domingo, 30 de novembro de 2025
Socialismo Mussoliniano
A MEDIOCRIDADE DO JORNALISMO E A FARSA DA DÍVIDA DO RIO GRANDE DO SUL
ANDRÉS GUACURARÍ: O GENERAL GUARANI DA LIBERDADE FEDERAL MISSIONEIRA
Andrés Guacurarí, conhecido simplesmente como Andresito, ocupa um lugar singular na história do Cone Sul. Não foi apenas um comandante regional nem uma nota de rodapé nas guerras do início do século XIX. Foi o primeiro indígena guarani a alcançar o posto de general dentro das forças artiguistas e, mais que isso, tornou-se o símbolo vivo da união entre os povos missioneiros, guaranis e a causa federal liderada por José Artigas.
Filho das Missões e forjado no ambiente multicultural do antigo território guarani, Andresito cresceu em meio a uma sociedade que conhecia como poucas a experiência da autonomia local, da vida comunitária e da resistência ao controle colonial. Quando Artigas iniciou seu projeto de construir a Liga Federal — uma federação de povos livres, rurais, camponeses e indígenas contra o centralismo portenho e montevideano — encontrou em Guacurarí não apenas um aliado, mas um líder natural.
Como governador das Missões, Andresito reorganizou povoados devastados pelas disputas luso-hispânicas, defendeu a liberdade de sua gente e conduziu campanhas militares que frearam o avanço das tropas portuguesas vindas do atual Rio Grande do Sul. Sua liderança se destacou não apenas pela habilidade tática, mas pelo sentido profundo de justiça social que guiava o Artiguismo: terra para quem trabalha, autonomia das comunidades e protagonismo dos povos esquecidos.
Andresito representou, talvez como nenhum outro, o caráter mais autêntico do projeto artiguista. Era indígena, camponês, missioneiro e falava a língua do povo que defendia. Sua presença desmonta a narrativa oficial que tentou transformar as guerras platinas em conflitos apenas entre criollos urbanos. A Liga Federal, através dele, mostrava sua verdadeira face: a de um movimento continental, popular, guarani e profundamente igualitário.
A repressão que se seguiu após sua captura pelos portugueses buscou não apenas derrotar um general, mas apagar a memória de um símbolo. Durante décadas, Andresito foi omitido dos livros, reduzido a menções breves ou silenciosamente empurrado para o esquecimento. Ainda assim, sua figura ressurgiu, como renasce o mato depois do fogo, porque expressa a força de uma identidade que nunca deixou de existir.
Relembrar Andresito hoje é reconhecer o papel fundamental dos povos missioneiros, guaranis e indígenas na formação histórica do Prata. É compreender que o federalismo artiguista não era apenas um projeto político, mas uma tentativa de reconstruir uma sociedade onde a justiça e a igualdade fossem mais do que slogans. É dar nome e voz àqueles que lutaram pela liberdade sem esperar recompensa, que defenderam suas terras com dignidade e que mantiveram viva a chama de um ideal coletivo.
Andresito permanece como um símbolo de resistência popular. Sua história mostra que, apesar de todas as tentativas de apagamento, o espírito federal, missioneiro e guarani continua presente — firme, enraizado e impossível de ser arrancado.
Assim como o próprio povo que ele representou, Andresito sempre volta. Sempre retorna. Porque figuras como a dele não pertencem apenas ao passado: pertencem à própria memória viva da nossa terra.
segunda-feira, 24 de novembro de 2025
O LEGADO DOS IMIGRANTES ALEMÃES NA FORMAÇÃO DO RIO GRANDE DO SUL
quinta-feira, 20 de novembro de 2025
A ROMANTIZAÇÃO DO IMPERIALISMO MEXICA
Nos últimos anos tornou-se comum ver discursos que demonizam de forma absoluta a colonização espanhola, como se os europeus tivessem irrompido em um continente pacífico, harmônico e igualitário. Essa narrativa, herdeira direta da chamada lenda negra, propaganda criada por potências rivais da Espanha nos séculos XVI e XVII ganhou força em meios acadêmicos e nas redes sociais. No entanto, ela resiste cada vez menos quando confrontada com os fatos históricos e com o próprio testemunho dos povos indígenas que viveram aquela época.
Um dos principais equívocos dessa visão maniqueísta é a romantização do império mexica. Retratados muitas vezes como vítimas indefesas, os mexicas governavam um dos sistemas de dominação mais violentos e opressivos das Américas pré-colombianas. Seu poder era sustentado pela conquista permanente de povos vizinhos, pela cobrança de tributos pesadíssimos, pela escravização de inteiras comunidades e por guerras periódicas cujo único propósito era capturar prisioneiros para o sacrifício humano. A antropofagia ritual fazia parte da lógica política e religiosa do império, em atos que tinham caráter público, estatal e recorrente.
