domingo, 30 de novembro de 2025

Socialismo Mussoliniano


Em fevereiro de 1944, foi elaborada uma “lei de socialização” que previa maior nacionalização da indústria, na qual “os trabalhadores deveriam participar da gestão de fábricas e negócios”, juntamente com uma reforma agrária coletivizada. Uma das seções da lei de socialização proclamava: “Aplicação da concepção mussoliniana em temas como uma Justiça Social muito mais elevada, uma distribuição mais equitativa da riqueza e a participação do trabalho na vida do Estado.”

Quando Mussolini discursou aos fascistas milaneses e aos oficiais da Brigada Negra “resega” em 14 de outubro de 1944, ele anunciou as bases de seu novo Estado proletário e sindicalista:

“Alguns ainda nos perguntam: o que vocês querem? Respondemos com três palavras que resumem todo o nosso programa. Aqui estão… Itália, República, Socialização… A socialização nada mais é do que a implantação do Socialismo Italiano…”

Desde a juventude, Mussolini era admirador de Lênin e considerava Stálin um “fascista companheiro”. Até pelo menos 1938, ele chamava Stálin de “criptofascista”. Pouco depois da assinatura do Pacto Hitler-Stálin, em agosto de 1939, Mussolini ficou eufórico e elogiou Stálin por substituir o bolchevismo por “uma espécie de fascismo eslavo”. Para alguns intelectuais fascistas italianos, o bolchevismo de Stálin estava caminhando rumo a uma versão nacionalizada e socialista do fascismo. Gabriele D’Annunzio, considerado um herói popular e o João Batista do Fascismo italiano, dizia que o Estado italiano era “algo como um bolchevismo nacional latinizado”.

Mussolini prometeu que “nunca abandonaria os princípios do socialismo”. Em suas observações finais antes da Assembleia Socialista de Milão que determinou sua expulsão, Mussolini afirmou:

“Não creiam, nem por um momento, que ao retirarem meu cartão de filiação façam o mesmo com minhas crenças socialistas, nem que me impeçam de continuar trabalhando em favor do Socialismo e da Revolução.”

A MEDIOCRIDADE DO JORNALISMO E A FARSA DA DÍVIDA DO RIO GRANDE DO SUL


A imprensa gaúcha revela, dia após dia, que perdeu a coragem de olhar a realidade de frente. Não é mero erro editorial ou desatenção técnica. É mediocridade mesmo. Em 2022, a própria Zero Hora afirmava que a dívida do Rio Grande do Sul com a União estava quitada desde 2013. Bastaram poucos anos para o discurso mudar como se nada tivesse acontecido. Agora, a mesma imprensa garante que a dívida não apenas existe, mas que cresceu. Essa mudança não é inocente. É sinal de uma cultura jornalística que prefere repetir narrativas prontas vindas de Brasília do que investigar, contextualizar e defender o próprio estado que lhes dá nome e público.

Esse comportamento não é novo. A imprensa gaúcha nasceu durante a Guerra Farroupilha servindo ao Império contra o povo daqui. O velho hábito permanece. Quando o tema envolve o Rio Grande do Sul e a União, a imprensa local escolhe sempre o lado do poder central. O lado mais fácil, mais confortável e mais rentável. O lado que agrada anunciantes e autoridades. Nunca o lado da população que trabalha e produz.

Só que a verdade é mais simples do que querem admitir. O Rio Grande do Sul não é devedor. O Rio Grande do Sul é credor. Credor de uma federação que funciona como máquina extrativista sobre seus próprios estados.

Em 2024, a conta é cristalina. O Rio Grande do Sul enviou 57,4 bilhões de reais em tributos para Brasília e recebeu de volta apenas 13,3 bilhões. A diferença de 44,1 bilhões saiu da agricultura, da indústria, dos portos, do comércio, do suor de quem trabalha. Esse valor não volta em infraestrutura, não volta em saúde, não volta em educação, não volta em crédito produtivo. Evapora dentro da máquina federal. Some dentro da lógica liberal que adora pregar eficiência enquanto pratica a centralização mais voraz da história brasileira.

O liberalismo brasileiro é isso: centraliza riqueza e descentraliza responsabilidade. Fala de meritocracia, mas cria barreiras para o desenvolvimento regional. Vende a ideia de que cada estado deve caminhar com as próprias pernas, mas amarra o Rio Grande do Sul de tal forma que sua força produtiva serve apenas para sustentar um centro consumista e burocratizado.

O agricultor prova isso todos os dias. A dívida agrícola gaúcha já passa de 72,82 bilhões. Não é porque o produtor é irresponsável ou ineficiente. É porque enfrenta seca, enfrenta oscilação cambial, enfrenta juros abusivos, enfrenta crédito negado, enfrenta políticas financeiras criadas para agradar bancos, nunca agricultores. O sistema financeiro prefere a especulação a investir no que realmente gera riqueza. O produtor rural luta pela sobrevivência enquanto tecnocratas de Brasília discutem números que não sentem na pele.

O confisco não para aí. A Lei Kandir é o exemplo mais escandaloso de como a União retira do Rio Grande do Sul bilhões em nome de um suposto estímulo ao comércio exterior. Estímulo para quem? Em 2015, o governo estadual calculou 34,6 bilhões de reais em perdas líquidas acumuladas com a lei. Nada disso foi compensado. Nada voltou. Tudo ficou no vazio fiscal que impede o estado de investir no próprio crescimento.

Mesmo assim, falam que o RS é devedor. Falam que deve se ajoelhar no regime de recuperação fiscal. Falam que precisa aceitar cortes, congelamentos, privatizações e submissão. Uma lógica liberal e burocrática que não resolve nada, apenas prolonga a espoliação e transforma o estado em devedor perpétuo. É a ideia de que o trabalhador deve pagar sempre, enquanto o sistema que o explora nunca é responsabilizado.

