sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

O que está certo? Ou errado? Direita e Esquerda? Não alimente o diabo.


Por SerpentSmasher

Ditaduras sunitas, as mais sanguinárias e repressivas, como o Afeganistão, Síria (Presidente é um Jihadista do Estado Islâmico) Arábia Saudita e o regime atual iraquiano, são financiadas pelos americanos, e ainda assim o Irã é tratado como o malvado por tentar assegurar a sua própria existência. Quantos países o Irã invadiu? Não é porque teu amigo “esquerdista” defende palestinos ou iranianos que tu tens que ser contra por reflexo. O eixo do mal hoje não é mais a Rússia ou os muçulmanos xiitas. Aprenda antes de passar vergonha.

O Irã é um Estado secularista de orientação conservadora, e muitos dos protestos promovidos lá foram organizados por grupos marxistas, anarquistas e setores ligados a movimentos LGBT e feministas. É isso que muitos que se dizem de “direita” acabam apoiando sem perceber.

O sonho dos EUA e de Israel é transformar o que restou em uma estrutura degenerada e controlada. Aos cristãos, lembrem-se de quem matou Cristo e do que está escrito em seus próprios textos e tradições. Lembrem-se também de quem são os envolvidos em escândalos como o caso Epstein, suas origens e seus princípios.

Direita e esquerda hoje muitas vezes servem ao mesmo propósito maior. Não se engane. Não desperdice seu tempo defendendo aquilo que não compreende. Seja coerente e defenda o lado que corresponde aos seus próprios princípios e valores. Se você se considera tradicionalista e conservador, aprenda como as coisas realmente funcionam antes de tomar partido.

E um último conselho: não aceite narrativas prontas sem questionamento, independentemente de quem as promova.

Nihil novi sob sole. Nihil ordo ab Chao.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Miguel Serrano, A Entrega da Patagônia Mágica


Por Miguel Serrano

"Que tragédia, que maldição impede os chilenos de enxergarem a realidade objetivamente, envolvendo-os em argumentos legalistas que inibem seu comportamento e ação?

A estupidez não conhece limites, levando-os ao extremo de não acusar um assassino de ser criminoso, mesmo que o tenham flagrado em flagrante, porque a lei ainda não o comprovou e ele é um "presumido criminoso".

Da mesma forma, a desapropriação de nossas terras não é desapropriação se for resultado de uma decisão considerada "legal".

E o cretinismo chega ao ponto em que os desapropriados se alegram em poder executar rapidamente a desapropriação, decretada "legalmente".

Esse caminho historicamente trilhado nos aproxima do fim do Chile.

A visão apocalíptica é tal que, mesmo levando em conta a mentalidade suicida dos chilenos, torna-se impossível pensar que a questão seja tão simples a ponto de atribuí-la unicamente à estupidez, à ignorância, à covardia ou à capitulação.

Acima de tudo, porque testemunhamos a profunda indignação, amargura e fúria com que o povo humilde e simples recebeu a decisão de entregar um território que lhe pertence.

Na decisão sobre a Laguna del Desierto, na qual o Chile perde a totalidade daquela região, a atitude dos atuais governantes é tão inacreditável que um observador com sensibilidade e experiência histórica suspeita que por trás dela se esconde uma entrega premeditada, uma conspiração, na qual os principais culpados estão aqui, mas os mentores estão longe.

Uma trama, ou conspiração, mas não de hoje, e sim de tempos antigos.

Sua primeira manifestação visível na história contemporânea é a eclosão da Revolução Francesa, onde se estabeleceram os princípios internacionalistas, que começariam a minar os alicerces que sustentavam os conglomerados étnicos, hierárquicos e espiritualmente transcendentes.

Esse terremoto chegou à nossa América e é responsável pelas vinte e uma repúblicas que aqui se configuram, deixando em aberto a possibilidade de que a maior, a mais poderosa ou a mais astuta devore a menor. Os mais fracos, os mais pusilânimes ou os mais covardes.

Contra todas as leis da Natureza, da Biologia e do Cosmos, onde nada é igual a nada, e onde até os flocos de neve são diferentes, a tentativa de apagar as fronteiras geográficas, étnicas, psicológicas, biológicas e espirituais do planeta começa a se concretizar.

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a "Carta de Charlottenburg", proposta pelo Terceiro Reich para criar um mundo organizado em uma "Nova Ordem" de pátrias "étnicas" e "carnais", baseada na equação "terra e sangue", foi perdida. Ou seja, o respeito às diferenças naturais que surgiram do próprio curso da História, moldando, em última instância, uma individualidade psicogenética inviolável e uma idiossincrasia nacional, em consonância com a terra que nos nutre e com a "paisagem da alma".

Esta é a Pátria, a Nação e a Raça, que devem ser defendidas para que o organismo não pereça.

Com a guerra perdida, a "Carta de San" Francisco foi imposto, dando origem às "Nações Unidas", uma extensão da "Liga das Nações", com sua tentativa equivocada de criar um mundo igualitário, internacionalista e globalista no qual todas as diferenças e raças deveriam se fundir.

Os ingredientes mais eficazes para alcançar isso seriam dois: capital internacional e marxismo internacional, que, em última análise, se tornariam um só:

capital, dinheiro, com suas corporações transnacionais e suas transferências eletrônicas instantâneas e simultâneas".

Da conspiração ao status quo: redes de poder, chantagem e captura institucional no Ocidente


Durante décadas, denúncias sobre redes de controle político baseadas em chantagem, financiamento opaco e influência ideológica foram descartadas como paranoia ou “teorias da conspiração”. O caso Epstein encerrou definitivamente essa discussão. O que antes era negado passou a existir nos autos, em registros de voo, em agendas, em mensagens, em depoimentos e em omissões convenientes.

Jeffrey Epstein não era apenas um criminoso sexual. Ele operava como um ativo político. Sua função central era aproximar elites financeiras, políticas, acadêmicas e midiáticas de um ambiente de comprometimento mútuo, onde segredos se tornam instrumentos de obediência. Isso não é hipótese. É exatamente como funcionam operações clássicas de kompromat descritas por serviços de inteligência desde a Guerra Fria.

A lista de nomes envolvidos não pertence a uma margem radical. Presidentes dos Estados Unidos, membros da realeza britânica, chefes de fundos financeiros, executivos de big techs, ex-diretores de inteligência e figuras centrais da política israelense aparecem de forma documentada nas conexões de Epstein. A ausência de responsabilização proporcional não é falha do sistema. É o próprio funcionamento dele.

O sionismo político não nasce como movimento religioso tradicional, mas como projeto nacional moderno, secular e estratégico, gestado no século XIX com apoio direto do Império Britânico. Seus líderes iniciais falavam a linguagem do colonialismo europeu e operavam segundo sua lógica. Vladimir Jabotinsky, figura central desse processo, defendia abertamente a imposição da soberania judaica pela força e a exclusão econômica e territorial da população árabe nativa. Suas ideias foram reconhecidas por contemporâneos, inclusive Mussolini, como explicitamente fascistas.

Durante o Mandato Britânico na Palestina, milícias judaicas foram armadas e treinadas para reprimir resistência local. A política de “trabalho judaico em terra judaica” levou à expulsão sistemática de árabes de empregos, vilas e fazendas. Esses fatos são amplamente documentados por historiadores israelenses, palestinos e britânicos. Não são invenções retrospectivas.

