade territorial. Nesse sentido, o artigo 51 da Carta das Nações Unidas é frequentemente citado como base jurídica para o direito de legítima defesa, inclusive em sua dimensão potencial, condicionado à vontade soberana do povo argentino.

Assim, o litígio das Malvinas transcende o passado e se projeta no presente como símbolo das tensões entre colonialismo e soberania, entre direito histórico e imposição militar. Enquanto a ocupação persistir, o 3 de janeiro de 1833 continuará a ser lembrado não apenas como uma data histórica, mas como uma ferida aberta na geopolítica do Atlântico Sul e na luta pela plena descolonização da América Latina.

Os Gauchos das Pampas e a Dieta Exclusiva de Carne no Século XIX


Argentina do século XIX: o escritor britânico William Henry Hudson visita as Pampas e encontra os gauchos. Ele documenta a dieta deles com uma fascinação horrorizada.

“O gaucho não come nada além de carne bovina. Carne de manhã, ao meio-dia e à noite. Nunca pão, nunca vegetais, raramente sal.”

Hudson esperava encontrar desnutrição e doenças. Em vez disso, encontrou “homens de estamina e força extraordinárias, capazes de cavalgar 12–14 horas sem descanso e depois dançar a noite toda”.
A dieta: carne bovina, chá-mate e, ocasionalmente, gordura renal grelhada (uma iguaria). Nada mais.
Darwin visita a região em 1832–1833 e observa a vida dos gauchos: “Fiquei surpreso com a dificuldade em persuadir os gauchos a comer qualquer coisa além de carne. Trouxe biscoitos e os encontrei jogados fora. Eles preferiam passar fome a comer pão, se soubessem que haveria carne no dia seguinte.”

Refeições típicas: manhã — carne assada no fogo, cortes mais gordurosos. Tarde — costelas grelhadas. Noite — carne novamente, cortes mais duros cozidos lentamente. Zero vegetais. Zero grãos. Zero variedade. Apenas carne bovina e chá.

Hudson documenta os resultados: “Os gauchos não sofriam de nenhuma das enfermidades comuns ao homem civilizado. Nenhum problema digestivo, nenhuma obesidade, nenhuma cárie dentária que eu pudesse observar. Os dentes eram uniformemente excelentes, apesar de nunca os limparem e consumirem apenas carne. Resistência física tal que podiam cavalgar por dias com descanso mínimo, lutar quando necessário e retomar a cavalgada sem fadiga aparente.”

O médico francês Dr. Jules Crevaux (décadas de 1850–1870) não é diretamente citado em fontes específicas sobre os gauchos; pode haver confusão com outros observadores. Ainda assim, relatos semelhantes de viajantes europeus destacam que homens vivendo quase exclusivamente de carne animal pareciam mais saudáveis do que camponeses europeus, com dietas variadas de grãos e vegetais.

Quando perguntados por que não comiam pão ou vegetais, a resposta comum era: “Isso é comida para cavalos e gado. Nós comemos o gado.”
Eles compreendiam a hierarquia: o gado come grama e a converte em carne. Os humanos comem carne. Comer o que o gado come faz você agir como gado.

Até o início do século XX, os gauchos tradicionais mantinham a dieta quase exclusiva de carne bovina. Depois, a imigração europeia trouxe o cultivo do trigo.

Transformação na saúde documentada por médicos argentinos: gauchos tradicionais saudáveis até a velhice. Ex-gauchos urbanizados, em dietas europeias: diabetes, obesidade, doenças cardiovasculares e cárie dentária.

Argentina moderna: taxas de obesidade em torno de 30–32% em adultos (dados recentes de 2020–2024 indicam cerca de 31% para mulheres e 30% para homens), doenças cardiovasculares como principal causa de morte e prevalência de diabetes em torno de 10–13%.

Os gauchos que comiam apenas carne bovina não apresentavam nada disso. Cavalgavam 12 horas por dia até os 60 anos, mantinham dentes saudáveis sem cuidados odontológicos e morriam de acidentes ou velhice, não de doenças crônicas.
A mesma carne. Contexto diferente. Quando você consome carne junto com grãos, óleos de sementes e açúcar: doenças modernas. Carne sozinha: saúde como a de um gaucho do século XIX.

Nota sobre precisão histórica: as observações de Hudson (principalmente em obras como Far Away and Long Ago e relatos sobre as Pampas) e de Darwin (The Voyage of the Beagle) confirmam a dieta quase exclusiva de carne bovina (suplementada pelo mate, rico em nutrientes), a rejeição a pão e grãos e a impressionante robustez física e resistência dos gauchos, apesar da baixa variedade alimentar.

Não há evidência direta de ausência total de doenças crônicas modernas, mas os relatos destacam vigor físico e dentes saudáveis, mesmo sem higiene bucal. A transição nutricional na Argentina (aumento do consumo de carboidratos processados, óleos vegetais e sedentarismo) coincide com o surgimento da epidemia de obesidade e doenças metabólicas ao longo do século XX.

sábado, 3 de janeiro de 2026

Aleksandr Dugin: O Direito Internacional já não existe mais


Tenho certeza de que agora — ao testemunhar o que está acontecendo na política global — todos finalmente compreenderam que o direito internacional já não existe. Ele deixou de existir.