O Rio Grande do Sul, ao contrário do discurso oficial, é credor moral, econômico e histórico. O estado trabalhou para construir o país, produziu riqueza, alimentou a indústria nacional e sustentou boa parte do PIB brasileiro por décadas. Recebeu pouco em troca. Recebeu menos ainda em respeito.

Hoje o pacto federativo virou uma ficção. A federação se tornou uma estrutura desigual onde alguns produzem e outros consomem. Onde alguns trabalham e outros arrecadam. Onde o labor do Sul financia o luxo da União. Não há cooperação. Há subordinação. Não há parceria. Há drenagem. Não há igualdade. Há exploração.

O discurso liberal fala de livre mercado, mas no Brasil o único livre mercado que existe é o do parasitismo financeiro. Livre para bancos. Livre para especuladores. Livre para quem vive de juros. Nunca livre para quem vive de trabalho.

O Rio Grande do Sul sempre defendeu valores ligados ao trabalho, à dignidade, à autonomia regional e à soberania popular. É justamente por isso que se tornou alvo de um modelo econômico que despreza esses valores e busca transformar estados produtivos em meros provedores de tributos.

O Brasil deve ao Rio Grande do Sul. Deve dinheiro, respeito, autonomia e justiça histórica. E enquanto essa dívida não for reconhecida, não existe união verdadeira. Existe apenas servidão disfarçada de federação.

O estado não deve. O estado cobra. E com razão.

Pesquisa: TcheVoni Santos
Texto: Guilherme Fernandes 

ANDRÉS GUACURARÍ: O GENERAL GUARANI DA LIBERDADE FEDERAL MISSIONEIRA


Andrés Guacurarí, conhecido simplesmente como Andresito, ocupa um lugar singular na história do Cone Sul. Não foi apenas um comandante regional nem uma nota de rodapé nas guerras do início do século XIX. Foi o primeiro indígena guarani a alcançar o posto de general dentro das forças artiguistas e, mais que isso, tornou-se o símbolo vivo da união entre os povos missioneiros, guaranis e a causa federal liderada por José Artigas.

Filho das Missões e forjado no ambiente multicultural do antigo território guarani, Andresito cresceu em meio a uma sociedade que conhecia como poucas a experiência da autonomia local, da vida comunitária e da resistência ao controle colonial. Quando Artigas iniciou seu projeto de construir a Liga Federal — uma federação de povos livres, rurais, camponeses e indígenas contra o centralismo portenho e montevideano — encontrou em Guacurarí não apenas um aliado, mas um líder natural.

Como governador das Missões, Andresito reorganizou povoados devastados pelas disputas luso-hispânicas, defendeu a liberdade de sua gente e conduziu campanhas militares que frearam o avanço das tropas portuguesas vindas do atual Rio Grande do Sul. Sua liderança se destacou não apenas pela habilidade tática, mas pelo sentido profundo de justiça social que guiava o Artiguismo: terra para quem trabalha, autonomia das comunidades e protagonismo dos povos esquecidos.

Andresito representou, talvez como nenhum outro, o caráter mais autêntico do projeto artiguista. Era indígena, camponês, missioneiro e falava a língua do povo que defendia. Sua presença desmonta a narrativa oficial que tentou transformar as guerras platinas em conflitos apenas entre criollos urbanos. A Liga Federal, através dele, mostrava sua verdadeira face: a de um movimento continental, popular, guarani e profundamente igualitário.

A repressão que se seguiu após sua captura pelos portugueses buscou não apenas derrotar um general, mas apagar a memória de um símbolo. Durante décadas, Andresito foi omitido dos livros, reduzido a menções breves ou silenciosamente empurrado para o esquecimento. Ainda assim, sua figura ressurgiu, como renasce o mato depois do fogo, porque expressa a força de uma identidade que nunca deixou de existir.

Relembrar Andresito hoje é reconhecer o papel fundamental dos povos missioneiros, guaranis e indígenas na formação histórica do Prata. É compreender que o federalismo artiguista não era apenas um projeto político, mas uma tentativa de reconstruir uma sociedade onde a justiça e a igualdade fossem mais do que slogans. É dar nome e voz àqueles que lutaram pela liberdade sem esperar recompensa, que defenderam suas terras com dignidade e que mantiveram viva a chama de um ideal coletivo.

Andresito permanece como um símbolo de resistência popular. Sua história mostra que, apesar de todas as tentativas de apagamento, o espírito federal, missioneiro e guarani continua presente — firme, enraizado e impossível de ser arrancado.

Assim como o próprio povo que ele representou, Andresito sempre volta. Sempre retorna. Porque figuras como a dele não pertencem apenas ao passado: pertencem à própria memória viva da nossa terra.

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

O LEGADO DOS IMIGRANTES ALEMÃES NA FORMAÇÃO DO RIO GRANDE DO SUL


A imigração alemã no Rio Grande do Sul, iniciada em 1824, transformou profundamente o estado e deu origem a algumas das comunidades mais organizadas, prósperas e culturalmente marcantes do sul do Brasil. Vindos em grande parte da Renânia, da Pomerânia, da Vestfália e de regiões rurais do norte e centro da Alemanha, esses imigrantes desembarcaram em solo gaúcho em busca de segurança, trabalho e liberdade.

Assim como aconteceria décadas depois com os italianos, os alemães também receberam do governo imperial apenas lotes de terra virgem ao longo do Vale dos Sinos e das margens do Rio dos Sinos. Não receberam ferramentas, casas prontas, animais ou qualquer tipo de estrutura. O que encontraram foi mata fechada, clima úmido, isolamento e longas distâncias até qualquer centro urbano. A partir do próprio esforço, ergueram tudo o que viriam a chamar de lar.

As primeiras colônias, como São Leopoldo, Hamburgo Velho, Dois Irmãos, Novo Hamburgo, Estância Velha e Santa Maria do Herval, nasceram do trabalho coletivo e da disciplina que acompanhava essas famílias desde a Europa. Cada estrada aberta, cada roça plantada e cada casa de enxaimel levantada representavam a união comunitária que transformou dificuldades em prosperidade.