O Acordo Haavara de 1933 evidencia um capítulo moralmente devastador. Lideranças sionistas negociaram diretamente com o regime nazista para transferir capital judaico da Alemanha para a Palestina, enquanto o Estado alemão retinha parte significativa dos ativos. O acordo beneficiou o projeto colonial sionista ao mesmo tempo em que fortaleceu economicamente o Terceiro Reich em seus primeiros anos. Judeus sem meios financeiros ficaram excluídos dessa “solução” e muitos terminaram nos campos.

Trata-se de um esquema de colaboração mundial documentado, não de acusação ideológica.

O que ocorre hoje em Gaza não é uma operação de segurança. É a destruição sistemática de uma sociedade. Dezenas de milhares de civis mortos, uma proporção massiva de crianças entre as vítimas, destruição quase total da infraestrutura urbana, deslocamento forçado da população e uso deliberado da fome como arma caracterizam, segundo o direito internacional, crime de guerra e crime contra a humanidade.

Declarações públicas de autoridades e intelectuais israelenses desumanizando palestinos foram feitas abertamente, registradas e amplamente divulgadas, sem consequências políticas reais. Isso só é possível porque Israel opera dentro de um regime de exceção moral garantido por seus aliados ocidentais.

O resultado visível é a submissão das elites dos Estados Unidos, Reino Unido e União Europeia a interesses que não passam pelo escrutínio democrático de seus próprios povos. Políticas externas inteiras são moldadas por lobbies, financiamento eleitoral, pressão midiática e operações de constrangimento pessoal. O caso Epstein mostra como essa submissão não é apenas ideológica, mas pessoal e íntima.

Antigas nações cristãs hoje toleram massacres, censuram dissidência interna e criminalizam a crítica geopolítica em nome de uma moral seletiva que não se aplica a aliados estratégicos.


O escândalo Epstein não “prova uma teoria”. Ele revela um método. Um método de controle das elites através de dinheiro, sexo, medo e dependência. Somado ao histórico do sionismo político, às práticas coloniais documentadas e à impunidade atual em Gaza, o quadro é claro: o Ocidente liberal já não governa a si mesmo.

Não se trata de ódio étnico, religião ou fantasia conspiratória. Trata-se de poder real, exercido sem disfarce, protegido pelo silêncio e sustentado pela covardia das instituições.

Negar isso hoje não é ceticismo. É cumplicidade ou cegueira voluntária.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Francisco Antonio Encina, Portales


"A expressão não deve, portanto, sugerir a ideia de que o gênio de Portales criou espontaneamente uma alma nacional e um governo formal. Ambos os fenômenos foram resultado de um impulso criativo que, embora exigisse gênio como elemento masculino, também necessitava de virtudes raciais como elemento feminino. Consequentemente, este não é um fenômeno que possa ser produzido à vontade, nem repetido de forma idêntica. Anos antes ou depois, Portales não poderia ter criado nada. Suprimir a capacidade de exaltação político-religiosa nas mentes escolhidas do elemento castelhano-basco, ou suprimir o assassinato do Barão ou das figuras de Prieto, Bulnes ou Montt, e a história do Chile seria diferente.

O governo chileno de 1830 a 1891 não foi, portanto, resultado de uma fórmula inventada por um gênio, mas sim de um conjunto de ideias poderosas que uma sugestão potente e tenaz fez germinar dentro de uma aristocracia dominante, incapaz de governar por si só, mas capaz de receber a sugestão e executá-la sob sua influência.

O período histórico de 1830 a 1891 é permeado quase que exclusivamente por forças espirituais. Elementos físicos, processos raciais e até mesmo vicissitudes históricas são irrelevantes. Em nenhum momento figuram como fatores sociológicos ativos. Sua espinha dorsal é a luta entre a sugestão portaliana de manter o gênio da raça aprisionado na gaiola que construíra para ele, e os esforços do gênio para escapar, ora por meio da astúcia, ora sacudindo furiosamente as grades, ora batendo a cabeça contra elas, até que em 1891 finalmente consegue se libertar. A inclinação religiosa que o Arcebispo Valdivieso instilou nesse conflito, assim como a contraofensiva de Santa María, foram simplesmente uma transposição da luta para a arena espiritual.

Outros processos se desenrolavam em paralelo. O aumento da comunicação com a Europa, o desenvolvimento da educação e a fase de crescimento intelectual alteraram a própria natureza dessa evolução: sua relativa espontaneidade da primeira metade do século diminuiu, tornando-se cada vez mais reflexiva, até que, no final, culminou em uma imitação que se assemelhava a uma mera paródia das aparências externas da civilização europeia. Mas os efeitos imediatos desses três processos combinaram-se, como aliados, aos esforços da tendência racial de se libertar dos limites da gaiola portaliana. A admiração por instituições políticas estrangeiras e o desejo de implementá-las no Chile aumentaram com o contato. Os princípios políticos encontraram terreno fértil na cultura predominante, aliados ao nível de desenvolvimento intelectual, e se insurgiram furiosamente contra a gaiola.

Os efeitos a longo prazo se expressam na grande crise moral que resultará do colapso abrupto das ideias e sentimentos tradicionais e dos desequilíbrios gerados pela educação. Mas esses efeitos só se tornaram aparentes depois de 1891, e alguns permaneceram latentes até a véspera de 1920.

Durante o mesmo período, houve um crescimento considerável no tecido social e ocorreram modificações na direção do desenvolvimento econômico; e mudanças ocorreram na composição racial, mas estas ainda não se traduziram em fatores ativos de evolução; elas ainda são o tecido do futuro".

Miguel Sessa Brignardello, o último mártir do Patria y Libertad

— Miguel Sessa é o da esquerda, ao lado do Secretário-Geral Roberto Thieme.
— Entrevista com Germán Marín no jornal La Tercera

"Claro, meu primo, que fazia parte do movimento Patria y Libertad. Miguel Sessa Brignardello, protagonista do meu romance A Segunda Mão (2009). Apesar da diferença de idade, éramos muito apegados um ao outro.

Ele me avisou que o golpe de 1973 estava chegando. Disse-me que a única coisa que eu precisava fazer era sair do Chile. E o pobre Miguel sofreu um acidente de carro na estrada em agosto de 73.

Naquela época, o Patria y Libertad estava preparando uma pista de pouso porque iam sequestrar um avião da LAN, e quando ele voltava para Santiago, sofreu o acidente e ficou gravemente ferido.

Ele foi levado para uma clínica administrada pelo Patria y Libertad e morreu lá".

Gastón Soublette, A Estrela do Chile

Por Gastón Soublette

“Este símbolo é válido tanto para a pessoa do governante quanto para a sociedade como um todo, ou seja, para o povo chileno.

E o simbolismo é duplo; o designer (Wood) sabiamente equiparou a síntese da polaridade espírito-vida à integração de duas nações que deram origem à sociedade chilena:

o Chile colonial e a nação araucana.

No que diz respeito a esse simbolismo racial, deve-se destacar o caráter indigenista marcante do texto escrito por Ignacio Zenteno, que alude ao povo araucano em três passagens:


referente aos esmaltes, à estrela e ao huemul, o que acentua e explicita a tendência já observada na análise críptica de todos os emblemas.”

Para compreender o simbolismo dos animais, além do que é brevemente mencionado no texto legal, é preciso observar que ambos formam um par de opostos "elementares" que, em contraste com o par fogo e água determinado pelos esmaltes, constituem o par terra e ar. Eis o motivo pelo qual a puma não foi escolhida como companheira do huemul:

Em referência ao lema "Pela razão ou pela força", eles teriam constituído um par de equivalentes;

Em contrapartida, o designer agiu de forma ortodoxa ao escolher um par elementar que, considerando o caráter de ambos os animais, corresponde perfeitamente ao par de opostos presente no lema.