O direito internacional é um tratado entre grandes potências capazes de defender sua soberania na prática. São elas que determinam as regras para si mesmas e para todos os outros: o que é permitido e o que é proibido. E são elas que as cumprem. Esse direito opera em fases (ritmos) — enquanto se mantém o equilíbrio entre as grandes potências.

O sistema westfaliano, que reconhece a soberania dos Estados nacionais, tomou forma devido a um impasse no equilíbrio de poder entre católicos e protestantes (aos quais se somou a França anti-imperial). Se os católicos tivessem vencido, a Sé Romana e o Império Austríaco teriam estabelecido uma arquitetura europeia completamente diferente. Mais precisamente, teriam preservado a anterior, medieval.

Em certo sentido, foram os protestantes do norte da Europa que se beneficiaram da Paz de Vestfália em 1648, pois desde o início haviam se orientado para as monarquias nacionais contra o Papa e o Imperador. Sem alcançar uma vitória total, ainda assim garantiram seu objetivo.

Formalmente, o sistema westfaliano sobrevive até hoje, pois construímos o direito internacional com base no princípio dos Estados nacionais — exatamente aquilo que os protestantes defenderam na Guerra dos Trinta Anos. Mas, em essência, no século XVII isso dizia respeito apenas aos Estados da Europa e às suas colônias, e, posteriormente, nem todo Estado nacional possuía soberania real. Todas as nações são iguais, mas as nações europeias (as Grandes Potências) são “mais iguais” do que as outras.

Havia certo elemento de hipocrisia no reconhecimento da soberania nacional de países fracos, mas isso era plenamente compensado pela teoria do Realismo. Ela só se cristalizou plenamente no século XX, mas refletia uma configuração das relações internacionais formada há muito tempo. Aqui, a desigualdade entre os países é equilibrada pela possibilidade de criar coalizões e pela ordem “xadrezística” das alianças — Estados fracos firmam acordos com Estados mais fortes para resistir à possível agressão de outras grandes potências. Foi assim que ocorreu — e continua ocorrendo — na prática.

A Liga das Nações tentou dar ao direito internacional baseado no sistema westfaliano um caráter mais sólido, buscando limitar parcialmente a soberania e estabelecer princípios universais — baseados no liberalismo ocidental, no pacifismo e na primeira versão do globalismo — que todos os países, grandes e pequenos, deveriam seguir. Em essência, a Liga das Nações foi concebida como uma primeira aproximação de um Governo Mundial. Foi então que a escola do Liberalismo nas Relações Internacionais finalmente se consolidou, iniciando sua longa disputa com os realistas. Os liberais acreditavam que o direito internacional, mais cedo ou mais tarde, substituiria o princípio da soberania plena dos Estados nacionais e levaria à criação de um sistema internacional único. Os realistas continuaram insistindo em sua posição, defendendo o princípio da soberania absoluta — herança direta da Paz de Vestfália.

No entanto, nos anos 1930, ficou claro que nem o liberalismo da Liga das Nações nem o próprio sistema westfaliano correspondiam ao equilíbrio de poder na Europa e no mundo. A ascensão do nazismo ao poder na Alemanha em 1933, a invasão da Etiópia pela Itália fascista em 1937 e a guerra da URSS contra a Finlândia em 1939 destruíram esse sistema, inclusive formalmente. Embora tenha sido oficialmente dissolvida apenas em 1946, a primeira tentativa de estabelecer o direito internacional como um sistema universal e obrigatório já havia naufragado nos anos 1930.

Em essência, os anos 1930 viram o surgimento de três polos de soberania — desta vez com base puramente ideológica. Agora, o que importava não era a soberania formal, mas o potencial real de cada bloco ideológico. A Segunda Guerra Mundial foi precisamente um teste da viabilidade desses três campos.

Um dos campos reunia os países burgueses-capitalistas — principalmente Inglaterra, França e Estados Unidos. Era o campo liberal, que, contudo, foi involuntariamente privado de sua dimensão internacionalista. Os liberais foram obrigados a defender sua ideologia diante de dois adversários poderosos: o fascismo e o comunismo. Mas, em geral — se excluirmos o “elo fraco”, a França, que capitulou rapidamente após o início da Segunda Guerra Mundial — o bloco burguês-capitalista demonstrou um nível suficiente de soberania: a Inglaterra não sucumbiu aos ataques da Alemanha hitlerista, e os EUA lutaram (relativamente) de forma eficaz contra o Japão no Pacífico.

O segundo campo foi o fascismo europeu, que se fortaleceu especialmente durante a conquista hitlerista da Europa Ocidental. Quase todos os países europeus se uniram sob a bandeira do nacional-socialismo. Em tal situação, não podia haver qualquer fala de soberania — nem mesmo no caso de regimes aliados de Hitler (como a Itália fascista ou a Espanha de Franco). No máximo, alguns países (Portugal de Salazar, Suíça etc.) conseguiram assegurar uma neutralidade condicional. Apenas a Alemanha era soberana — ou, mais precisamente, o hitlerismo enquanto ideologia.

O terceiro campo era representado pela URSS e, embora fosse apenas um Estado, baseava-se especificamente em uma ideologia: o marxismo-leninismo. Novamente, não se tratava tanto de uma nação, mas de uma entidade ideológica.