O filme Apocalypto, trata bem isso, tribos menores fugindo don terror dos mexicas, e a atuação dos atores indígenas mostrando como devia ser a feição de terror estampada na cara de quem conseguia escapar com vida da violência de um sistema imperial indígena, lembrando que nem toda civilização pré-colombiana vivia em harmonia, como certos discursos tentam sugerir. A própria diversidade indígena é apagada quando se impõe a fantasia de um continente idealizado, sem conflitos, divisões internas ou desigualdades estruturadas.
Outro ponto que desmonta a narrativa simplista da “colonização como destruição unilateral de inocentes” é o fato amplamente documentado de que dezenas de milhares de indígenas lutaram ao lado dos espanhóis contra o império mexica. Povos como tlaxcaltecas, totonacas, otomís e muitos outros viram na chegada de Hernán Cortés uma oportunidade histórica para se libertar de séculos de opressão mexica. Não foram enganados, tampouco manipulados: tinham perfeita consciência de quem eram seus inimigos e não hesitaram em se aliar a quem lhes oferecia uma chance de ruptura.
A ideia de que os ameríndios eram sujeitos passivos, incapazes de tomar decisões políticas, é tão falsa quanto paternalista. Eles escolheram seus aliados de acordo com seus próprios interesses, assim como qualquer sociedade faria diante de um império que sacrificava seus filhos, queimava suas aldeias e confiscava suas colheitas.
Nada disso significa negar que a colonização espanhola teve problemas, excessos, conflitos e injustiças como qualquer processo histórico complexo. Porém, ignorar o papel ativo dos próprios povos indígenas nessa história, bem como romantizar um império que foi brutal e expansionista, é substituir a realidade por um mito conveniente.
A história das Américas pré-colombianas é rica, diversa e cheia de contradições. Tentar reduzi-la a um cenário bucólico destruído por invasores europeus é negar justamente a voz dos povos que resistiram, lutaram, formaram alianças e moldaram o destino do continente. E é também, ironicamente, perpetuar a mesma visão simplória que a lenda negra criou séculos atrás, agora reciclada em retórica ideológica moderna.
Recuperar a verdade histórica não significa justificar violências, mas compreender que o passado não cabe em slogans. E que antes da chegada dos europeus já existiam impérios, guerras, dominações e resistências, inclusive contra os mexicas. A colonização não começou num paraíso: começou num mundo complexo, conflituoso e humano. A verdade histórica exige reconhecer isso.
quarta-feira, 19 de novembro de 2025
O Rio da Prata como Heartland do Cone Sul: uma releitura centrada no Rio Grande do Sul
terça-feira, 18 de novembro de 2025
MISSÕES GUARANIS: A BASE CIVILIZACIONAL DO SUL DESTRUÍDA PELOS BANDEIRANTES
O LEGADO DOS IMIGRANTES ITALIANOS NO RIO GRANDE DO SUL: HISTÓRIA, IDENTIDADE E HERANÇA VIVA
A chegada dos imigrantes italianos ao Rio Grande do Sul, a partir de 1875, marcou profundamente a formação cultural e econômica do estado. Vindos principalmente do Vêneto, da Lombardia e do Trentino, esses homens e mulheres atravessaram o oceano em busca de esperança e de um futuro melhor, deixando para trás aldeias, montanhas e dificuldades que já se arrastavam há gerações na Europa.
Ao chegarem à Serra Gaúcha, receberam do governo imperial brasileiro apenas lotes de terra virgem, ainda cobertos por mata fechada. Não receberam ferramentas, equipamentos agrícolas, animais de tração ou qualquer estrutura mínima para iniciar o cultivo. O que encontraram foi apenas o território bruto e sobre ele tiveram de erguer casas, abrir estradas, preparar o solo e construir suas comunidades inteiras a partir do próprio esforço, criatividade e resiliência.
As primeiras décadas foram duras: solo pedregoso, frio intenso, distância dos centros urbanos e um isolamento total que exigiu o máximo de união familiar. Cada roça aberta, cada parede levantada, cada metro de estradaria improvisada era resultado de um trabalho obstinado, guiado pela fé e pela vontade de prosperar. Dessa luta nasceram núcleos como Caxias do Sul, Bento Gonçalves, Garibaldi, Flores da Cunha e tantas outras cidades que hoje simbolizam superação e espírito empreendedor.
O legado italiano também floresceu nos campos da vitivinicultura, que projetou o Rio Grande do Sul no cenário nacional e internacional do vinho. Na culinária, pratos como polenta, galeto, pão colonial e o vinho de mesa se tornaram parte inseparável da mesa gaúcha. Na cultura, a vida comunitária se expressou em festas, cantinas, corais, sociedades e rituais que ainda resistem ao tempo.