Porque o huemul, através de sua evolução, representa, nessa posição, a expressão da lei divina na humanidade".

Joaquín Edwards Bello — Se eu traçar este esboço histórico, é para dizer algo novo, algo em progresso, e é isto


Por Joaquín Edwards Bello

que o nacionalismo, num corpo tão jovem como este do Chile, não deve ser definido por uma rejeição concisa e sistemática das influências estrangeiras.

A influência estrangeira que nos não convém é a influência estrangeira centrífuga, que se acumula e depois foge.

É esse tipo que devemos combater, mas não a influência estrangeira que se deixa aprisionar por esta terra ávida e sedutora.

Ercilla, Cochrane, Bello, Prat, Condell, são sementes aprisionadas, benfeitores, escultores desta cera macia.

Não assim as casas comerciais parasitas que ignoram o chamado ardente da América, desta América edênica que é a eterna e já mencionada Eva indígena, cada vez mais enamorada do Adão loiro."

"Os primeiros conquistadores, cujo retrato austero pintei, trabalhavam para o seu rei e alimentavam a ilusão de desapego e partida, mas, infelizmente!" Seus descendentes, os filhos da poligamia hispano-indígena, nosso povo, sofrem um longo castigo, perpetuando seu próprio legado na história.

É por isso que o roto chileno, sobrevivente de crimes e apoteose, possui a generosidade de capitães e a resiliência de chefes.

Eles são magníficos porque nunca foram servos:

o índio não suportou séculos de vassalagem da plebe europeia. Ele era senhor e mestre da terra que o espanhol conquistou com corpos e posses em nome de Deus e do rei".

Mario Góngora, Civilização de Massas e Esperança, e Outros Ensaios


Por Mario Góngora

“Esta civilização baseia-se numa Tecnologia fundada nas Ciências Naturais e Sociais:

A Ciência tornou-se a suprema autoridade da fé humana.

Além disso, esta civilização exige a existência de uma rede ou “aparato” que regule todos os processos coletivos, especialmente os processos sociopsicológicos.

A Tecnologia e as Massas estão intimamente ligadas; elas se geram mutuamente.

A absolutização da Tecnologia tem hoje um alcance planetário, transcendendo as principais diferenças ideológicas; os remanescentes das grandes culturas históricas são geralmente suplantados por esta civilização de massas global, gerada, contudo, dentro da cultura ocidental.

O materialismo prático atual inevitavelmente nos faz pensar no “Pão e Circo” da Civilização Romana, imposto pelo seu Império no final do mundo antigo.

Mas há uma diferença radical: o poder de racionalização da Tecnologia confere ao “aparato” totalizante uma intensidade nunca antes alcançada pelo Império Romano; aqui, ocorre um salto da quantidade para a qualidade.

O internacionalismo técnico-econômico hoje supera obstáculos ideológicos ou de princípio: as grandes questões giram em torno do Os meios, isto é, a tecnologia, não mais os fins.

Para um grande filósofo como Heidegger, a Tecnologia seria hoje a manifestação mais verdadeira do Ser; o erro contemporâneo seria absolutizá-la, sem considerar sua essência.

A racionalização do homem e do mundo deriva remotamente da Ciência Moderna.

Mas quando absolutizada, reflete-se como Materialismo:

As pessoas tornam-se prisioneiras de um “aparelho” criado por elas mesmas e cujos fundamentos e origens não foram suficientemente refletidos, como Heidegger apontou.

O resultado disso tudo tem sido fatal para a individualidade; ocorreu uma despersonalização.

O indivíduo torna-se isolado e atomizado, uma vez que as comunidades e comunhões tradicionais foram destruídas pelo poder das massas; as peculiaridades históricas das classes sociais, povos e nações tendem a desaparecer.

A confiança nas antigas autoridades desaparece, dando lugar a todo tipo de usurpação.

O indivíduo deve adaptar-se às exigências do “aparelho”, deve justificar-se pela utilidade que proporciona ao abastecer as massas.

O religioso ou a contemplação filosófica é vista como um parasita.

Dessa perspectiva, pode-se compreender melhor a angústia existencial de tantas pessoas e os fenômenos compensatórios contra o regime e o "aparato", como a violência, o terrorismo ou o desejo de paz a qualquer preço — todas faces do niilismo, tão bem previsto por Nietzsche e Dostoiévski.

Trata-se de um niilismo de resignação, neste último caso; na violência e no terrorismo, é o anseio de levar os conflitos e as tensões ao extremo, de chegar a qualquer decisão.

A absolutização da tecnologia tem sido fatal, não apenas para o indivíduo humano, mas também para as "coisas" imbuídas de encanto e mistério, como lamentou Rilke.

A dessacralização, que avança implacavelmente no Ocidente desde o século XVIII, varreu, ou varrerá, todo o mistério e a venerabilidade do Universo.

A massificação do homem e sua submissão a poderes anônimos não se limitam a estados totalitários, como muitas vezes se pensa. disse.

Isso também ocorre na sociedade dentro do bloco “ocidental-democrático”.

O que é o nacionalismo hoje? Gastón Acuña, Federico Willoughby, Pablo Rodríguez Grez


Por Gastón Acuña, Federico Willoughby, Pablo Rodríguez Grez

“Ser nacionalista é sentir a nação como uma tarefa.

Talvez o “nacionalismo”, como conceito doutrinário, contenha postulados muito diversos e até contraditórios para cada país e cada momento de sua história; talvez as circunstâncias o tingam e o desfigurem; mas o que permanecerá constante em sua essência é essa visão, essa experiência da nação como uma tarefa que, às vezes, devido à sua impraticabilidade ou impossibilidade, se torna fonte de dor, e que, outras vezes, ao trilhar o firme caminho da unidade nacional, se transforma em júbilo, fé, mística coletiva e fecundidade criativa.

Em suma, sentir a nação, aqui e agora, como uma tarefa coletiva, na qual se está inescapavelmente comprometido e que deve ser realizada em conjunto, comunitariamente, participativamente, com toda a urgência que essa palavra implica, é ser nacionalista.

Portanto, não se pode ser nacionalista e espectador.

É por isso que se argumenta que o nacionalismo, mais do que uma doutrina, é uma atitude, um modo de ser, um comportamento, um estilo de vida".

Mario Castillo Rojas — A visão de Lynch para o futuro do Chile


Por Mario Castillo Rojas

Em seu diário de marcha de Tambo de Mora a Lurín, entre 17 e 25 de dezembro de 1880, Patricio Lynch descreve uma visão futurista do Chile e seu futuro. Dotado de um intelecto elevado, foi levado a governar o Peru como General-em-Chefe do Exército de Ocupação, cargo que ocupou por três anos e dois meses com notável sucesso.

“É preciso ter em mente que não somos amados nem estimados no continente; e que hoje, e amanhã, a guerra virá, e de tal forma que, se não estivermos moral e fisicamente armados, perderemos não apenas Tacna e Arica, Tarapacá, Antofagasta e Magalhães, e quem sabe, poderão até tentar tomar Talcahuano de nós. Nossos descendentes verão isso se se deixarem dominar pela amargura que já mostra suas garras imundas e sujas para destruir o grande e glorioso Exército do Chile, a invencível frota nacional.