Nos anos 1930, o direito internacional — cuja última versão eram os acordos de Versalhes e as normas da Liga das Nações — entrou em colapso. A partir de então, ideologia e força passaram a decidir tudo. Além disso, cada uma das ideologias possuía sua própria visão da futura ordem mundial, o que significava que operavam com suas próprias versões de direito internacional.

A URSS acreditava na Revolução Mundial e na abolição dos Estados (como fenômeno burguês), o que representava uma versão marxista da globalização e do internacionalismo proletário. Hitler proclamava um “Reich de Mil Anos” com a dominação planetária da própria Alemanha e da “raça ariana”. Não se previa soberania para ninguém além do nacional-socialismo mundial. E apenas o Ocidente burguês-capitalista — essencialmente anglo-saxão — manteve a continuidade com o sistema westfaliano, calculando uma futura transição para o internacionalismo liberal e, novamente, para um Governo Mundial. Na prática, a Liga das Nações, que persistia formalmente embora inoperante, era então um resquício do antigo globalismo e um protótipo do futuro.

De qualquer modo, o direito internacional foi “suspenso” — essencialmente abolido. Iniciou-se uma era de transição em que tudo era decidido exclusivamente pelo nexo entre ideologia e força, que precisava ser comprovado no campo de batalha. Assim, aproximamo-nos da Segunda Guerra Mundial como o ápice desse confronto entre ideologias de força. O direito internacional já não existia.

O resultado concreto do confronto ideológico-de-poder entre liberalismo, fascismo e comunismo levou à eliminação de um dos polos — o nacional-socialismo europeu. O Ocidente burguês e o Oriente socialista antiburguês criaram a coalizão anti-Hitler e, conjuntamente (com uma participação maior da URSS), destruíram o fascismo na Europa.

Em 1945, foi criada a Organização das Nações Unidas como base de um novo sistema de direito internacional. Em certa medida, isso foi uma retomada da Liga das Nações, mas o forte aumento da influência da URSS, que estabeleceu controle ideológico e político total sobre a Europa Oriental (e sobre a Prússia Ocidental — a RDA), introduziu um traço ideológico pronunciado no sistema de soberanias nacionais. O verdadeiro portador da soberania era o campo socialista, cujos Estados estavam unidos pelo Pacto de Varsóvia e, economicamente, pelo COMECON. Ninguém nesse campo era soberano, exceto Moscou e, consequentemente, o PCUS.

No polo burguês-capitalista, ocorreram processos essencialmente simétricos. Os EUA tornaram-se o núcleo do Ocidente liberal soberano. No mundo anglo-saxão, centro e periferia trocaram de lugar — a liderança passou da Grã-Bretanha para Washington. Os países da Europa Ocidental e, de modo mais amplo, do campo capitalista, passaram à condição de vassalos da América. Isso foi consolidado pela criação da OTAN e pela transformação do dólar na moeda de reserva mundial.

Assim, a ONU também consagrou um sistema de direito internacional — formalmente baseado no reconhecimento da soberania, mas, na prática, no equilíbrio de poder entre os vencedores da Segunda Guerra Mundial. Apenas Washington e Moscou eram verdadeiramente soberanas. Consequentemente, o modelo do pós-guerra manteve um vínculo com a ideologia, tendo abolido o nacional-socialismo, mas fortalecido significativamente o campo socialista.

Este é o mundo bipolar, que projetou sua influência sobre todas as outras regiões do planeta. Qualquer Estado — incluindo as colônias recém-libertadas do Sul Global — enfrentava uma escolha: qual dos dois modelos ideológicos adotar. Se escolhessem o capitalismo, transferiam a soberania a Washington e à OTAN. Se o socialismo, a Moscou. O Movimento dos Não Alinhados tentou estabelecer um terceiro polo, mas carecia tanto de recursos ideológicos quanto de poder para isso.

A era do pós-guerra estabeleceu um sistema de direito internacional baseado na correlação real de forças entre dois campos ideológicos. Formalmente, a soberania nacional era reconhecida; na prática, não. O princípio westfaliano era mantido apenas nominalmente. Na realidade, tudo era decidido pelo equilíbrio de poder entre a URSS e os EUA e seus satélites.

Em 1989, durante o colapso da URSS — provocado pelas reformas destrutivas de Gorbachev — o bloco oriental começou a ruir e, em 1991, a URSS se desintegrou. Os antigos países socialistas adotaram a ideologia de seu adversário da Guerra Fria. O mundo unipolar teve início.

Isso significou que o direito internacional mudou qualitativamente. Agora, restava apenas uma autoridade soberana, que se tornou global — os EUA ou o Ocidente coletivo. Uma ideologia, uma força. Capitalismo, liberalismo, OTAN. O princípio da soberania dos Estados nacionais e a própria ONU tornaram-se relíquias do passado, assim como antes havia ocorrido com a Liga das Nações.

O direito internacional passou então a ser estabelecido por apenas um polo — os vencedores da Guerra Fria. Os derrotados (o antigo campo socialista e, sobretudo, a URSS) aceitaram a ideologia dos vencedores, reconhecendo, na prática, uma dependência vassálica em relação ao Ocidente coletivo.