Com o passar das décadas, das vivências compartilhadas e da mistura entre dialetos germânicos, nasceu algo singular: a identidade hunsriqueana, expressão cultural única do Rio Grande do Sul. Originado principalmente do dialeto Hunsrückisch, trazido pelos colonos do Hunsrück e transformado pela convivência brasileira, o hunsriqueano se consolidou como uma das maiores línguas de imigração do Brasil e patrimônio imaterial reconhecido. Não é apenas um idioma: é um modo de vida, um conjunto de valores, práticas comunitárias, religiosidade, comidas típicas, músicas e histórias transmitidas de geração em geração.

O legado alemão floresceu de forma marcante. A agricultura baseada na pequena propriedade, o cooperativismo, a metalurgia, a indústria do couro e do calçado, a organização comunitária e o espírito empreendedor moldaram regiões inteiras. A culinária com cucas, pães, linguiças e cervejas artesanais se uniu às festas e tradições que ainda animam as antigas colônias.

Mais do que técnicas agrícolas ou saberes industriais, os alemães deixaram valores profundos. Disciplina, organização, religiosidade, educação comunitária, respeito ao trabalho e busca contínua pelo bem-estar coletivo foram marcas que moldaram cidades e famílias inteiras. E entre todas essas marcas, a identidade hunsriqueana permanece como uma das expressões culturais mais vivas e resistentes do povo descendente de imigrantes germânicos no estado.

Compreender o Rio Grande do Sul é reconhecer a influência vital dos imigrantes alemães e a forma como seu legado atravessou gerações. Eles não apenas ocuparam terras. Eles criaram comunidades coerentes, ergueram estruturas econômicas duradouras e cultivaram valores que continuam florescendo em cada canto das antigas colônias alemãs do estado.

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

A ROMANTIZAÇÃO DO IMPERIALISMO MEXICA

Nos últimos anos tornou-se comum ver discursos que demonizam de forma absoluta a colonização espanhola, como se os europeus tivessem irrompido em um continente pacífico, harmônico e igualitário. Essa narrativa, herdeira direta da chamada lenda negra, propaganda criada por potências rivais da Espanha nos séculos XVI e XVII  ganhou força em meios acadêmicos e nas redes sociais. No entanto, ela resiste cada vez menos quando confrontada com os fatos históricos e com o próprio testemunho dos povos indígenas que viveram aquela época.

Um dos principais equívocos dessa visão maniqueísta é a romantização do império mexica. Retratados muitas vezes como vítimas indefesas, os mexicas governavam um dos sistemas de dominação mais violentos e opressivos das Américas pré-colombianas. Seu poder era sustentado pela conquista permanente de povos vizinhos, pela cobrança de tributos pesadíssimos, pela escravização de inteiras comunidades e por guerras periódicas cujo único propósito era capturar prisioneiros para o sacrifício humano. A antropofagia ritual fazia parte da lógica política e religiosa do império, em atos que tinham caráter público, estatal e recorrente.

O filme Apocalypto, trata bem isso, tribos menores fugindo don terror dos mexicas, e a atuação dos atores indígenas mostrando como devia ser a feição de terror estampada na cara de quem conseguia escapar com vida da violência de um sistema imperial indígena, lembrando que nem toda civilização pré-colombiana vivia em harmonia, como certos discursos tentam sugerir. A própria diversidade indígena é apagada quando se impõe a fantasia de um continente idealizado, sem conflitos, divisões internas ou desigualdades estruturadas.

Outro ponto que desmonta a narrativa simplista da “colonização como destruição unilateral de inocentes” é o fato amplamente documentado de que dezenas de milhares de indígenas lutaram ao lado dos espanhóis contra o império mexica. Povos como tlaxcaltecas, totonacas, otomís e muitos outros viram na chegada de Hernán Cortés uma oportunidade histórica para se libertar de séculos de opressão mexica. Não foram enganados, tampouco manipulados: tinham perfeita consciência de quem eram seus inimigos e não hesitaram em se aliar a quem lhes oferecia uma chance de ruptura.

A ideia de que os ameríndios eram sujeitos passivos, incapazes de tomar decisões políticas, é tão falsa quanto paternalista. Eles escolheram seus aliados de acordo com seus próprios interesses, assim como qualquer sociedade faria diante de um império que sacrificava seus filhos, queimava suas aldeias e confiscava suas colheitas.

Nada disso significa negar que a colonização espanhola teve problemas, excessos, conflitos e injustiças como qualquer processo histórico complexo. Porém, ignorar o papel ativo dos próprios povos indígenas nessa história, bem como romantizar um império que foi brutal e expansionista, é substituir a realidade por um mito conveniente.

A história das Américas pré-colombianas é rica, diversa e cheia de contradições. Tentar reduzi-la a um cenário bucólico destruído por invasores europeus é negar justamente a voz dos povos que resistiram, lutaram, formaram alianças e moldaram o destino do continente. E é também, ironicamente, perpetuar a mesma visão simplória que a lenda negra criou séculos atrás, agora reciclada em retórica ideológica moderna.

Recuperar a verdade histórica não significa justificar violências, mas compreender que o passado não cabe em slogans. E que antes da chegada dos europeus já existiam impérios, guerras, dominações e resistências, inclusive contra os mexicas. A colonização não começou num paraíso: começou num mundo complexo, conflituoso e humano. A verdade histórica exige reconhecer isso.

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

O Rio da Prata como Heartland do Cone Sul: uma releitura centrada no Rio Grande do Sul


Transportar a ideia de Heartland para o sul do continente não significa copiar o modelo euroasiático. O conceito, conforme o pensamento de Dugin, funciona mais como um princípio geopolítico do que como um mapa fixo. Ele descreve um espaço interior capaz de gerar coesão cultural e projetar influência para as regiões ao redor. No Cone Sul, essa lógica encontra base no eixo formado pelo Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina, um conjunto territorial que sempre funcionou como centro e não como periferia.