Mas nossos inimigos externos jamais alcançarão seu objetivo; não ousarão — não digo declarar guerra contra nós, nem mesmo pensar nisso — se educarmos e cuidarmos do povo da maneira mais especial possível. Devemos ser previdentes e lembrar que Deus nos fez grandes, fortes, saudáveis e robustos, formando uma raça pura e homogênea, sem qualquer mistura híbrida; pois em nossos vales, ravinas, montanhas e campos, em nossas cidades...” e portos... Nas cidades, vilas e aldeias, a raça chilena pura germina, floresce, cresce e se multiplica, sem que o sangue negro africano se misture ao nosso. Um generoso remanescente da pura linhagem araucana, misturado com o sangue nobre e viril da Espanha, devemos, como dissemos, salvar nosso povo, educá-lo, elevá-lo e prepará-lo para a sangrenta luta do futuro.

Leis magnânimas e equitativas; juízes impecáveis que aplicam a justiça a jovens e idosos sem medo e com consciência; moradias higiênicas; hospitais e abrigos para adultos, idosos e crianças; educação geral que fortaleça os homens física, intelectual e moralmente para todos os ofícios e profissões; Serviço militar igualitário, uniforme e democrático, sem exceções odiosas; um serviço militar que coloque o camponês em pé de igualdade com o rico e que prepare a todos para o futuro, para que o Exército e a Marinha se tornem templos onde a pátria, o Chile, seja venerada com uma fé mais augusta e grandiosa do que aquela com que é deificada. O próprio Deus, é disso que precisamos.

Devemos ensinar o povo pelo exemplo; é necessário, se não quisermos ser derrotados amanhã e nos tornarmos os hilotas do continente. Devemos pensar, dizemos, em elevar nossa raça a patamares mais altos, dignificá-la por meio da cultura, tirá-la das tabernas, das favelas; oferecer-lhe entretenimento atraente, passeios gratuitos, demonstrações de moralidade — em suma, fazer com que as classes dominantes, os ricos, cuidem do nosso heróico, paciente e inteligente homem comum, que no Chile é tudo; que é soldado, marinheiro, artesão, artista, agricultor, mineiro, quando quiser.

Que o homem comum morra tão facilmente atacando uma trincheira quanto afundando no rio Esmeralda ao som do grito rouco de Prat: "Embarque, rapazes!" Que ele salte de alegria, rindo com honra e coragem quando, para provar que é homem, doma um potro indomável, desce pendurado por qualquer corda velha em um poço de mina ou se atira destemidamente do prédio mais alto. Da torre mais alta para hastear a bandeira chilena que proclama a conclusão de uma nobre tarefa. Para essa raça, para esse povo pobre, tudo o que for feito será sempre insignificante; para salvar nossas crianças, para educar nossas amadas mulheres, não há sacrifício que não possa ser feito.

Hoje, mais do que nunca, a solução deste problema é imperativa. Temos o dever de viver e de sermos grandes; e já que Deus nos fez fortes, não joguemos ao mar o rico tesouro que possuímos; eduquemos nosso povo, elevando-nos a cada dia; Façamos de cada homem um cidadão cumpridor de seus deveres, e amanhã toda a costa do Pacífico será nossa, a bandeira da estrela solitária desfilará suas cores vivas, grandes, puras e imaculadas, de Punta Arenas até o próprio Canal do Panamá.

E junto com o que foi dito, não lhes tiremos o credo de nossa raça, não os façamos duvidar de Deus, sendo injustos com eles; deixemos-lhes sua fé simples e pura, que em suas imensas tristezas, em seus duros infortúnios, assim como nas tarefas mais árduas da vida, nas indústrias e nos cânticos das vitórias do Chile, nosso homem pobre sempre invocou o deus das batalhas com a fé do velho chileno, com a fé robusta do mineiro de carvão.

Unamo-nos ao nosso povo, sejamos bons para eles, sejamos exemplares, virtuosos e humildes com eles, descendentes de El Cid, Lautaro e Caupolicán!

Mario Góngora, Reflexões sobre Tradição e Tradicionalismo na História do Chile


Por Mario Góngora

“O tradicionalismo não é meramente a perpetuação vegetativa das tradições, nem sua mera veneração (esta última tão característica do Romantismo alemão); o tradicionalismo pressupõe ter atravessado a crise revolucionária, ter detectado completamente esse fenômeno e sua profundidade abissal, para poder agir contra ele.

O tradicionalismo europeu emergiu no ano seguinte à revolta francesa… O período tradicionalista-contrarrevolucionário de Donoso Cortés sucedeu imediatamente os movimentos de 1848. A Revolução Russa provocou uma convulsão semelhante: lembremos de ‘Uma Nova Idade Média’, de Berdiaev, ou da caracterização do comunismo por Pio XI como ‘intrinsecamente perverso’.

A Action Française, o fascismo italiano, as diversas ligas e grupos austríacos da era Seipel-Dollfuss-Schussnigg, o ‘Estado Nuovo’ de Oliveira Salazar; o nacional-socialismo, o falangismo de Primo de Rivera, são tantas outras formas nacionais nascidas durante e contra a revolução do século XX (...) O Cristeros e Sinarquistas no México; os Integralistas no Brasil; os numerosos grupos intelectuais nacionalistas argentinos e o Peronismo inicial.

Os slogans contrarrevolucionários são os mesmos em todos os lugares: Hispanismo (o período colonial, venerado como no Tradicionalismo e Romantismo europeus, a Idade Média); Corporativismo, como uma estrutura social distinta do Capitalismo e do Socialismo; finalmente, em cada país, figuras simbólicas de heróis nacionais capazes de inspirar o novo Nacionalismo.

A Independência neutralizada: Elites desenraizadas e o estrangulamento da Soberania Latino-americana


“Desde su independencia misma todas las potencias mundiales de la época; escúcheme bien, todas, se percataron que aquí había un pueblo viril, guerrero e imperialista que en 30 años habría logrado la unidad latinoamericana (…) Pero nos penetraron a través de nuestra aristocracia vasca que era la más frívola (…) Se nos neutralizó mediante la estrangulación. Por eso pienso que el que viene de afuera tiene que integrarse a la nacionalidad y que por ningún motivo debe permitirse que se gobierne a un pueblo por descendientes inmediatos de extranjeros, porque tienen una mentalidad ajena a la nuestra; no nos interpreta ni conoce; no nos siente ni piensa como chileno neto…” — Ramón Callis Arrigorriaga

A reflexão de Ramón Callis Arrigorriaga parte de um diagnóstico incômodo e, por isso mesmo, frequentemente silenciado. Para ele, o problema central da América Latina não reside na falta de vocação histórica, militar ou civilizacional, mas na forma como essa vocação foi neutralizada desde dentro. A independência não revelou povos frágeis ou passivos, mas sociedades com energia política suficiente para projetar poder, unidade e expansão continental. O obstáculo não foi a ausência de potencial, mas a captura desse potencial por elites desligadas do corpo real da nação.

Segundo essa leitura, as potências mundiais compreenderam muito cedo o perigo estratégico que representava uma América Latina unificada. Não se tratava apenas de territórios recém emancipados, mas de povos com experiência de guerra, domínio territorial e identidade própria em formação. A ameaça não era imediata, mas histórica. Em poucas décadas, caso a independência seguisse um curso autônomo, poderia emergir um polo civilizacional capaz de romper o equilíbrio do sistema mundial.

A resposta externa não se deu prioritariamente pela ocupação direta, mas pela penetração social e política. Callis identifica na aristocracia local o principal vetor dessa infiltração. Elites culturalmente distantes, formadas segundo padrões europeus, passaram a funcionar como intermediárias entre os interesses estrangeiros e a administração dos novos Estados. Não se trata de uma acusação étnica no sentido vulgar, mas de uma crítica ao desenraizamento cultural e espiritual dessas camadas dirigentes.