Mais do que técnicas agrícolas ou receitas tradicionais, os italianos deixaram um modo de viver: o valor do trabalho, o orgulho das origens, a importância da família e a devoção à terra que cultivaram com as próprias mãos. A Festa da Uva, por exemplo, é mais do que um evento folclórico é a memória viva de um povo que transformou dificuldades extremas em prosperidade.
Compreender o Rio Grande do Sul é reconhecer esse legado que uniu o velho continente às novas fronteiras do sul cisplatino. Os imigrantes italianos não apenas colonizaram terras: eles civilizaram regiões inteiras a partir do zero, construindo cidades, moldando a identidade regional e transmitindo valores que continuam florescendo em cada nova geração.
sábado, 15 de novembro de 2025
A FARSA DO 15 DE NOVEMBRO - O GOLPE DE 1889: QUANDO O BRASIL COPIOU MAL A REPÚBLICA RIO-GRANDENSE
DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA E O LEGADO ABOLICIONISTA DOS FARRAPOS
O Dia da Consciência Negra, celebrado em grande parte do Brasil em 20 de novembro, é um convite à memória, à justiça histórica e ao reconhecimento da participação decisiva dos negros na construção do país. No Rio Grande do Sul, porém, essa data é no dia 14 de Novembro e assume um significado particular: é o Dia dos Lanceiros Negros, homenagem oficialmente instituída por lei estadual, proposta pelo deputado Luiz Marenco, para preservar a história daqueles que lutaram como homens livres sob a bandeira Rio-grandense.
A causa independentista rio-grandense foi o primeiro movimento político-militar da América Portuguesa a adotar uma política abertamente abolicionista em suas forças armadas e na sociedade. Antes mesmo de qualquer decreto imperial, antes das pressões internacionais, antes da Abolição oficial, os líderes rio-grandenses libertaram seus combatentes negros não como promessa futura, mas como condição imediata de adesão ao novo projeto republicano que nascia no Pampa.
Esses homens, vindos da escravidão, tornaram-se força de choque dos batalhões farrapos, reconhecidos pela disciplina, coragem e habilidade militar. Ao receberem alforria, assumiram lugar de destaque dentro da hierarquia da República Rio-Grandense. Tornaram-se lanceiros, cavalarianos, símbolos de bravura das tropas republicanas, combatendo do início ao fim do conflito como negros livres, não como servos de guerra.
Enquanto o Império do Brasil ainda sustentava a escravidão como pilar da economia e recusava-se a qualquer reforma profunda, a liderança farrapa optou por um caminho inédito. Na prática, a República Rio-Grandense foi o primeiro território lusófono das Américas a integrar negros e libertos como parte estrutural de um exército republicano, com direitos civis reconhecidos.
Esse gesto, muito antes do 13 de Maio de 1888, mostra que o movimento farroupilha, apesar de suas contradições, representou uma das primeiras experiências abolicionistas efetivas da região, abrindo espaço para uma nova compreensão do papel do negro na sociedade sulina.
A memória dos Lanceiros Negros, porém, acabou sendo contaminada por uma narrativa tardia e sem sustentação documental: a suposta traição de David Canabarro na madrugada do episódio de Porongos. Segundo essa versão difundida apenas muito tempo após a guerra, Canabarro teria deliberadamente entregue os negros ao ataque imperial. Contudo, a documentação, os relatos de época, o posicionamento dos próprios descendentes e a crítica historiográfica mais recente mostram que essa acusação não se sustenta.
A estratégia de responsabilizar Canabarro serve apenas para absolver o verdadeiro autor da operação, o comando imperial representado por Caxias e pelo coronel Moringue e transferir a culpa aos farrapos, transformando uma agressão planejada e executada pelo Império em suposta traição interna. O objetivo político desse mito foi claro: manchar a memória dos farroupilhas e apagar o registro de que ali existiu uma força militar negra livre, algo incompatível com a narrativa centralizadora do pós-guerra.
Os próprios fatos posteriores desmentem a versão de “traição”: muitos lanceiros negros escaparam do cerco, outros acompanharam Netto para o Uruguai, e parte deles continuou lutando em conflitos posteriores. A ideia de que todos foram massacrados deliberadamente não encontra suporte na realidade.
No Rio Grande do Sul, a Justiça histórica começa a se restaurar. O estado reconhece oficialmente o Dia 14 de novembro como o dia dos Lanceiros Negros como seu símbolo maior da Consciência Negra. Essa data foi instituída por lei estadual, graças à iniciativa do deputado Luiz Marenco, e representa não apenas uma homenagem, mas uma afirmação: a luta pela liberdade e igualdade faz parte do DNA da terra gaúcha, e os Lanceiros Negros são protagonistas dessa história.
Celebrar o Dia da Consciência Negra no Rio Grande do Sul é, portanto, reconhecer que os negros farrapos, homens livres e combatentes aguerridos, anteciparam em décadas o ideal abolicionista que o Brasil só viria adotar muito tempo depois.