A região platina não é apenas uma fronteira entre países. Ela tem sido, ao longo da história, um ponto de articulação econômica, militar e simbólica. O Rio Grande do Sul ocupa o coração dessa formação. Conecta o Atlântico Sul às rotas interiores que sobem pelo Paraguai e pelo centro do continente, e ao mesmo tempo toca tanto a influência brasileira quanto a argentina, servindo de zona de encontro e, muitas vezes, de tensão entre essas duas esferas.

Os acontecimentos históricos reforçam esse papel central. As guerras cisplatinas, os movimentos políticos do século XIX, a circulação constante de pessoas, os sistemas produtivos que se desenvolveram no pampa e a formação de identidades regionais fortes mostram que este espaço sempre teve vida própria. É uma síntese cultural que mistura heranças luso-hispânicas, indígenas e de imigração europeia, somada a uma tradição militar e organizacional que marcou profundamente o território. Não é um apêndice de Brasília nem um reflexo de Buenos Aires. É um núcleo autônomo que pensa, age e se percebe como tal.

Dentro dessa perspectiva, o Heartland não depende de isolamento, mas de profundidade estratégica. No Cone Sul, essa profundidade aparece na planície platina. E, dentro dela, o Rio Grande do Sul concentra posição geográfica chave, densidade cultural e produtiva, identidade regional coesa e uma inserção natural em redes que conectam o Atlântico, o Prata e o interior.

Assim, o Rio da Prata pode ser visto como o coração geopolítico do subcontinente, e o Rio Grande do Sul como o núcleo que dá forma e unidade a esse coração. É ali que o Sul da América organiza sua própria lógica, diferente dos centros tropicais e andinos, e é ali que se abre a possibilidade de um projeto geopolítico próprio, seja cultural, econômico ou estratégico. A história mostra, várias vezes, que compreender o espaço platino é compreender o eixo vital do Cone Sul.

terça-feira, 18 de novembro de 2025

MISSÕES GUARANIS: A BASE CIVILIZACIONAL DO SUL DESTRUÍDA PELOS BANDEIRANTES


É difícil aceitar essa ideia de que o Rio Grande do Sul teria alguma dívida cultural com os paulistas ou que a presença biriva seria um pilar central na formação do gaúcho serrano. Quando os bandeirantes finalmente chegam ao antigo território rio-grandense, toda a região sul, incluindo Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, já estava organizada por uma ampla rede de reduções hispano-guaranis que funcionavam como cidades completas, com agricultura, artesanato, pecuária, escolas e uma vida comunitária avançada.

Essas reduções não estavam concentradas apenas no RS. No Guayrá, no território do atual Paraná e parte de Santa Catarina, existiam localidades como Loreto, Santo Inácio Mini, Santo Inácio Guazú, Xerez, Nuestra Señora de la Encarnación, San Pedro, San Pablo, Acaray, Tayaobá, Ciudad Real e Vila Rica do Espírito Santo. No Tape, área que abrange o Rio Grande do Sul e o norte da Argentina, estavam São Miguel Arcanjo, São Lourenço Mártir, São João Batista, São Luís Gonzaga, Santo Ângelo Custódio, São Nicolau, São Francisco Xavier, Candelária, Jesus Maria e Assunção do Ijuí. Já na região de Itatim, entre o sul do Mato Grosso do Sul e o Paraguai, existiam reduções como Nossa Senhora da Candelária de Ipané, San José, San Pedro, São Tomé, Encarnação, Santa Bárbara e Santa Teresa, além de outras menores.

Todas estavam conectadas por caminhos indígenas e missioneiros que já uniam a região muito antes da chegada dos paulistas. Essas rotas ligavam Buenos Aires, Montevidéu, Assunção, Encarnación, Corrientes e também Sorocaba. Os bandeirantes apenas se aproveitaram de uma rede de circulação que já existia havia décadas, estruturada pelos próprios guaranis e padres missionários.

Outro ponto importante é que os primeiros tropeiros do sul não eram paulistas. Eram os índios missioneiros, que conduziam gado, cavalos e mulas entre as reduções, dominando a lida campeira e as longas travessias. Quando esses indígenas passam a conviver e a se misturar com colonos criollos, os espanhóis nascidos na América, surge no Prata a figura do primeiro gaúcho, um mestiço livre, cavaleiro e fronteiriço, muito anterior a qualquer influência biriva.

Por isso não faz sentido afirmar que os paulistas teriam formado a cultura serrana ou que trouxeram algo fundamental para a identidade gaúcha. Quando eles chegam, encontram uma sociedade pronta, caminhos estabelecidos e um sistema civilizacional que eles próprios destruíram. E muitas das cidades que ergueram foram construídas sobre os restos das reduções que haviam sido arrasadas.

A base profunda da região sul é guarani, missioneira, hispânica e platina. Não é paulista.

O LEGADO DOS IMIGRANTES ITALIANOS NO RIO GRANDE DO SUL: HISTÓRIA, IDENTIDADE E HERANÇA VIVA

A chegada dos imigrantes italianos ao Rio Grande do Sul, a partir de 1875, marcou profundamente a formação cultural e econômica do estado. Vindos principalmente do Vêneto, da Lombardia e do Trentino, esses homens e mulheres atravessaram o oceano em busca de esperança e de um futuro melhor, deixando para trás aldeias, montanhas e dificuldades que já se arrastavam há gerações na Europa.

Ao chegarem à Serra Gaúcha, receberam do governo imperial brasileiro apenas lotes de terra virgem, ainda cobertos por mata fechada. Não receberam ferramentas, equipamentos agrícolas, animais de tração ou qualquer estrutura mínima para iniciar o cultivo. O que encontraram foi apenas o território bruto e sobre ele tiveram de erguer casas, abrir estradas, preparar o solo e construir suas comunidades inteiras a partir do próprio esforço, criatividade e resiliência.