A ideia central é a da neutralização por estrangulamento. Não foi necessário destruir as nações latino americanas. Bastou impedir que respirassem politicamente. Tratados comerciais, dependência financeira, imitação institucional e governos formados por indivíduos que não se reconheciam no povo que administravam produziram um efeito duradouro. A independência permaneceu formal, enquanto a soberania real foi progressivamente dissolvida.

É nesse ponto que o autor introduz uma questão decisiva. Quem governa importa tanto quanto a forma de governo. A nacionalidade, aqui, não é reduzida a um dado jurídico, mas entendida como pertencimento espiritual, histórico e existencial. Governar um povo exige sentir o mundo a partir de suas categorias próprias. Quem pensa com referências externas, quem mede sua realidade segundo parâmetros alheios, inevitavelmente governa de maneira alienada.

Essa crítica se articula com o fracasso dos projetos soberanistas do século XIX. Bolívar, Rosas, Artigas e outros líderes perceberam que a independência exigia uma elite comprometida com a totalidade nacional. Quando essa elite não se consolidou, ou quando foi substituída por grupos formados na lógica cosmopolita do porto e do comércio exterior, o projeto emancipatório perdeu sua base de sustentação.

O texto de Callis Arrigorriaga não deve ser lido como nostalgia ou fechamento xenófobo, mas como advertência política. A integração do estrangeiro é possível e necessária, desde que implique assimilação real à nacionalidade. O problema não é a origem, mas a permanência de uma mentalidade estrangeira no comando do Estado. Quando isso ocorre, o governo deixa de interpretar o povo e passa apenas a administrá lo como objeto.

A América Latina, nessa perspectiva, não fracassou por incapacidade histórica, mas por ter sido governada reiteradamente por elites que nunca pretenderam conduzir um destino próprio. A vocação de unidade, poder e afirmação civilizacional foi sufocada antes de amadurecer. Recuperá la exige mais do que reformas institucionais. Exige reconstruir uma classe dirigente enraizada, consciente e identificada com o povo real.

O pensamento de Ramón Callis Arrigorriaga recoloca no centro do debate uma pergunta fundamental. Quem somos quando governamos e a quem realmente servem aqueles que nos governam. Enquanto essa questão for evitada, a independência continuará sendo um evento do passado, e não uma tarefa histórica em aberto.

Alejandro Venegas, Sinceridade: Um Chile Íntimo em 1910


Por Alejandro Venegas

"Um alemão pode se estabelecer com sua família em uma cidade populosa, no meio de uma montanha ou em uma praia deserta, mas ali, dentro das paredes de sua casa, está a Alemanha; ali ele ouve sua língua materna sendo falada por sua esposa e filhos, come seus pratos típicos, simples e nutritivos; ele vê por toda parte a limpeza da pátria, os mesmos móveis, as mesmas decorações, os mesmos retratos de seus imperadores; ali, em seus livros, suas revistas e seus jornais, ressoa a voz poderosa de sua raça, uma raça que compete com outras pela primazia na luta pelo progresso universal; ali, o filho, além de aprender a amar o que é bom, aprende a amar aquela terra distante onde o berço de seus pais foi embalado, talvez em meio a tristezas, mas tristezas afetuosas, e a primeira canção que seus lábios proferem é 'Deutschland, Deutschland über alles'." "Alemanha, Alemanha acima de tudo." Nós, chilenos, que nos orgulhamos de nosso patriotismo, caímos na incoerência de criticar os alemães por terem a nobre virtude de preservar a devoção à sua pátria e tentar transmiti-la aos seus descendentes, e, no entanto, preferimos qualquer miserável que esqueça sua nação ao lugar onde possa facilmente encher a barriga. O que diríamos de um chileno que se estabelecesse, não estou dizendo no Peru, mas em qualquer terra estrangeira, e tivesse a covardia de não ousar ensinar seus filhos a pronunciar com carinho o bendito nome do nosso Chile? Não entendemos que um homem vil, incapaz de preservar em seu coração a digna chama do amor patriótico, só gerará filhos mercenários; e, inversamente, o alemão que repete em nosso solo "Deutschland über alles" (Alemanha acima de tudo) será um berço de filhos altruístas e patriotas? Confesso-lhe, senhor, que mais de uma vez em Valdivia me vi profundamente comovido ao ver um grupo de alemães reunidos que, no aniversário de Guilherme II, brindavam com um copo de vinho da chuva ao seu amado imperador. Não sou monarquista, mas os aplaudo porque sei que, para todos eles, o monarca nada mais é do que o símbolo de sua inesquecível pátria.

Joaquín Edwards Bello, Nacionalismo Continental


Por Joaquín Edwards Bello

Explicar esse imperialismo nos parece a melhor maneira de combatê-lo, por ora. Que os Estados Unidos dominem o Mar do Caribe e o Canal nos parece natural. Estamos explicando leis naturais. Que os americanos, por meio de seu dinheiro e espírito empreendedor, queiram fazer bons negócios em países em desenvolvimento nos parece tão claro quanto chilenos fazendo bons negócios na Bolívia ou em Neuquén. Tentamos justificar nossa inferioridade com a falta de coesão e a ausência de grandes leis unificadas. Em nossa compreensão, em países pequenos tudo tende a ser pequeno em proporção, e vice-versa.

(...) Não podemos acreditar na inferioridade étnica dos chilenos, mas sim na crueldade da luta pela sobrevivência e no pessimismo contagioso do fracasso.

Além disso, e isso é muito importante: em grandes nações, fracassos isolados, pessimismo individual, colapsos e deficiências devido à ociosidade em certas camadas sociais passam despercebidos ou são abafados pelo ruído dos vencedores.” Em nações pequenas, as falhas são gritantes. Em grandes nações, isso não acontece, pois reina uma harmonia social infinita ou um equilíbrio equitativo entre defeitos e qualidades. É a visão de fracasso coletivo, mais ou menos evidente em alguns ou outros, que nos torna pessimistas, negligentes e avessos ao esforço.

O projeto renegado: Artigas, a soberania continental e a traição da casta unitária

Este artigo examina a fratura interna que marcou o pós independência no Prata e na América do Sul, contrapondo o projeto soberanista e estatal de Bolívar e Rosas ao federalismo radical de José Artigas. Ao analisar essas divergências, o texto demonstra como a casta unitária liberal, centrada nos portos e nos interesses atlânticos, rejeitou ambos os caminhos por ameaçarem seu controle econômico e político. A conclusão aponta que o projeto emancipatório original foi derrotado menos por suas contradições internas e mais pela opção deliberada das elites por uma independência formal sem soberania real.

A história das independências no Cone Sul não foi marcada apenas pelo confronto contra a metrópole espanhola, mas por uma disputa interna profunda sobre o sentido da própria emancipação. A divergência entre os valores de Simón Bolívar e Juan Manuel de Rosas, de um lado, e os de José Artigas, de outro, revela dois caminhos distintos para a construção política da América pós colonial. Essa fratura ajuda a explicar por que o projeto independentista original acabou sendo renegado e esvaziado pela casta porteña unitária.

Bolívar e Rosas partem de uma mesma constatação histórica: a independência cria um vazio de poder que, se não for preenchido por uma autoridade forte e unificadora, será ocupado pela fragmentação interna ou pela ingerência estrangeira. Para ambos, a soberania não é uma abstração jurídica, mas uma realidade concreta sustentada pela centralização política, pela disciplina social e pela capacidade de decisão. A liberdade, nesse horizonte, não antecede a ordem, mas nasce dela.