Nessa situação, o Ocidente liberal viu uma oportunidade histórica de fundir a ordem liberal internacional com o princípio da hegemonia de poder. Isso exigia ajustar o direito internacional ao estado real das coisas. Assim, a partir dos anos 1990, iniciou-se uma nova onda de globalização. Ela significou a subordinação direta dos Estados nacionais a um organismo supranacional (novamente, um Governo Mundial) e o estabelecimento de controle direto sobre eles por Washington, que se tornou a capital do mundo. A União Europeia foi criada nesse espírito como um modelo desse tipo de sistema supranacional para toda a humanidade. Migrantes passaram a ser trazidos em massa exatamente com esse objetivo — mostrar como deveria ser a humanidade internacional universal do futuro.

Nessa situação, a ONU perdeu seu sentido:
Primeiro, porque foi construída com base no princípio da soberania nacional (que já não correspondia a absolutamente nada).
Segundo, porque as posições especiais da URSS e da China e seu lugar no Conselho de Segurança da ONU representavam um resquício da era bipolar.
Por isso, em Washington começou-se a falar na criação de um novo sistema — abertamente unipolar — de relações internacionais. Ele foi chamado de “Liga das Democracias” ou “Fórum da Democracia”.

Ao mesmo tempo, dentro dos próprios EUA, o globalismo se dividiu em duas correntes:
O liberalismo ideológico, o internacionalismo puro (Soros com sua “sociedade aberta”, USAID, wokismo etc.);
A hegemonia americana direta, apoiada na OTAN, defendida pelos neoconservadores.
Essencialmente, elas convergiam, mas os primeiros insistiam que a prioridade principal era a globalização e o aprofundamento da democracia liberal em todos os países do planeta, enquanto os segundos insistiam que os EUA deveriam controlar diretamente todo o território da Terra nos planos militar-político e econômico.

Entretanto, a transição de um modelo bipolar de direito internacional para um unipolar nunca se completou plenamente, mesmo apesar do desaparecimento de um dos polos ideológico-de-poder. Isso foi impedido pela ascensão simultânea da China e da Rússia sob Putin, quando os contornos de uma arquitetura mundial completamente diferente — a multipolaridade — começaram a se manifestar claramente pela primeira vez. Do lado oposto aos globalistas (tanto os liberais-internacionalistas de esquerda quanto os neoconservadores de direita), surgiu uma nova força. Ainda não claramente definida ideologicamente, ela rejeita, contudo, o padrão ideológico do Ocidente liberal-globalista. Essa força inicialmente difusa passou a defender a ONU e a impedir a formalização final da unipolaridade — isto é, a transformação do status quo de poder e ideologia (o domínio real do Ocidente coletivo) em um sistema jurídico correspondente.

Assim, encontramo-nos em uma situação que lembra o caos. Acontece que cinco sistemas operacionais de relações internacionais estão funcionando simultaneamente no mundo, tão incompatíveis quanto softwares de fabricantes diferentes:

Por inércia, a ONU e as normas do direito internacional reconhecem a soberania dos Estados nacionais, que na realidade perdeu sua força há quase cem anos e existe como uma “dor fantasma”. Ainda assim, a soberania continua sendo reconhecida e às vezes se torna um argumento na política internacional.

Também por inércia, algumas instituições mantêm vestígios do mundo bipolar já encerrado. Isso não corresponde a absolutamente nada, mas se faz sentir ocasionalmente — por exemplo, na questão da paridade nuclear entre Rússia e EUA.

O Ocidente coletivo continua insistindo na globalização e no movimento rumo a um Governo Mundial. Isso significa que todos os Estados nacionais são convidados a ceder sua soberania em favor de instâncias supranacionais — como o Tribunal Internacional de Direitos Humanos ou o Tribunal de Haia. A UE insiste em ser um modelo para todo o mundo no apagamento de todas as identidades coletivas e na despedida da estatalidade nacional.

Os EUA — especialmente sob Trump — sob a influência dos neoconservadores, comportam-se como o único hegemon, considerando “direito” tudo aquilo que atende aos interesses da América. Essa abordagem messiânica se opõe parcialmente ao globalismo, ignora a Europa e o internacionalismo, mas insiste com igual veemência na des-soberanização de todos os Estados — pelo direito da força.

E, por fim, os contornos de um mundo multipolar emergem cada vez mais claramente, no qual o portador da soberania é o Estado-Civilização — como a China moderna, a Rússia ou a Índia. Isso exige ainda outro sistema de direito internacional. O protótipo desse modelo poderia ser o BRICS ou outras plataformas de integração regional — sem a participação do Ocidente (já que o Ocidente traz consigo seus próprios modelos, mais articulados e rígidos).

Todos os cinco sistemas operam simultaneamente e, naturalmente, interferem uns nos outros, produzindo falhas contínuas, conflitos e contradições. Ocorre um curto-circuito lógico da rede, criando a impressão de caos ou simplesmente da ausência de qualquer direito internacional. Se existem cinco direitos internacionais simultâneos que se excluem mutuamente, então, em essência, não existe nenhum.

A conclusão de tal análise é bastante alarmante. Contradições desse nível global, um conflito tão profundo de interpretações, quase nunca na história (honestamente, nunca) foram resolvidos de forma pacífica. Aqueles que se recusam a lutar por sua ordem mundial acabam imediatamente derrotados. E terão de lutar pela ordem mundial de outra pessoa, já na condição de vassalos.