As primeiras décadas foram duras: solo pedregoso, frio intenso, distância dos centros urbanos e um isolamento total que exigiu o máximo de união familiar. Cada roça aberta, cada parede levantada, cada metro de estradaria improvisada era resultado de um trabalho obstinado, guiado pela fé e pela vontade de prosperar. Dessa luta nasceram núcleos como Caxias do Sul, Bento Gonçalves, Garibaldi, Flores da Cunha e tantas outras cidades que hoje simbolizam superação e espírito empreendedor.

O legado italiano também floresceu nos campos da vitivinicultura, que projetou o Rio Grande do Sul no cenário nacional e internacional do vinho. Na culinária, pratos como polenta, galeto, pão colonial e o vinho de mesa se tornaram parte inseparável da mesa gaúcha. Na cultura, a vida comunitária se expressou em festas, cantinas, corais, sociedades e rituais que ainda resistem ao tempo.

Mais do que técnicas agrícolas ou receitas tradicionais, os italianos deixaram um modo de viver: o valor do trabalho, o orgulho das origens, a importância da família e a devoção à terra que cultivaram com as próprias mãos. A Festa da Uva, por exemplo, é mais do que um evento folclórico é a memória viva de um povo que transformou dificuldades extremas em prosperidade.

Compreender o Rio Grande do Sul é reconhecer esse legado que uniu o velho continente às novas fronteiras do sul cisplatino. Os imigrantes italianos não apenas colonizaram terras: eles civilizaram regiões inteiras a partir do zero, construindo cidades, moldando a identidade regional e transmitindo valores que continuam florescendo em cada nova geração.

sábado, 15 de novembro de 2025

A FARSA DO 15 DE NOVEMBRO - O GOLPE DE 1889: QUANDO O BRASIL COPIOU MAL A REPÚBLICA RIO-GRANDENSE


O debate sobre a Proclamação da República quase sempre é tratado de forma simplificada, como se o 15 de novembro fosse um ato grandioso que mudou os rumos do país por vontade popular. Mas basta olhar com um pouco mais de atenção para perceber que a história não combina com a imagem oficial. Enquanto o Brasil comemora um golpe articulado por poucos, o Rio Grande do Sul carrega na memória uma experiência republicana 53 anos antes da república brasileira, bem mais profunda e construída com participação real do povo. Comparar esses dois episódios expõe não só a artificialidade do movimento de 1889, mas também o quanto ele tentou, sem sucesso, imitar o que a República Rio-Grandense já havia representado meio século antes.

A data de 15 de novembro costuma ser celebrada como o marco do nascimento da República brasileira, mas para quem conhece a história do sul do continente essa narrativa soa artificial. O que ocorreu no Rio de Janeiro em 1889 esteve longe de ser um movimento popular ou um gesto autêntico de autodeterminação. Foi antes um arranjo de cúpula, decidido por militares e por parte da elite imperial insatisfeita, que derrubou a monarquia sem consulta pública, sem participação popular e sem qualquer projeto orgânico de nação. A chamada República da Espada começou como um golpe e continuou como um governo tutelado pelos mesmos grupos que controlavam o país desde antes.

Quando se compara esse episódio com o que foi a experiência republicana rio-grandense, a diferença salta aos olhos. Em 1836 não houve proclamação improvisada nem teatro político. A República Rio-Grandense nasceu de uma longa guerra, de uma mobilização real, de um povo que assumiu armas, terras e destino próprios. A ideia de república no sul não era um slogan, mas uma construção que se pagava com sangue, com organização social e com um sentimento de pertença que o movimento de 1889 jamais alcançou. Por isso tantos gaúchos sempre viram o 15 de novembro como uma paródia, uma cópia desbotada de algo que havia sido vivido de maneira muito mais profunda meio século antes.

Outro ponto que torna o episódio ainda mais frágil é o fato de que as motivações de Deodoro da Fonseca estavam longe de ser ideológicas. O marechal não era republicano convicto, não tinha projeto civilizatório e tampouco se aproximava de ideias modernas de governo. Seu impulso decisivo veio de um ressentimento pessoal contra o gaúcho Gaspar Silveira Martins, figura influente do Império. Deodoro acreditava que Silveira Martins havia conspirado contra ele e alimentava uma animosidade antiga. O golpe acabou sendo, em grande parte, consequência dessa rivalidade pessoal, o que mostra o quanto o nascimento da República brasileira se deu mais por paixões privadas do que por um espírito público.

A república brasileira oficializou-se no papel, mas preservou estruturas coloniais, manteve velhos poderes e substituiu a coroa por fardas. Já a república rio-grandense, mesmo derrotada militarmente, deixou uma memória política que não se apagou, porque expressava uma vontade coletiva e não o capricho de um quartel. É por isso que muitos no Rio Grande do Sul lembram o 11 de setembro como o verdadeiro símbolo republicano, e olham o 15 de novembro como um gesto oportunista que tentou vestir-se com a glória alheia.

No fim, o golpe de 1889 não trouxe independência nem renovação. Trouxe apenas um novo nome para um velho regime. A república que nasceu a cavalo nas coxilhas foi muito mais autêntica, mais orgânica e mais enraizada. O resto foi apenas Brasil tentando plagiar a história que não teve coragem de construir por si mesmo.

DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA E O LEGADO ABOLICIONISTA DOS FARRAPOS


A história do povo negro na América portuguesa é marcada por resistência, coragem e protagonismo, muito além das versões simplificadas que costumam aparecer nos livros escolares. No Rio Grande do Sul, essa trajetória ganha contornos próprios, profundamente ligados à Revolução Farroupilha e a posterior guerra dos farrapos e aos homens negros que, como lanceiros, cavalarianos e combatentes, fizeram da luta pela liberdade um princípio inegociável. Em um período em que o Império ainda sustentava a escravidão como fundamento político, os farrapos tomaram um rumo diferente e abriram espaço para que negros libertos se tornassem parte vital não só do seu exército, mas também da sociedade rio-grandense. Nesse contexto, o Dia da Consciência Negra assume um significado especial no estado, pois lembra a resistência afro-gaúcha, símbolos máximos de bravura e liberdade nessas terras cisplatinas.

O Dia da Consciência Negra, celebrado em grande parte do Brasil em 20 de novembro, é um convite à memória, à justiça histórica e ao reconhecimento da participação decisiva dos negros na construção do país. No Rio Grande do Sul, porém, essa data é no dia 14 de Novembro e assume um significado particular: é o Dia dos Lanceiros Negros, homenagem oficialmente instituída por lei estadual, proposta pelo deputado Luiz Marenco, para preservar a história daqueles que lutaram como homens livres sob a bandeira Rio-grandense.

A causa independentista rio-grandense foi o primeiro movimento político-militar da América Portuguesa a adotar uma política abertamente abolicionista em suas forças armadas e na sociedade. Antes mesmo de qualquer decreto imperial, antes das pressões internacionais, antes da Abolição oficial, os líderes rio-grandenses libertaram seus combatentes negros não como promessa futura, mas como condição imediata de adesão ao novo projeto republicano que nascia no Pampa.

Esses homens, vindos da escravidão, tornaram-se força de choque dos batalhões farrapos, reconhecidos pela disciplina, coragem e habilidade militar. Ao receberem alforria, assumiram lugar de destaque dentro da hierarquia da República Rio-Grandense. Tornaram-se lanceiros, cavalarianos, símbolos de bravura das tropas republicanas, combatendo do início ao fim do conflito como negros livres, não como servos de guerra.

Enquanto o Império do Brasil ainda sustentava a escravidão como pilar da economia e recusava-se a qualquer reforma profunda, a liderança farrapa optou por um caminho inédito. Na prática, a República Rio-Grandense foi o primeiro território lusófono das Américas a integrar negros e libertos como parte estrutural de um exército republicano, com direitos civis reconhecidos.

Esse gesto, muito antes do 13 de Maio de 1888, mostra que o movimento farroupilha, apesar de suas contradições, representou uma das primeiras experiências abolicionistas efetivas da região, abrindo espaço para uma nova compreensão do papel do negro na sociedade sulina.

A memória dos Lanceiros Negros, porém, acabou sendo contaminada por uma narrativa tardia e sem sustentação documental: a suposta traição de David Canabarro na madrugada do episódio de Porongos. Segundo essa versão difundida apenas muito tempo após a guerra, Canabarro teria deliberadamente entregue os negros ao ataque imperial. Contudo, a documentação, os relatos de época, o posicionamento dos próprios descendentes e a crítica historiográfica mais recente mostram que essa acusação não se sustenta.

A estratégia de responsabilizar Canabarro serve apenas para absolver o verdadeiro autor da operação, o comando imperial representado por Caxias e pelo coronel Moringue e transferir a culpa aos farrapos, transformando uma agressão planejada e executada pelo Império em suposta traição interna. O objetivo político desse mito foi claro: manchar a memória dos farroupilhas e apagar o registro de que ali existiu uma força militar negra livre, algo incompatível com a narrativa centralizadora do pós-guerra.

Os próprios fatos posteriores desmentem a versão de “traição”: muitos lanceiros negros escaparam do cerco, outros acompanharam Netto para o Uruguai, e parte deles continuou lutando em conflitos posteriores. A ideia de que todos foram massacrados deliberadamente não encontra suporte na realidade.

No Rio Grande do Sul, a Justiça histórica começa a se restaurar. O estado reconhece oficialmente o Dia 14 de novembro  como o dia dos Lanceiros Negros como seu símbolo maior da Consciência Negra. Essa data foi instituída por lei estadual, graças à iniciativa do deputado Luiz Marenco, e representa não apenas uma homenagem, mas uma afirmação: a luta pela liberdade e igualdade faz parte do DNA da terra gaúcha, e os Lanceiros Negros são protagonistas dessa história.

Celebrar o Dia da Consciência Negra no Rio Grande do Sul é, portanto, reconhecer que os negros farrapos, homens livres e combatentes aguerridos, anteciparam em décadas o ideal abolicionista que o Brasil só viria adotar muito tempo depois.

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

O LEGADO CÉLTICO NA FORMAÇÃO DOS POVOS IBÉRICOS E LATINO-AMERICANOS


A origem dos povos latino-americanos passa por uma longa cadeia de movimentos humanos que moldaram a Europa antes mesmo da formação dos reinos clássicos. Entre esses movimentos, a presença dos povos indo-europeus ocupa um espaço central. Os celtas, parte dessa grande família que inclui germanos, eslavos, itálicos, gregos, indo-arianos e persas, desenvolveram-se inicialmente na Europa Central, num período em que outros grupos já migravam para o sul do continente. Enquanto gregos e itálicos se fixavam no Mediterrâneo, os celtas permaneciam mais ao norte, expandindo-se gradualmente.

Entre os séculos IX e V antes de Cristo, consolidaram-se nas regiões entre o Reno e o Sena, avançaram para as ilhas britânicas e, já por volta do ano 500, atravessaram os Pireneus e chegaram ao norte da Península Ibérica. Em pouco tempo atingiram também o vale do Pó, na Itália, e penetraram no Danúbio, espalhando-se pela Europa Central e até pela Ásia Menor, onde formaram o reino da Galácia. Com o desenvolvimento da cultura de La Tène, por volta do século IV antes de Cristo, o mundo celta alcançou seu auge, embora marcado por uma organização dispersa em vários reinos independentes. A expansão romana, a partir do século III, alterou essa realidade ao impor um poder centralizado que gradualmente absorveu as populações celtas.