José Artigas representa uma lógica distinta. Seu projeto político nasce de uma sensibilidade federal radical, profundamente enraizada nas autonomias locais, nos cabildos e nas comunidades do interior. Artigas desconfiava de qualquer centralização forte e via no poder concentrado um risco de reprodução das estruturas coloniais. Sua concepção de soberania era horizontal, baseada na autonomia das províncias, na participação local e em uma ideia quase confederativa de organização política.

Essa diferença não é meramente administrativa, mas ontológica. Para Bolívar e Rosas, o Estado deve preceder a nação para que a nação possa existir. Para Artigas, a nação emerge de baixo para cima, da soma das autonomias locais. O problema é que esse modelo, embora moralmente atraente, mostrou se politicamente inviável em um contexto de guerra, disputas regionais e pressão constante das potências atlânticas.

É nesse ponto que a casta porteña unitária entra como força decisiva. A elite comercial de Buenos Aires não rejeita Artigas por suas ideias democráticas ou federais, mas porque seu projeto ameaçava o controle do porto, das rendas aduaneiras e da inserção dependente no comércio internacional. O federalismo artiguista não interessava porque não subordinava as províncias ao eixo portuário, mas tampouco interessava um soberanismo forte à maneira de Rosas, que confrontava diretamente os interesses britânicos e limitava o poder das elites ilustradas.

Assim, os unitários porteños constroem uma operação dupla. Demonizam Artigas como bárbaro e anárquico, enquanto rotulam Rosas e Bolívar como tiranos. O que está em jogo não é a forma de governo, mas o controle econômico e político do Estado. O projeto independentista original, que articulava emancipação política, soberania econômica e identidade própria, é substituído por uma independência formal, compatível com a dependência externa e com o liberalismo oligárquico.

Artigas acaba isolado e derrotado não apenas militarmente, mas historicamente. Sua proposta federal radical não encontra base material para se sustentar sem um centro de poder capaz de defendê la. Bolívar morre amargurado, vendo seu projeto continental ruir diante do legalismo liberal e da fragmentação. Rosas, que tentou sintetizar autoridade e federalismo sob uma forma soberanista, é derrubado quando se torna um obstáculo direto aos interesses da elite portuária e de seus aliados externos.

O resultado desse processo é a consolidação de Estados frágeis, formalmente republicanos, mas estruturalmente dependentes. A independência é mantida como mito fundador, enquanto seu conteúdo político real é progressivamente esvaziado. A ruptura com a Espanha não se converte em ruptura com a lógica colonial, apenas muda seus administradores.

Compreender a divergência entre Bolívar, Rosas e Artigas é essencial para entender o fracasso do projeto emancipatório original. Não se tratou de uma disputa entre autoritarismo e liberdade, mas entre soberania concreta e autonomia dispersa, ambas derrotadas, em última instância, por uma elite que nunca pretendeu fundar uma nação, mas apenas gerir um território integrado ao sistema atlântico em posição subalterna.

Juan Manuel de Rosas e a continuação concreta do projeto libertador legado por San Martín: A permanência dos valores de Bolívar no solo platino

Este artigo analisa Juan Manuel de Rosas como elo histórico entre a independência militar conduzida por San Martín e o projeto soberanista formulado por Simón Bolívar. A partir do legado simbólico do sabre e da condução prática do Estado argentino, o texto mostra como Rosas assumiu a tarefa de preservar a unidade, enfrentar as elites liberais porteñas e resistir à ingerência externa. A análise sustenta que, no espaço platino, Rosas realizou de forma concreta aquilo que em Bolívar permaneceu como necessidade histórica não plenamente consumada.

Juan Manuel de Rosas ocupa um lugar singular na história política do Rio da Prata porque encarna, na prática, aquilo que em Bolívar permaneceu em grande parte como projeto trágico e inacabado. Sua figura não pode ser compreendida apenas como a de um caudilho provincial, mas como a de um continuador concreto da lógica soberanista que emerge após o esgotamento das ilusões liberais da independência. O fato de ter recebido, ainda em vida, o sabre de José de San Martín não foi um gesto simbólico vazio, mas um reconhecimento político profundo.

San Martín não legou seu sabre a um teórico, nem a um parlamentar ilustrado, mas a um homem de poder real. O sabre representa a continuidade da luta pela independência em sua fase mais difícil, aquela que começa quando o inimigo externo já foi derrotado, mas a nação ainda não existe. Ao confiar essa insígnia a Rosas, San Martín reconhecia nele o responsável por preservar a integridade, a soberania e a dignidade da Argentina diante das ameaças internas e externas que se seguiam à ruptura com a Espanha.

Rosas assume para si a tarefa que muitos libertadores evitaram ou fracassaram em cumprir: governar. Em vez de se retirar ou buscar legitimação em fórmulas constitucionais abstratas, ele compreende que a independência havia produzido um vazio de autoridade e que, sem um centro de poder efetivo, o território argentino seria dilacerado por guerras civis, ingerência estrangeira e elites dissociadas do povo real. Sua liderança nasce dessa leitura concreta da situação histórica.

O conflito entre porteños unitários e federalistas expressa precisamente esse dilema. Os unitários, herdeiros diretos do liberalismo ilustrado e do cosmopolitismo comercial de Buenos Aires, defendiam um modelo centralizado subordinado aos interesses portuários e à inserção dependente no comércio internacional. Os federalistas, por outro lado, representavam as províncias, os estancieiros, os caudilhos locais e uma concepção orgânica do território. Rosas não elimina essa tensão por meio de discursos conciliatórios, mas pela imposição de uma autoridade capaz de manter o equilíbrio possível entre essas forças.

Sua habilidade política reside justamente nessa síntese. Embora identificado com o federalismo, Rosas exerce um poder central forte, consciente de que a fragmentação levaria à dissolução da soberania. Ele não nega as províncias, mas também não se submete aos interesses exclusivos de Buenos Aires enquanto projeto liberal unitário. Ao concentrar em si a condução das relações exteriores e da defesa, Rosas estabelece os pilares de uma Confederação Argentina que existe menos no papel e mais na prática do poder.

Nesse sentido, Rosas antecipa e realiza aquilo que Bolívar havia intuído. A soberania não pode ser garantida por constituições frágeis nem por pactos entre elites rivais, mas por uma autoridade capaz de enfrentar tanto a dissensão interna quanto a pressão externa. Sua resistência às intervenções anglo-francesas no Rio da Prata e sua recusa em aceitar imposições comerciais confirmam essa postura. A independência não se limitava à ruptura formal com a metrópole espanhola, mas exigia a defesa ativa da autonomia econômica e política.

Rosas também compreendeu que a ordem precede a liberdade. Não a liberdade abstrata dos salões ilustrados, mas a possibilidade concreta de existência nacional. Essa visão o aproximou do espírito romano da ditadura enquanto um estabilizador da ordem social, organizador das instituições e do bolivarianismo enquanto projeto de unidade e autoridade soberana. Assim como Bolívar, Rosas foi acusado de tirania pelos vencedores do discurso liberal. E assim como Bolívar, foi julgado mais pelos critérios morais de seus adversários do que pelas circunstâncias reais que enfrentou.

Ao final, Juan Manuel de Rosas representa uma linha de continuidade no pensamento político latino americano que passa por San Martín e Bolívar. Uma tradição que entende a política como fundação, não como administração; como poder, não como formalidade jurídica. Seu legado não é o de um sistema constitucional exportável, mas o de uma experiência histórica concreta de soberania em um continente marcado pela fragilidade das autoridades repúblicanas e pela dependência externa.

