O dia 13 de janeiro de 1815 constitui uma data fundamental na história política e simbólica do Rio da Prata. Nesse dia foi hasteada e jurada, pela primeira vez, a bandeira desenhada por José Gervasio Artigas no Quartel-General de Arerunguá. Não se tratou de um gesto cerimonial isolado, mas de um ato profundamente político, nascido como resposta direta ao centralismo e ao projeto unitário do governo de Buenos Aires, que se recusava a reconhecer o federalismo defendido pelos povos livres.
A criação dessa bandeira foi explicada de forma explícita pelo próprio Artigas em seu ofício de 4 de fevereiro de 1815 ao Governador Intendente de Corrientes, Tenente-Coronel José de Silva. Nele, deixou claro que a bandeira deveria ser um símbolo comum de identidade e de luta para todos aqueles povos libertos da opressão centralista. A bandeira artiguista, com seu desenho de branco ao centro, azul nas extremidades e faixas vermelhas intermediárias, expressava uma unidade de sentimentos, uma decisão clara pela república e o reconhecimento do sangue derramado em nome da liberdade e da independência.
Do ponto de vista cronológico, esta foi a primeira bandeira desenhada por Artigas da qual se tem registro. Em torno dela se reuniram os patriotas que lutavam não apenas por uma separação política, mas por um projeto alternativo de organização social e territorial. A bandeira sintetizava o ideário artiguista: república, federalismo, soberania dos povos e rejeição a toda forma de dominação centralista.
A importância daquele ato ultrapassou amplamente o âmbito do acampamento de Arerunguá. A jura da bandeira se replicou nas províncias integrantes da Liga dos Povos Livres, abrindo um caminho profundo e duradouro na história regional. Na Província Oriental, em particular, esse processo tornou-se um antecedente inseparável do nascimento da futura República, tanto no plano político quanto no simbólico.
Embora não se tenha alcançado uma uniformidade absoluta no desenho das bandeiras provinciais, conforme propunha Artigas, cada província adotou sua própria insígnia, reflexo de sua identidade política específica. Essas diferenças não implicaram ruptura com o ideário comum. Pelo contrário, todas as bandeiras da Liga ratificaram os princípios do Chefe dos Orientais e permaneceram fiéis, em linhas gerais, às cores por ele definidas.
O uso do azul, branco e vermelho não foi fruto do acaso nem de uma escolha estética arbitrária. Essas cores possuíam profundos antecedentes na região e foram ressignificadas por Artigas como símbolos da grandeza coletiva, da decisão republicana e do sacrifício na luta pela liberdade e pela independência. Nelas se condensava uma visão política clara e uma ética revolucionária que colocava os povos acima das elites e dos poderes concentrados.
Passados 211 anos daquele 13 de janeiro de 1815, a primeira bandeira artiguista permanece como um símbolo vivo de liberdade, dignidade e orgulho artiguista. Ela não representa apenas um passado heroico, mas um projeto político inacabado que ainda interpela os povos do Rio da Prata e reafirma a atualidade do legado de José Gervasio Artigas.