Consequentemente, uma Terceira Guerra Mundial é mais do que provável. E, em 2026, é mais provável do que em 2025 ou antes. Isso não significa que estejamos condenados a ela; significa apenas que estamos em uma situação extremamente difícil. Por definição, uma Guerra Mundial envolve todos ou quase todos. É por isso que se chama guerra mundial. Ainda assim, em toda Guerra Mundial há sujeitos principais. Hoje, eles são:

O Ocidente coletivo em ambas as suas encarnações (liberal-globalista e hegemonista);
Os polos ascendentes do mundo multipolar (Rússia, China, Índia).
Todos os demais são, por ora, meros instrumentos.

Ao mesmo tempo, o Ocidente possui uma ideologia, enquanto o mundo multipolar não. A multipolaridade já se manifestou de forma geral, mas ideologicamente ainda não está formalizada. Quase nada.

Se o direito internacional não existe e se é impossível, por definição, defender o mundo de Yalta, a velha ONU e a inércia da bipolaridade, então devemos apresentar nosso próprio novo sistema de direito internacional. A China faz algumas tentativas nessa direção (“Comunidade de Destino Comum”), nós em menor medida (com exceção da Teoria do Mundo Multipolar e da Quarta Teoria Política). Mas isso claramente não é suficiente. Talvez este ano tenhamos de participar de uma “luta planetária de todos contra todos”, durante a qual o futuro, a ordem mundial correspondente e o sistema de direito internacional serão determinados. Neste momento, não existe nenhum. Mas deve existir um direito internacional que nos permita ser o que devemos ser — um Estado-Civilização, um Mundo Russo. Isso precisa ser conceituado o mais rapidamente possível.

Franco Freda: A Desintegração do Sistema


I. Análise

“É inevitável que neste mundo de exploradores e explorados não seja possível nenhuma grandeza que, em última instância, não tenha como base o fato econômico. São de fato contrapostas duas espécies de homens, de artes, de morais, mas não é preciso ter muita perspicácia para perceber que única é a fonte que as alimenta. Assim, é também de um mesmo tipo de progresso que os protagonistas da luta econômica tiram sua justificativa. Eles se encontram na pretensão fundamental de serem cada um o verdadeiro autor da prosperidade social, razão pela qual cada um está convencido de poder minar as posições do adversário quando consegue contestar-lhe todo direito de se apresentar como tal”.

A razão fundamental que nos levou a convocar este Congresso é determinada pela profunda convicção, minha e de vocês, de que o momento presente impõe à nossa organização a exigência de “cerrar fileiras” em torno dos motivos centrais da nossa ideia de vida e de mundo. A exigência, em primeiro lugar, de reconhecer quais sejam realmente os planos de referência, os cânones dos quais derivar nossa presença política, de enxergar a direção ideal a assumir. Em segundo lugar, ou melhor, consequentemente e simultaneamente, a exigência de articular em um alinhamento elástico, ágil, sem complexos, sem inibições, em uma palavra: desinibido, a nossa vocação, a nossa vontade de luta política.

Nós nos encontramos no ponto em que a necessidade de representar os erros passados, de compreender os motivos fundamentais que puderam permiti-los, se cruza com o dever de afundar as nossas raízes, “nossas”, ou seja, de homens que se dedicam à política sem reservas mentais, sem intenções equívocas, sem álibis pequeno-burgueses: com a alma, eu quase diria, desiludida e impessoal de quem cumpre o próprio dever porque ele deve ser cumprido, no centro da nossa doutrina política e de permanecer aderentes a ela nos elementos essenciais, sem hesitações. Uma adesão lúcida ao essencial que deve permitir, ou melhor, tonificar a nossa capacidade de permanecer elásticos e ágeis no que é funcional e instrumental.

Acredito, de fato, não afirmar nada de novo ao sustentar que quanto mais intensamente nós estivermos enraizados no centro, tanto mais facilmente poderemos nos mover nos pontos da circunferência distante, sem nos distanciarmos, pelo que vale, pelo essencial, do centro.

Eu disse antes: cerrar fileiras, para dar vida a uma organização política elástica. Agora quero acrescentar: cerrar fileiras para possuir uma organização política capaz de dar um golpe de asa a homens destinados à conquista do poder.

Nós caminhamos até agora. Não devemos temer as consequências de uma autocrítica quando ela for livre e digna e, portanto, diremos: nós regredimos! Permanecemos passivamente unidos aos “outros”, aos esquemas políticos dos “outros”, aos falsos problemas dos “outros”, à publicidade ideológica dos “outros”: reconhecemos como nossas as finalidades, que eram, no mínimo, equívocas, dos “outros”. O comportamento de todos, primeiro dos líderes, depois, consequentemente, dos seus seguidores, foi, na melhor das hipóteses, o dos ingênuos, na pior, o dos obtusos.

O nosso discurso político, no início, girava em torno da Europa, e nós acreditávamos que a Europa fosse verdadeiramente um mito e representasse uma autêntica ideia-força: enquanto só muito tarde nos convencemos de que essa palavra refletia uma simples definição geográfica, à qual nem mesmo era lícito atribuir uma capacidade propagandística original, em uma época em que também as copiadoras, as lavanderias, os restaurantes rápidos e os hotéis das estações termais se chamam “Europa”!!