Revisitar Rosas, à luz desse percurso, é compreender que a independência não termina com a proclamação de uma república. Ela apenas começa. E que, em determinados momentos históricos, a responsabilidade de conduzir uma nação exige mais do que boas intenções ou belas leis. Exige autoridade, decisão e a coragem de sustentar a unidade contra todos os ventos.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Da ilusão imperial à consciência soberana: a evolução política de Bolívar e San Martín

Este artigo analisa a transformação do pensamento político de Simón Bolívar e José de San Martín desde o início das guerras de independência até a consolidação dos novos Estados. Partindo das expectativas iniciais de mediação e apoio britânico, o texto mostra como a experiência concreta da guerra, da diplomacia e da dependência econômica levou ambos a uma postura cada vez mais soberanista. A análise revela que essa mudança não foi uma contradição, mas um amadurecimento diante dos limites reais da liberdade formal no sistema internacional.

No início das revoluções independentistas da América do Sul, a linguagem política dos próprios libertadores revela uma ambiguidade que só pode ser compreendida à luz do contexto histórico. Figuras como José de San Martín e Simón Bolívar não surgem, desde o primeiro momento, como pensadores soberanistas plenamente formados, mas como líderes inseridos em um mundo ainda dominado pelas grandes potências europeias e por suas lógicas imperiais. As cartas e declarações desse período inicial mostram um cálculo estratégico e, em certos casos, uma expectativa real de mediação ou apoio britânico no processo de ruptura com a Espanha.

No começo do século XIX, a Inglaterra aparecia como potência hegemônica emergente e rival direta do Império Espanhol. Para muitos revolucionários americanos, Londres parecia representar uma alternativa menos opressiva, capaz de garantir comércio, reconhecimento diplomático e proteção contra uma possível reconquista. As palavras de San Martín dirigidas ao governo britânico em 1818 refletem esse momento. Ele invoca a tradição inglesa de equilíbrio europeu e apresenta a independência americana como um benefício não apenas local, mas civilizacional, quase como uma continuidade do papel estabilizador que a Inglaterra atribuía a si mesma no mundo pós napoleônico.

Simón Bolívar, em sua célebre carta de 1815, também expressa essa expectativa. Ao falar das imensas esperanças que o Novo Mundo ofereceria à indústria britânica e ao sugerir a centralidade estratégica de regiões como Panamá e Nicarágua, Bolívar dialoga diretamente com a lógica imperial do comércio global. Nesse estágio, a independência ainda aparece parcialmente integrada à ordem mundial existente, como se a libertação política pudesse coexistir com uma tutela econômica indireta.

Essa postura não deve ser lida como ingenuidade moral, mas como pragmatismo político. As revoluções ainda eram frágeis, militarmente instáveis e socialmente fragmentadas. O apoio externo era visto como condição de sobrevivência. No entanto, à medida que a guerra avança e as independências começam a se concretizar no campo de batalha, a percepção desses líderes se transforma de maneira profunda.

Com o colapso do poder espanhol em vastas regiões do continente, torna se evidente que a ameaça à liberdade americana não desapareceria com a expulsão da metrópole ibérica. A Inglaterra, embora não colonial no sentido clássico, passa a exercer uma influência econômica crescente, condicionando mercados, impondo tratados desiguais e moldando as novas elites locais. É nesse momento que tanto San Martín quanto Bolívar começam a abandonar a retórica de conciliação imperial e a adotar uma postura cada vez mais desconfiada em relação às potências externas.

No caso de Bolívar, essa mudança é especialmente nítida. Seu pensamento evolui de uma esperança de integração benéfica ao sistema atlântico para uma crítica cada vez mais dura ao imperialismo disfarçado de liberalismo. A defesa da unidade continental, o projeto da Gran Colômbia e a ideia de uma confederação americana expressam essa virada soberanista. Bolívar passa a compreender que a fragmentação política tornaria a América inevitavelmente dependente, ainda que formalmente livre.

San Martín, por sua vez, manifesta essa transformação de maneira mais silenciosa, mas não menos significativa. Seu afastamento voluntário da política, sua recusa em se tornar caudilho permanente e sua desconfiança crescente das disputas internas revelam um ceticismo profundo quanto ao destino das novas repúblicas sob a influência estrangeira e das elites locais associadas ao comércio internacional. A liberdade conquistada no campo militar não se converteu automaticamente em autonomia real.

O ponto comum entre ambos é a passagem de um horizonte tático para um horizonte estratégico. No início, a independência era o objetivo central. Com sua concretização, surge a pergunta mais difícil: independência para quê e sob quais condições. É nesse momento que o discurso liberal e cosmopolita do começo cede lugar a uma visão mais dura, mais trágica e mais soberanista da política.

Esse deslocamento de valores não é uma contradição, mas um amadurecimento histórico. Os próceres libertadores percebem que a liberdade política sem poder, sem unidade e sem controle do próprio destino econômico é uma liberdade apenas formal. A América não havia trocado de senhores para finalmente se emancipar, mas corria o risco de substituir um império decadente por uma dependência moderna e mais sofisticada.

Ao revisitar essas cartas e esse percurso intelectual, torna se possível compreender que o pensamento soberanista latino americano não nasce pronto. Ele é forjado na experiência concreta da guerra, da independência e, sobretudo, da desilusão. Bolívar e San Martín não mudaram seus valores por oportunismo, mas porque a realidade histórica os obrigou a abandonar ilusões e a encarar a política internacional como ela realmente é. Não como um espaço de filantropia entre nações, mas como um campo permanente de disputa entre poder e submissão.

Entre a autoridade soberana e a legalidade: Bolívar, o destino da Gran-Colômbia e a falsificação liberal da história

Este artigo revisita o significado histórico do termo ditador e sua deturpação moderna, articulando essa discussão com o pensamento político de Simón Bolívar. Ao contrastar o projeto de autoridade fundadora bolivariano com o constitucionalismo liberal representado por Santander, o texto argumenta que a soberania na América nasceu do poder concreto e não da abstração jurídica. A análise busca romper com leituras morais simplificadoras e recolocar o debate no terreno da história, da unidade política e da autodeterminação continental.

Ao longo da história política moderna, certos conceitos foram esvaziados de seu sentido original e transformados em rótulos morais a serviço de interesses específicos. Poucos exemplos são tão evidentes quanto o termo ditador. Utilizado hoje quase exclusivamente como insulto político, ele perdeu sua densidade histórica e passou a funcionar como instrumento retórico das potências liberais para deslegitimar projetos soberanos que escapam à lógica do atlantismo ocidental. Este artigo propõe uma retomada histórica e conceitual desse termo, articulando-o com o pensamento político de Simón Bolívar e com o conflito estrutural que marcou o nascimento das repúblicas latino americanas.

Na Antiguidade, a ditadura não era sinônimo de arbitrariedade ou tirania. Em Roma, tratava se de um instituto legal previsto pela própria República. Em situações de ameaça existencial, o Senado autorizava a nomeação de um ditador com plenos poderes e mandato limitado, cuja função era restaurar a ordem e garantir a sobrevivência da comunidade política. A autoridade excepcional não negava a lei, mas existia precisamente para salvá la. A experiência romana demonstra que, em contextos de crise, a concentração de poder foi entendida como uma necessidade política legítima.