Na Península Ibérica, essa presença foi especialmente significativa. Os celtas entraram pelos Pireneus e se espalharam pelo norte, oeste e regiões centrais. O contato com os povos locais, sobretudo os íberos, resultou numa fusão cultural que deu origem ao grupo conhecido como celtibero. Essa assimilação não apagou totalmente as tradições celtas, que permaneceram misturadas às práticas locais e deixaram marcas duradouras na formação da identidade ibérica.

A religiosidade celta, baseada na crença na transmigração das almas e na vida após a morte, influenciou costumes funerários e rituais ligados à natureza. O culto aos astros e às divindades responsáveis pelos ciclos da vida expressava uma espiritualidade profunda que sobreviveu mesmo após a romanização e mais tarde se combinou com elementos cristãos. A sociedade celta era fortemente voltada para a guerra, mas também se apoiava na caça, na pesca e nas atividades domésticas e agrícolas desempenhadas principalmente pelas mulheres, o que garantia a continuidade da vida cotidiana fora dos conflitos.

Ao observar a trajetória histórica da Península Ibérica, de onde partiram os povos que colonizariam a América, torna-se evidente que muitos traços culturais que atravessaram o Atlântico têm raízes nesse passado antigo. A herança céltica, muitas vezes esquecida ou subestimada, acabou integrada ao conjunto de tradições que moldaram a identidade hispânica e, por consequência, parte da identidade latino-americana.

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

O RETORNO DA BANDEIRA RIO-GRANDENSE SOB JÚLIO DE CASTILHOS

Com o advento da República no Brasil, em 1889, o Rio Grande do Sul reencontrou sua antiga insígnia de luta e liberdade. Foi durante o governo de Júlio de Castilhos, então presidente do Estado do Rio Grande do Sul — título que sucedeu a antiga designação de “província de São Pedro”, que a bandeira rio-grandense foi oficialmente restabelecida como símbolo estadual. O ato foi formalizado por meio do Decreto nº 5, de 6 de julho de 1891, que determinou o retorno da bandeira Rio-grandense, agora acrescida o atual brasão de armas, adaptado aos novos tempos republicanos.

Esse brasão, inserido ao centro da bandeira, conserva traços diretos do escudo da antiga República Rio-Grandense de 1836. Nele figuram o escudo oval ladeado por lanças e bandeiras, encimado pelo barrete frígio maçônico — símbolo universal da liberdade — e pela legenda “República Rio-Grandense”, acompanhada da data 20 de setembro de 1835, referência ao início da evolta dos farrapos . Assim, o símbolo que nasceu em Piratini como estandarte de resistência foi transformado, por Castilhos, em emblema oficial do Estado dentro da República Federativa do Brasil.

Segundo o historiador Mário Maestri, a restauração da bandeira farroupilha sob Castilhos marcou o resgate simbólico do passado revolucionário pelo novo regime republicano, que buscava no legado dos farrapos a legitimidade de sua própria fundação (A Revolução Farroupilha, 2013). Já Sandra Jatahy Pesavento observa que a inserção do brasão no pavilhão tricolor representou a reconciliação entre a memória da revolta e o projeto político positivista castilhista, que via no legado dos farrapo a base moral da república rio-grandense (História do Rio Grande do Sul, 1994).

Júlio de Castilhos, influenciado pelo positivismo de Auguste Comte e também pela maçonaria carbonário como os farrapos, via nos símbolos cívicos instrumentos de educação moral e política. O retorno da bandeira e a adoção do brasão refletiam esse ideal: a transformação da memória em civismo, da revolução em ordem. Como observa Tau Golin, “Castilhos incorporou o passado dos farrapos não como nostalgia, mas como fundamento histórico da república moderna que ele pretendia construir” (A Revolução Farroupilha: História e Interpretação, 2001).

Ao sancionar o decreto de 1891, Castilhos deu à bandeira rio-grandense um novo significado. Deixava de ser o estandarte de uma república insurgente para tornar-se o símbolo de um Estado federado, orgulhoso de sua história e consciente de sua singularidade dentro da federação brasileira.

Hoje, ao tremular nas praças e prédios públicos, o pavilhão tricolor carrega em si a memória da resistência dos farrapos e o gesto político de Júlio de Castilhos, que soube unir o passado e o futuro em um só símbolo. A bandeira Rio-grandense é, portanto, o testemunho vivo de uma herança que transcende o tempo, representando o ideal e o espírito republicano que moldou a identidade gaúcha Rio-grandense.

DIA DA BANDEIRA NACIONAL RIO-GRANDENSE: SÍMBOLO DE UMA REPÚBLICA ESQUECIDA


No dia 12 de novembro de 1836, o governo republicano instalado na cidade de Piratini, então primeira capital da República Rio-Grandense, oficializou por decreto a criação do escudo de armas do novo Estado. O documento, assinado por José Gomes de Vasconcelos Jardim, vice-presidente da República Rio-Grandense, e redigido por Domingos José de Almeida, ministro e secretário de Estado dos Negócios do Interior, marcou a consolidação visual de um projeto político que buscava afirmar a soberania e a identidade dos farroupilhas frente ao Império do Brasil.

O texto do decreto expressa com clareza o sentimento de legitimidade nacional que animava os líderes da Revolução Farroupilha. Afirma o documento: “Ocupando já na grande família das nações o lugar que lhe compete o Estado Rio-Grandense, e convindo que ele tenha um escudo d’armas, o Presidente da República decreta...” A linguagem solene e diplomática demonstra que o movimento não se via como mera rebelião provincial, mas como uma nação emancipada, digna de figurar entre os Estados independentes do mundo.