Nós falávamos de concepção política europeia a ser contraposta às várias concepções nacionalistas patrióticas, mas não nos demos conta (ou não quisemos nos dar conta?) de que isso só podia valer em relação à direita nacionalista pequeno-burguesa, sobretudo a nossa, e que, portanto, tudo se esgotava nos termos de uma polêmica qualunquista (também ela superada, aliás, pois os próprios garotos neofascistas gritam: Europa, Fascismo, Revolução!!).

Falamos em termos de “civilização europeia”, sem sequer arranhar a superfície dessa expressão e sem verificar, mergulhando no fundo do problema, se existe, na realidade, uma civilização europeia homogênea, e quais sejam os seus autênticos coeficientes de significado, à luz de uma situação histórica mundial pela qual o guerrilheiro latino-americano adere à nossa visão de mundo muito mais do que o espanhol submisso aos padres e aos EUA; pela qual o povo guerreiro do Norte-Vietnã, com seu estilo sóbrio, espartano, heroico de vida, é muito mais próximo da nossa figura da existência do que o intestino italiano ou francês ou alemão-ocidental; pela qual o terrorista palestino está mais próximo das nossas vinganças do que o inglês (europeu? mas eu duvido!) judaizado ou judeu.

Nós defendemos a hegemonia europeia, dirigindo-nos a uma Europa que já havia sido americanizada ou sovietizada, sem considerar que essa Europa se tornara serva dos EUA ou da URSS porque os povos e as nações europeias haviam absorvido, subsequentemente, mas não consequentemente, a derrota militar, as exportações ideológicas dos EUA e da URSS. Sem considerar que o colapso cultural-político-econômico havia ocorrido justamente porque havia cessado aquela tensão, havia desmoronado aquele suporte que havia suscitado em alguns povos, em alguns homens europeus, em certas épocas históricas (e somente em alguns e só em determinadas épocas históricas!) aquela dimensão superior de civilização que nós pretendíamos atribuir tout court à Europa.

Chegou o momento de parar de nos embalar com o fantoche “Europa” ou de fazer gargarejos com a sua expressão vocal. Com a Europa iluminista nós não temos nada a ver. Com a Europa democrática e jacobina nós não temos nada a ver. Com a Europa mercantilista, com a Europa do colonialismo plutocrático: nada a dividir. Com a Europa judaica ou judaizada nós temos apenas vinganças a fazer. E, no entanto, quando se fala em termos de “civilização europeia”, considera-se tudo isso: não me digam que se fala também disso: fala-se, infelizmente, só disso! Ou, talvez, nós “queríamos” mirar em outra coisa? De qualquer forma, se queríamos mirar em outra coisa, nós, até agora, nunca falamos realmente, de forma completa, dessa “outra coisa”. E eu estou certo de que, se tivéssemos realmente considerado e possuído essa «outra coisa», não teríamos fornecido a esse conteúdo um continente, ou melhor, um rótulo, ou melhor ainda, uma “marca registrada” representada pela palavra “Europa”.

Afloraram tantos e tantos componentes espúrios, a rejeitar, a enterrar; intervieram tantos, ouso dizer: demais, fatores que adulteraram e corromperam esse líquido europeu até torná-lo esgoto, porque ele ainda possa sofrer positivamente um processo de decantação. A Europa é uma velha prostituta que se vendeu em todos os bordéis e que contraiu todas as infecções ideológicas, das revoltas medievais dos Comuns às das monarquias nacionais anti-imperiais; do iluminismo ao jacobinismo, à maçonaria, ao judaísmo, ao sionismo, ao liberalismo, ao marxismo. Uma prostituta cujo ventre concebeu e gerou a revolução burguesa e a revolta proletária; cuja alma foi possuída pela violência dos mercadores e pela rebelião dos escravos. E nós, neste ponto, quereríamos redimi-la, sussurrando-lhe palavras mágicas: dizendo-lhe, por exemplo, que ela deve se conceder exclusivamente aos “europeus”... de Brest a Bucareste??!!

Nós erguemos a bandeira da Europa sem compreender que ela não podia representar para nós nenhum significado válido e homogêneo: sem observar quantos fossem os fios e os laços de que era composto o seu tecido rasgado e quanto esterco ele escondia! Preferimos, em suma, esconder a nossa incapacidade de querer escolher o que para nós era autêntico e verdadeiro, e de saber rejeitar o que era espúrio e equívoco na tradição (ou seja, neste caso, na história) europeia, iludindo-nos de preencher esse vazio com o recurso à fórmula, à palavra “Europa”. Sem considerar, como eu dizia antes, que existe hoje uma Europa democrático-burguesa ou democrático-socialista; assim como ontem existia uma Europa fascista e nacional-socialista e uma Europa democrática; assim como anteontem existia uma Europa jacobina e uma Europa contrarrevolucionária. Sem considerar que muitos, até os tecnocratas do MEC, sonham com uma sua Europa: uma Europa fundada na hierarquia de esquerda que imporia na base da pirâmide a exploração «racional» do trabalho italiano e, no vértice, o investimento do capital internacional.

Em vez de adotar essa fórmula equívoca (que devia servir apenas para nos distinguir daqueles que sustentavam outras fórmulas, as nacionalistas, igualmente equívocas), era necessário dizer em nome de quais princípios, em torno de qual ideia de mundo, segundo qual direção de eficácia, os melhores entre os homens europeus deveriam se vincular em uma unidade política orgânica supranacional. E a essa diferente realidade nós poderíamos ainda dar o nome de “Europa” se a “velha Europa”, a Europa dos séculos escuros (para inverter o significado de uma conhecida frase de um velho palhaço), a Europa dos comuns anti-imperiais, a Europa da igreja romana, a Europa protestante, do mercantilismo, do iluminismo, do democratismo burguês e proletário, a Europa maçônica e judaica, esse espectro monstruoso não tivesse se colocado diante daqueles homens de raça bem diferente.