Na Grécia antiga, ainda que o vocabulário fosse distinto, a lógica era semelhante. Em diversas pólis, líderes com poderes ampliados assumiram a condução do Estado para conter conflitos internos, reorganizar instituições e proteger a cidade contra ameaças externas. Muitos desses personagens foram posteriormente classificados como tiranos por uma historiografia influenciada por valores liberais tardios, embora em seu contexto histórico tenham desempenhado funções estabilizadoras e fundacionais. A carga negativa associada a esses termos é, em grande parte, resultado de leituras posteriores e interessadas.

Esse mesmo problema de anacronismo reaparece na análise do processo de independência da América. Simón Bolívar compreendeu, talvez como poucos, que as novas nações não estavam diante de um simples problema jurídico, mas de um vazio de poder, identidade e coesão social. Sociedades fragmentadas pela colonização, pela guerra prolongada e pela ausência de instituições próprias não poderiam ser governadas, segundo ele, por modelos liberais importados da Europa ou do mundo anglo saxão.

A Constituição da Bolívia de 1826 expressa de forma clara essa visão. Nela, Bolívar propõe um executivo forte, com presidente vitalício não hereditário, um poder moral voltado à formação cívica e à preservação dos costumes, além de um sistema político centralizado. Longe de representar um capricho autoritário, esse modelo buscava garantir estabilidade, continuidade e soberania em um contexto marcado pela instabilidade permanente. Para Bolívar, a autoridade não era o oposto da liberdade, mas sua condição de possibilidade.

O conflito com Francisco de Paula Santander torna explícita a profundidade desse embate. Santander representava o constitucionalismo liberal formal, baseado no legalismo abstrato, na primazia do parlamento e na separação rígida de poderes. Sua atuação como vice presidente da Gran Colômbia privilegiou a aplicação literal da lei escrita, mesmo quando essa se mostrava incapaz de responder às exigências políticas reais. O choque entre ambos não foi pessoal, mas civilizacional. Tratava se de decidir se a América seria construída a partir da autoridade fundadora ou da normatividade importada.

A Convenção de Ocaña marcou o ponto de ruptura. Diante da tentativa de esvaziar o poder central e aprofundar a fragmentação interna, Bolívar assumiu poderes excepcionais para preservar a unidade do Estado. A partir desse momento, a narrativa liberal passa a rotulá lo como ditador, ignorando deliberadamente o contexto de dissolução iminente da Gran Colômbia. O atentado contra sua vida e o exílio de Santander consolidaram uma ruptura que já era irreversível.

O desfecho histórico é conhecido. Com a morte de Bolívar, o modelo liberal legalista prevaleceu. O resultado foi a fragmentação da Gran Colômbia e o surgimento de Estados formalmente republicanos, mas estruturalmente frágeis, marcados por guerras civis recorrentes, dependência externa e incapacidade de afirmar uma soberania efetiva. Exatamente o cenário que Bolívar havia previsto.
Revisitar esse percurso não significa idealizar governos de exceção ou negar abusos de poder. Significa, antes, recuperar o sentido histórico da política e reconhecer que categorias como ditadura, liberdade e democracia não são universais abstratos, mas respostas concretas a circunstâncias específicas. Bolívar não foi um ditador no sentido vulgar do termo, mas um legislador trágico, consciente de que, sem unidade, autoridade e direção, a liberdade na América se reduziria a uma palavra vazia.

Em um tempo em que o debate político segue refém de slogans morais e classificações automáticas, retornar a essa reflexão histórica é um exercício de lucidez. A experiência bolivariana mostra que soberania não nasce do papel, mas do poder real de decidir o próprio destino. E essa continua sendo uma questão aberta na América Latina.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Quando a norma ignora o campo: a obrigatoriedade do capacete e o esvaziamento da tradição gaúcha


A exigência do uso de capacete no trabalho rural, a partir de interpretações recentes da NR 31, abriu um debate que vai além da segurança e toca diretamente na identidade do campo gaúcho. Ao aplicar normas técnicas de forma genérica e descolada da realidade das estâncias, o Estado acaba colocando em xeque práticas tradicionais, criando insegurança jurídica aos produtores e contribuindo para a descaracterização de uma cultura construída na lida diária do Rio Grande do Sul.

A recente interpretação da Norma Regulamentadora nº 31 que passou a exigir o uso de capacete de proteção em determinadas atividades rurais acendeu um sinal de alerta no RS. O debate extrapolou a esfera técnica e alcançou o coração da cultura gaúcha, onde o chapéu não é acessório supérfluo, mas símbolo identitário forjado em séculos de trabalho no campo, lida com o gado e vida ao ar livre.

Não se discute aqui a importância da segurança no meio rural. Acidentes existem, riscos são reais e a proteção do trabalhador é um objetivo legítimo. O problema surge quando a aplicação da norma se dá de forma genérica, descontextualizada e alheia à realidade concreta das estâncias, dos currais e da própria cultura que moldou o trabalhador do campo no Sul do Brasil.

A NR 31 estabelece que, havendo risco de impacto, queda ou acidente com máquinas e animais, o Equipamento de Proteção Individual deve ser adequado à situação. A partir daí, fiscais e interpretações mais rígidas passaram a tratar o capacete como exigência quase automática, mesmo em atividades tradicionais onde o risco é inerente à lida e sempre foi administrado com técnica, experiência e vestimenta própria. O chapéu gaúcho, embora reconhecido como elemento cultural, foi relegado à condição de mero adereço, desprovido de qualquer valor funcional diante da norma.

Esse movimento revela um traço recorrente da burocracia brasileira: legislar e fiscalizar a partir de gabinetes urbanos, impondo critérios uniformes a realidades profundamente distintas. O trabalho rural não é uma linha de montagem industrial, nem o peão pode ser comparado a um operário de fábrica. A lida campeira exige mobilidade, visão periférica, sensibilidade com o animal e domínio do ambiente. Em muitos casos, o uso de um capacete rígido pode até comprometer a segurança, em vez de ampliá la.

Ao transferir toda a responsabilidade ao empregador, o Estado cria um ambiente de insegurança jurídica no campo. O produtor passa a ser potencialmente punido não por negligência, mas por não se enquadrar em uma leitura abstrata da norma. A intensificação das fiscalizações, sem diálogo prévio e sem critérios claros de razoabilidade, transforma a tradição gaúcha em alvo indireto de autuações e multas.

Há ainda um efeito simbólico grave. Quando o poder público desconsidera os elementos culturais do trabalho rural, transmite a mensagem de que a identidade gaúcha é um obstáculo ao progresso, algo a ser tolerado apenas fora das situações oficiais. Isso não é modernização, é descaracterização. Segurança e tradição não são opostas. Sempre caminharam juntas no campo, transmitidas de geração em geração por meio da prática, da responsabilidade e do conhecimento do risco.

O debate precisa sair do radicalismo. Ninguém defende a imprudência ou o desprezo à vida do trabalhador. O que se cobra é bom senso, adaptação da norma à realidade regional e reconhecimento de que o campo tem lógica própria. Equipamentos de proteção devem ser exigidos quando de fato se mostram necessários e eficazes, não como resposta automática a qualquer atividade rotulada como perigosa.

Se continuar nesse rumo, a aplicação da NR 31 corre o risco de se tornar mais um exemplo de legislação que, em vez de proteger, afasta o Estado do produtor e do trabalhador rural. Preservar a vida é essencial. Preservar a identidade também. No Rio Grande do Sul, tradição não é folclore. É parte viva do trabalho, da economia e da história. Ignorá la é um erro que cobra seu preço não apenas no campo, mas na própria relação entre o país real e suas normas oficiais.