O desenho determinado pelo decreto é simbólico em muitos sentidos. O campo verde, disposto na parte superior junto à haste, representava a esperança e a fertilidade do solo gaúcho. O centro escarlate, em forma de hexágono, remetia ao sangue derramado pelos revolucionários em nome da liberdade e da autonomia. A parte inferior, dourada, simbolizava a riqueza e a abundância do território sulino. Essa combinação, conforme o texto oficial, constituiria “de ora em diante” o escudo de armas do novo país — o mesmo conjunto de cores que, adaptado, seria consagrado como bandeira do Rio Grande do Sul após a reincorporação da província ao Império, em 1845.

A adoção desses símbolos está inserida em um contexto mais amplo da Revolução Farroupilha (1835–1845), o mais longo conflito civil da história do Brasil. O historiador Mário Maestri destaca que “a criação da bandeira e do hino republicano consolidou o ideal de uma identidade política rio-grandense distinta da imperial” (Maestri, A Revolução Farroupilha, 2013). De forma semelhante, Sandra Pesavento observa que “a República Rio-Grandense buscava afirmar-se não apenas por meio das armas, mas pela construção de uma simbologia própria, capaz de unir civis e militares em torno de um ideal comum” (História do Rio Grande do Sul, 1994).

Ao completar 189 anos, a bandeira rio-grandense permanece como testemunho de uma experiência política singular no território brasileiro. Mais do que um estandarte regional, ela simboliza um momento em que a ideia de república, autonomia e soberania popular encontrou expressão concreta no extremo sul do país. A inscrição desse decreto em 12 de novembro de 1836 não apenas fundou um símbolo, mas eternizou uma narrativa de resistência e idealismo que ainda hoje inspira debates sobre o significado da liberdade e da identidade regional.

Em última instância, celebrar esta data é reconhecer a memória de uma tentativa de nação que ousou sonhar com independência em meio à centralização imperial. A bandeira criada em Piratini continua tremulando, não apenas nos mastros das praças gaúchas, mas na consciência histórica de um povo que, há quase dois séculos, declarou seu direito de existir com as próprias cores.

domingo, 9 de novembro de 2025

Entre o Símbolo Solar e o Signo da Fé: Permanências de um Emblema Antigo


A suástica, um dos símbolos mais antigos da história humana, possui uma trajetória que atravessa milênios e civilizações. Sua presença pode ser rastreada por cerca de cinco mil anos, conforme indicam achados arqueológicos em diversos continentes. Muito antes do advento do cristianismo, já na Antiguidade pagã, a suástica figurava como um sinal de reverência sagrada, associada ao sol, à vida e à força criadora do cosmos.

Durante aproximadamente três mil anos antes do nascimento de Cristo, esse símbolo estava presente em culturas indo-europeias, turânicas, nipônicas, nativo-americanas, semitas, etc. Sendo entendido como emblema de luz e movimento cósmico. No entanto, com o surgimento do cristianismo, uma questão natural se coloca: o que aconteceu com a suástica após a difusão da nova fé? Teriam os cristãos rejeitado o símbolo por considerá-lo pagão, ou o reinterpretaram dentro de sua própria espiritualidade?

As evidências arqueológicas oferecem uma resposta surpreendente. Escavações em Roma, datadas de cerca de dois mil anos atrás, revelam que os primeiros cristãos, que sepultavam seus mortos e mártires nas catacumbas subterrâneas, utilizavam a suástica em seus túmulos.

Lajes de pedra, que cobriam as sepulturas, trazem gravadas tanto a suástica quanto o símbolo do círculo solar, demonstrando que esses sinais não foram rejeitados, mas integrados ao imaginário cristão primitivo.

Essas inscrições podem ser vistas em exemplares hoje conhecidos como pertencentes às catacumbas romanas dos séculos III e IV d.C. Uma delas mostra nitidamente a suástica, enquanto a outra combina o motivo da roda solar com o mesmo símbolo. Assim, longe de ser condenado como um ícone pagão, o emblema foi reinterpretado como expressão de eternidade, ressurreição e luz divina, valores compatíveis com a mensagem cristã do período.

A presença da suástica não desapareceu com o tempo. Durante toda a Idade Média, o símbolo continuou sendo utilizado na arte e na ornamentação cristã, mantendo-se como emblema de prosperidade, boa sorte e proteção espiritual.

Ela podia ser vista nas paredes de igrejas, em toalhas de altar, moedas, brasões familiares e até em sinos de batalha. Um exemplo notável é o sino da cidade de Aarhus, na Dinamarca, que ostenta a imagem de uma suástica. Famílias nobres também adotaram o símbolo em seus brasões e construções, como no caso da casa da família von Raven, em Einbeck, erguida por volta de 1600, onde o portão de entrada traz o motivo esculpido em pedra.

Outros registros incluem a porta de uma igreja em Ravena, do século VI, com os símbolos da roda solar e da suástica, e a lápide do general vândalo Estilicão e sua esposa, datada do início do século V, na cidade de Milão.

Até mesmo em representações religiosas do século XVI, como na Missa de São Gregório, da Igreja de Santa Maria em Lübeck, o símbolo aparece bordado em paramentos litúrgicos, com suásticas amarelas sobre fundo vermelho.


A suástica, portanto, não pode ser compreendida apenas dentro de um contexto étnico ou religioso específico. Durante séculos, foi vista como uma representação da luz divina, do movimento do sol e da eternidade da criação de um arquétipo que atravessou fronteiras e religiões, assumindo significados distintos em cada época.


Na era cristã, longe de ser um símbolo de paganismo combatido, ela sobreviveu como sinal de continuidade espiritual entre o antigo e o novo mundo religioso, sendo reinterpretada como imagem da salvação, da vida eterna e da ordem cósmica sob a providência divina.


Referência:
“5000 Anos da Suástica: A História da Suástica e seu Significado, com Referência Especial à Suástica como Símbolo de Salvação para os Povos Germânicos”, Dr. Fritz Geschwendt, 1934 — trecho adaptado do folheto oficial do NSDAP sobre a educação ideológica da juventude alemã.