Eu me detive nesse ponto porque ele sinaliza o caráter mais evidente dos nossos erros, e porque o motivo da “Europa” constituiu, nos anos de atividade política da nossa organização, o ponto focal em que convergiam as nossas perspectivas políticas. Acho portanto inútil me deter a considerar especificamente os outros elementos do nosso chamado programa, já que também eles são as consequências, em planos distintos, daqueles equívocos já mencionados.

Agora, após ter reconhecido a nossa miopia e os nossos erros, é preciso prosseguir, antes de verificar a direção a assumir, analisando a situação atual e os critérios operativos que os outros seguem. Continuo a dizer “os outros”, e não os nossos adversários ou os nossos inimigos, justamente porque quero insistir e esclarecer até as representações extremas que as palavras podem tornar ou as imagens evocar, como entre nós e os outros haja (e deva haver) muito mais do que uma simples diferença de mentalidade, de modo de agir, de “ideologia” política. É uma alma diferente, é uma raça diferente aquela que dá às nossas ações o seu significado típico e atribui a elas a fisionomia própria, irredutível aos termos e às figuras comuns às várias “ideologias” políticas da nossa época.

A consideração da qual nós partimos é esta: nós hoje vivemos no mundo dos outros, cercados pelos outros, por esses dignos representantes da época burguesa, sob o domínio da mais sórdida e aviltante das ditaduras: a burguesa, a dos mercadores. Tudo o que nos cerca é burguês: sociedade política, economia, cultura, família, comportamentos sociais, manifestações “religiosas”. Nas democracias “ocidentais” o espetáculo que se apresenta diante de nós é vinculado por uma revoltante coerência aos cânones mais ortodoxos da concepção de vida burguesa.

Nessas democracias, a organização do poder serve para manter inalterado, através dos mais variados instrumentos opressivos e repressivos, o relacionamento hegemônico de uma classe, a dos burgueses, e, particularmente, de uma parte dela, aquela constituída em oligarquia plutocrática, sobre o povo. O suporte exclusivamente classista sobre o qual elas se fundam não permite realidades e valores diferentes dos econômicos: a ditadura burguesa, emergida vitoriosa segundo um processo de potencialização e de intensificação hegemônica a partir da revolução francesa, conserva há cerca de duzentos anos inalterado o único vínculo que liga o burguês a um homem: vínculo que é de senhor a servo, de explorador a explorado.

Apesar de todas as edulcorizações assistenciais, previdenciárias, paternalistas em geral, esta é a verdadeira realidade do sistema burguês. É a mesma realidade que já em 1849 Marx traçava magistralmente no Manifesto do partido comunista.

Agora, após ter traçado, retomando-a nas suas linhas elementares, a fisionomia do verdadeiro Estado, devemos considerar qual obra política se impõe a nós para “testemunhar” ativamente a nossa adesão à imagem do verdadeiro Estado.

Não é nem em parte aceitável a hipótese de quem, cultivando apenas racionalmente essa imagem (“o modelo fixado nos céus”, diria Platão), sustenta a necessidade de permanecer distanciado a observar o colapso das formas associativas (que, mais eficazmente, poderiam ser definidas “fórmulas”) com as quais a atual realidade política se expressa. Para esses, efetivamente, o mito do Estado se torna utopia, vagada intelectualisticamente: para esses, o distanciamento representa verdadeiramente o álibi destinado a esconder a incerteza, a incapacidade e o medo.

Para os estéreis apologistas do “discurso” sobre o Estado, de fato, todo operar em termos políticos determinaria quase um rebaixamento de plano, uma descida ao compromisso: eles não têm nenhuma ideia, mas, no máximo, um conceito do Estado, bem escondido entre as suas dobras mentais. Não os consideremos, portanto, esses adoradores das abstrações e da lógica do inevitável, esses assertores das testemunhas conceituais!

Para nós, ser fiéis à nossa ideia de mundo, e portanto do Estado, significa conformar-se a ela, não deixar nada por tentar a fim de realizá-la historicamente: não certamente manifestar uma devoção “ideológica” e contentar-se com essa coerência mental.

E então, desenvolvendo essa premissa, devemos afirmar que a condição, não suficiente mas, de qualquer forma, necessária, para colocar os elementos de fundação do verdadeiro Estado, é a subversão de tudo o que hoje existe como sistema político.

É preciso, de fato, propiciar e acelerar os tempos dessa destruição, exasperar a obra de ruptura do presente equilíbrio e da atual fase de assentamento político. Vigiar para que os eventuais veículos, as potenciais forças que devem determinar o colapso dos centros nervosos do sistema burguês, não sejam absorvidos ou integrados em uma das tantas possibilidades de cristalização que o mundo burguês oferece.

Inevitavelmente, portanto, devemos transferir as nossas considerações do plano do reconhecimento dos princípios ao plano operativo: do plano daquilo que é válido ao plano daquilo que resulta eficaz, a fim de adequar a sórdida “realidade” (que mais oportunamente deveria ser qualificada “irrealidade”) do período histórico que nós estamos vivendo à «realidade» autêntica.

O cânone a seguir (repetimo-lo aqui) deve ser este: rigidez firme no essencial e máxima elasticidade no plano funcional.

Já indicamos acima aquilo que segundo nós deve ser considerado essencial. Já consideramos a necessidade de descobrir um plano de doutrina ao qual nos ater firmemente e um estilo de comportamento que devemos ativar. Já sustentamos a regra segundo a qual a nossa obra política deve essencialmente se desenvolver e articular na busca de homens com tendências, vocações, caráter afins ao nosso: gente que tenha a nossa mesma ideia de Estado.

Agora nós, a esse alinhamento de homens, que não podemos criar, mas devemos apenas reconhecer e tonificar, os quais escolheram lutar no mundo das democracias burguesas, a essa gente que recusa como estranha ao próprio temperamento uma equívoca função de “devoção” intelectual, nós, a essa gente devemos propor um objetivo de luta resolutivo: a destruição do mundo burguês.

Ou seja, devemos convencê-los de que o mal representado pela sociedade burguesa é incurável: que nenhuma terapia é possível, que nem mesmo uma operação cirúrgica consegue ser eficaz; que é preciso acelerar a hemorragia e enterrar o cadáver.

Nós devemos persuadi-los de como não se possa edificar nada enquanto permanecerem até mesmo as ruínas; como o pressuposto fundamental para edificar o verdadeiro Estado seja o derrube até das formas residuais e das estruturas sobreviventes dos sistemas burgueses.

“O atual poder político do Estado moderno não é senão um comitê administrativo dos assuntos comuns de toda a classe burguesa [...] Onde quer que tenha chegado ao domínio ela destruiu sem piedade todos aqueles laços multicoloridos que no regime feudal ligavam os homens aos seus superiores naturais, e não deixou entre homem e homem outros vínculos além do nu interesse e do impiedoso pagamento em dinheiro [...] Resolveu a dignidade pessoal em um simples valor de troca; e às muitas e variadas liberdades bem adquiridas e consagradas em documentos, substituiu a única e única liberdade do comércio, de dura e impiedosa consciência”.

Se a sociedade burguesa concede aos dominados uma melhoria das condições de vida vegetativa (incluindo aqui também aquelas compreendidas no reino do mental!), não é porque os pressupostos exclusivamente egoístico-econômicos sobre os quais a sociedade burguesa se funda tenham desaparecido.

Costuma-se dizer com razão que o “diabo” é tanto mais perigoso quanto mais se tornou respeitável! E, de fato, o maior bem-estar é devido, consequentemente, ao fato de que, no desenvolvimento histórico da sociedade burguesa, as tendências à hegemonia política por parte do burguês, consolidadas em um efetivo “pré-poder” político, simplesmente assumiram modalidades de força diferentes das anteriores, mas, como as anteriores, elas expressam manifestações coerentes de uma mesma e idêntica realidade: fechada em esquemas, justamente, de tensão produtivístico-consumista.

O capitalista, ou seja, compreende que, aumentando o salário ao trabalhador, este comprará a geladeira ou o automóvel produzido pelo capitalista; ele se dá conta de que, atordoando quem trabalha com a obsessão de necessidades sempre novas, e, portanto, não reais mas ilusórias, artificiais, e obrigando-o a se preocupar em adquiri-las, poderá intoxicar completamente de trabalho o trabalhador.

Este último, então, manso e bom, tranquilo como um boi (um boi que, periodicamente, poderá mugir por reivindicações salariais: ao qual, às vezes, será até concedida a ilusão de se comportar como um touro livre e será permitido danificar o curral!), não realizará nenhuma tentativa de substituir a “própria” hegemonia à do burguês.

O Estado, portanto, nas democracias “representativas” burguesas, é o lugar político apenas do burguês: a sua única real destinação e função é determinada pela economia burguesa, consiste na defesa da economia burguesa, na sublimação da economia burguesa.

Auxiliada pelos meios de penetração que as aplicações técnicas da “ciência” burguesa lhe oferecem, a burguesia, após ter reduzido o homem ao nível de trabalhador, conseguiu completar o processo de identificação entre o momento “individual” e o “social” e encher de si todo domínio.

O mercador impôs a todos as próprias inclinações, as próprias aspirações: vocações diversas, estranhas (não diríamos superiores, mas apenas diferentes!) não possuem margem alguma no espaço político que é do burguês, que pertence apenas a quem é “burguês”.

A própria arte, apesar da hipócrita justificação (ou dignificação?) em esquemas de autonomia que os burgueses se preocupam em atribuir-lhe, é rigorosamente funcionalizada para o deleite (ou, melhor, para as masturbações intelectuais) dos burgueses.

A “livre” ciência não é outra coisa senão pesquisa voltada ao progresso do sistema burguês, ou seja, ao potencialização das estruturas da sociedade burguesa: ou seja, tecnologia eficiente servida às “conquistas” desta última.

A própria justiça não é outra coisa senão a cristalização nos códigos das ideias dominantes no seio da sociedade burguesa, das ideias da classe “prepotente”, que é a burguesa.

Qualquer distonia, qualquer disfunção do sistema é por ela atribuída ao sabotagem operada pelos ini